FREDERICK FORSYTH

O AFEGO
Traduo de SYLVIO GONALVES
EDITORA RECORD
RIO DE JANEIRO  SO PAULO

2007

CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
Forsyth, Frederick, 1938F839a O afego Frederick Forsyth; traduo de Sylvio Gonalves. - Rio de Janeiro: Record, 2007.
Traduo de: The Afghan ISBN 978-85-01-07740-0

1. Terrorismo - Fico. 2. Fundamentalismo islmico - Fico. 3. Fico inglesa. I. Gonalves, Sylvio. II. Ttulo.
06-4487

CDD - 823 CDU-821.111-3

Ttulo original ingls: THE AFGHAN
Copyright (c) Frederick Forsyth, 2006

Todos os direitos reservados. Proibida a reproduo, no todo ou em parte, atravs de quaisquer meios.
Direitos exclusivos de publicao em lngua portuguesa somente para o
Brasil adquiridos pela
EDITORA RECORD LTDA.
Rua Argentina 171 -Rio de Janeiro, RJ - 20921-380 -Tel.: 2585-2000

que se reserva a propriedade literria desta traduo
Impresso no Brasil
ISBN 978-85-01-07740-0

PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL
Caixa Postal 23.052

Rio de Janeiro, RJ - 20922-970

EDITORA AFaiADA

Mais uma vez, para Sandy

PARTE UM
Stingray

CAPTULO 1

SE O JOVEM GUARDA-COSTAS TALIB SOUBESSE QUE AQUELA LIGAO de celular iria mat-lo, no a teria feito. Mas como no sabia, fez a ligao e morreu em seguida.
Em 7 de julho de 2005, quatro homens-bomba detonaram mochilas carregadas com explosivos no centro de Londres. Cinqenta e duas pessoas morreram, cerca de 700 ficaram
feridas e pelo menos cem foram mutiladas.
Trs dos quatro homens-bomba nasceram e foram criados em solo britnico, porm filhos de paquistaneses. O quarto era um jamaicano naturalizado britnico e convertido
ao isl. Ele e um dos outros ainda estavam na adolescncia; o terceiro tinha 22 anos, e o lder do grupo, 30. Todos haviam sido radicalizados, ou convertidos ao
fanatismo extremo, bem no corao da Inglaterra, depois de freqentar mesquitas extremistas e ouvir pregadores fanticos.
Nas 24 horas que se seguiram s exploses, os homens foram identificados e associados a vrios endereos na cidade e arredores de Leeds, norte da Inglaterra. Inclusive,
todos haviam

IO
FREDERICK FORSYTH falado em intensidades diversas com sotaque de Yorkshire. O lder fora Mohammad Siddique Khan, professor em uma escola para alunos com necessidades
especiais.
Durante a busca nas casas e propriedades dos homens-bomba, a polcia encontrou um verdadeiro tesouro que preferiu no revelar  imprensa. Quatro recibos demonstravam
que um dos integrantes mais velhos comprou celulares do tipo descartvel, e aparelhos tri-band, que podem ser usados praticamente em qualquer parte do mundo. Cada
um dos aparelhos continha um carto pr-pago no valor de 20 libras esterlinas. Os celulares foram pagos em dinheiro e estavam desaparecidos. Mas a polcia logo identificou
os nmeros e classificou-os como suspeitos, de modo que seriam identificados caso voltassem a ser utilizados.
Tambm foi descoberto que Siddique Khan e seu parceiro de maior confiana no grupo, um jovem punjabi chamado Shehzad Tanweer, passaram trs meses no Paquisto em
novembro do ano anterior. No foi descoberta pista alguma sobre quem os dois teriam visitado, mas, semanas depois das exploses, a rede de televiso rabe Al Jazeera
transmitiu uma gravao de Siddique Khan na qual ele anunciava sua morte. O vdeo certamente fora gravado durante aquela visita feita a Islamabad.
Foi apenas em setembro de 2006 que tambm ficou comprovado que um dos homens-bomba levara, na viagem, um dos inocentes celulares desaparecidos e o presenteara ao
seu organizador instrutor da al-Qaeda. (A polcia britnica j estabelecera que nenhum dos homens-bomba possua habilidade tcnica para fabricar as bombas sem instruo
e auxlio.)
Independentemente da identidade dessa autoridade superior, esta passara o presente adiante como um sinal de respeito a um

OAFEGO 11

membro da comitiva de elite reunida em torno da pessoa de Osama bin Laden, em seu esconderijo nas montanhas do Waziristo do Sul, ao longo da fronteira do Paquisto
com o Afeganisto, a oeste de Peshawar. O aparelho seria utilizado apenas para emergncias, j que todos os agentes da al-Qaeda so cautelosos no uso de celulares.
Contudo, o doador no teria como saber que os fanticos britnicos haviam cometido a estupidez de deixar o recibo do aparelho em sua escrivaninha em Leeds.
A comitiva de Bin Laden apresenta quatro divises, que lidam com as operaes, as finanas, a propaganda e a doutrina da organizao. Cada diviso possui um diretor,
que responde apenas a Bin Laden e ao seu co-lder, Ayman Al-Zawahiri. Em setembro de 2006, o chefe de finanas do grupo terrorista era o egpcio Tewfik Al-Qur, conterrneo
de Zawahiri.
Por motivos posteriormente esclarecidos, Tewfik Al-Qur encontrava-se disfarado na cidade paquistanesa de Peshawar, em 15 de setembro, e no partia para uma viagem
demorada e perigosa para longe do entorno das montanhas, mas retornava de uma. Aguardava a volta do guia que iria lev-lo aos picos waziris, e  presena do xeque
em pessoa.
Para proteg-lo em sua breve estada em Peshawar, foram-lhe designados quatro fanticos locais, pertencentes ao movimento Talib. Como  normal aos homens originrios
das montanhas do noroeste, eles eram tecnicamente paquistaneses, mas da tribo dos waziris. Falavam pashto melhor que urdu, e eram leais ao povo pashtun, do qual
a tribo waziris  um sub-ramo.
Todos foram iados da sarjeta numa madrassa, ou interna-to cornico de orientao extrema, aderindo  seita wahabi do isl, a mais severa e intolerante de todas.
No tinham conheci

11

FREDERICK FORSYTH mento ou habilidade para qualquer coisa que no fosse recitar o Coro e, portanto, como milhes de jovens criados em madrassas, eram incapazes
de obter emprego. Mas, caso recebessem qualquer tarefa do chefe de seu cl, morreriam para realiz-la. Naquele setembro, foram incumbidos de proteger o egpcio de
meia-idade que falava rabe niltico, mas dominava o suficiente do idioma pashto para se comunicar. Um dos quatro jovens era Abdelahi, e seu orgulho e alegria era
seu telefone celular. Infelizmente o aparelho no estava funcionando, porque ele esquecera de recarregar a bateria.
Isso foi depois do meio-dia. Uma hora perigosa demais para sair  rua e caminhar at uma mesquita local para rezar. Al Qur dissera todas as suas preces junto com
seus guarda-costas, em seu apartamento no andar superior. Tinham feito uma refeio frugal e se recolhido para descansar um pouco.
O irmo de Abdelahi vivia a centenas de quilmetros a oeste, na igualmente fundamentalista cidade de Quetta, e a me deles estava doente. Em busca de notcias da
me, tentou falar com ele pelo celular. No iria falar nada que fosse comprometedor; apenas uma parte dos trilhes de palavras inocentes que viajavam diariamente
pelo ter de todos os cinco continentes. Mas seu celular no queria funcionar. Um de seus companheiros apontou a ausncia de sinal no visor do aparelho e explicou
o processo de carregamento. Ento Abdelahi viu o celular sobressalente sobre a valise do egpcio, na sala de estar.
Estava totalmente carregado. Sem ter idia de como aquilo poderia causar qualquer problema, digitou o nmero do irmo e ouviu o toque da chamada para Quetta. E na
toca de coelho de subterrneos interconectados em Islamabad, que constituem

O AFEGO 13

o departamento de escuta do Centro Antiterrorista do Paquisto, uma pequena lmpada vermelha comeou a piscar.
Muitos moradores de Hampshire consideram-no o condado mais bonito da Inglaterra. A costa sul, de frente para as guas do canal, abriga o imenso porto martimo de
Southampton e a doca de Portsmouth. Seu centro administrativo  a cidade histrica de Winchester, dominada por uma catedral com quase mil anos de idade.
No corao do condado, longe de todas as estradas, e at mesmo das rodovias, fica o silencioso vale do rio Meon, um crrego agradvel em cujas margens jazem aldeias
que datam do tempo dos saxes.
Uma nica estrada corre de sul a norte, mas o resto do vale  uma rede de alamedas coleantes franjadas com rvores, cercas vivas e prados.  uma regio de fazendas
como nos velhos tempos, com poucos campos de mais de dez hectares e com um nmero ainda menor de fazendas de mais de quinhentos hectares. A maioria das casas de
fazenda  muito antiga, e algumas servidas por agrupamentos de celeiros grandes, antigos e belos.
O homem empoleirado no cume de um dos celeiros desfrutava de um panorama do vale Meon e de uma viso geral da aldeia mais prxima, Meonstoke, que ficava a menos
de um quilmetro e meio de distncia. No momento em que, a vrios fusos horrios para leste, Abdelahi fez a ltima chamada telefnica de sua vida, o telhador enxugou
um pouco de suor da testa e reiniciou seu trabalho: remover com cuidado as telhas de barro que tinham sido postas ali havia centenas de anos.
Deveria ter chamado uma empresa especializada em reparo de telhado, que teria envolvido o celeiro inteiro com andaimes. Seria mais rpido e seguro trabalhar desse
modo, embora

14

FREDERICK FORSYTH muito mais caro. E o problema era esse. O homem empunhando o martelo de telhador era um ex-soldado, aposentado depois de 25 anos de carreira, e
que usara a maior parte do soldo para comprar este sonho; um lugar no campo para chamar de lar. Um lar que j fora um celeiro, e do qual, para chegar  cidade mais
prxima, era preciso seguir uma trilha e depois uma estrada.
Mas soldados nem sempre sabem lidar com finanas. As firmas especializadas haviam orado em cifras de tirar o flego a converso do celeiro medieval em casa de campo
e lar aconchegante. Da a deciso de fazer isso sozinho, a despeito de quanto tempo fosse necessrio.
O lugar era idlico. Em sua imaginao, podia ver o teto restaurado  sua glria anterior, quando no tinha vazamentos, com noventa por cento das telhas originais
preservadas e os outros dez por cento comprados de uma barraca que vendia material de demolio. As vigas mestras do telhado ainda estavam slidas como no dia em
que foram cortadas do carvalho, mas a laje teria de ser retirada e substituda por um impermea-bilizante de teto.
Olhando para baixo, e vendo as antigas baias de feno empoeiradas, podia imaginar a sala de estar, a cozinha, o escritrio, os corredores. Teria de recorrer a servios
profissionais para a rede eltrica e o encanamento, mas j fora  Escola Tcnica de Southampton matricular-se em cursos noturnos de alvenaria, gessagem, carpintaria
e vidraaria.
Um dia haveria ali um ptio calado com pedras e uma horta. A trilha seria revestida com paraleleppedos e haveria ovelhas pastando. Todas as noites, acampado no
padoque enquanto a natureza brindava-o com uma brisa quente de fim de

O AFEGO

15

vero, ele refazia os clculos e lembrava que, com pacincia e muito trabalho, seria capaz de sobreviver com seu oramento modesto.
Tinha 44 anos, pele olivcea, cabelos e olhos negros e corpo magro e musculoso. E estava cansado. Cansado de desertos e florestas, de malria e sanguessugas, de
noites de frio con-gelante, de comida ruim e pernas e braos doloridos. Conseguiria um emprego nas proximidades, e depois um labrador ou um casal de Jack Russells
para compartilhar sua vida. E, talvez, at uma mulher.
O homem no telhado removeu mais uma dzia de telhas, guardou as dez inteiras, jogou fora os fragmentos das quebradas, e uma lmpada vermelha piscou em Islamabad.
Muita gente pensa que, com um celular pr-pago, todas as contas futuras so evitadas. Isso  verdade para o comprador e usurio, mas no para a operadora. A no
ser que o aparelho seja usado apenas dentro da rea de operao na qual foi comprado, ainda h um acerto a ser realizado, entre as empresas de telefonia, e so seus
computadores que cuidam disso.
Quando o irmo de Abdelahi atendeu ao telefone em Quetta, a chamada utilizava-se de uma antena situada nos arrabaldes de Peshawar. A torre pertence  Pak Tel. Assim,
o computador da companhia comeou a procurar pelo vendedor original do celular na Inglaterra, com a inteno de dizer, eletronicamente: Um dos seus clientes est
usando meu tempo e espao areo, de modo que voc est me devendo.
Contudo, h anos o Centro Antiterrorista (CAT) do Paquisto requerer que tanto a Pak Tel quanto sua rival, a Mobi Tel, passassem cada chamada emitida ou recebida
por

16

FREDERICK FORSYTH suas redes para a sala de escuta do CAT. E, a pedido dos britnicos, o CAT inseriria em seus computadores um software de interceptao programado
para determinados nmeros. Um deles subitamente estava ativo.
Um jovem sargento paquistans de idioma pashto monitorava o painel. Ele apertou um boto e um oficial superior entrou na linha. Depois de vrios segundos na escuta,
o oficial perguntou:
- O que est dizendo?
O sargento ouviu e respondeu:
- O homem que ligou est dizendo alguma coisa sobre a me dele. Acho que est falando com o irmo.
- De onde? Outra checagem.
- Do transmissor de Peshawar.
No era preciso dizer mais nada ao sargento. A chamada completa seria automaticamente gravada para anlise futura. A tarefa imediata era localizar o emissor. O major
do CAT de servio naquele dia duvidava que uma chamada curta possibilitaria isso. E certamente o idiota no iria permanecer muito tempo na linha.
Em seu posto bem acima dos pavimentos subterrneos, o major apertou trs botes em sua mesa. Uma ligao foi efetuada para o chefe de seo do CAT, em Peshawar.
Anos antes, e decerto antes do evento hoje conhecido como 11 de Setembro, isto , a destruio do World Trade Center em 2001, o Departamento de Servios Internos
de Inteligncia do Paquisto, conhecido como ISI, fora infiltrado por muulmanos fundamentalistas do Exrcito paquistans. Esse era seu problema e o motivo para
sua completa falta de confiana na luta contra o Talib e a al-Qaeda.

Mas o presidente do Paquisto, general Musharraf, tivera pouca escolha seno ouvir o conselho vigoroso dos Estados Unidos para limpar a casa. Parte do programa fora
a transferencia dos oficiais extremistas do ISI para deveres militares normais; a outra fora a criao do Centro Antiterrorista, uma agncia de elite composta por
uma nova gerao de oficiais jovens sem qualquer inclinao pelo terrorismo islmico, por mais devotos que fossem  sua religio. O coronel Abdul Razak, previamente
comandante de carros de combate, era um desses oficiais. Comandava o CAT em Peshawar, e atendeu a chamada s 14:30.
O coronel escutou atentamente seu colega da capital federal, e ento indagou:
- Quanto tempo?
- At agora, cerca de trs minutos.
O coronel Razak tinha a sorte de seu escritrio estar localizado a meros 730 metros da antena da PakTel, dentro do raio de 900 metros, normalmente necessrio para
que seu localizador de direo funcionasse com eficcia. Acompanhado por dois tcnicos, correu at o terrao do edifcio para comear a operar o localizador. O aparelho
varreria a cidade, fechando cada vez mais a rea, at localizar a fonte do sinal.
Em Islamabad, o sargento na escuta disse ao seu superior:
- A conversa terminou.
- Merda - disse o major. - Trs minutos e 44 segundos. No podamos esperar mais do que isso.
- Mas parece que ele no desligou o aparelho - informou o sargento.
Num apartamento de um prdio na cidade velha de Peshawar, Abdelahi cometera seu segundo erro. Ao ouvir o egpcio sair de seu quarto, Abdelahi desligara imediatamente
a cha

18

FREDERICKFORSYTH mada para seu irmo e enfiara o celular debaixo de uma almofada. Mas se esquecera de desligar o aparelho. A 800 metros dali, os varredores do coronel
Razak aproximavam-se cada vez mais.
Tanto o SIS (Servio Secreto de Inteligncia) britnico quanto a CIA (Agncia Central de Inteligncia) americana mantm operaes de grande porte no Paquisto por
motivos bvios. Trata-se de uma das principais zonas de guerra na luta contra o terrorismo atual. Parte da fora da aliana ocidental, que data de 1945, deve-se
 habilidade de cooperao de ambas as agncias.
Houve momentos de divergncia, principalmente depois do surto de traidores britnicos, que comeara em 1951 com Philby, Burgess e Maclean. Mais adiante, quando os
americanos descobriram que tambm mantinham uma galeria de traidores a servio de Moscou, a CIA perdeu o preconceito para com o SIS. Em 1991, o fim da Guerra Fria
conduziu  concluso estpida, da parte de polticos de ambos os lados do Atlntico, de que a paz finalmente chegara, e para ficar. Foi precisamente o momento em
que a nova Guerra Fria, silenciosa e oculta nas profundezas do isl, estava experimentando as dores do nascimento.
O 11 de Setembro ps fim a toda rivalidade entre as agncias. A regra se tornou: se ns sabemos,  melhor vocs saberem tambm. E vice-versa. Diversas agncias estrangeiras
prestavam sua contribuio  luta, mas nenhuma delas possua a preciso dos coletores de informao anglo-americanos.
O coronel Razak conhecia ambos os chefes de seo em sua cidade. Em termos pessoais, era mais ntimo de Brian O Dowd, o homem do SIS, e o celular dos terroristas
foi originalmente uma descoberta britnica. Assim, ao descer do terrao, foi para O Dowd que ele telefonou com a notcia.

O AFEGO

19

Nesse momento, o Sr. Ai Qur foi ao banheiro e Abdelahi enfiou a mo debaixo da almofada para pegar o celular e coloc-lo de volta em cima da valise, onde o encontrara.
Com uma pontada de culpa, viu que ainda estava ligado. Desligou-o imediatamente. Temia gastar a bateria. Em todo caso, estava com oito segundos de atraso. O localizador
de direo fizera seu trabalho.
- Como assim, voc descobriu? - perguntou O Dowd. Seu dia subitamente se tornara Natal e vrios aniversrios num s.
- No tem dvida, Brian. A chamada veio de um apartamento no andar superior de um prdio de cinco andares na cidade velha. Dois dos meus agentes disfarados esto
indo at l para averiguar e planejar a aproximao.
- Quando vo invadir?
- De madrugada. Gostaria que fosse s trs da manh, mas o risco  grande demais. Eles podem fugir...
O coronel Razak, que estudara ingls durante um ano na Inglaterra, na Escola de Comando e Estado-Maior, em Cam-berley, com uma bolsa oferecida pelo governo britnico,
orgulhava-se de seu domnio do idioma.
- Posso participar?
- Voc gostaria?
- E voc j viu macaco recusar banana? - retorquiu o irlands.
Razak gostou da piada, e riu alto.
- Sendo um crente do nico Deus verdadeiro, eu no tenho como saber - disse ele. - Muito bem. No meu escritrio s seis. Mas  paisana, e estou dizendo  nossa paisana.
Ele quis dizer que ningum estaria de uniforme, mas tambm no em roupas ocidentais. Na cidade velha, e especial

20

FREDERKK FORSYTH mente no bazar Qissa Khawani, apenas trajes compostos por calas folgadas e blusas de mangas compridas passavam sem ser notados. Ou os turbantes
dos cls das montanhas. E isso tambm se aplicava a O Dowd.
O agente britnico chegou um pouco antes das seis, em seu Toyota Land Cruiser preto com vidros fume. Um Land Rover britnico teria sido mais patritico, mas a Toyota
era a marca favorita dos fundamentalistas locais, de modo que no chamaria ateno. Ele tambm levou uma garrafa de usque Chivas Regai. Era a bebida favorita de
Abdul Razak. Certa vez brincara com seu amigo paquistans a respeito de seu gosto pela bebida alcolica escocesa.
- Eu me considero um bom muulmano, mas no um muulmano obsessivo - disse Razak. - No como carne de porco, mas tambm no vejo mal nenhum em danar ou em fumar
um bom charuto. A proibio dessas coisas  uma das caractersticas do fanatismo talib com o qual no concordo. E quanto s bebidas  base de uva, ou at de gros,
tomava-se muito vinho durante nossos primeiros califados. Se um dia chegar ao Paraso, serei repreendido por uma autoridade mais alta que todas, e ento rogarei
clemncia ao todo-poderoso Al. Enquanto isso, no me encha a pacincia.
Talvez fosse estranho que um piloto de carros de combate tivesse se tornado um policial excelente, mas assim era Abdul Razak. Tinha 36 anos, era culto, casado e
com dois filhos. Tambm possua uma capacidade criativa, para a sutileza e para as tticas com que o mangusto encara a cobra em vez de investir contra o elefante.
Queria tomar o apartamento no topo do edifcio sem uma troca de tiros violenta. E por isso sua abordagem seria discreta e silenciosa.

O AFEGO

21

Peshawar  uma cidade muito antiga, e nenhuma de suas partes  to velha quanto o bazar Qissa Khawani. Por muitos sculos, caravanas em viagem para o Afeganisto
pela Grande Estrada, que atravessa a imensa e intimidadora montanha Khyber, pararam ali para dar gua a homens e camelos. E como qualquer grande bazar, o Qissa Khawani
sempre proveu as necessidades bsicas do homem: cobertores, xales, tapetes, artefatos de bronze, bacias de cobre, bebida e comida.  assim at hoje.
 um lugar multitnico e multilnge. O olhar experiente nota os turbantes de afridis, waziris, ghilzais e paquistaneses das proximidades, em contraste com os chapus
de Chitral, cidade mais ao norte, e aos gorros de inverno franjados com pele dos tadjiques e uzbeques.
Nesse labirinto de ruas estreitas onde um homem pode se esconder de qualquer perseguidor, h lojas e barracas de comida, o bazar de relgios, o bazar de cestas,
cambistas, o mercado de pssaros e o bazar dos contadores de histrias. Nos dias imperiais, os britnicos chamavam Peshawar de a Piccadilly da sia Central.
O apartamento identificado pelos varredores como a fonte da chamada telefnica ficava num daqueles edifcios altos e estreitos munidos de sacadas. Tinha quatro pavimentos
acima de um depsito de tapetes, numa rua cuja largura permitia a passagem de um carro apenas. Devido ao calor do vero, todos os prdios tinham terraos aos quais
os moradores podiam subir para tomar ar fresco, e escadarias abertas que comeavam a partir da rua. O coronel Razak liderou sua equipe em silncio e a p.
Ele enviou quatro homens, todos em vestimentas tribais, para o telhado de um prdio a uma distncia de quatro casas do alvo. Chegaram ao terrao e se puseram a caminhar
com calma de telhado em telhado at alcanar o prdio desejado. Ali aguardaram o sinal. O coronel conduziu seis homens pelas escadas a

22

FREDERKK FORSYTH partir do nvel da rua. Todos carregavam pistolas automticas escondidas sob as tnicas, com exceo do batedor, o punjabi musculoso que portava
o arete.
Quando estavam todos posicionados na escadaria, o coronel fez um sinal com a cabea para o batedor, que recuou o arete e estilhaou a fechadura. A porta cedeu e
a equipe entrou apressadamente. Trs dos homens no telhado desceram pelas escadas de acesso; o quarto permaneceu isolado, em prontido para o caso de algum tentar
escapar por cima.
Mais tarde, quando Brian 0 Dowd tentava recordar o ataque, tudo parecia extremamente rpido e borrado em sua memria. Essa tambm foi a impresso dos ocupantes do
apartamento.
O esquadro de ataque no tinha a menor idia de quantos homens estariam no interior do apartamento, ou do que iriam encontrar. Poderia ter sido um pequeno exrcito
ou uma famlia bebericando ch, Eles no conheciam a configurao do apartamento; em Nova York ou Londres, a planta do arquiteto estaria arquivada na prefeitura,
mas no no bazar Qissa Khawani. Tudo que sabiam era que uma chamada fora feita de um celular.
Com efeito, encontraram quatro rapazes assistindo a televiso. Por dois segundos, o esquadro acreditou ter invadido um lar inocente. Ento registraram que os rapazes
estavam profusamente barbados. Eram todos montanheses e um deles, o mais rpido a reagir, estava enfiando a mo debaixo da tnica para sacar uma arma. Seu nome era
Abdelahi e ele morreu com quatro projteis de uma Heckler & Koch MP5 no peito. Os outros trs foram dominados antes que pudessem lutar. O coronel Razak fora bem
claro; se possvel, queria todos vivos.
A presena do quinto homem foi anunciada por um rudo vindo do quarto. O punjabi largara seu arete, mas seu ombro

deu conta do recado. A porta ruiu, e dois homens do CAT invadiram o cmodo, seguidos pelo coronel Razak. No meio do quarto estava um rabe de meia-idade, olhos arregalados
de medo ou dio. Estava congelado no movimento de pegar o laptop que arremessara contra o piso de cermica, na tentativa de destru-lo.
Compreendendo que no teria tempo para isso, virou-se e correu at a janela, que estava aberta.
- Agarrem-no! - gritou o coronel Razak ao soldado paquistans mais prximo.
Mas o egpcio, que fora flagrado nu da cintura para cima devido ao calor, estava com a pele escorregadia. O paquistans no conseguiu segur-lo. O egpcio nem subiu
na balaustrada; simplesmente saltou sobre ela, caindo 12 metros da varanda at os paraleleppedos da rua. Numa questo de segundos o corpo estava cercado por curiosos,
mas o tesoureiro da al-Qaeda tossiu duas vezes e morreu.
O prdio e a rua tinham se tornado um caos de silhuetas gritando e em fuga. Usando seu celular, o coronel chamou pelos 50 soldados uniformizados que postara nos
furges de vidro fume a quatro ruas dali. Entraram correndo no beco para restaurar a ordem, se  que se pode definir assim a criao de ainda mais caos. Mas serviram
ao seu propsito; eles lacraram o edifcio. Mais tarde Abdul Razak interrogaria todos os vizinhos e, principalmente, o proprietrio, o vendedor de tapetes no trreo.
O cadver na rua foi cercado pelo Exrcito e coberto com um lenol. Uma maa chegaria logo. O morto seria levado para o necrotrio do Hospital Geral de Peshawar.
At ento, ningum fazia a menor idia de quem ele era. Estava claro apenas que preferira a morte  ateno carinhosa dos americanos no

24

FREDERICK FORSYTH campo Bagram, no Afeganisto, onde certamente seria trocado em Islamabad pelo chefe do escritrio da CIA no Paquisto.
O coronel Razak deu as costas para a varanda. Os trs prisioneiros foram algemados e encapuzados. Uma escolta armada iria retir-los dali; aquele era um territrio
fundo . A rua tribal no ficaria do lado dele. Depois que os prisioneiros e o corpo tivessem sido retirados, ele passaria horas vasculhando o apartamento em busca
de cada pista possvel sobre o homem com o celular rastreado.
Brian O Dowd fora instrudo a aguardar na escadaria durante o ataque. Agora ele estava no quarto segurando o laptop Toshiba danificado. Ambos sabiam que certamente
este era o grande prmio. Cada passaporte, celular e pedao de papel, por mais insignificante que parecesse, juntamente com todos os prisioneiros e vizinhos, seriam
levados para um lugar seguro e esmiuados. Mas primeiro o laptop...
O egpcio morto fora otimista. Pensara que amassando o gabinete do Toshiba destruiria seu contedo precioso. Nem mesmo a tentativa de apagar os arquivos teria funcionado.
A Inglaterra e os Estados Unidos possuam tcnicos com poderes mgicos, que iriam desnudar o drive at recuperar cada palavra que o Toshiba havia ingerido.
- Que pena termos perdido o Sei-L-Quem - disse o agente do SIS.
Razak grunhiu. Sua escolha fora lgica. Se tivesse aguardado alguns dias, o homem poderia ter desaparecido. Se tivesse passado horas espionando o prdio, seus agentes
teriam sido identificados. Assim, optara por um assalto violento e rpido, e se tivesse disposto de mais cinco segundos, teria algemado o suicida misterioso. Ele
iria preparar um pronunciamento pblico, afirmando que um criminoso desconhecido morrera

25

numa queda enquanto resistia  priso. At que o corpo fosse identificado. Caso se descobrisse que o indivduo era um figuro da al-Qaeda, os americanos iriam insistir
em proclamar o triunfo numa conferncia de imprensa com toda pompa e circunstncia. Ele ainda no tinha a menor idia do quo elevada era a posio ocupada por Tewfik
Al-Qur na hierarquia da al-Qaeda.
- Fique um pouco aqui embaixo - disse O Dowd. - Posso lhe fazer o favor de providenciar para que o laptop seja levado em segurana para o seu QG?
Felizmente, Abdul Razak possua um humor seco. Em sua linha de trabalho, isso era um refresco. No mundo da espionagem, o humor era a nica qualidade capaz de salvar
um homem da loucura. A palavra que ele achara engraada fora segurana .
- Seria muita gentileza da sua parte - disse Razak. - Vou lhe dar uma escolta de quatro homens de volta at o seu veculo. S por precauo. Quando isso tudo tiver
acabado, iremos dividir a garrafa de pura perdio que voc trouxe.
Apertando a carga preciosa contra o peito, cercado pelos quatro lados por soldados paquistaneses, o homem do SIS foi conduzido de volta at seu Land Cruiser. A tecnologia
da qual cie necessitava j estava a bordo, protegendo maquinaria e veculo: seu motorista, um membro da tribo sikh que lhe era extremamente leal.
Seguiram at um lugar nas cercanias de Peshawar, onde 0 Dowd conectou o Toshiba ao seu laptop Tecra, maior e mais poderoso. O computador abriu uma janela no ciberespao
at o QG de Comunicaes do governo britnico em Cheltenham, Inglaterra, em meio s colinas Cotswold,
Embora soubesse como oper-la, 0 Dowd ainda ficava atnito com a magia fascinante (para um leigo) da cibertecnologia. Em poucos segundos, a milhares de quilmetros
de distncia,

26

FREDERICK FORSYTH
Cheltenham copiava todo o contedo do disco rgido do Toshiba. Ele estripara o laptop com a mesma eficcia com que uma aranha sorve o suco de uma mosca capturada.
O chefe de seo levou o computador at o quartel-general da CAT e entregou-o em mos confiveis. Antes de chegar ao prdio da agncia paquistanesa de antiterrorismo,
Cheltenham j compartilhara o tesouro com a NSA (Agncia de Segurana Nacional) em Forte Meade, Maryland. Era plena madrugada em Peshawar, incio da noite em Cotswold
e meio da tarde em Maryland. No importava. No QG da NSA e da agncia britnica, o sol jamais brilha; no existe dia ou noite.
Nos dois imensos complexos de prdios, instalados na zona rural, a escuta estende-se de plo norte a plo sul, e a todos os pontos intermedirios. Os trilhes de
palavras proferidos pela raa humana todos os dias nas 500 lnguas e mais de mil dialetos so ouvidos, selecionados, classificados, rejeitados, retidos e, quando
interessantes, estudados e rastreados.
E isso  apenas o comeo. As duas agncias codificam e decodificam centenas de linguagens de cdigos, e cada uma mantm departamentos dedicados a recuperar arquivos
e investigar crimes por computador, Enquanto o planeta girava para mais um dia e mais uma noite, as agncias comearam a derrubar todas as medidas tomadas por Al-Qur
para obliterar seus arquivos pessoais.
Algum j comparou o processo ao de um hbil restaura-dor de pinturas. Com cuidado imenso, as camadas externas de verniz ou tinta posterior so descoladas da tela
original para exibir a obra de arte oculta. O Toshiba do Sr. Al-Qur comeou a revelar documentos e mais documentos que ele julgara ter apagado ou ocultado.

27

Obviamente, Brian O Dowd alertara seu prprio colega e superior, o chefe de seo em Islamabad, antes mesmo de acompanhar o coronel Razak na ao. O integrante do
SIS informara seu primo , o chefe de seo da CIA. Os dois homens estavam aguardando avidamente notcias. Em Peshawar, ningum estava dormindo.
 meia-noite o coronel Razak voltou do bazar com o tesouro guardado em vrias bolsas. Os trs guarda-costas sobreviventes estavam presos em celas no poro do prdio
de Razak. Ele jamais teria confiado esses homens a uma priso comum, onde certamente conseguiriam auxlio para fuga ou suicdio. Islamabad agora tinha seus nomes,
e sem dvida estava regateando com a Embaixada dos Estados Unidos, que abrigava a seo da CIA. O coronel suspeitava que acabariam em Bagram, onde seriam interrogados
durante meses, embora achasse que cies nem soubessem o nome do homem a quem haviam servido como guarda-costas.
O celular proveniente de Leeds, Inglaterra, fora achado e identificado. Pouco a pouco, estava ficando claro que o estpido Abdelahi apenas tinha-o tomado emprestado
sem permisso. Estava sobre uma mesa do necrotrio com quatro balas no peito, mas com o rosto intocado. O corpo vizinho tivera o rosto quase destrudo na queda,
mas o melhor cirurgio facial da cidade estava tentando recomp-lo. Depois que tivesse feito o melhor possvel, uma foto seria tirada. Uma hora mais tarde, o coronel
Razak telefonou para O Dowd. Mal conseguia ocultar sua empolgao. Como todas as agncias de antiterrorismo operando em colaborao na luta contra grupos terroristas
islmicos, o CAT do Paquisto mantm uma imensa galeria de fotos de suspeitos.

28

FREDERICK FORSYTH
O fato de o Paquisto ficar muito longe do Egito no significa nada. Os terroristas da al-Qaeda provm de pelo menos 40 nacionalidades e o dobro desse nmero de
grupos tnicos. E eles viajam. Razak passara a noite em seu escritrio, olhando a galeria de fotos no grande monitor de plasma de seu computador. E sempre voltava
a um rosto.
A julgar pelos passaportes apreendidos, 11 no total, todos falsificados com qualidade extraordinria, o egpcio estivera viajando, e para isso ele nitidamente modificara
sua aparncia. E mesmo assim, o rosto daquele homem que poderia entrar num banco ocidental sem chamar a ateno, mas que era possudo por dio a tudo e a todos que
no pertencessem  sua f distorcida, parecia ter algo em comum com a cabea estraalhada na mesa de mrmore.
Ao telefonar para O Dowd, Razak pegou-o durante o caf-da-manh, que ele estava compartilhando com seu colega da CIA americana em Peshawar. Ambos largaram seus ovos
mexidos e correram at o quartel-general do CAT. Eles tambm olharam para o rosto e compararam-no com a fotografia do necrotrio. Ser que era verdade? E os dois
tinham uma prioridade: contar ao Escritrio Central a descoberta extraordinria de que o corpo na mesa de mrmore era ningum menos que Tewfik Al-Qur, o tesoureiro-chefe
da al-Qaeda.
No meio da manh um helicptero do Exrcito paquistans chegou para levar tudo. Os prisioneiros, acorrentados e encapu-zados; dois cadveres; e as caixas de provas
recolhidas no apartamento. Felizmente elas eram profusas, mas Peshawar  apenas um posto avanado; o centro de gravidade estava se movendo e rpido. Na verdade,
j chegara a Maryland.
Em meio s conseqncias da tragdia agora conhecida simplesmente como 11 de Setembro, uma coisa ficou clara, uma

coisa que ningum poderia negar seriamente. A evidncia de que no apenas alguma coisa estava em andamento, mas fosse o que fosse, estava em andamento havia muito
tempo. E como  de praxe no ramo da inteligncia, os indcios no estavam reunidos num belo embrulho de presente, mas esmigalhados e espalhados por toda parte. Sete
ou oito das 19 principais agncias de inteligncia ou segurana tinham os pedacinhos. Mas elas jamais falavam umas com as outras.
Desde o 11 de Setembro ocorrera uma mudana drstica. Agora existem seis dirigentes, para quem tudo deveria ser revelado num estgio inicial. Quatro so polticos:
o presidente, o vice-presidente e os secretrios de Defesa e Estado. Os dois profissionais so o presidente do NSC (Conselho de Segurana Nacional), Steve Hadley,
supervisionando o DHS (Departamento de Segurana Interna) e as 19 agncias. E, no topo da lista, o diretor da Inteligncia Nacional, John Negroponte.
A CIA ainda  o principal rgo de inteligncia fora dos Estados Unidos, porm o diretor da agncia no  mais um pistoleiro solitrio. Todos reportam para cima,
e as trs palavras de ordem so: combinar, combinar e combinar. Entre os gigantes, a NSA ainda  a maior, em oramento e pessoal, e a mais secreta. Ela no mantm
qualquer canal de comunicao com o pblico ou com a mdia. Opera no escuro, mas escuta, decodifica, traduz e analisa tudo. Mas parte do material escutado, gravado,
baixado da rede, traduzido e estudado  to impenetrvel que a agncia tambm emprega os servios de comits especializados de fora da casa . Um desses  o Comit
Coro.
Enquanto o tesouro de Peshawar chegava, eletrnica ou fisicamente, outras agncias tambm arregaavam as mangas

30

FREDERICK FORSYTH para trabalhar. Identificar o morto era vital, e a tarefa foi designada ao FBI. Vinte e quatro horas depois, o FBI reportou que era certo. O homem
que pulara da varanda em Peshawar realmente era o principal arrecadador de finanas para a al-Qaeda, e um dos raros amigos ntimos do prprio Laden. A conexo fora
feita atravs de Ayman Al-Zawahiri, seu colega egpcio. Fora ele quem localizara e perseguira o banqueiro fantico.
O Departamento de Estado pegou os passaportes. Eles eram num surpreendente nmero de onze. Dois jamais tinham sido usados, mas estavam cobertos de vistos de entrada
e sada por toda a Europa e o Oriente Mdio. Ningum ficou surpreso ao ver que seis eram belgas, todos com nomes diferentes e absolutamente genunos, exceto pelos
detalhes que apresentavam.
A comunidade mundial de inteligncia conhecia a Blgica como um balde furado. Desde 1990, um nmero atordoante de 19 mil passaportes belgas em branco vinha sendo
declarado roubado, isso segundo o prprio governo belga. Na verdade, foram simplesmente vendidos por funcionrios pblicos. Alguns tinham sido recuperados. Quarenta
e cinco pelo consulado belga em Estrasburgo, Frana, e 20 pela embaixada belga em Haia, Holanda. Os dois usados pelos assassinos marroquinos do combatente da resistncia
anti-Talib Ahmad Shah Massoud pertenciam ao ltimo conjunto. E tambm um dos seis usados por Al-Qur. Os outros cinco deviam pertencer aos 18.935 ainda desaparecidos.
A FAA (Administrao Federal de Aviao) americana, usando seus contatos e imensa influncia no mundo da aviao internacional, verificou as passagens de avio e
as listas de passageiros. Era cansativo, mas os vistos de entrada e sada apontavam os vos a serem checados.

O AFEGO

31

Lenta mas precisamente, as peas comearam a se encaixar. Tudo indicava que Tewfik Al-Qur fora incumbido de arrecadar grandes somas de dinheiro no rastrevel para
fazer compras no explicadas. No havia nenhuma prova de que ele tivesse feito alguma pessoalmente, de modo que a nica deduo lgica era que ele tinha passado
esses fundos para terceiros, e estes fariam as compras. As autoridades americanas teriam dado q ualquer coisa para saber com exatido com quem Al-Qur havia se encontrado.
Os nomes provavelmente revelariam toda uma rede de terrorismo atravs da Europa e do Oriente Mdio. O nico alvo notvel que o egpcio no visitara foram os Estados
Unidos.
Foi finalmente em Forte Meade que o trem de revelaes chegou  estao. Setenta e trs documentos tinham sido recuperados do Toshiba encontrado no apartamento em
Pcshawar. Alguns eram simples horrios de linhas areas, e no se sabia quais dos vos listados neles Al-Qur realmente tomara. Outros eram relatrios financeiros
de domnio pblico que aparentemente haviam interessado ao financista, que os marcou para leitura posterior. Mas eles no ofereciam nenhuma pista.
A maior parte dos documentos estava em ingls, alguns em francs ou alemo. Sabia-se que Al-Qur falava as trs lnguas com fluncia, alm do rabe nativo. Os guarda-costas
capturados, que estavam cantando animadamente na base Bagram, tinham revelado que o homem falava um pouco de pashto, indicando que ele devia ter passado algum tempo
no Afeganisto, embora o Ocidente no tivesse nenhuma pista a respeito de quando ou onde.
Foram os textos rabes que causaram a inquietao. Constituindo-se basicamente de uma enorme base do Exrcito, Forte Meade est sob a liderana do Departamento de
Defesa. O

32

FREDERICKFORSYTH oficial comandante da NSA  sempre um general de quatro estrelas. Foi no gabinete deste soldado que o chefe do Departamento de Tradues rabes
requisitou uma entrevista.
A ateno dedicada pela NSA ao idioma rabe j era grande durante os anos 1990, quando o terrorismo islmico, a despeito do interesse constante evocado pela situao
Israel-Pales-tina, comeou a crescer. Expandiu subitamente com o atentado de Ramsi Yousef ao World Trade Center com um caminho-bomba em 1993. Mas depois do 11 de
Setembro a ordem passou a ser: Queremos conhecer cada palavra existente nessa lngua. Assim, o Departamento de Tradues rabes hoje  imenso e envolve milhares
de tradutores, em sua maioria rabes por nascimento e educao, com um punhado de intelectuais no-rabes.
O rabe no  apenas um idioma. Alm do rabe clssico do Coro e dos meios acadmicos, ele  falado por meio bilho de pessoas, com pelo menos 50 dialetos e sotaques
diferentes. Quando a pessoa fala rpido e apresenta sotaque, com acento local, e a qualidade da gravao  ruim, geralmente  necessrio um tradutor da mesma rea
para captar cada significado e nuance.
A lngua rabe  bastante floreada, e utiliza muitas imagens, lisonjas, exageros, smiles e metforas. Alm disso,  elptica, com significados mais insinuados que
abertamente ditos.  completamente diferente do ingls.
- Estamos trabalhando nos dois ltimos documentos - disse o chefe do Departamento de Tradues rabes. - Parecem ter sido escritos por pessoas diferentes. Acreditamos
que um foi redigido pelo prprio Ayman Al-Zawahiri, e o outro por Al-Qur. O primeiro parece possuir uma fraseologia caracterstica de Zawahiri, conforme vimos em
seus discursos e vdeos.  claro que, com udio, podemos ter cem por cento de certeza.

O AFEGO

33

A resposta parece ser de AI-Qur, mas no temos nenhum texto registrado da forma como ele escreve em rabe. Como banqueiro, ele falava e escrevia principalmente em
ingls.
Mas ambos os documentos possuem referncias repetidas ao Coro e a passagens dele. Esto citando as bnos de Al a alguma coisa. Tenho muitos especialistas em
rabe, mas a linguagem e os significados sutis do Coro so especiais. Foram escritos h 400 anos. Acho que devemos convocar o Comit Coro para dar uma olhada.
O comandante-geral concordou com a cabea.
- Certo, professor, farei isso. - Ele olhou para seu aju-dante-de-ordens. - Chame os nossos especialistas em Coro, Harry. Mande eles virem. Sem atrasos nem desculpas.

CAPTULO 2

HAVIA QUATRO HOMENS NO COMIT CORO: TRS AMERICANOS E um acadmico britnico. Todos eram professores, nenhum deles era rabe, mas cada um dedicara a vida inteira
ao estudo do Coro e de milhares de obras e artigos cientficos sobre esse livro sagrado.
Um era professor da Columbia University, em Nova York; seguindo ordens de Forte Meade, um helicptero militar foi despachado para lev-lo at a NSA. Dois pertenciam
respectivamente  Rand Corporation e ao Instituto Brookings, ambos em Washington. Carros do Exrcito foram enviados para busc-los.
O quarto e mais jovem era o Dr. Terry Martin, transferido temporariamente da Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS), em Londres, para a Georgetown University,
em Washington. Pertencente  London University, a SOAS desfruta de reputao mundial por seu ensino da lngua rabe.
Em termos de estudo de assuntos rabes, o ingls tivera um bom comeo. Nascera e fora criado no Iraque, filho de uma contadora com um grande executivo de uma companhia
petrolfera. Seu pai no o enviara para a escola anglo-americana,

OAFEGO 35

preferindo uma academia particular que ensinava os filhos da elite da sociedade iraquiana. Aos 10 anos, ele podia, ao menos em termos lingsticos, passar-se por
um menino rabe. Apenas o rosto corado e os cabelos ruivos impediam-no de parecer realmente um rabe.
Nascido em 1965, o menino estava com 11 anos quando o Sr. Martin decidiu sair do Iraque e retornar para a segurana do Reino Unido. O partido Ba ath estava de volta
ao poder, que verdadeiramente no provinha do presidente Bakr, e sim de seu vice-presidente, que promovia um extermnio cruel dos inimigos polticos, reais e imaginrios.
Os Martin j haviam vivido tempos turbulentos nos anos 1950, quando o rei-menino Feisal estava no trono. Tinham visto o massacre do jovem rei e de seu premi pr-ocidental,
Nuri Said, o assassinato igualmente sanguinolento transmitido pela televiso de seu sucessor, o general Kassem, e o aparecimento do tambm brutal partido Ba ath.
Esse, por sua vez, fora derrubado, para retomar ao poder em 1968. Durante sete anos, o Sr. Martin observou o poder crescente do psictico vice-presidente Saddam
Hussein. Em 1975, ele decidiu que era hora de partir.
Seu filho mais velho, Mike, estava com 13 anos e pronto para estudar num internato britnico, Ele obtivera um bom cargo na Burmah OU, em Londres, indicado por um
certo Denis Thatcher, cuja esposa Margaret acabara de se tornar lder do partido Conservador. No Natal, todos os quatro - o pai, a Sra. Martin, Mike eTerry- estavam
de volta ao Reino Unido.
O crebro brilhante de Terry j havia sido notado. Passara em provas para alunos dois ou at trs anos mais velhos com a mesma facilidade com que uma faca atravessa
a manteiga. Presumia-se, como quase se tornou verdade, que uma srie de bolsas

36

FREDERICK FORSYTH de estudo iria atra-lo para Oxford ou Cambridge. Mas ele queria estudos em rabe. Enquanto ainda estava na escola, inscrevera-se na SOAS, comparecendo
 entrevista na primavera de 1983. Aprovado, matriculou-se no outono do mesmo ano, estudando Histria do Oriente Mdio.
Formou-se com honras em trs anos, e estudou mais para obter o doutorado, especializando-se no Coro e nos primeiros quatro Califados. Tirou um ano sabtico para
prosseguir seus estudos do Coro no famoso Instituto Al Azhar, no Cairo. Ao voltar, com apenas 27 anos recebeu um convite para ministrar aulas, uma honra, considerando
a dificuldade da lngua rabe e o fato de a SOAS ser uma das escolas mais severas do mundo. Aos 34 anos foi promovido a professor assistente, j preparado para chegar
a professor-emrito aos 40. Tinha 41 anos na tarde em que a NSA veio pedir sua ajuda. Estava passando um ano como professor visitante em Georgetown, porque naquela
mesma primavera de 2006 sua vida havia sido estraalhada.
O emissrio de Forte Meade encontrou-o num auditrio concluindo uma palestra sobre os relevantes ensinamentos do Coro  era contempornea.
Podia-se ver, da coxia, que os alunos gostavam dele. O auditrio estava lotado. Ele fazia com que suas palestras tivessem o sabor de uma conversa longa e civilizada
entre iguais. Raramente consultando notas, ficava andando de um lado para o outro sem palet, o corpo baixo e gorducho irradiando entusiasmo. Falava em linguagem
leiga, procurando encurtar ao mximo a palestra para ter tempo de responder s perguntas dos alunos com calma e seriedade. Estava nesse ponto quando o agente de
Forte Meade apareceu na coxia.

O AFEGO

37

Um rapaz 4e camisa vermelha, na quinta fila, levantou uma das mos.
- O senhor disse que discorda do termo fundamentalista para se referir  filosofia dos terroristas. Por qu?
Devido a toda publicidade recebida pelas questes rabes, islmicas e cornicas nos Estados Unidos desde o 11 de Setembro, as perguntas variavam da erudio terica
a questes contemporneas.
- Porque o termo  incorreto - disse o professor. - O termo implica de volta ao bsico . Mas aqueles que colocam bombas em trens, shopping centers e nibus no esto
voltando ao bsico do isl. Esto escrevendo um roteiro novo e, en-tio argumentando retroativamente, tentando achar passagens cornicas que justifiquem sua guerra.
Existem fundamentalistas em todas as religies. Monges cristos que se isolam em mosteiros e fazem votos de pobreza, castidade e obedincia. Essas pessoas so fundamentalistas.
Ascetas existem em todas as religies, mas eles no advogam assassinatos em massa de homens, mulheres e crianas. Analise atentamente todas as religies e seitas.
Ver que elas querem retornar aos ensinamentos bsicos. E esses no incluem terrorismo, porque nenhuma religio, incluindo o isl, possui mandamentos que defendam
assassinato em massa.
Na coxia, o homem de Forte Meade tentou atrair a ateno do Dr. Martin. O professor olhou de lado e notou o rapaz de cabelos bem cortados e terno escuro. Todo o
seu corpo parecia exalar a palavra governo . Apontou para o relgio em seu pulso. Martin assentiu com a cabea.
- Ento, como voc chamaria os terroristas de hoje? jihadistas?

38

FREDERICK FORSYTH
A pergunta veio de uma jovem sentada mais ao fundo. A julgar por seu rosto, o Dr. Martin achou que seus pais provinham do Oriente Mdio: ndia, Paquisto, talvez
Ir. Mas no usava na cabea o vu hejab que a indicaria como muulmana devota.
-At jihad  uma palavra errada.  claro que o jihad existe, mas ele possui regras. Cada jihad  um combate de um indivduo consigo prprio para se tornar um muulmano
melhor, mas nesse caso  completamente no-agressivo. Ou pode significar guerra santa, conflito armado em defesa do isl.  isso que os terroristas alegam que fazem.
Mas eles escolheram apagar as regras do texto.
Por exemplo, o verdadeiro jihad s pode ser declarado por uma autoridade cornica legtima de reputao provada e aceita. Bin Laden e seus aclitos so famosos pela
falta de estudo acadmico. Mesmo se o Ocidente houvesse atacado, ferido, humilhado e menosprezado o isl e portanto todos os muulmanos, ainda haveria regras e o
Coro  absolutamente especfico quanto a elas.
 proibido atacar e matar aqueles que no ofenderam nem feriram voc.  proibido matar mulheres e crianas.  proibido tomar refns e  proibido maltratar, torturar
ou matar prisioneiros. Os terroristas da al-Qaeda e seus seguidores fazem as quatro coisas de forma regular. E no podemos nos esquecer de que eles mataram muito
mais companheiros muulmanos que cristos ou judeus.
- Mas, ento, como o senhor chama a campanha deles? O homem na coxia estava ficando agitado. Um general dera-lhe uma ordem. No queria ser o ltimo a se apresentar
de volta.
- Eu a denomino de Novo Jihad, porque eles inventaram uma guerra no-santa fora das leis do Sagrado Coro e, portanto, do verdadeiro isl. O verdadeiro jihad no
 selvagem, mas

O AFEGO

39

aquilo que esses homens praticam . S posso responder a mais uma pergunta, lamento informar.
Livros e cadernos comearam a ser guardados, uma movimentao que marcava o fim da sesso. A mo de algum se levantou numas das fileiras da frente. Sardas, camisa
branca de um grupo de rock estudantil.
-Todos os homens-bomba alegam ser mrtires. Como eles justificam isso?
- Mal-disse o Dr. Martin. - Porque foram enganados, por mais bem instrudos que sejam alguns deles.  perfeitamente vivel morrer como um shahid, ou seja, um mrtir,
lutando pelo isl num jihad verdadeiramente declarado. Mas novamente existem regras, e elas so muito especficas no Coro. O guerreiro no deve morrer por sua prpria
mo, embora ele tenha se apresentado como voluntrio para uma misso sem volta. Ele no pode conhecer o momento e o lugar da prpria morte.
 exatamente isso que os suicidas fazem. E o suicdio  especificamente proibido. Quando vivo, Maom recusou-se ter-minantemente a abenoar o cadver de um suicida,
ainda que o homem tenha terminado a prpria vida para evitar a agonia debilitante de sua doena. Aqueles que cometem assassinato em massa de inocentes seguido pelo
suicdio no esto destinados ao paraso, mas ao inferno. Os falsos pregadores e imames que os iludiram a tomar essa trilha iro se juntar a eles l. E agora, temo
dizer, precisamos retornar ao mundo de Georgetown e dos hambrgueres. Obrigado pela ateno.
A platia aplaudiu de p. Envergonhado, o professor pegou o palet e caminhou at a coxia.
- Perdo por interromp-lo, professor - disse o homem de Forte Meade. - Mas o general precisa do Comit Coro l no Forte. O carro est  sua espera.

40

FREDERICKFORSYTH - Estamos com pressa?
-  para ontem, senhor. Carter emergencial, senhor.
- Faz alguma idia do que seja? - indagou Martin.
- No, senhor.
Obviamente. A necessidade de saber. A regra inquebrant-vel. Se voc no precisa saber, faa seu trabalho, eles no vo lhe contar. A curiosidade de Martin teria
de esperar. O carro era o seda escuro de sempre, com a antena no teto. O veculo precisava estar em contato permanente com a base. O motorista era um cabo. Embora
Forte Meade seja uma base do Exrcito, o homem estava  paisana. Tambm no havia necessidade de fazer publicidade.
O motorista abriu a porta do carro para o Dr. Martin, que sentou no banco de trs. Sua escolta ocupou o assento do passageiro e o carro comeou a seguir at a rodovia
Baltimore.
Muito a leste dali, o homem que estava convertendo o celeiro em um retiro para sua aposentadoria sentou ao lado da fogueira em sua horta. Sentia-se perfeitamente
feliz daquele jeito. Se podia dormir em rochas e montes de neve, certamente podia dormir na grama macia debaixo das macieiras.
Combustvel para fogueira de acampamento no era problema. Ele tinha tbuas de madeira apodrecida suficientes para toda uma vida. A chaleira chiava em cima das brasas
enquanto ele preparava uma caneca de ch fumegante e muitssimo bem-vinda. Bebidas sofisticadas tinham seu tempo e lugar, mas depois de um dia de trabalho duro,
a recompensa de um soldado  uma caneca de ch quente.
Na verdade, ele havia tirado uma tarde de folga da tarefa no telhado e caminhara at Meonstoke para visitar o mercado e comprar provises para o fim de semana.

r
O AFEGO 41

Era claro que todos sabiam que ele havia comprado o celeiro e que estava tentando restaur-lo sozinho. Isso era bom. Londrinos ricos que gostam de exibir seu talo
de cheques e querem bancar o senhor feudal so tratados com educao pela frente, mas com desprezo pelas costas. Mas os aldees consideravam o solteiro de cabelos
negros, que morava numa tenda cm sua horta e fazia todo o trabalho braal sozinho, um bom sujeito.
Segundo o carteiro, ele recebia poucas cartas, exceto por alguns envelopes de aparncia oficial, que ele pedia que fossem entregues na taverna Bucks Head para poupar
o entregador de uma caminhada longa pela trilha enlameada; gesto muito apreciado pelo carteiro. As cartas eram endereadas ao coronel , mas ele jamais mencionava
isso, nem mesmo quando tomava uma bebida no bar ou comprava jornal ou comida no mercado. Apenas sorria e agia com muita educao. O apreo crescente dos moradores
locais pelo homem era regado com uma gota de curiosidade. A maioria dos estrangeiros era agitada e tagarela. Quem era ele, de onde viera e por que escolhera acomodar-se
em Meonstoke?
Naquela tarde, em seu passeio pela cidadezinha, ele visitara a antiga igreja de St. Andrew e encontrara e conversara com o pastor, o reverendo Jim Foley.
O ex-soldado estava comeando a achar que apreciaria a vida em qualquer lugar que tivesse decidido assentar. Ele podia pedalar sua velha mountain bike at Droxford
pela estrada de Southampton, para comprar comida direto da horta na feira de produtores. Podia explorar a mirade de estradas que avistava de seu telhado e provar
cerveja nos velhos pubs que elas revelariam.

42

FREDERICKFORSYTH
Mas dentro de dois dias, ele teria de comparecer  missa matutina na penumbra silenciosa das pedras antigas de St. Andrew, e rezaria, como fazia com freqncia.
Rogaria perdo ao Deus no qual acreditava devotadamente. Perdo por todos os homens que matara e descanso para suas almas. Pediria por descanso eterno para todos
os companheiros que tinham morrido ao seu lado. E ento agradeceria por jamais ter matado mulheres ou crianas, nem ningum de paz, e rezaria para um dia ser perdoado
por seus pecados e entrar no Reino dos Cus.
Ento voltaria para a encosta da colina e retomaria seu trabalho. Agora restavam apenas mais mil telhas.
Por maior que seja, o complexo de edifcios da NSA ocupa apenas uma pequena frao de Forte Meade, uma das maiores bases militares nos Estados Unidos. Situado seis
quilmetros a leste da Interstate 95, e a meio caminho entre Washington e Bal-timore, o Forte Meade  o lar de cerca de 10 mil militares e 25 mil funcionrios civis.
 uma cidade com vida prpria, que possui todos os recursos bsicos para sua manuteno. A parte secreta fica dentro de uma zona de segurana muitssimo bem protegida,
a qual o Dr. Martin jamais visitara.
O carro que o levava trespassou a base como uma flecha, sem que ningum o detivesse at que chegasse  zona de segurana. No porto principal, passes foram verificados
e rostos examinados atravs das janelas do veculo enquanto seu guia responsabilizava-se pelo professor. Menos de um quilmetro depois, o carro parou diante da porta
lateral de um prdio imenso, e o Dr. Martin e sua escolta entraram. Havia ali uma mesa guardada por militares. Mais checagens; alguns telefonemas;

O AFEGO

43

poiegares espremidos contra sensores; reconhecimento de ris; admisso final.
Depois do que pareceu mais uma maratona atravs de corredores, chegaram a uma porta annima. A escolta bateu e eles entraram. Martin descobriu-se finalmente diante
de rostos conhecidos e reconheceu amigos, colegas e alguns integrantes do Comit Coro.
Como muitas salas de conferncia do servio governamen-i ai, aquela era annima e funcional. No havia janelas, mas o ar-refrigerado mantinha o ambiente fresco.
Uma mesa circular e cadeiras acolchoadas de encosto alto. Numa das paredes tinha uma tela, presumivelmente para o caso de exibies e grficos serem necessrios.
Mesas laterais com bules de caf e bandejas de comida para o insacivel estmago americano.
Os anfitries eram claramente dois oficiais no-acadmi-cos do servio de inteligncia, que se apresentaram com cortesia. Um era o vice-diretor da NSA, enviado pelo
prprio general. O outro, um oficial snior, da Segurana Interna em Washington.
E havia os quatro acadmicos, o Dr. Martin includo. Todos conheciam uns aos outros. Antes de concordar em participar daquele comit secreto baseado em suas especialidades
em um livro e uma religio, eles haviam conhecido indiretamente uns aos outros atravs de seus artigos publicados, e pessoalmente por meio de seminrios, palestras
e conferncias. O mundo do estudo profundo do Coro no  grande.
Terry Martin cumprimentou os doutores Ludwig Schram-me da Columbia, Nova York; Ben Jolley, da Rand, e Harry Harrison, do Brookings, que decerto possua outro nome
de batismo, mas que sempre fora conhecido como Harry. O mais velho e, provavelmente, mais experiente, era Ben Jolley, um

44 FREDERICKFORSYTH homem grande e barbudo que logo - a despeito do olhar re-provador do vice-diretor - sacou um cachimbo de raiz de rvore, o qual, ao ser aceso,
esfumaou como uma fogueira de acampamento. Acima de suas cabeas, a tecnologia de extrao de fumaa da Westinghouse esforou-se ao mximo para purificar o ambiente,
mas no conseguiu.
O vice-diretor foi direto ao assunto. Distribuiu aos acadmicos cpias de dois documentos, cada um numa pasta. Eram os originais em rabe resgatados do laptop do
tesoureiro da al-Qaeda, e as tradues realizadas pelo Departamento rabe. Os quatro homens preferiram ler as verses originais, o que fizeram em silncio. O Dr.
Jolley fumando seu cachimbo; o homem da Segurana Interna franzindo o nariz. Os quatro terminaram quase ao mesmo tempo.
Em seguida leram as tradues inglesas para ver o que tinham deixado de entender e por qu. Jolley levantou os olhos para os dois oficiais de inteligncia.
- Bem?
- Bem... o qu, professor?
- Qual foi o problema que nos trouxe aqui? - indagou o arabista.
O vice-diretor apontou para uma parte da traduo para a lngua inglesa.
- O problema  este. Aqui. O que isso significa? Sobre o que eles esto falando?
Todos os quatro haviam visto a referncia cornica no texto em rabe. No tinham precisado de traduo. Cada um deles vira a frase muitas vezes, e estudara todos
os diversos significados possveis. Mas isso em textos eruditos. A citao estava em letras modernas. Trs referncias em uma das letras, uma referncia separada
da outra.

O AFEGO 45

- Al-Isra? Deve ser algum tipo de cdigo. Refere-se a um episdio na vida do profeta Maom.
- Ento perdoe nossa ignorncia - disse o homem da Segurana Interna. - O que  Al-Isra?
- Explique voc, Terry - disse o Dr. Jolley.
- Bem, cavalheiros, a citao se refere a uma revelao na vida do profeta - disse Terry Martin. - At hoje os pesquisadores debatem se ele vivenciou um milagre
divino genuno ou se fez uma viagem astral.
Resumindo, certa noite, um ano antes de emigrar de Meca, sua cidade natal, at Medina, Maom teve um sonho. Ou uma alucinao. Ou um milagre divino. Para simplificar
as coisas, daqui em diante vou me referir  experincia apenas como um sonho .
Em seu sonho, Maom foi transportado das profundezas da moderna Arbia Saudita atravs de desertos e montanhas at a cidade de Jerusalm, at ento uma cidade sagrada
apenas para cristos e judeus.
- Quando? Em nosso calendrio?
- Cerca de 622 a.C.
- O que aconteceu, ento?
- Ele achou um cavalo selado, um cavalo com asas. Deveria montar nele. O cavalo voou para o cu, e o profeta se encontrou com Deus em pessoa. Deus instruiu Maom
sobre todos os rituais de orao que um Crente Verdadeiro deveria realizar. Ele decorou os rituais. Mais tarde, ditou-os a um escriba da forma como se tornaram parte
integral do 6666. Esses versculos tornaram-se, e permanecem at hoje, a base do isl.
Os outros trs professores assentiram, concordando.
- E eles acreditam nisso? - perguntou o vice-diretor.

46

FREDERICK FORSYTH - No vamos agir com superioridade - Harry Harrison interrompeu-os bruscamente. - No Novo Testamento  dito que Jesus Cristo fez jejum de 40 dias
e 40 noites e ento se encontrou com o Diabo em pessoa. Depois desse perodo sozinho e sem qualquer comida, um homem certamente teria uma alucinao. Mas os Crentes
Verdadeiros do cristianismo no podem duvidar disso, porque est na Escritura Sagrada.
-Tudo bem. Aceitem minhas desculpas. Ento Al-Isra  o encontro com o arcanjo?
- De forma alguma - disse Jolley. - Al-Isra  a jornada propriamente dita, uma jornada mgica. Uma jornada divina, empreendida sob as instrues do prprio Al.
O Dr. Schramme interveio:
-  conhecida como a jornada pelas trevas at a grande iluminao...
Estava citando um comentrio antigo. Os trs demais pesquisadores conheciam a citao e concordaram.
- Ento, o que um muulmano moderno e um agente de alto escalo da al-Qaeda quiseram dizer com isso?
Foi a primeira vez que os acadmicos receberam um indcio sobre a fonte dos documentos. No uma interceptao, mas uma captura.
-A mensagem era bem guardada? - perguntou Harrison.
- Dois homens morreram tentando nos impedir de v-la.
- Ah, bem, sim. Compreensvel. - O Dr. Jolley estava estudando seu cachimbo com grande ateno. Os outros trs baixaram os olhos. - Creio que seja uma referncia
a algum tipo de projeto, alguma operao. E no uma pequena.
- Alguma coisa grande? - perguntou o homem da Segurana Interna.

O AFEGO 47

- Senhores, os muulmanos, principalmente os fanticos, encaram com muita seriedade o Al-Isra, Para eles, foi algo que mudou o mundo. Se conferiram o nome Al-Isra
a alguma coisa,  porque se trata de um projeto de grande impacto.
- E alguma indicao sobre o que possa ser?
O Dr, Jolley correu os olhos pela mesa. Seus trs colegas deram com os ombros.
- Nenhuma indicao. Ambos os redatores clamam bnos divinas ao seu projeto, e  tudo. Dito isso, acho que posso falar por todos ns ao sugerir que vocs descubram
a que eles esto se referindo. Jamais dariam um nome como Al-Isra a uma bomba numa mochila ou  destruio de um clube noturno ou um nibus.
Ningum fazia anotaes. No era preciso. Cada palavra estava sendo gravada. Este, afinal de contas, era o prdio conhecido no ramo como O Palcio Quebra-Cabeas
 .
Dentro de uma hora, os profissionais de inteligncia receberiam transcries da conversa e virariam a noite preparando um relatrio conjunto. Este sairia do prdio
antes do amanhecer, lacrado e protegido por guardas armados, e ento subiria. Subiria muito. Subiria tanto quanto  possvel subir nos EUA, que  a Casa Branca.
Terry Martin voltou para Washington numa limusine, junto com Ben Jolley. Era um veculo maior do que aquele no qual ele viera, com uma divisria entre os compartimentos
frontal e traseiro. Atravs do vidro podiam ver a cabea de duas pessoas: a do motorista e a do jovem oficial que fazia a escolta.
Com o cachimbo misericordiosamente guardado no bolso, o americano velho e rabugento estava olhando pensativo

48

FREDERICK FORSYTH para a paisagem, um mar de folhas de outono arroxeadas e douradas. O britnico, mais jovem, olhava pela outra janela, tambm imerso em pensamentos.
Em toda a sua vida, Terry Martin amara realmente apenas quatro pessoas, e perdera trs nos ltimos dez meses. No comeo do ano, seus pais, que haviam tido os filhos
por volta dos 30 anos, e que chegaram a mais de 70, morreram quase ao mesmo tempo. Cncer da prstata matara seu pai, e sua me foi vtima de corao partido. Ela
escreveu uma carta comovente para cada um dos filhos, tomou um vidro inteiro de sonferos, encheu a banheira com gua quente, adormeceu e ento, em suas prprias
palavras, foi juntar-se a papai .
Terry Martin ficara arrasado, mas apoiara-se na fora de dois homens, os outros dois que ele amara mais que a si prprio. Um fora seu parceiro por 14 anos, o corretor
da Bolsa alto e bonito com quem dividira sua vida. E ento, numa insana noite de maro, viera um motorista bbado dirigindo em alta velocidade, o choque do metal
contra um corpo humano, o cadver na mesa de mrmore, e o terrvel funeral com os conservadores pais de Gordon desaprovando seu desespero patente.
Terry considerara seriamente pr fim  prpria vida, mas Mike, seu irmo mais velho, parecera ler seus pensamentos. Mike mudara-se por uma semana para sua casa e
conversara com ele durante toda a crise. Terry idolatrava o irmo desde que os dois eram meninos no Iraque, e tambm durante os anos na escola britnica em Haileybury,
nas cercanias da cida-de-mercado de Hertford.
Mike sempre fora o modelo para Terry. Enquanto este era plido, gorducho, lento e cauteloso, Mike era magro, vigoroso, rpido e corajoso. Sentado na limusine rodando
veloz atravs

O AFEGO 49

de Maryland, Terry permitiu que seus pensamentos retornassem quela ltima partida de rgbi contra Tonbridge, com a qual Mike pusera fim aos seus cinco anos em Haileybury.
Quando os dois times saram do campo, Terry estava de p do outro lado da passagem delimitada por cordas, sorrindo. Mike estendera a mo e cofiara o cabelo dele.
- Bem, ns conseguimos, irmo - disse ele.
Terry sentira os joelhos tremerem quando chegou o momento de dizer ao irmo que agora ele sabia que era gay. O homem mais velho, a esta altura oficial do Regimento
de Pra-quedistas e recm-chegado do combate nas ilhas Falkland, pensara durante um momento sobre o que dizer. Finalmente sorrira e citara a ltima fala de Joe E.
Brown no filme Quanto mais quente melhor, - Bem, ningum  perfeito.
Daquele dia em diante, a idolatria de Terry por seu irmo mais velho no tinha limites.
Em Maryland, o sol se ps. Como Cuba est no mesmo fuso horrio, tambm estava anoitecendo l, e na pennsula sudoeste conhecida como Guantnamo, um homem estendeu
seu tapete de oraes, virou-se para leste, ajoelhou e comeou a rezar. Do lado de fora da cela, um guarda observava, impassvel. Ele vira isso muitas vezes, mas
suas instrues eram para nunca, jamais, relaxar sua viglia.
O homem que orava estava na priso, anteriormente conhecida como Raio-X, agora Campo Delta, e na base norte-americana na baa de Guantnamo, tambm apelidada de
Gitmo, h quase cinco anos. Passara pelas brutalidades e privaes iniciais sem chorar ou gritar. Tolerara inmeras humilhaes a

50

FREDERICK FORSYTH seu corpo e f sem emitir um som, mas quando fitara seus algozes, at eles tinham lido o dio implacvel nos olhos negros acima da barba preta,
de modo que fora espancado mais ainda. Mas sua fora de vontade permaneceu inabalvel.
Durante o perodo em que os prisioneiros so encorajados a denunciar seus companheiros em troca de favores, ele permanecera calado e no recebera um tratamento melhor.
Vendo isso, outros haviam-no denunciado em troca de concesses, mas como as denncias tinham sido completamente inventadas, ele no as havia negado ou confirmado.
Na sala cheia de pastas mantidas pelos interrogadores como prova de sua percia, havia muita coisa a respeito do homem que rezava naquela noite, mas quase nada confessado
por ele, quando respondera educadamente a perguntas que tinham lhe sido feitas anos antes, por um dos interrogadores que tinham optado por uma abordagem humana.
Era apenas graas a isso que existia um registro superficial de sua existncia.
Mas o problema ainda era o mesmo. Nenhum dos inquisidores entendia uma palavra sequer de seu idioma, de modo que sempre precisavam de intrpretes, que os acompanhavam
por toda parte. Mas os intrpretes tambm possuam seus prprios interesses. Como tambm recebiam favores em troca de revelaes interessantes, tinham motivos para
invent-las.
Depois de quatro anos, o homem que estava rezando foi taxado como no cooperativo , o que simplesmente significava inquebrantvel. Em 2004, ele foi transferido para
o novo Campo Eco, uma unidade de isolamento permanente, onde as celas eram menores, com paredes brancas. Exerccios eram permitidos apenas  noite. Durante um ano
o homem no vira a cor do sol.

O AFEGO 51

Nenhum familiar buscara notcias suas; nenhum governo responsabilizara-se por ele; nenhum advogado defendera seu caso. Outros detentos daquele lugar tinham perdido
a razo e haviam sido retirados para serem submetidos a terapia. Ele simplesmente permanecera calado, lendo o Coro. Do lado de fora, guardas eram trocados enquanto
ele rezava.
- rabe filho-da-puta - disse o homem cujo turno estava terminando. Seu substituto meneou a cabea negativamente.
- Ele no  rabe.  afego.
- E ento, Terry? O que acha de nosso problema?
Ben Jolley, que acabara de emergir de seus pensamentos, estava fitando Martin do outro lado do banco traseiro da limusine.
- No parece coisa boa, no  mesmo? - retrucou Terry Martin. - Viu as caras dos nossos dois amigos? Sabiam que estvamos apenas confirmando o que eles haviam suspeitado,
mas definitivamente no estavam felizes quando samos.
- Mas no h outro veredicto. Eles precisam descobrir o que  essa tal operao Al-Isra.
- Mas como?
-J faz um bocado de tempo que convivo com esses agentes. Tenho prestado a melhor consultoria que posso sobre questes do Oriente Mdio, desde a Guerra dos Seis
Dias. Eles possuem muitos recursos: fontes internas, agentes duplos, escutas telefnicas, recuperao de dados. Alm disso, o aperfeioamento da informtica tem
ajudado muito; hoje eles podem fazer em minutos cruzamentos de dados que h alguns anos levavam semanas. Acho que vo encontrar uma forma de descobrir o que  esse
projeto e det-lo. No esquea que aprendemos muito desde que Gary Powers foi abatido sobre Sverdlovsk, em 1960,

II
FREDERJCK FORSYTH e que uma aeronave U2 tirou aquelas fotografias dos msseis cubanos, em 1962. Acho que voc ainda no havia nascido, no ?
Quando Terry Martin fez que no com a cabea, riu de sua prpria antigidade.
- Talvez eles tenham algum dentro da al-Qaeda- sugeriu Terry.
- Duvido muito - disse o homem mais velho. - A esta altura, uma pessoa to bem posicionada teria nos dado a localizao da sede do grupo, e ns teramos acabado
com ela usando bombas inteligentes.
- Bem, talvez eles pudessem infiltrar algum na al-Qaeda para descobrir essas coisas.
Mais uma vez, o homem mais velho balanou a cabea com total convico.
- Vamos, Terry, ns dois sabemos que isso  impossvel. Um rabe nativo muito provavelmente mudaria de lado e passaria a operar contra ns. Quanto a um no-rabe,
esquea. Voc sabe to bem quanto eu que todas as famlias rabes tm razes enormes, que se estendem por cls e tribos. Uma pergunta sobre a famlia, e o impostor
seria imediatamente desmascarado.
Portanto, ele teria de dispor de um currculo impecvel. Alm disso, precisaria parecer e falar como um nativo e, o mais importante, representar seu personagem.
Uma slaba errada em meio quele monte de rezas, e pronto, ele seria desmascarado pelos fanticos. Eles so capazes de rezar cinco vezes por dia sem errar uma pausa.
-  verdade - disse Martin, sabendo que suas hipteses no se sustentaram, mas gostando da elucubrao. - Mas um agente poderia ser capaz de ler passagens do Coro
e inventar uma famlia impossvel de ser localizada.

O AFEGO 53

- Esquea, Terry. Nenhum ocidental pode se passar por rabe entre os rabes.
- Meu irmo pode - disse o Dr. Martin.
Quase no mesmo instante em que disse isso, ele sentiu vontade de morder a lngua. Mas estava tudo bem. O Dr. Jolley resmungou uma coisa qualquer, esqueceu o assunto,
e passou a se concentrar nos arrabaldes de Washington. Nenhuma das duas cabeas na frente, do outro lado do vidro, moveu-se um centmetro. Ele deixou escapar um
suspiro de alvio. No deveria haver microfones ligados no carro. Ele estava errado.

CAPTULO 3

O RELATRIO DE FORTE JVEADE SOBRE AS DELIBERAES DO COMIT
Coro estava pronto ao amanhecer daquele sbado, e jogou por terra vrios planos para o fim de semana. Um dos prejudicados foi Marek Gumienny, vice-diretor de Operaes
da CIA. Na noite de sbado ele foi convocado a se apresentar imediatamente ao seu gabinete sem que lhe fosse dito o porqu.
O porqu estava sobre sua mesa. Ainda no havia nem amanhecido em Washington, mas os primeiros indcios do sol iluminavam as colinas distantes do condado de Prince
George, onde o rio Patuxent desemboca para juntar-se ao Chesapeake.
O gabinete de Marek Gumienny  um dos poucos no sexto e ltimo andar do prdio grande e oblongo, em meio ao emaranhado que compe o QG da CIA, conhecido apenas como
Langley. Recentemente fora rebatizado como Prdio Velho para se distinguir de seu gmeo Prdio Novo, que abrigava a expanso da agncia aps o 11 de Setembro.
Na hierarquia da CIA, o diretor da agncia  tradicionalmente um poltico nomeado, mas a verdadeira fora reside em seus dois vice-diretores. O vice-diretor de Operaes
lida com a

O AFEGO 55

coleta de informaes, enquanto o vice-diretor de Inteligncia fica responsvel pela compilao e anlise do material, para montar um quadro significativo.
Logo abaixo desses dois esto a contra-nteligncia (para manter a agncia livre de espionagem e traidores internos) e o antiterrorismo (que tornara o setor mais
importante,  medida que o foco da agncia desviara-se da velha URSS para as novas ameaas do Oriente Mdio).
Desde o comeo da Guerra Fria, por volta de 1945, os vice-diretores de Operaes sempre foram especialistas da Diviso Sovitica e da SE (Satlites e Europa Oriental),
o que abria caminho para algum ambicioso oficial de carreira. Marek Gumienny era o primeiro arabista a ser nomeado vice-diretor de Operaes. Quando jovem, passara
anos como agente no Oriente Mdio, dominara duas de suas lnguas (rabe e farsi, os idiomas do Ir) e conhecia bem sua cultura.
Mesmo naquele prdio em funcionamento 24 horas por dia, a madrugada no era um bom momento para conseguir um caf preto quente e cheiroso, do jeito que ele gostava.
Assim, fez seu prprio. Enquanto o caf passava, Gumienny abriu o pacote em sua mesa, retirando uma pasta fina, selada com cera.
Sabia o que esperar. Forte Meade poderia estar  frente da recuperao de dados, traduo e anlise, mas fora a CIA, em colaborao com os britnicos e com o CAT
paquistans que tinha feito o trabalho de campo. As sees da agncia em Pesha-war e Islamabad haviam apresentado um grande nmero de relatrios para manter o chefe
bem informado.
A pasta continha todos os documentos baixados do computador do tesoureiro da al-Qaeda, mas as duas cartas, que totalizavam trs pginas, eram o principal. O vice-diretor
de Opera

56

FREDERICKFORSYTH es falava com rapidez e fluncia o rabe urbano, mas como a leitura  sempre mais difcil, ele repetidamente recorreu s tradues.
Leu o relatrio do Comit Coro, preparado conjuntamente pelos dois oficiais de inteligncia na reunio, mas o texto no apresentou nenhuma surpresa. Para ele estava
claro que as referncias ao Al-Isra, a jornada mgica do Profeta atravs da noite, s poderia ser o cdigo para um projeto muito importante.
Agora, o projeto precisava de um nome interno para a comunidade de inteligncia americana. No poderia ser Al-Isra, porque entregaria tudo o que haviam descoberto.
Abriu o arquivo de criptografia, em busca de uma palavra para descrever futuramente como ele e todos seus colegas chamariam o projeto da al-Qaeda, fosse ele qual
fosse.
Cdigos so gerados por computador atravs de um processo de seleo aleatria, com o objetivo de no deixar passar nenhuma informao acidentalmente. Naquele ms,
o processo de nomeao da CIA estava usando peixes; o computador escolheu stingray (arraia), e assim nasceu o Projeto Stingray.
A ltima folha daquela pasta fora acrescentada durante a noite de sbado. Era breve e curta. Fora escrita por um homem que no gostava de desperdiar palavras, um
dos seis diretores, o diretor de Inteligncia Nacional. Claramente a pasta emitida por Forte Meade seguira direto para o Comit de Segurana Nacional (Steve Hadley),
para o diretor de Inteligncia Nacional e para a Casa Branca. Marek Gumienny imaginou que deveria haver luzes acesas na Sala Oval.
A folha estava impressa com o cabealho pessoal do diretor de Inteligncia Nacional. Dizia, em letras de imprensa:

O AFEGO 57

O QUE  AL-ISRA?
 NUCLEAR, BIOLGICO, QUMICO,
CONVENCIONAL?
DESCOBRIR O QU, QUANDO E ONDE. PRAZO: AGORA. RESTRIES: NENHUMA. PODERES: ABSOLUTOS. ,
JOHN NEGROPONTE
Havia uma assinatura rabiscada. A carta escrita  mo por Marek Gumienny concedia-lhe autoridade sobre as 19 agncias de inteligncia do pas. Ele correu os olhos
de volta para o topo da folha. Estava endereada pessoalmente a ele. Algum bateu  porta.
Entrou um jovem SG15, trazendo mais uma entrega. Servio Geral  simplesmente uma escala salarial, e um 15 representa um funcionrio bem abaixo na hierarquia. Gumienny
deu ao rapaz um sorriso encorajador; ele claramente jamais estivera num andar to alto neste prdio. Gumienny estendeu a mo, assinou o documento na prancheta para
confirmar o recebimento e esperou at estar sozinho novamente.
O novo arquivo era uma cortesia dos colegas em Forte Meade. Era a transcrio de uma conversa entre dois dos especialistas no Coro durante o percurso de carro de
volta a Washington. Um deles era britnico. Algum em Forte Meade sublinhou sua ltima frase com tinta vermelha e colocou um ponto de interrogao ao seu lado.
Durante o perodo que passara no Oriente Mdio, Marek Gumienny tivera muito contato com os britnicos. Ao contrrio de alguns de seus compatriotas que haviam tentado
sobreviver por quatro anos naquele inferno que era o Iraque, Marek

58

FREDERICK FORSYTH no se orgulhava muito de admitir que o maior aliado naquilo que Kipling chamara de o Grande Jogo era um monte de conhecimento arcano sobre os
desertos que se estendiam entre o rio Jordo e o Hindu Kush.
Durante um sculo e meio, como soldados ou administradores do antigo imprio, ou como exploradores excntricos, os britnicos tinham percorrido desertos e cordilheiras
na zona que agora era a bomba-relgio da inteligncia. Os britnicos apelidavam a CIA de os Primos ou a Companhia , e os americanos chamavam o Servio Secreto de
Inteligncia baseado em Londres como Os Amigos ou A Firma . Para Marek Gumienny, um desses amigos era um homem com quem compartilhara bons momentos, momentos no
to bons e momentos absolutamente perigosos durante a poca em que ambos eram agentes de campo, Agora ele estava atrs de uma mesa em Langley e Steve Hill fora retirado
do trabalho de campo e elevado a controlador do Oriente Mdio no quartel-general da Firma em Vauxhall Cross.
Gumienny decidiu que uma conferncia no faria mal, e talvez at fizesse algum bem. No havia nenhum problema de segurana. Os britnicos sabiam tanto quanto ele.
Eles tambm tinham transmitido as entranhas do laptop de Peshawar para seu prprio QG de escuta e criptografia em Cheltenham. Eles ainda haviam examinado o laptop
e impresso seu contedo. Eles tambm tinham analisado as estranhas referncias ao Coro contidas nas cartas codificadas.
O que Marek Gumienny sabia, que Londres provavelmente no sabia, era o comentrio bizarro feito por um acadmico britnico no banco traseiro de um carro no corao
de Maryland. Ele digitou um nmero no painel em sua mesa. A telefonia cen
O AFEGO 59

trai do complexo funcionava bem, mas graas  tecnologia moderna, qualquer alto executivo podia conectar-se mais rpido atravs de um celular via satlite.
Um nmero tocou numa casa modesta em Surrey, subrbio de Londres. Oito da manh em Langley, uma da tarde em Londres; as pessoas na casa estavam se preparando para
comer rosbife no almoo. Uma voz atendeu no terceiro toque. Steve Hill havia desfrutado de seu golfe e estava prestes a desfrutar de seu rosbife.
- Al?
- Steve? Sou eu, Marek.
- Meu velho amigo! Onde voc est? Nas proximidades, espero.
- No, no meu escritrio. Podemos passar para o modo seguro?
- Claro. Me d dois minutos... - E ao fundo: - Querida, segure o rosbife.
O telefone desligou.
Na chamada seguinte a voz vinda da Inglaterra estava um pouco mais abafada, mas impossvel de ser interceptada.
- Devo presumir que alguma coisa bateu no sistema de ventilao perto da sua orelha? - indagou Hill.
- Caiu por toda a minha camisa limpa - admitiu Gu-mienny. - Creio que voc recebeu o mesmo material de Peshawar que eu.
- Espero que sim. Acabei de ler ontem. Estava me perguntando quando voc ia telefonar.
- Steve, eu tenho uma coisa que voc talvez no tenha. Estamos hospedando um professor de Londres. Ele fez um comentrio acidental sexta  tarde. Vou direto ao ponto.
Conhece um homem chamado Martin?

60

FREDERICK FORSYTH - Martin de qu?
- No, esse  o sobrenome dele. O nome do irmo dele  Dr. Terry Martin. Isso lhe diz alguma coisa?
Steve Hill fora pego de surpresa. Ficou sentado, telefone na mo, olhando para o vazio. Sim, ele conhecia o irmo de Terry. Durante a Guerra do Golfo, de 1990-91,
quando ele integrou a equipe de controle na Arbia Saudita, o irmo do acadmico entrara sorrateiramente em Bagd e vivera l como um jardi-neiro humilde, debaixo
dos narizes da polcia secreta de Saddam Hussein. Dessa posio, transmitira dados vitais obtidos com uma fonte dentro do gabinete do ditador.
- Talvez - concedeu. - Por qu?
- Acho que devemos conversar - disse o americano. - Cara a cara. Posso voar at a. O Grumman est  minha disposio.
- Quando voc quer vir?
- Hoje  noite, Posso dormir no avio. Estarei em Londres para o caf-da-manh.
- Certo. Vou providenciar tudo com Northolt.
- Ah, sim. Steve, enquanto estiver voando, voc poderia desencavar a ficha inteira desse tal Martin? Explicarei tudo quando nos encontrarmos.
A oeste de Londres, na estrada para Oxford, fica a base da Fora Area britnica (RAF) de Northolt. Durante alguns anos depois da Segunda Guerra Mundial, ela funcionou
como aeroporto civil de Londres enquanto Heathrow era construdo s pressas. Depois, foi relegada a campo de pouso secundrio, e finalmente a um aeroporto para jatos
particulares e executivos. Mas como permanece como propriedade da RAF, vos de chegada ou sada do pas podem ser providenciados em segurana absoluta e sem as formalidades
usuais.

O AFEGO 61

A CIA possui seu prprio aeroporto perto de Langley e uma pequena frota de jatos executivos. O documento que concedia autoridade absoluta a Marek Gumienny assegurou-lhe
o Grumman V, no qual dormiu em conforto absoluto durante o vo. Steve Hill estava em Northolt para receb-lo.
Ele levou seu convidado, no at o zigurate verde e bege em Vauxhall Cross, na margem sul do Tmisa, ao lado da ponte de Vauxhall, lar do SIS, mas ao bem mais calmo
Hotel Cliveden, que anteriormente fora uma manso particular, instalado no meio de uma grande propriedade a 50 quilmetros do aeroporto. Ele reservara uma pequena
sute de conferncias com servio de quarto e privacidade.
Ali ele leu o relatrio do Comit Coro americano, notavelmente semelhante ao de Cheltenham, e a transcrio da conversa no banco traseiro do carro.
- Filho-da-me - murmurou ao chegar ao fim. - O outro arabista tem razo. No pode ser feito. O problema no  apenas a lngua, mas todos os outros testes. Nenhum
estrangeiro poderia passar neles.
- Ento, considerando minhas ordens do Altssimo, o que voc sugere?
- Capture um membro da al-Qaeda e arranque tudo dele - disse Hill.
- Steve, se tivssemos alguma idia do paradeiro de qualquer indivduo importante na al-Qaeda, ns j o teramos pego. No momento, no temos nenhum alvo como esse
na mira.
- Espere e vigie. Algum vai usar a frase de novo.
- Meu pessoal tem de presumir que se o Al-Isra vai ser o prximo evento espetacular, o alvo sero os Estados Unidos. Washington no vai permitir que fiquemos de
braos cruzados, aguardando um milagre. Alm disso, a essa

62

FREDERICK FORSYTH altura a al-Qaeda j deve saber que estamos com o laptop. Tudo indica que eles jamais iro usar a frase de novo, a no ser pessoalmente.
Hill pensou um pouco e ento disse:
- Bem, poderamos plantar a notcia, nos lugares onde sabemos que eles vo ouvir, dizendo que sabemos tudo e estamos fechando o cerco. Eles podem interromper a operao.
-Talvez sim, talvez no. Mas ns jamais iremos saber. Ainda estaramos no limbo, sem saber se o Projeto Stingray foi suspenso ou no. E se no for suspenso? E se
funcionar? Como meu chefe disse:  nuclear, bioqumico, convencional? Onde e quando? O seu agente Martin realmente pode se passar por rabe entre rabes? Ele  realmente
to bom assim?
- Ele costumava ser - disse Hill, e passou uma pasta para o amigo americano. - Veja por conta prpria.
Era uma pasta muito grossa, em cartolina padro. A capa trazia simplesmente as palavras: coronel mike martin.
O av materno dos Martin foi agricultor de ch em Darjee-ling, ndia, entre as duas guerras mundiais. Enquanto estava l, fez uma coisa que na poca ningum tinha
ouvido falar: casou-se com uma moa indiana.
O mundos dos agricultores britnicos de ch era pequeno, remoto e esnobe. Noivas eram trazidas da Inglaterra ou escolhidas entre as filhas da classe de oficiais
do Raj. Os rapazes tinham visto fotos de seu av, Terence Granger: um homem alto, de rosto rosado, bigode louro, cachimbo na boca e arma na mo, parado diante de
um tigre abatido.
E tambm as fotografias da Srta. Indira Bohse, gentil, encantadora e muito bonita. Quando viu que Terence Granger no seria dissuadido, a companhia de ch, em vez
de criar um novo escndalo demitindo-o, encontrou uma soluo. Enviou

O AFEGO 63

o jovem casal para as profundezas de Assam, na fronteira da ento Birmnia, hoje Mianmar.
Se era para ter sido um castigo, no funcionou. Granger e sua jovem esposa adoraram aquela vida: um campo selvagem, fervilhando com caa e tigres. E ali nasceu Susan,
em 1930. Em 1943, a guerra chegara a Assam, com os japoneses avanando atravs da Birmnia at a fronteira. Terence Granger, velho o bastante para evitar o servio
militar, insistiu em se apresentar como voluntrio. Em 1945, Granger morreu atravessando o rio Irrawaddy.
Com uma pequena penso de viva da companhia, Indira Granger foi para o nico lugar possvel: de volta para sua cultura. Dois anos depois, mais problemas: a ndia
estava em guerra civil pela independncia. Ali Jinnah insistia em seu Paquisto muulmano ao norte, Pandit Nehru estabeleceu a ndia principalmente hindu ao sul.
Ondas de refugiados cresciam para norte e sul e conflitos violentos irromperam.
Temendo pela segurana da filha, a Sra. Granger enviou Susan para a Inglaterra, para ficar com o irmo caula de seu falecido marido, um arquiteto muito prspero
em Haslemere, Surrey. Seis meses depois, a me morreu durante uma manifestao popular.
Susan Granger comemorou seus 17 anos na terra natal de seu pai, na qual jamais estivera antes. Passou um ano numa escola de meninas e trs como enfermeira no Farnham
General Hospital. Aos 21 anos, a menor idade permitida, foi admitida como comissria de bordo pela British Overseas Airways Corporation. Era belssima, com longos
cabelos castanhos, os olhos azuis do pai e uma pele de menina inglesa com bronzeado dourado.
Devido  sua fluncia em hindi, a companhia area colocou-a na rota Londres-Bombaim. Naquela poca a rota era lon

64

FREDERICKFORSYTH ga e demorada: Londres-Roma-Cairo-Basra-Manama-Karachi e Bombaim. Nenhuma tripulao seria capaz de cumpri-la inteiramente; a primeira mudana de
equipe e escala era em Basra, sul do Iraque. Foi num country club na cidade que ela conheceu, em 1951, Nigel Martin, um contador de uma companhia petrolfera. Eles
se casaram no ano seguinte.
Houve uma espera de dez anos at o nascimento do primeiro filho do casal, Mike, e mais trs pelo segundo, Terry. E os dois no poderiam ser mais diferentes um do
outro.
Marek Gumienny olhou para a foto na pasta. Compleio naturalmente morena, olhos e cabelos negros. Compreendeu que os genes da av tinham se repetido uma gerao
depois, no neto; ele no era nem remotamente parecido com o irmo, o acadmico de Georgetown, que herdara do av o rosto rseo e os cabelos ruivos.
Ele se lembrou das objees do Dr. Ben Jolley. Qualquer infiltrado com uma chance de sobreviver dentro da al-Qaeda teria de parecer e falar como um nativo. Gumienny
voltou a ler sobre a infncia dos Martin.
Ambos haviam freqentado sucessivamente a escola da companhia petrolfera Anglo-Iraq e aprendido tambm com seu pai, ou com sua bab, a muulmana gorducha e gentil
do interior do pas, que acabou retornando para sua tribo com economias suficientes para conseguir um homem jovem como marido.
Havia uma referncia que s poderia ter vindo de uma entrevista com Terry Martin: o irmo mais velho vestido em roupas iraquianas, correndo pelo quintal da casa
em Saadun, um subrbio de Bagd, fazendo os convidados de seu pai rirem e comentarem:
- Nigel, esse a at parece um dos nossos!

O AFEGO 65

At parece um dos nossos, pensou Marek Gumienny. Dois dos quatro critrios de Ben Jolley estavam preenchidos: ele parecia e poderia falar como um rabe. Ser que
com um treinamento intensivo no poderia dominar os rituais de orao?
O homem da CIA continuou lendo. Em 1972, quando o vice-presidente Saddam Hussein comeou a nacionalizar as companhias petrolferas estrangeiras, e isso incluiu a
Anglo-Iraq, Nigel Martin permaneceu no pas por mais trs anos antes de levar toda a famlia para casa, em 1975. O menino Mike tinha 13 anos, e estava preparado
para ingressar na escola de Haileybury. Marek Gumienny precisava de uma pausa e um caf.
- Ele seria capaz - disse ele quando voltou do banheiro. - Com treinamento e apoio, realmente seria capaz. Onde est agora?
- Descontando duas temporadas trabalhando para ns quando o pegamos emprestado, ele passou a carreira militar entre os Pra-quedistas e as Foras Especiais. Aposentou-se
no ano passado, depois de completar vinte e cinco anos de servio. E no, ele no aceitaria o trabalho.
- Por que no, Steve? Ele tem tudo.
- Menos os antecedentes. Os pais, a famlia, o local de nascimento. No d para simplesmente entrar na al-Qaeda, exceto como voluntrio jovem para uma misso suicida;
um z-ningum. Uma pessoa suficientemente confivel para se aproximar de um projeto desse calibre deveria ter anos de experincia nas costas. Esse  o problema,
Marek, o grande problema. A no ser...
Ele se calou por alguns instantes, mergulhado em pensamentos. Ento fez que no com a cabea.

66

FREDERICKFORSYTH - A no ser o qu? - inquiriu o americano.
- No,  absurdo demais - disse Hill.
- Vamos, pode falar.
- Estava pensando num ssia. Um homem cujo lugar ele poderia tomar. Um duplo. Mas isso tambm  complicado. Se o indivduo real ainda estiver vivo, a al-Qaeda ir
t-lo em suas fileiras. Se estiver morto, eles sabero. Assim, ficamos na mesma.
-  uma pasta grande - disse Marek Gumienny. - Posso lev-la comigo?
-  uma cpia, claro. Olha, isso  confidencial!
-Voc tem minha palavra, meu velho. Ningum vai colocar os olhos, vai direto para o meu cofre pessoal. Ou para o incinerador.
O vice-diretor de Operaes retornou para Langley, mas uma semana depois ele telefonou novamente. Steve Hill recebeu a chamada  sua mesa em Vauxhall Cross.
-Acho que devo voar at a de novo - disse o vice-diretor sem prembulos. Ambos os homens sabiam a essa altura que o primeiro-ministro ingls dera ao seu amigo na
Casa Branca sua palavra de que colaboraria completamente com o lado britnico do Projeto Stingray.
- Sem problemas, Marek. Pode me adiantar alguma coisa? - Steve Hill estava intrigado. Com a tecnologia moderna, no havia nada que no pudesse ser passado da CIA
para o SIS em segredo absoluto e numa questo de segundos. Assim, por que voar dos EUA para a Inglaterra?
- O ssia - disse Gumienny. - Acho que o encontrei. Dez anos mais jovem, mas parece mais velho. Altura e corpo. Mesmo rosto moreno. Veterano da al-Qaeda.
- Parece adequado. Mas por que ele no est com os bandidos?

O AFEGO 67

- Porque est conosco. Est em Guantnamo. H cinco anos.
-  rabe? - Hill estava surpreso por no saber nada a respeito de um rabe da al-Qaeda, preso em Gitmo durante os ltimos cinco anos.
- No,  afego. Chama-se Izmat Khan. Estou indo.
Uma semana depois, Terry Martin ainda no estava conseguindo dormir por causa daquele comentrio estpido. Por que no ficara de bico calado? Por que tivera de contar
vantagem sobre seu irmo? E se Ben Jolley tivesse dito alguma coisa? Afinal de contas, Washington era uma enorme vila de fofoqueiros. Sete dias depois de fazer o
comentrio no banco traseiro da limusine, Terry telefonou para o irmo.
Mike Martin estava levantando o ltimo punhado de telhas intactas de seu telhado precioso. Finalmente poderia comear a aplicar o impermeabilizante de teto e os
sarrafos para sustent-lo. Dentro de uma semana, seu telhado seria  prova d gua. Ele ouviu seu celular emitir as notas agudas de Lillibolero. O aparelho estava
no bolso de seu colete, dependurado em um prego prximo. Moveu-se centmetro a centmetro sobre tbuas perigosamente frgeis para alcan-lo. A tela de cristal lquido
indicava que a ligao era de seu irmo, em Washington.
- Oi, Terry.
- Mike, sou eu. - Ele no havia se acostumado ao fato de a pessoa do outro lado j saber quem estava telefonando. - Fiz uma tremenda burrada e quero te pedir desculpas.
Faz mais ou menos uma semana, disse uma coisa que no devia ter dito.
- Fantstico. O que voc disse?
- Deixa para l. Oua, se voc receber uma visita de homens de terno... voc sabe de quem estou falando... mande

FREDERICK FORSYTH eles para aquele lugar. O que eu disse foi uma estupidez. Se algum visitar...
De seu ninho de guia, Mike Martin viu o Jaguar cinza-carvo subir lentamente a trilha que ia da estrada at o celeiro.
- Est tudo bem, mano - disse gentilmente. - Acho que eles j chegaram.
Os dois agentes sentaram-se em cadeiras de acampamento do-brveis enquanto Mike Martin acomodava-se num tronco que estava prestes a ser cerrado em pedaos para fornecer
lenha. Martin ouviu a exposio do americano e levantou a sobrancelha ao olhar para Steve Hill.
- Voc  quem sabe, Mike. Nosso governo ofereceu cooperao total  Casa Branca em qualquer coisa que eles quisessem ou precisassem, mas isso no inclui pressionar
ningum a uma misso sem retorno.
- E esta se encaixaria nessa categoria?
- Achamos que no - afirmou Marek Gumienny. - Se conseguirmos descobrir o nome e o paradeiro de um nico integrante da al-Qaeda que soubesse o que est acontecendo
l, retiraremos voc e faremos o resto. S ouvir as conversas e os boatos j deve ser suficiente.
- Mas me fazer passar por... Eu no sei se conseguiria mais passar por rabe. Quinze anos atrs, em Bagd, eu me tornei invisvel bancando um jardineiro humilde
que morava num barraco. Eu no fui submetido a nenhum interrogatrio. Mas desta vez eu teria de responder muita coisa. Afinal, algum que passou cinco anos em poder
dos americanos pode ter se tornado um vira-casaca.
- Sim, certamente eles iriam interrogar voc. Mas, com sorte, o inquisidor ser um membro da cpula, chamado para

O AFEGO 69

fazer o servio. Nesse ponto, voc foge e aponta o sujeito para a gente. Estaremos de tocaia a poucos metros.
Martin remexeu a pasta do homem preso na cela em Guantnamo.
- Este homem  um afego. Ex-talib. Isso significa que ele  um pashtun. Nunca fui fluente em pashto. Eu seria descoberto pelo primeiro afego que aparecesse.
- Voc ser submetido a meses de aprendizado, Mike - disse Steve Hill. - Voc no ir enquanto no sentir que est pronto. Nem enquanto no sentir que dar certo.
E voc estar muito longe do Afeganisto. Os afegos nunca se afastam muito de seu territrio.
- Acha que consegue falar um rabe sofrvel com o sotaque de um pashtun de pouca instruo?
Mike Martin fez que sim.
-  possvel. E se os cabeas de turbante mandarem buscar um afego que realmente conhea esse cara?
Os dois homens mergulharam em silncio profundo. Se isso acontecesse, todos que estavam sentados em torno daquela fogueira sabiam como seria o fim.
Enquanto os dois agentes olhavam para os ps em vez de explicar o que aconteceria a um agente desmascarado no corao da al-Qaeda, Martin abriu a pasta em seu colo.
O que ele viu tirou seu flego.
O rosto era cinco anos mais velho, marcado por sofrimento e por dez anos em sua idade natural. Mas ainda era o menino das montanhas, o quase-cadver em Qala-i-Jangi.
- Eu conheo este homem - disse baixo. - Seu nome  Izmat Khan.
O americano fitou-o boquiaberto.

70

FREDERICK FORSYTH - Como voc pode conhec-lo? Est trancado em Gitmo h cinco anos, desde que foi capturado.
- Eu sei, mas muitos anos antes ns lutamos juntos contra os russos em Tora Bora.
Os homens de Londres e Washington lembraram da pasta de Martin.  claro, aquele ano no Afeganisto, ajudando os mujahedins em sua luta contra a ocupao sovitica.
Era difcil, mas no impossvel, que os dois homens houvessem se conhecido. Durante dez minutos eles lhe fizeram perguntas sobre Izmat Khan para ver com o que mais
ele poderia colaborar. Martin devolveu a pasta.
- Como ele est agora? Ele mudou nos cinco anos que passou com seu pessoal no Campo Delta?
O americano de Langley deu com os ombros.
- Izmat Khan  duro, Mike. Chegou com um ferimento muito feio na cabea e uma concusso dupla. Foi ferido durante a captura. No comeo os mdicos acharam que ele
fosse, bem..., um pouco... retardado. Mas acabamos descobrindo que ele estava desorientado. Por causa da concusso e da viagem. Isso foi no comeo de dezembro de
2001, logo depois do atentado s Torres Gmeas. O tratamento dele foi... como eu poderia dizer... nada gentil. Depois a natureza seguiu seu curso e ele se recuperou
o suficiente para ser interrogado.
- E o que ele contou?
- No muita coisa. Apenas as informaes bsicas sobre si mesmo. Resistiu aos interrogatrios e a qualquer tipo de negociao. Fica apenas fitando a gente, e o que
se v naqueles olhos negros no  amor fraternal. Mas, atravs de terceiros, ns descobrimos que ele fala um pouco de rabe, aprendeu dentro do Afeganisto, e antes
disso passou anos numa madrassa aprendendo o Coro. E dois voluntrios da al-Qaeda nascidos na Inglaterra que

O AFEGO 71

estavam com ele, e que agora j foram libertados, disseram que o ensinaram a falar um pouquinho de ingls. Martin olhou fixamente para Steve Hill.
- Esses homens precisam ser recapturados e mantidos em quarentena - disse Martin.
Hill fez que sim com a cabea.
-  claro. Isso pode ser providenciado. Marek Gumienny levantou-se para caminhar em torno do celeiro enquanto Martin estudava a pasta. Ele fitou o fogo, e nas profundezas
das chamas, viu uma encosta de colina sombria e desmatada num lugar muito distante. Dois homens, um amontoado de rochas e o helicptero sovitico Wind manobrando
para o ataque. Um sussurro do rapaz de turbante: vamos morrer, angls ? Gumienny retornou, acocorou-se no cho e atiou o fogo. A imagem se desfez numa nuvem de
fagulhas.
- Belo projeto voc tem aqui, Mike. Eu diria que isto era trabalho para uma equipe de profissionais. Est fazendo tudo sozinho?
- Tanto quanto posso. Pela primeira vez em 25 anos dis-ponho de tempo.
- Mas no de dinheiro, no ? Martin sorriu, em ntido tom de escrnio.
- H milhares de empresas de segurana por a, caso eu queira um emprego. A guerra do Iraque gerou um nmero imenso de profissionais de segurana, mas mesmo assim
ainda existe mercado. Eles ganham mais em uma semana trabalhando para vocs no Tringulo Sunita do que recebiam como soldados em um semestre inteiro.
- Mas isso significaria voltar para a poeira, a areia, o perigo, a morte prematura. Voc no buscou distncia disso quando se aposentou?

72

FREDERICK FORSYTH - E o que voc est me oferecendo? Frias com a al-Qaeda na Flrida?
Marek Gumienny teve humor suficiente para rir.
- Mike, acusa-se os americanos de muitas coisas, mas no de falta de generosidade para com aqueles que os ajudam. Estou pensando em um cargo de consultor a um salrio
de, digamos, 200 mil dlares anuais, durante um a cinco anos. Pagos em dinheiro, sem necessidade de informar ao Imposto de Renda. Na verdade, sem nem mesmo precisar
de comparecer ao trabalho. Sem necessidade de colocar o pescoo em risco de novo.
Mike Martin pensou em como aquilo parecia com uma cena de seu filme favorito de todos os tempos. T.E. Lawrence ofereceu dinheiro a Auda Abu Tayi para juntar-se a
ele no ataque a Aqaba. Martin se lembrou da resposta genial: Auda no cavalgar at Aqaba pelo ouro britnico; ele cavalgar at Aqaba porque isso lhe agrada . Ele
se levantou.
- Steve, quero que minha casa seja envolvida com uma lona do cho at o telhado. Quando voltar, quero encontr-la exatamente como a deixei.
O controlador do Oriente Mdio concordou.
- Combinado - disse ele.
- Vou pegar meus pertences. No  muita coisa. Tudo vai caber direitinho na mala do carro.
E assim a resposta ocidental ao Projeto Stingray foi combinada debaixo das macieiras da horta de Hampshire. Dois dias depois, um computador selecionou aleatoriamente
o nome crowbar (p-de-cabra), originando assim a Operao Crowbar.
Se fosse descoberto, Mike Martin no seria capaz de se defender. Mas em todos seus relatos sobre o afego que um dia chamara de amigo, Martin escondeu um detalhe.

O AFEGO 73

Talvez achasse que a necessidade de saber era uma rua de mo dupla. Talvez achasse que o detalhe no era importante. Tinha relao com uma conversa murmurada nas
sombras de um hospital em uma caverna, administrado por rabes num lugar chamado Jaji.

PARTE DOIS
Guerreiros

CAPITULO 4

A DECISO NA HORTA DE HAMPSHIRE CONDUZIU A UMA TOMADA de deciso veloz da parte dos dois agentes. Para incio de conversa, ambos precisavam buscar a aprovao de
seus superiores.
Fazer isso parecia fcil, mas no era. Porque a primeira condio de Mike Martin fora de que no mais de uma dzia de pessoas saberia a respeito da Operao Crowbar.
Sua preocupao era completamente compreensvel.
Se 50 pessoas soubessem uma coisa to interessante, uma acabaria dando com a lngua nos dentes. Mesmo sem inteno ou maldade, esse seria um acontecimento inevitvel.
Todo agente que j estivera disfarado conhecia a tenso de precisar confiar na prpria habilidade para no cometer um erro e ser capturado. A preocupao de ser
entregue por um erro imprevisvel representa um estresse constante. Mas o pesadelo final  saber que a captura e a morte longa e agonizante que vem em seguida foi
causada por algum idiota que se gabou com a namorada num bar, e foi ouvido por acaso - esse era o pior de todos os medos. Assim, a condio de Martin foi aceita
prontamente.

78

FREDERICK FORSYTH
Em Washington, John Negroponte concordou que seria o nico a par da misso, e deu sinal verde. Steve Hill jantou com um homem do governo britnico e obteve o mesmo
resultado. Isso somava quatro pessoas.
Mas cada homem tinha conscincia de que no poderia estar pessoalmente no caso 24 horas por dia. Cada um precisava de um assistente para as tarefas dirias. Marek
Gumienny designou um arabista em ascenso na Diviso de Antiterro-rismo da CIA: Michael McDonald largou tudo, explicou  famlia que precisava trabalhar no Reino
Unido durante algum tempo e voou para o leste, enquanto Marek Gumienny voltava para casa.
Steve Hill escolheu seu assistente no Gabinete do Oriente Mdio, Gordon Phillips. Antes de se despedirem, os dois chefes concordaram que cada aspecto da Crowbar
precisaria ser muito bem acobertado, com uma histria plausvel, de modo a impedir que qualquer pessoa abaixo dos dez principais soubesse que um agente ocidental
estava para ser infiltrado na al-Qaeda.
Tanto Langley quanto Vauxhall Cross foram informados de que os dois funcionrios que iriam perder tinham recebido licena de aperfeioamento acadmico, e que ficariam
afastados de suas atividades normais durante aproximadamente seis meses.
Steve Hill apresentou os dois homens que trabalhariam juntos, e contou a eles o que a Crowbar tentaria fazer. Tanto McDonald quanto Phillips mantiveram-se em silncio
absoluto. Hill hospedou ambos no no edifcio do QG s margens do Tmisa, mas num abrigo, um dos muitos que a Firma mantinha no interior.
Depois que ambos haviam desfeito as malas e estavam reunidos na sala de visita, Steve Hill entregou uma pasta grossa a cada um.

O AFEGO 79

- A busca de um QG de Operaes comea amanh - disse ele. - Vocs tm 24 horas para decorar isto. Este  o homem que vai entrar. Vocs trabalharo com ele at esse
dia, e por ele depois disso. - Ele jogou na mesinha de caf uma pasta mais fina. - Este  o homem que ele ir substituir. Ns sabemos muito pouco sobre ele. Isso
 tudo que os inquisidores americanos conseguiram extrair dele em centenas de horas de interrogatrio em Gitmo. Decorem isso tambm.
Depois que seu superior se retirou, os dois homens mais jovens pediram aos funcionrios da casa um bule grande de caf e comearam a ler.
Foi durante uma ida ao Show Areo de Farnborough, no vero de 1977, que o ento estudante Martin se apaixonou. Tinha 15 anos. Seu pai e seu irmo caula estavam
com ele, fascinados com os caas e os bombardeiros, vos acrobticos e prottipos. Para Mike, o ponto alto foi a apresentao do Red Devils, o grupo acrobtico do
Regimento de Pra-quedistas, descendo em queda livre de pontinhos no cu para se arremeterem at a terra e, abrindo seus pra-quedas no ltimo momento, pousar em
cheio nos alvos no solo. Foi naquele instante que Mike soube o que queria fazer.
Em 1980, escreveu uma carta pessoal ao Regimento de Pra-quedistas durante o ltimo perodo em Haileybury e foi chamado para uma entrevista no Depsito Regimental
em Aldershot para setembro daquele mesmo ano. Chegou e ficou olhando para o velho Dakota - do qual seus predecessores haviam saltado para tentar capturar a ponte
em Arnhem - at o sargento escoltar o grupo de cinco ex-estudantes at a sala de entrevistas.

80

FREDERICK FORSYTH
Ele se classificou na escola como um estudante apenas razovel, porm um atleta soberbo. Para o Regimento de Pra-quedistas, era um timo perfil. Martin foi aceito
e comeou a treinar no fim do ms. Foram 22 semanas extenuantes que levariam os sobreviventes at abril de 1981.
Houve quatro semanas de treinamento bsico, manejo de armas de fogo, camuflagem e treinamento fsico; depois, mais duas semanas que incluram tambm primeiros socorros,
comunicaes e QBN (treinamento contra armas qumicas, bacteriolgicas e nucleares).
A stima semana foi de mais treinamento fsico, cada vez mais rgido; mas no to ruim quanto as semanas oito e nove - marchas de resistncia atravs da cordilheira
Brecon em Gales no meio do inverno, onde homens em excelentes condies fsicas j morreram de hipotermia ou exausto. As baixas logo comearam.
A semana dez consistiu no curso de tiro em Hythe, Kent. Ali, Martin, que acabara de completar 19 anos, foi classificado como atirador de elite. As semanas 11 e 12
foram as de teste - apenas subir e descer correndo por colinas arenosas carregando troncos de rvore na lama, sob chuva e granizo.
- Semanas de teste? - murmurou Phillips. - O que foram as outras?
Depois das semanas de teste, os rapazes remanescentes obtiveram as cobiadas boinas vermelhas. Depois, passaram mais trs semanas em Brecons fazendo exerccios de
defesa, patru-lhamento e tiro real. A essa altura, fim de janeiro, a cordilheira Brecons estava escura e congelante. Os homens dormiam ao relento, sem o luxo de
fogueiras.
As semanas 16 a 19 cobriram aquilo que atrara Mike Martin; o curso de pra-quedismo na RAF de Abingdon, onde

O AFEGO 81

mais alguns rapazes pularam fora- e no apenas do avio. No final veio a parada das asas , quando as insgnias de pra-quedista foram alfinetadas nos uniformes.
Naquela noite, o velho clube 101 em Aldershot abrigou mais uma festa de arromba.
Houve mais duas semanas dedicadas a um exerccio de campo conhecido como ltima cerca , e alguns exerccios de aperfeioamento em campo de parada. A semana 22 assistiu
a Formatura, quando pais orgulhosos finalmente viram seus rapazinhos surpreendentemente transformados em soldados.
Desde o comeo o recruta Mike Martin fora classificado como oficial em potencial. Em abril de 1981, Martin ingressou num novo curso na Royal Military Academy, em
Sandhurst, formando-se em dezembro como segundo-tenente. Se ele achava que a glria o aguardava, estava redondamente enganado.
Existem trs batalhes no Regimento de Pra-quedistas, e Martin foi designado para o Terceiro, que no fazia saltos regulares.
Durante trs anos em cada nove, ou uma temporada em cada trs, todos os batalhes so dispensados do pra-quedismo e usados como soldados de infantaria. Os pra-quedistas
odiavam o Terceiro.
Martin, comandante de peloto, foi designado para o Peloto de Recrutas, submetendo os recm-chegados aos mesmos sofrimentos pelos quais passara. Poderia ter permanecido
no Terceiro Regimento pelo restante da temporada se no fosse um cavalheiro chamado Leopoldo Galtieri. No dia 2 de abril de 1982, o ditador argentino invadiu as
ilhas Falkland, ou Malvinas, como eram chamadas pelos argentinos. O Terceiro de Pra-quedistas recebeu instrues para se preparar para a viagem.

82

FREDERICK FORSYTH
No perodo de uma semana, conduzida pela implacvel Margaret Thatcher, uma fora-tarefa britnica seguiu para o sul numa frota com destino ao outro lado do Atlntico,
onde os aguardava o inverno rigoroso, com mares agitados e chuva inclemente.
A jornada foi percorrida no navio Canberm, com uma primeira parada em Ascenso, ilhota aoitada por vento constante. Ali houve uma pausa enquanto, muito longe, os
ltimos esforos diplomticos eram empreendidos para persuadir Galtieri a retirar suas tropas ou Margaret Thatcher a recolher seus navios. Os dois lados sabiam que
cedendo correriam o risco de cair do poder. O Canberra voltou a navegar, seguindo o nico porta-avies da expedio, o Ark Royal.
Quando ficou claro que a invaso era inevitvel, Martin e sua equipe foram transferidos de helicptero do Canberra para uma barcaa de desembarque. Assim perderam
as condies de vida decentes do navio. Na mesma noite tempestuosa em que Martin e seus homens foram transferidos em um helicptero Sea King, outro aparelho idntico
caiu e afundou, matando 19 soldados do Regimento SAS (Servio Areo Especial). Foi a maior perda do grupamento em uma s noite.
Martin conduziu seus 30 homens para a praia com o restante do Terceiro no porto de San Carlos. Ficava a quilmetros da capital da ilha, Porto Stanley, mas justamente
por isso eles no encontraram resistncia. Sem nenhuma pausa, o Regimento de Pra-quedistas e os fuzileiros navais iniciaram a rdua marcha atravs de lama e chuva
para o leste, at a capital.
Carregavam mochilas Bergen to pesadas que tinham a impresso de levar outro homem nas costas. A apario de um

(r) AFEGO 83

Skyhawk argentino exigia um mergulho na lama, mas os argentinos estavam mais preocupados com os navios na costa do que com os homens na lama. Se as embarcaes fossem
afundadas, os homens em terra estariam mortos.
O verdadeiro inimigo era o frio, o frio constante e conge-lante, o passeio exaustivo por um terreno que no sustentava uma nica rvore. At monte Longdon.
Parando debaixo das colinas, o Terceiro Regimento de Pra-quedistas acantonou-se numa fazenda chamada Estncia House e se preparou para fazer aquilo pelo qual seu
pas fizera-os viajar por 11 mil quilmetros. Era a noite de 11 para 12 de junho.
Era para ter sido um ataque noturno silencioso. Permaneceu assim at o cabo Milne pisar numa mina. Depois disso, ficou barulhento. As metralhadoras argentinas abriram
fogo e chamas iluminaram as colinas, fazendo parecer que havia amanhecido no vale. Os soldados do Terceiro Regimento de Pra-quedistas podiam correr para se proteger
ou entrar no fogo e tomar Longdon, o que resultou em 23 mortos e mais de 40 feridos.
Foi a primeira vez, enquanto as balas varavam o ar em torno de sua cabea e homens caam ao seu lado, que Mike Martin sentiu aquele gosto de cobre na lngua, o sabor
do medo.
Mas nada o tocou. De seu peloto de 30 homens, incluindo um sargento e trs cabos, seis foram mortos e nove feridos.
Os soldados argentinos que protegiam a cordilheira eram recrutas convocados, rapazes dos pampas ensolarados - os filhos dos ricos podiam evitar o servio militar
- e queriam ir para casa, sair da chuva, frio e lama. Saram de seus abrigos antiareos e trincheiras e recuaram para buscar refgio em Port Stanley.

84

FREDERICK FORSYTH
Ao amanhecer, Mike Martin ps-se de p no topo da cordilheira Wireless, olhou para a cidade e o sol nascente a leste, e redescobriu o Deus de seus ancestrais, de
quem se afastara havia muitos anos. Fez suas preces e jurou jamais esquecer de fazer isso de novo.
Na poca em que Mike Martin, ento com dez anos, estava se fingindo de rabe no quintal do pai em Saadun, Bagd, para o deleite dos convidados iraquianos, um menino
nascia a quilmetros dali.
A oeste da estrada, seguindo do Peshawar paquistans at o Jalalabad afego, fica a cordilheira de Spin Gahr, as montanhas Brancas, dominadas pela imensa Tora Bora.
Vistas de longe, essas montanhas parecem uma barreira entre os dois pases. Sombrias e frias, tm os cumes cobertos por neve durante o ano inteiro,  exceo do
inverno, quando ficam completamente cobertas.
A cordilheira Spin Gahr estende-se para dentro do Afeganisto com a cordilheira Safed no lado do Paquisto. Descendo at as plancies corre uma mirade de riachos
que escoam a neve derretida e a chuva de Spin Gahr, e essas formam muitos vales onde em pequenas reas de terra podem se cultivar hortas ou servir pasto a rebanhos
de ovelhas.
A vida ali  dura, e com os servios essenciais sendo to esparsos, as comunidades dos vales so pequenas e espalhadas. As pessoas nascidas nessa regio so aquelas
que o antigo Imprio Britnico conhecia e temia, chamando-os de pathans, agora pashtuns. Nessa poca eles haviam lutado por trs de sua proteo rochosa com mosquetes
compridos de cano de bronze chamados jezail, com os quais cada homem possua a preciso de um atirador moderno.

O AFEGO 85

Rudyard Kipling, o poeta do antigo Raj, resumiu em apenas quatro linhas o poder letal dos montanheses rudes nos combates contra os soldados ingleses altamente educados:
Uma escaramua num posto de fronteira,
E com um disparo do alto da montanha,
Duas mil libras de educao,
Tombam diante de um jezail de dez rupias.
Em 1972, num daqueles vales altos, havia uma aldeia chamada Maloko-zai, batizada, como tantas outras, em honra de um fundador-guerreiro morto h muito tempo, Havia
cinco assentamentos cercados de muros na aldeia, cada qual lar de uma famlia de cerca de 20 pessoas. O chefe da aldeia era Nuri Khan, e foi em seu assentamento,
e em torno de sua fogueira, que os homens reuniram-se certa noite de vero para bebericar um ch fumegante sem leite ou acar.
Como acontecia com todos os assentamentos, as residncias e os estbulos eram construdos contra os muros, de modo que eram voltados para dentro. As fogueiras reluziam,
enquanto o sol punha-se muito longe no oeste, e a escurido acobertava as montanhas, trazendo frio at no alto vero.
Dos cmodos das mulheres vinham gritos abafados, mas se um fosse especialmente alto, os homens cessariam sua conversa alegre e esperariam para ver se receberiam
notcias. A esposa de Nuri Khan estava parindo o quarto filho e seu marido rezou para que Al lhe desse um segundo homem. Era bom ter filhos do sexo masculino para
cuidar do rebanho e defender o assentamento quando se tornasse adulto. Nuri Khan tinha um menino de oito anos e duas filhas.

86

FREDERICK FORSYTH
A escurido era completa, e apenas as chamas iluminavam os rostos com narizes aduncos e barbas negras, quando uma parteira chegou correndo das sombras. Ela sussurrou
na orelha do pai e seu rosto de mogno quebrou num sorriso faiscante.
- Allahu akhbar, eu tenho um filho! - gritou. Seus parentes homens e seus vizinhos levantaram-se todos de uma s vez, e o ar crepitou e rugiu com o som de seus fuzis
atirando para o cu noturno. Houve muitos abraos, congratulaes e agradecimentos ao misericordioso Al, que concedera um filho ao seu servo.
- Como ir cham-lo? - perguntou um pastor que residia nas vizinhanas.
- Vou cham-lo Izmat em homenagem ao meu av, que sua alma repouse em paz eterna - disse Nuri Khan. E assim foi feito quando, alguns dias depois, um imame chegou
 aldeia para a cerimnia de nomeao e circunciso.
No houve nada de extraordinrio na criao do menino. Quando pde engatinhar, ele engatinhou, e quando pde correr, correu furiosamente. Como todo garoto da zona
rural, queria fazer coisas que os meninos mais velhos faziam, e aos 5 anos lhe foi confiada a responsabilidade de ajudar a conduzir os rebanhos at os pastos elevados
no vero, e vigi-los enquanto as mulheres cortavam forragem para o inverno.
Ele desejava ser libertado da casa das mulheres, e no dia de maior orgulho de sua vida, finalmente recebeu permisso para juntar-se aos homens em torno do fogo e
ouvir as histrias de como os pashtuns tinham derrotado os ingleses de casaca vermelha naquelas montanhas, havia mais de 150 anos, como se tivesse sido ontem.
Seu pai era o homem mais rico da aldeia, da nica forma que um homem poderia ser rico - em vacas, ovelhas e bodes.

O AFEGO

87

Os animais, tratados com cuidado e trabalho duro, forneciam carne, leite e couro. Plantaes de milho ofereciam mingau e po; os pomares e as nogueiras produziam
frutas e leo de nozes.
No havia necessidade de sair da aldeia, de modo que Izmat Khan no o fez durante os primeiros 8 anos de vida. As cinco famlias dividiam a pequena mesquita e reuniam-se
s sextas-feiras para cerimnias comunitrias. O pai de Izmat era devoto mas no fundamentalista, e decerto no fantico.
Alm daquela montanha, o Afeganisto chamava a si mesmo de Repblica Democrtica do Afeganisto. O nome era inadequado. O governo era comunista e fortemente apoiado
pela URSS. Em termos religiosos, isso era estranho, porque o povo do interior era tradicionalmente composto de muulmanos devotos para quem o atesmo era inaceitvel.
Mas de forma igualmente tradicional, os afegos das cidades eram moderados e tolerantes - o fanatismo seria imposto a eles mais tarde. As mulheres eram instrudas,
e poucas cobriam os rostos. Cantar e danar no apenas era permitido como comum. E a temida polcia secreta perseguia os suspeitos de oposio poltica, sem se preocupar
com a negligncia religiosa.
Dos dois elos que a aldeia de Maloko-zai mantinha com o mundo exterior, um era o ocasional grupo de nmades kuchi que passava por eles com um comboio de mulas carregado
de contrabando, evitando a grande estrada Trunk atravs da passagem Khyber, com suas patrulhas e guardas de fronteira, procurando pela trilha para a cidade de Parachinar,
no Paquisto.
Os nmades traziam notcias das plancies e das cidades, do governo na longnqua Cabul e do mundo alm dos vales. E

88

FREDERICKFORSYTH havia o rdio, uma antigidade guardada como um tesouro, que chiava e apitava at finalmente murmurar palavras que podiam ser compreendidas. Esses
murmrios eram da rdio em pashto da BBC, levando aos pashtuns uma verso no-comu-nista do mundo. O menino teve uma infncia pacfica. Ento vieram os russos.
Para os aldees de Maloko-zai, pouco importava quem estava certo ou errado. No sabiam nem se incomodavam com o fato de seu presidente comunista ter desagradado
seus mentores em Moscou, porque no conseguia controlar as provncias. Importava apenas que, proveniente do Uzbequisto sovitico, um exrcito inteiro de Moscou
cruzara o rio Amu Darya, atravessara a passagem Salang e tomara Cabul. O caso no era (ainda) a respeito do isl contra o atesmo; era um insulto.
A educao de Izmat Khan tinha sido extremamente bsica. Aprendera os versculos do Coro necessrios para as preces, embora fossem numa lngua chamada rabe, que
ele no conseguia compreender. O imame local no era residente. Na verdade, era Nuri Khan quem conduzia as preces. Ele ensinara aos meninos da aldeia os rudimentos
da leitura e da escrita, mas apenas em pashto. Foi o pai de Izmat Khan quem lhe ensinou as regras do pukhtunwali, o cdigo segundo o qual um pashtun deve viver.
Honra, hospitalidade, a necessidade da vendeta para vingar insultos - essas eram as regras do cdigo. E Moscou as insultara.
Foi nas montanhas que a Resistncia comeou, e eles se autodenominaram guerreiros de Deus, mujahedins. Mas primeiro os montanheses precisavam de uma conferncia,
uma shura, para decidir o que fazer e quem iria lider-los.

O AFEGO 89

Eles nada sabiam sobre a Guerra Fria, mas ento lhes foi dito que tinham amigos poderosos, os inimigos da URSS. Isso fazia perfeito sentido. Aquele que  inimigo
de meu inimigo... O primeiro deles era o Paquisto, que estava bem ao lado e era regido por um ditador fundamentalista, o general Zia-ul-Haq. Apesar da diferena
religiosa, ele era aliado do poder cristo chamado Amrica do Norte, e sua amiga, a Inglaterra, que um dia fora sua inimiga.
Mike Martin havia provado a ao e gostado dela. Ele cumpriu uma temporada na Irlanda do Norte, operando contra o IRA, mas as condies eram miserveis, e apesar
do perigo constante de levar uma bala de fuzil nas costas, as patrulhas eram tediosas. Ele ficou atento para oportunidades e, na primavera de 1986, candidatou-se
ao SAS.
Uma proporo alta dos membros do SAS provm do Regimento de Pra-quedistas porque seu treinamento e modo de combate so similares, mas o SAS alega que os deles
so mais rigorosos. Os documentos de Martin passaram de mo em mo pela Secretaria de Registros, em Hereford, onde sua fluncia em rabe foi notada com interesse.
Mike foi convidado para um curso bsico.
O SAS alega que recebem homens em forma e ento comeam a trabalhar neles. Martin fez o curso inicial de seis semanas junto com outros oriundos do Regimento de Pra-quedistas,
infantaria, cavalaria, blindados, artilharia e at engenheiros. O SAS era bem aberto, ao contrrio de outras unidades de elite, como o SBS (Esquadro Especial de
Barcos), que aceitava apenas fuzileiros navais.
O curso inicial do SAS  simples, baseado num nico preceito. No primeiro dia, um sargento sorridente disse a todos eles:

90

FREDERICK FORSYTH -Aqui no tentamos treinar vocs. Ns tentamos quebrar vocs.
E realmente faziam isso. Apenas dez por cento dos candidatos passavam no curso inicial . Isso economizava tempo. Martin passou. Ento veio o treinamento de aperfeioamento;
treinamento de selva em Belize, e mais um ms extra na Inglaterra, dedicado  resistncia a interrogatrio. Resistncia significa tentar permanecer em silncio enquanto
algumas prticas extremamente desagradveis so infligidas. A boa notcia  que tanto o integrante do SAS quanto o voluntrio tm o direito de insistir, uma vez
a cada hora, em retornar  sua unidade.
No vero de 1986, Martin comeou a trabalhar como comandante de tropa no posto de capito. Optou por um Esquadro A , os pra-quedistas, uma escolha natural para
um ex-membro do Regimento de Pra-quedistas.
Se no Regimento de Pra-quedistas o domnio de rabe de Martin no tivera uso, no SAS tinha, dado seu relacionamento longo e ntimo com o mundo rabe. O SAS foi
formado no Deserto Ocidental em 1941, e jamais perdeu sua empatia com as areias rabes.
O SAS tinha a reputao de ser a nica unidade do Exrcito que dava lucro. Isso no era verdade, mas era quase. Os homens do SAS so os guarda-costas e treinadores
de guarda-costas mais cobiados do mundo. Por toda a Arbia, os sul-tes e emires sempre procuraram uma equipe do SAS para treinar seus prprios guardas pessoais,
e pagavam bem por isso. No vero de 1987, Martin cumpria sua primeira misso, com a Guarda Nacional Saudita, em Riad, quando foi chamado para casa.

O AFEGO

91

-No gosto desse tipo de coisa-disse o oficial-comandante em seu gabinete em Sterling Lines, o QG do Regimento em Hereford. - No gosto mesmo. Mas os vermes verdes
querem voc emprestado. Tem a ver com o fato de voc falar rabe.
Ele usara a expresso ocasionalmente amistosa reservada por soldados para definir o pessoal da inteligncia. Ele se referiu ao SIS - A Firma.
- Eles no tm ningum que fale rabe? - indagou Martin.
- Sim, escritrios cheios deles. Mas no  apenas uma questo de falar. E no  realmente a Arbia. Eles querem algum que v para trs das linhas soviticas no
Afeganisto e trabalhe com a Resistncia, os mujahedins.
O ditador militar do Paquisto decretou que nenhum soldado ocidental receberia permisso de entrar no Afeganisto atravs do Paquisto. O ditador no disse isso,
mas sua prpria inteligncia militar, o ISI, administrara o apoio americano aos mujahedins, e ele no queria que um soldado americano ou britnico, infiltrado atravs
do Paquisto, fosse capturado pelos russos e exibido como trofu.
Mas, durante a ocupao sovitica, os britnicos decidiram que deveriam oferecer seu apoio no a Hekmatyar, o homem escolhido pelo Paquisto, mas ao tadjique Shad
Massoud. Em vez de se esconder na Europa ou no Paquisto, Massoud estava causando danos reais aos invasores. O problema era levar esse apoio at ele. Seu territrio
ficava muito ao norte.
Assegurar bons guias com as unidades mujahedins nas proximidades da passagem Khyber no era problema. Como na poca do Raj, algumas peas de ouro abriam muitas portas.
Havia um aforismo que dizia que no era possvel comprar a lealdade de um afego, mas era possvel alug-la.

92

FREDERICK FORSYTH - Capito, a palavra-chave em cada estgio  negabilida-de - haviam dito a Martin no QG do SIS, que nessa poca era uma casa com um sculo de idade
perto do bairro de Elephant and Castle. -  por causa disso que voc ter de dar baixa do Exrcito.  apenas uma formalidade, porque quando voltar - ele teve a gentileza
de dizer quando , e no se - voc ser completamente reintegrado.
Mike Martin sabia perfeitamente que dentro de suas fileiras o SAS j possua a ultra-secreta Ala de Luta Revolucionria, cuja misso era causar o mximo de problema
possvel para os regimes comunistas no mundo inteiro. Ele mencionou isso.
- Esta misso  ainda mais secreta - disse o oficial superior. - Ns demos  unidade o nome Unicrnio... porque ela no existe. Ela nunca conta com mais de 12 homens,
e no momento s tem quatro. Ns realmente precisamos penetrar no Afeganisto atravs da passagem Khyber, obter um guia local e seguir para o norte at o vale Panjshir,
onde opera o Shah Massoud.
- Vamos levar presentes? - perguntou Martin.
- Apenas lembranas, sinto dizer.  uma questo do que um homem pode carregar. Mas depois poderemos adotar comboios de mulas e mais equipamento, caso Massoud envie
seus prprios guias para o sul da fronteira.  uma questo de primeiro contato, compreende?
- E o presente?
-Tabaco, ele gosta de nosso tabaco. Ah, sim, e dois lana-msseis terra-ar Blowpiper. Ele tem tido muitos problemas com ataques areos. Voc ter de ensinar os homens
dele a usarem os lana-msseis. Calculo que voc ficar fora seis meses. Como se sente a respeito?

O AFEGO

93

Antes de a invaso completar seis meses, estava claro que os afegos no fariam a nica coisa que sempre lhes fora impossvel: unir-se. Depois de semanas de conversa
em Peshawar e Islamabad, com o Exrcito paquistans insistindo que s distribuiria recursos e armas americanos aos resistentes de sua confiana, o nmero de grupos
de Resistncia rivais foi reduzido a sete. Cada um deles tinha um lder poltico e um comandante de guerra. Esses eram os Sete de Peshawar.
Apenas um no era pashtun - o professor Rabbani e seu carismtico lder de guerra Ahmad Shah Massoud, ambos tadjiques do norte distante. Dos outros seis, trs logo
foram apelidados de Comandantes Gucci porque raramente apareciam no Afeganisto j ocupado, preferindo usar vestimentas ocidentais quando estavam no exterior.
Dos outros trs, dois, Sayyaf e Hekmatyar, eram simpatizantes fanticos da Irmandade Muulmana do Ultra-Isl, o ltimo to cruel e vingativo que no fim acabou executando
mais afegos que russos.
O homem que controlava as tribos na provncia de Nan-garhar, onde Izmat Khan nascera, era o mula Maulvi Younis Khal. Era um intelectual e sacerdote, mas tinha um
brilho no olhar que transmitia gentileza, em contraposio  crueldade de Hekmatyar, que o odiava.
Embora fosse o mais velho dos sete, com mais de 60 anos, durante os dez anos seguintes, Younis Khals empreendeu incurses ao Afeganisto ocupado para comandar pessoalmente
seus homens. Quando no estava l, seu comandante era Abdul Haq.
Em 1980, a guerra chegara aos vales de Spin Gahr. Os soviticos estavam espalhados em grande nmero por Jalalabad, abaixo das montanhas, e sua fora area iniciara
ataques s vilas nas

94

FREDERICK FORSYTH montanhas. Nuri Khan jurara aliana a Younis Khals como seu comandante militar e recebera o direito de formar seu prprio lashkar, uma milcia
de proprietrios de fazendas.
Ele poderia abrigar grande parte da riqueza animal de sua aldeia nas inmeras cavernas naturais das montanhas Brancas, e seu pessoal tambm poderia abrigar-se ali,
quando comeassem os ataques areos. Mas ele decidiu que era hora de as mulheres e crianas cruzarem a fronteira para buscar refgio no Paquisto.
Obviamente, o pequeno comboio precisaria de um homem para gui-lo na jornada e na estada em Peshawar, por mais que ela demorasse. Como mahram, designou o prprio
pai, que tinha mais de 60 anos e era meio manco. Burros e mulas foram providenciados para a viagem.
Contendo as lgrimas pela vergonha de ser despachado como se fosse uma criana, Izmat Khan, ento com oito anos, foi abraado por seu pai e seu irmo, segurou a
rdea da mula que carregava sua me e se dirigiu para os picos altos e o Paquisto. Passariam sete anos antes que ele retornasse do exlio, e quando voltasse seria
para lutar contra os russos com uma ferocidade fria.
Para se legitimarem aos olhos do mundo, os comandantes militares concordaram que cada um formaria um partido poltico. O de Younis Khals foi chamado Hizb-Islami,
e todos sob sua regncia deveriam afiliar-se a ele. Fora de Peshawar, uma profuso de cidades de tendas brotara sob os auspcios de uma tal Organizao das Naes
Unidas, embora Izmat Khan jamais tivesse ouvido falar dela. A ONU concordara que cada comandante militar, agora travestido de lder de partido, deveria ter seu prprio
campo de refugiados, ao qual s poderiam ser admitidos os membros do prprio partido.

O AFEGO

95

Havia outra organizao distribuindo comida e cobertores. Sua insgnia era uma cruz vermelha. Izmat Kahn tambm jamais vira uma dessas, mas sabia o que era sopa
quente, e depois da travessia rdua pelas montanhas, ele tomou a que lhe foi oferecida. Havia mais uma condio exigida dos habitantes dos campos e daqueles que
se beneficiavam da generosidade do Ocidente, afunilada pela ONU e pelo general Zia-ul-Haq: os meninos deveriam ser educados na madrassa, em cada campo de refugiados.
Esta seria a nica educao. Eles no aprenderiam matemtica, cincias, histria ou geografia. Eles aprenderiam apenas a recitar os versculos do Coro. De resto,
eles assimilariam apenas sobre guerra.
A maioria dos imames das escolas cornicas recebia salrios pagos pela Arbia Saudita, e muitos deles eram sauditas. Traziam consigo a nica verso do isl permitida
na Arbia Saudita: wahabismo, o credo mais rgido e intolerante dentro do isl. E assim,  vista do smbolo de cruz que fornecia alimentos e remdios, toda uma gerao
de jovens afegos sofreu lavagem cerebral para se tornarem fanticos.
Nuri Khan visitava sua famlia tantas vezes quanto podia, duas ou trs vezes ao ano, deixando seu lashkar nas mos do filho mais velho. Mas era uma jornada rdua,
e Nuri Khan parecia mais velho a cada visita. Ao chegar em 1987, parecia abatido e doente. O irmo mais velho de Izmat morrera num bombardeio, enquanto conduzia
outras pessoas at a segurana das cavernas. Izmat tinha 15 anos e seu peito quase explodiu com orgulho quando seu pai lhe deu ordens para voltar, juntar-se  resistncia
e tornar-se um mujahid.
 claro que as mulheres choraram, assim como seu av, que no sobreviveria a mais um inverno na plancie fora de Peshawar.

96

FREDERICK FORSYTH
Ento Nuri Khan, seu filho sobrevivente, e os oito homens que trouxera para verem suas famlias, voltaram-se para oeste a fim de cruzar os picos da provncia de
Nangarhar, e para a guerra.
O menino que retornou era diferente e a paisagem que encontrou estava dilacerada. Nos vales, no sobrara de p um nico casebre de pedras. Os caas Sukhoi e os helicpteros
Hind, equipados com metralhadoras, haviam devastado os vales das montanhas Panjshir ao norte, onde Shah Massoud tinha sua zona de combate, at o Paktia e a cordilheira
Shinkay. O povo das plancies podia ser controlado ou intimidado pelo exrcito afego ou pela Khad, a polcia secreta disciplinada pela KGB sovitica.
Mas o povo das montanhas e aqueles das plancies e cidades que haviam escolhido juntar-se a eles eram irrastreveis, e, como se revelou mais tarde, inconquistveis.
Apesar da cobertura area, que os britnicos jamais haviam tido, os soviticos estavam passando por uma coisa parecida com o destino da coluna britnica reduzida
a pedaos na marcha suicida de Cabul e Jalalabad.
As estradas eram perfeitas para emboscadas e as montanhas, inalcanveis, exceto pelo ar. E a entrega, em mos mujahedins, de msseis americanos Stinger, desde setembro
de 1986, forara os soviticos a voarem mais alto, alto demais para serem precisos, ou correrem o risco de serem abatidos. As perdas soviticas aumentavam, com baixas
devido a ferimentos e doenas, e mesmo numa sociedade controlada como a Unio Sovitica, a moral estava afundando como uma pedra no rio.
Era uma guerra de selvageria cruel. Faziam-se poucos prisioneiros, e os mortos eram os felizardos. Os cls das montanhas odiavam os pilotos russos que, se capturados
vivos, podiam ser

O AFEGO

97

pregados ao sol com um pequeno corte na parede do estmago para verem suas entranhas fritarem ao calor at serem abenoados com a morte. Ou podiam ser entregues
s mulheres com suas facas de despelar.
A reao sovitica era atingir com bomba, foguete ou balas qualquer coisa que se movesse: homem, mulher, criana ou animal. Semearam as montanhas com uma quantidade
sem precedentes de minas lanadas dos caas; milhes de minas, que acabariam por criar uma nao de muletas e prteses. Antes que a guerra acabasse, haveria um milho
de afegos mortos, um milho de mutilados e cinco milhes de refugiados.
Izmat Khan aprendera tudo sobre armas no campo de refugiados. Sua favorita,  claro, era o AK-47. Era uma ironia suprema o fato de que esta arma sovitica, o fuzil
de assalto favorito de cada movimento dissidente e terrorista do mundo, agora estivesse sendo usado contra eles. Mas os americanos estavam fornecendo as armas por
um motivo: todo afego poderia encontrar munio compatvel na mochila de um russo morto.
Alm do fuzil de assalto, a arma preferida era a RPG (granada propelida por foguete). Era uma arma simples, fcil de usar e recarregar, e mortal quando disparada
a curto ou mdio alcance. Ela tambm era fornecida pelo Ocidente.
Grande para seus 15 anos, e tentando desesperadamente cultivar uma barbicha, Izmat Khan estava sendo transformado num homem bruto por aquelas montanhas. Testemunhas
viram montanheses pashtuns moverem-se como bodes atravs de seu prprio terreno, pernas aparentemente imunes  exausto, respirando com facilidade onde outros homens
mal conseguiam obter ar para se manter vivos.
Convocado pelo pai, Izmat Khan voltara para casa por um ano. Encontrara um estranho ao lado de seu pai: um homem

98

FREDERICKFORSYTH de rosto queimado pelo sol, barba preta, usando a tpica tnica afeg, o shalwar kameez, por cima de um colete sem mangas e calado com botas de
caminhada. No cho estava a maior mochila que o menino vira em sua vida, alm dos lana-msseis embrulhados em couro de ovelha. Na cabea, usava um turbante pashtun.
- Este homem  um hspede e um amigo - disse Nuri Khan. - Ele veio nos ajudar e lutar conosco. Ele precisa levar suas armas at Shah Massoud, no Panjshir, e voc
ir gui-lo at l.

CAPTULO 5

O JOVEM PASHTUN FITOU O ESTRANHO. ELE NA PARECERA entender o que Nuri Khan dissera.
- Ele  afego? - perguntou Izmat Khan.
- No, ele  ingls.
Izmat Khan ficou estupefato. Aquele era o inimigo antigo. Alm disso, ele era o que o imame na madrassa condenara com ardor e constncia. Ele devia ser kafir, um
descrente, um nasrani, um cristo, destinado a queimar no fogo do inferno por toda a eternidade. E ele deveria escoltar aquele homem por centenas de quilmetros
at um grande vale no norte? Passar dias e noites em sua companhia? E seu pai, um homem bom, um muulmano devoto, tinha-o chamado de amigo. Como era possvel?
O ingls levou a mo ao peito, perto do corao.
- Salaam aleikhem, Izmat Khan - disse ele.
O pai no falava rabe, embora agora houvesse muitos voluntrios rabes na cordilheira. Os rabes mantinham-se  parte, trabalhando o tempo inteiro, de modo que
no havia motivo para misturar-se com eles e aprender um pouco de sua lngua. Mas Izmat lera o Coro vrias vezes; ele era escrito apenas em

100 FREDERICK FORSYTH rabe; e seu imame falava apenas rabe da Arbia Saudita. Izmat detinha um bom conhecimento dessa lngua.
-Aleikhem as-salaam- respondeu. - Qual  seu nome?
- Mike - disse o homem.
- Ma-iqui - tentou dizer Izmat. Nome estranho.
- Bom, vamos tomar ch - disse o pai.
Estavam abrigados na entrada de uma caverna a cerca de 16 quilmetros das runas de sua aldeia. Mais para o interior da caverna ardia uma pequena fogueira, longe
o bastante da entrada para que sua fumaa no sasse, atraindo assim uma aeronave sovitica.
- Dormiremos aqui esta noite. Pela manh vocs seguiro para o norte. Irei para o sul, juntar-me a Abdul Haq. Haver mais uma operao contra a estrada Jalalabad-Candahar.v
Comeram carne de bode e mordiscaram bolinhos de arroz. Depois dormiram. Antes do amanhecer, os dois que iam para o norte foram acordados e partiram. A jornada conduziu-os
por um labirinto de vales onde existiam alguns abrigos. Mas entre os vales havia cadeias de montanhas, e as encostas eram ngremes e cobertas de rochas e cascalho,
no proporcionando quase nenhum abrigo. O mais sensato seria escalar as montanhas ao luar e permanecer nos vales durante o dia.
Tiveram azar no segundo dia. Para aumentar a velocidade da marcha, deixaram o acampamento noturno antes do amanhecer, e assim que clareou viram-se forados a atravessar
uma ampla extenso de terreno coberto por rochas e cascalho para se abrigar na espinha dorsal da colina mais prxima. Esperar significaria passar o dia inteiro escondido,
at o anoitecer. Izmat Khan insistiu que fizessem a travessia  luz do dia. Na metade do caminho, ouviram um rugido de hliccs.

O AFEGO

101

O homem e o menino mergulharam no cho e ficaram imveis, mas j era tarde. Por trs do penhasco  frente surgiu, ameaador como uma liblula, um MiL 24 D sovitico,
conhecido simplesmente como o Hind. Um dos pilotos talvez tenha visto um movimento ou um brilho metlico no terreno rochoso, porque o Hind alterou o curso e seguiu
em direo a eles. O rugido dos dois motores Isotov aumentou em seus ouvidos, assim como o som inconfundvel das hlices principais.
Cabea enterrada nos antebraos, Mike Martin arriscou uma olhada rpida. No teve dvida de que haviam sido localizados. Os dois pilotos soviticos, sentados um
atrs do outro com o segundo em um patamar mais elevado, estavam olhando diretamente para ele enquanto o Hind preparava-se para o ataque. Ser pego por um helicptero
em campo aberto e sem qualquer abrigo  o pesadelo de qualquer soldado de infantaria. Martin olhou em torno. A 90 metros dali havia um nico grupo de rochas; no
eram altas, mas tinham o tamanho exato para proteger um homem agachado. Com um grito para o menino afego, ele estava de p e correndo, deixando para trs sua mochila
de 50 quilos, mas carregando os lana-msseis que tanto intrigaram seu guia.
Ouvia o menino correndo atrs dele, as batidas do prprio corao e o Hind aproximando-se. Jamais teria corrido se no tivesse visto algo no helicptero que lhe
dera uma pontada de esperana. Os suportes de foguetes estavam vazios e ele no estava carregando bombas. Martin respirou fundo o ar fino e torceu para ter razo.
E tinha.
Simonov, o piloto, e Grigoriev, o co-piloto, tinham estado numa patrulha sobre um vale estreito onde agentes haviam relatado um esconderijo dos mujahedins. Eles
largaram suas

102

FREDERICK FORSYTH bombas de uma grande altitude, e ento desceram para explodir o penhasco com foguetes. Alguns bodes haviam sado da fenda nas montanhas, indicando
que realmente existia vida humana escondida ali. Simonov matara os bichos com seu canho antiareo de 30mm, gastando a maior parte da munio.
O helicptero voltara para uma altitude segura e estava seguindo de volta para a base sovitica nas cercanias de Jalalabad quando Grigoriev avistara um pequeno movimento
na encosta da montanha abaixo e a bombordo. Assim que viu as figuras comearem a correr, preparou as armas para atirar e mergulhou. As duas pessoas correndo l embaixo
estavam tentando alcanar um amontoado de rochas. Simonov estabilizou o Hind a 2.000 ps, observou os dois vultos arremessarem-se contra as rochas e disparou. Os
canos duplos do GSH estremeceram enquanto atirava, e ento parou. Simonov xingou ao ver que estava sem munio. Usara quase toda a munio nos bodes, e agora havia
mujahedins para matar, e nenhuma munio. Levantou o nariz do Hind num arco amplo para evitar o penhasco da montanha e sobrevoou o vale.
Martin e Izmat Khan agacharam-se atrs do amontoado de rochas. O menino afego observou o ingls abrir rapidamente o embrulho de couro de ovelha e tirar um tubo
curto. Estava vagamente cnscio de que algum o socara na coxa direita, mas no sentia dor. Apenas entorpecimento.
O que o homem do SAS estava montando to rpido quanto seus dedos permitiam era um dos lana-msseis Blowpipe que estava tentando levar para Shah Massoud em Panjshir.
No era to bom quanto o Stinger americano, porm mais simples e leve.

O AFEGO

103

Alguns msseis terra-ar so guiados at o alvo por um radar baseado no solo. Outros levam no narriz seu prprio radar. Alguns emitem raio infravermelho. H ainda
aqueles que so atrados pelo calor emitido pelos motores de uma aeronave, e seguem em sua direo. O Blowpipe  bem mais simples. Seu sistema chamado de CLOS (Comando
por Linha de Visada) exige que o atirador se mantenha de p e oriente o foguete at o alvo, enviando sinais de rdio de um pequeno controle remoto at as aletas
mveis na cabea do mssil.
A desvantagem do Blowpipe  que o homem precisa ficar a descoberto diante de uma aeronave de combate. Isso gera uma alta taxa de operadores mortos. Martin enfiou
o mssil de dois estgios no tubo de lanamento, acionou a bateria, o giroscpio e olhou atravs da mira, percebendo o Hind retornando, vindo em sua direo. Estabilizou
a imagem na mira e disparou. Com um chiado de gases de exausto, o foguete saiu do tubo em seu ombro e seguiu s cegas para o cu. Como no era automtico, precisava
ento de ser controlado para subir ou descer, virar para a esquerda ou para a direita. Ele estimou o alcance em 1.300 metros e reduziu depressa. Simonov abriu fogo
com sua metralhadora.
No nariz do Hind os quatro cilindros arremessando uma cortina de balas de metralhadora do tamanho dos dedos comearam a girar. Ento o piloto sovitico viu a pequena
chama tremeluzente do Blowpipe vindo em sua direo. Tornou-se um duelo de nervos.
Balas atingiram rochas, expelindo estilhaos de pedra em todas as direes. Durou dois segundos, mas com dois mil disparos por minuto, cerca de 70 balas atingiram
as pedras antes de Simonov tentar evadir, desta forma desviando para um lado a saraivada de balas.

104

FREDERICK FORSYTH
Est provado que, durante uma emergncia instintiva, uma pessoa geralmente d uma guinada para a esquerda.  por isso que dirigir no lado esquerdo da rodovia  mais
seguro, embora restrito a alguns poucos pases. Um motorista em pnico sai da estrada para o acostamento, evitando uma coliso frontal. Simonov entrou em pnico
e virou o Hind para a esquerda.
O Blowpipe perdera seu primeiro estgio e atingia velocidade supersnica. Martin mudou a trajetria para sua direita um segundo antes de Simonov desviar. Foi um
bom palpite. O Hind exps a parte inferior e foi atingido em cheio. O mssil possua um pouco mais de dois quilos, e o Hind  imensamente forte. Mas o mssil a 1.600
quilmetros por segundo gerou um impacto poderoso. Ela rachou a armadura base, perfurou o helicptero e explodiu.
Coberto de suor junto  encosta gelada, Martin viu o monstro inclinar com o impacto, comear a deixar um rastro de fumaa e a mergulhar contra o solo do vale l
embaixo.
Quando o helicptero atingiu o leito do rio, o rudo parou. Uma lngua de fogo se ergueu, seguida por uma coluna de fumaa preta. Isso bastaria para chamar a ateno
dos russos em Jalalabad. Por mais rdua e longa que fosse a jornada por terra, ela duraria poucos minutos para um caa Sukhoi.
- Vamos - disse Martin em rabe para seu guia. O menino tentou se levantar mas no conseguiu. Ento Martin viu a mancha de sangue em sua coxa. Sem dizer uma palavra,
baixou o lana-msseis, correu at sua mochila e a trouxe de volta.
Usou sua faca K-bar para cortar as calas compridas da vestimenta do menino. O buraco era limpo e pequeno, mas parecia profundo. Se viera de um dos projteis, ento
era apenas um fragmento de metal, ou talvez um fragmento de rocha, mas ele no sabia o quanto estava prximo da artria femoral.

O AFEGO

105

Martin treinara na ala de Acidentes e Emergncias em Hereford, e seu conhecimento em primeiros socorros era bom; mas a encosta de uma montanha no Afeganisto, com
os russos se aproximando, no era lugar para uma cirurgia complexa.
- Vamos morrer, angls ? - perguntou o menino.
- Inshallah, hoje no, Izmat Khan. Hoje no - repetiu. Estava diante de um pssimo dilema. Precisava de sua mochila e de tudo que ela continha. Tinha de escolher
entre levar a mochila ou o menino, no os dois.
- Voc conhece esta montanha? - perguntou Martin enquanto procurava o estojo de primeiros socorros.
-  claro - disse o afego.
- Ento, eu vou voltar com outro guia. Voc precisa explicar a ele como vir. Vou enterrar a mochila e os foguetes.
Ele abriu uma caixa de metal achatada e retirou uma seringa hipodrmica. O menino observou-o, plido.
Que seja , pensou Izmat Khan. Se o infiel quiser me torturar, que o faa. No darei um pio.
O ingls inseriu a agulha na coxa de Izmat. Ele no gritou. Segundos depois, quando a morfina comeou a fazer efeito, a agonia em sua coxa comeou a diminuir. Encorajado,
ele tentou se levantar. O ingls retirara da mochila uma pequena p dobrvel e estava cavando um buraco entre as rochas. Depois que acabou, cobriu o lana-msseis
e a mochila com pedras, at que nada mais pudesse ser visto. Mas ele havia decorado a forma do monte de pedras. Se pudesse voltar at aquela encosta, conseguiria
recuperar o equipamento.
O menino protestou que podia caminhar, mas Martin simplesmente jogou-o por cima de um dos ombros e comeou a marchar. Sendo puramente pele e ossos, msculos e tendes,
o afego no pesava mais que a mochila Bergen, com seus 50

106

FREDERICK FORSYTH quilos. Mesmo assim, subir para um ar ainda mais rarefeito e contra a gravidade no era uma alternativa razovel. Escolheu um caminho lateral sobre
os cascalhos, descendo na direo do vale. Isso depois se revelou uma escolha sbia.
Aeronaves soviticas cadas sempre atraam pashtuns ansiosos por saquear o que pudesse ser de utilidade ou valor. A coluna de fumaa ainda no fora avistada pelos
soviticos, e a transmisso final de Simonov fora um grito sem sentido. Mas a fumaa atrara um pequeno grupo de mujahedins de outro vale. Eles os avistaram a cerca
de 300 metros acima do nvel do terreno.
Izmat Khan explicou o que acontecera. Os homens das montanhas sorriram de felicidade e comearam a dar tapinhas nas costas do homem do SAS. Martin insistiu que seu
guia precisava de ajuda alm de uma xcara de ch em alguma chai-khana nas colinas. Um dos mujahedins conhecia o dono de uma mula nas colinas e foi procur-lo. Isso
demorou at o cair da noite. Martin administrou uma segunda injeo de morfina.
Com um novo guia e Izmat Khan finalmente sobre o lombo de uma mula, seguiram atravs da noite. Ao amanhecer, chegaram  encosta sul de Spin Gahr, e o guia parou.
Ele apontou para a frente.
- Jaji - disse ele. - rabes.
Ele tambm queria a mula de volta. Martin carregou o menino durante os ltimos trs quilmetros. Jaji era um complexo de 500 cavernas, e alm de ser o nome como
eram chamados os rabes afegos que estavam trabalhando na regio havia trs anos, alargando, aprofundando, escavando e equi-pando-as para transform-las numa grande
base guerrilheira. Embora Martin ignorasse, dentro do complexo havia um quartel, uma mesquita, uma biblioteca com textos religiosos, cozinhas, armazns e um hospital
equipado.

O AFEGO

107

Enquanto se aproximava, Martin foi interceptado por um grupo de sentinelas. Estava claro o que ele fazia ali: carregava um ferido nas costas. Os homens discutiram
entre si sobre o destino a ser dado aos dois, e Martin reconheceu o rabe falado na frica do Norte. Foram interrompidos pela chegada de um homem do alto escalo
que falava como um saudita. Martin compreendeu tudo, mas considerou que no seria sensato dizer alguma coisa. Com linguagem de sinais, indicou que o amigo precisava
de uma cirurgia de emergncia. O saudita concordou, fez um sinal para que o seguissem e caminhou na frente.
Izmat Khan foi operado em uma hora. Um fragmento de projtil foi extrado de sua perna.
Martin aguardou at o rapaz acordar. Acocorou-se, ao estilo local, no canto da ala mdica, e todos julgaram-no ser um simples montanhs pashtun que trouxera o amigo
para ser socorrido.
Uma hora depois, dois homens entraram na ala mdica. Um era jovem, muito alto, barbado. Usava turbante branco e uma jaqueta camuflada por cima de um manto rabe.
O outro era baixo, gorducho, tambm com no mais de 35 anos, um nariz achatado em cuja ponta empoleiravam-se culos redondos. Usava um jaleco cirrgico. Depois de
examinar dois dos seus prprios homens, o par caminhou at o afego. O homem alto falou em rabe saudita.
- E como est se sentindo o jovem soldado afego?
- Inshallah, estou muito melhor, xeque - respondeu Izmat em rabe, fazendo uma reverncia ao homem alto, que ficou alegremente surpreso.
- Ah, voc fala rabe, e ainda to jovem! - disse com um sorriso.

108

FREDERICK FORSYTH - Passei sete anos numa madrassa em Peshawar. Retornei no ano passado para lutar.
- E por quem voc luta, filho?
- Luto pelo Afeganisto - disse o menino.
O rosto do saudita pareceu escurecer-se. O afego compreendeu que no dissera o que aquele homem quisera ouvir.
- E tambm luto por Al, xeque - acrescentou.
O rosto do saudita pareceu clarear, iluminado por um novo sorriso. O saudita inclinou-se para dar um tapinha amistoso no ombro do jovem.
- Chegar o dia em que voc no ser mais til ao Afeganisto, mas Al sempre precisar de um bom guerreiro. Agora, como est o ferimento de nosso amigo?
Ele dirigiu a pergunta ao doutor, de aparncia ingnua.
- Vejamos - disse o doutor e comeou a retirar a atadura. O ferimento estava limpo, fechado por seis pontos e sem qualquer infeco. Ele sorriu de satisfao e tornou
a cobrir a sutura.
-Voc estar andando em uma semana-disse o Dr. Ayman al-Zawahiri. E ento ele e Osama bin Laden saram da ala mdica. Ningum reparou no mujahedin suado e sujo,
acocorado no canto com a cabea nos joelhos, como se estivesse dormindo.
Martin levantou e caminhou at a cama do rapaz.
- Preciso ir - disse ele. - Os rabes cuidaro de voc. Procurarei seu pai e pedirei um guia novo. Fique com Al, meu amigo.
- Tome cuidado, Ma-iqui - disse o menino. - Esses rabes no so como ns. Voc  kafir, infiel. Eles so como o imame da minha madrassa. Eles odeiam todos os infiis.
- Ento ficarei grato se voc no lhes disser quem eu sou - disse o ingls.

O AFEGO

109

Izmat Khan fechou os olhos. Preferiria morrer sob tortura do que trair seu novo amigo. Quando abriu os olhos, o angls sumira. Soube depois que o homem chegara a
Shah Massoud no Panjshir, mas jamais o viu novamente.
Depois de seis meses atrs das linhas soviticas no Afeganisto, Mike Martin voltou para casa atravs do Paquisto, sem ter sido identificado e com fluncia em pashto
somada ao seu currculo. Recebeu uma dispensa, foi reintegrado ao Exrcito e, ainda a servio do SAS, foi posicionado novamente na Irlanda do Norte. Mas desta vez
foi diferente.
Os homens do SAS eram aqueles que realmente aterrorizavam o IRA, e matar, ou melhor ainda, capturar vivo, torturar e ento matar o que eles chamavam de sassman era
o maior sonho de um membro do IRA. Mike Martin descobriu-se trabalhando com a 14a Companhia de Inteligncia, conhecida como o Destacamento , ou o Det.
Eles observavam, rastreavam, ouviam. Seu trabalho era ficarem ocultos, sem serem vistos, para assim descobrir onde os assassinos do IRA atacariam em seguida. Para
cumprir sua misso, conseguiam alguns feitos notveis.
As casas dos lderes do grupo irlands eram invadidas pelos telhados, e as escutas eram plantadas no sto. Elas tambm eram colocadas nos caixes dos homens do
IRA, porque os chefes tinham por hbito realizar conferncias enquanto fingiam prestar seus respeitos ao falecido. Cmeras de longo alcance capturavam imagens das
bocas em movimento, e leitores de lbios decifravam as palavras. Microfones ultra-sensveis gravavam conversas atravs de portas fechadas. Quando o Det descobria
algo realmente valioso, a informao era passada para os homens linha dura.

HO
FREDERICK FORSYTH
As regras de engajamento eram rgidas. Os homens do IRA precisavam disparar primeiro, e contra o SAS. Se os homens do IRA largassem as armas, deviam ser tomados
como prisioneiros. Antes de disparar, tanto os homens do SAS quanto os do Regimento de Pra-quedismo precisavam tomar imenso cuidado.  uma tradio recente dos
polticos e advogados britnicos permitirem direitos civis aos inimigos da ptria, mas no aos seus soldados.
No obstante, nos 18 meses que Martin passou como capito do SAS, em Ulster, ele participou de emboscadas na calada da noite. Em cada uma, um grupo de homens do
IRA foi pego de surpresa. Em todas as ocasies cometeram a tolice de sacar e apontar armas, e foi a polcia local que encontrou os cadveres na manh seguinte.
Mas foi no segundo tiroteio que Martin foi ferido. Ele teve sorte. O ferimento foi superficial no bceps esquerdo, mas o suficiente para mand-lo de avio de volta
 Inglaterra, para convalescer em Headley Court, Leatherhead. Foi ento que conheceu a enfermeira Lucinda, que, depois de um breve namoro, se tornou sua esposa.
Retornando ao Regimento de Pra-quedistas na primavera de 1990, Mike Martin foi alocado no Ministrio da Defesa, em Whitehall, Londres. Fixou residncia num chal
alugado perto de Chobham, para que Lucinda pudesse prosseguir a carreira. Martin descobriu-se pela primeira vez na vida como um trabalhador de terno, pegando o trem
de manh para Londres. Com a graduao de funcionrio de nvel trs, trabalhou no gabinete da MOSP (Operaes Militares - Unidade de Projetos Especiais). Mais uma
vez, foi preciso um agressor estrangeiro para tir-lo de l.
Em 2 de agosto daquele ano, Saddam Hussein invadiu o vizinho Kuait. Mais uma vez, Margaret Thatcher decidiu no ficar de braos cruzados, e o presidente americano
George Bush

O AFEGO

111

concordou. Em uma semana, havia planos em furiosa preparao para criar uma coalizo multinacional para contra-atacar e libertar o pequeno Estado rico em petrleo.
Embora estivesse trabalhando no MOSP, o alcance e a influncia do SIS foi suficiente para localiz-lo e sugerir que ele fosse se encontrar para almoar com alguns
amigos .
O encontro foi num clube discreto em St. James, e seus anfitries eram dois veteranos da Firma. Tambm  mesa estava um analista nascido na Jordnia e naturalizado
britnico, trazido do QG, em Cheltenham. Seu trabalho era ouvir e analisar conversas de rdio captadas no mundo rabe. Mas seu papel  mesa do almoo era diferente.
Ele conversou com Mike Martin em rabe e Martin retrucou. Finalmente acenou com a cabea para os dois agentes da Century House.
- Nunca ouvi nada assim - comentou. -- Com esse rosto e voz, ele pode passar.
Dito isso, ele se levantou da mesa, claramente tendo acabado de realizar seu servio. O mais velho dos dois veteranos disse a Martin:
- Ficaramos tremendamente gratos se voc fosse ao Kuait e visse o que est acontecendo por l.
- E quanto ao Exrcito? - perguntou Martin.
- Acho que eles iro entender nosso ponto de vista - murmurou o outro.
Mais uma vez, o Exrcito reclamou mas emprestou Martin. Semanas depois, passando-se por um beduno condutor de camelos, Martin cruzou a fronteira saudita com o Kuait
ocupado pelo Iraque. Na zona norte da capital, ele encontrou vrias patrulhas iraquianas, que no notaram o nmade barbado que conduzia dois camelos ao mercado.
Os bedunos so to arraiga-damente apolticos que durante milnios viram invasores var

112

FREDERICK FORSYTH rerem a Arbia sem jamais intervir. Assim, os invasores deixavam quase todos eles em paz.
Ao longo de vrias semanas dentro do Kuait, Martin contatou e assistiu  nascente resistncia kuaitiana, ensinou-lhes os truques do ofcio, estudou as posies iraquianas,
determinando seus pontos fortes e fracos, e ento saiu de novo.
Sua segunda incurso durante a Guerra do Golfo foi ao prprio Iraque. Seguiu at a fronteira saudita a oeste e simplesmente pegou um nibus iraquiano que estava
seguindo para Bagd. Seu disfarce era de um simples campons, com um balaio de vime cheio de galinhas.
De volta a uma cidade a qual conhecia intimamente, assumiu a posio de jardineiro numa manso rica e passou a viver num barraco no fundo do jardim. Sua misso foi
agir como coletor de mensagens e intermedirio. Para cumprir o propsito, recebeu uma antena parablica pequena e porttil, cujas mensagens embaralhadas no podiam
ser interceptadas pela polcia secreta iraquiana, mas conseguiam alcanar Riad.
Um dos segredos mais bem guardados da guerra foi de que a Firma tinha uma fonte, um recurso dentro do governo de Saddam. Martin jamais se encontrou com ele; simplesmente
pegava as mensagens em caixas de correio combinadas previamente e as enviava para a Arbia Saudita, onde o QG da Coalizo, liderado por americanos, ficava a um s
tempo surpreso e grato. Saddam se rendeu em 26 de fevereiro de 1991, e Mike Martin saiu de Bagd apenas para quase ser baleado pela Legio Estrangeira Francesa ao
atravessar a fronteira na escurido.
Na manh de 15 de fevereiro de 1989, o general Boris Gromov, comandante do 40 Exrcito sovitico, o exrcito de ocupao do Afeganisto, caminhou pela ponte da
Amizade sobre o rio

O AFEGO

113

Amu Darya, rumo ao Uzbequisto sovitico. Ele fora precedido por seu Exrcito inteiro. A guerra chegara ao fim.
A euforia no durou muito. A Unio Sovitica tivera seu prprio Vietn, que acabou em desastre. Os pases-satlites de Moscou em toda a Europa, havia muito inquietos,
estavam se rebelando, e sua economia estava se desintegrando. Em novembro os berlinenses haviam derrubado o Muro, e o imprio sovitico simplesmente ruiu.
No Afeganisto, os soviticos haviam deixado para trs um governo que a maior parte dos analistas previa no duraria muito, visto que os comandantes vitoriosos estavam
formando um governo estvel e se preparando para tomar o poder. Mas os intelectuais estavam enganados. O governo do presidente Najibullah, o afego apreciador de
usque que os soviticos tinham abandonado em Cabul, permaneceu por dois motivos: um era que o Exrcito afego, mais forte do que qualquer outra fora no pas, apoiado
pela polcia secreta Khad, era capaz de controlar as cidades e portanto a maioria da populao.
Mais importante, os comandantes militares simplesmente desintegraram-se numa colcha de retalhos de oportunistas que, longe de se unir para formar um governo estvel,
fizeram o oposto; eles criaram uma guerra civil.
Nada disso afetou Izmat Khan. Com o pai ainda no comando da famlia, embora adoentado e envelhecido prematuramente, e com o auxlio de vizinhos, ele ajudou a reconstruir
a aldeia de Maloko-zai. Rocha por rocha, pedra por pedra, eles limparam os destroos deixados pelas bombas e foguetes e refizeram o assentamento da famlia perto
das amoreiras e romzeiras.
Com a perna completamente recuperada, ele voltara para a guerra e assumira extra-oficialmente o comando do lashkar que era de seu pai. Os homens seguiram-no, porque
ele tivera seu

114 FREDERICK FORSYTH sangue derramado. Quando a paz chegou, seu grupo de guerrilha encontrou e tomou um grande arsenal que os soviticos no tinham se importado
de levar para casa.
Carregaram as armas pelo Spin Gahr at Parachinar, no Paquisto, uma cidade que no passa de um bazar de armas. Ali eles trocaram as sobras soviticas por vacas,
bodes e ovelhas para reiniciar os rebanhos.
Se a vida fora difcil antes, comear de novo era ainda mais difcil, mas ele gostava do trabalho braal e da sensao de triunfo de saber que Maloko-zai viveria
de novo. Um homem precisava ter razes, e as suas estavam ali. Com apenas 20 anos, fazia o chamado e conduzia as preces na mesquita da aldeia s sextas-feiras.
Os nmades kuchi de passagem traziam-lhe histrias funestas sobre as plancies. O Exrcito da Repblica Democrtica do Afeganisto, leal a Najibullah, ainda ocupava
as cidades, mas os comandantes militares infestavam o campo, e eles e seus homens comportavam-se como brbaros. Pedgios eram criados arbitrariamente nas estradas
principais e os viajantes eram destitudos de seu dinheiro ou espancados cruelmente.
O Paquisto, atravs do Diretrio ISI, estava apoiando Hekmatyar para controlar todo o Afeganisto, e as reas que ele governava estavam mergulhadas no terror. Todos
que haviam formado os Sete de Peshawar para combater os soviticos ento estavam lutando uns contra os outros, e quem sofria era o povo. De heris, os mujahedins
passaram a ser vistos como tiranos. Izmat Khan agradeceu ao misericordioso Al ter sido poupado do sofrimento das plancies.
Com o trmino da guerra, os rabes haviam praticamente desaparecido das montanhas e de suas cavernas preciosas. Aquele que no fim tornara-se o lder sem coroa, o
saudita alto

O AFEGO

115

do hospital-caverna, tambm partira. Cerca de 500 rabes tinham permanecido, mas no eram muito populares; estavam espalhados pela regio, vivendo como mendigos.
Tambm aos 20 anos, Izmat Khan estava visitando um vale vizinho quando viu uma garota lavando as roupas da famlia num crrego. Ela no ouviu o cavalo de Izmat por
causa do som da gua corrente, e antes que pudesse puxar o hejab para cobrir o rosto, ele viu os olhos dela. A jovem fugiu, assustada e constrangida. Mas ele vira
que ela era linda.
Izmat fez o que qualquer homem jovem teria feito. Consultou sua me. Ela ficou deliciada e logo conspirava alegremente com duas de suas irms para encontrar a garota
e persuadir Nuri Khan a entrar em contato com o pai para providenciar a unio. Seu nome era Maryam, e o casamento ocorreu no fim da primavera de 1993.
Claro que foi ao ar livre, cheio de flores sendo sopradas das rvores. Houve um banquete, e a noiva chegou de sua vila num cavalo ornamentado. Tinha msica de flautas
e dana attan debaixo das rvores, mas isso, obviamente, apenas para os homens. Educado numa madrassa, Izmat protestou contra o canto e a dana, mas seu pai, rejuvenescido,
convenceu-o a deixar que a festa prosseguisse. Assim, por um dia, Izmat rejeitou seu treinamento wahabi rgido e tambm danou na clareira, com os olhos de sua esposa
seguindo-o por toda parte.
O intervalo entre o primeiro vislumbre no crrego e o casamento fora necessrio, tanto para providenciar os detalhes do dote quanto para construir uma casa nova
para os recm-casados dentro do assentamento de Khan. Foi ali que Izmat tomou sua noiva depois que a noite cara e os aldees exaustos tinham voltado para casa.
A menos de 40 metros de distncia, a me de Izmat sorriu de satisfao quando um nico grito de menina na noite disse-lhe que

116

FREDERICKFORSYTH sua nora tornara-se mulher. Trs meses depois, ficou claro que ela daria  luz uma criana nas neves de fevereiro.
Enquanto Maryam estava grvida, os rabes retornaram. O saudita alto que os liderava no estava mais entre eles; encontrava-se em algum lugar muito longe, chamado
Sudo. Mas ele mandou muito dinheiro e, pagando tributo aos comandantes militares, foi capaz de estabelecer campos de treinamento. Em Khalid ibn Walid, Al-Farouk,
Sadeek, Khaldan, Jihad Wai e Darunta, milhares de novos voluntrios de todo o mundo rabe vinham para ser treinados para a guerra.
Mas qual guerra? At onde Izmat Khan podia ver, eles no tomaram partido nas guerras civis entre os strapas tribais. Assim, contra quem estavam sendo treinados
para lutar? Soube que tudo acontecia porque o homem alto, chamado de Emir por seus seguidores, havia declarado jihad contra seu prprio governo na Arbia Saudita
e contra o Ocidente.
Mas Izmat Khan no tinha nada contra o Ocidente. O Ocidente ajudara, com armas e dinheiro, a derrotar os soviticos, e ele s conhecera um nico kafir, que salvara
sua vida. Aquela guerra santa, aquele jihad, no era seu, decidiu Izmat Khan. Sua preocupao residia em seu pas, cuja situao estava se deteriorando para o caos.

CAPTULO 6

TENDO RECEBIDO ORDENS, O REGIMENTO DE PRA-QUEDISTAS acabou aceitando Martin de volta, que j estava adquirindo uma reputao de ser meio excntrico. Duas faltas
ao dever inexplicadas, cada uma de seis meses, no decorrer de quatro anos, causariam olhares desconfiados durante o rancho em qualquer unidade militar. Em 1992,
ele foi enviado para a Escola de Comando e Estado-Maior em Camberley e de l de volta para o ministrio, mas como major.
Desta vez foi novamente para o DMO (Diretoria de Operaes Militares), mas como oficial do Estado-Maior da 2a Seo no Departamento Trs, os Blcs. A guerra ainda
fervilhava, com os srvios sob o domnio de Milosevic e o mundo revoltado com os massacres conhecidos como limpeza tnica. Irritado com a falta de qualquer chance
de ao, Martin passou dois anos andando de terno e gravata pelos subrbios de Londres.
Oficiais que serviram no SAS podem retornar, mas apenas sob convite. Mike Martin recebeu seu telefonema de Hereford no fim de 1994. Foi o presente de Natal que estava
esperando. Mas Lucinda no gostou. Eles no haviam tido filhos; havia

118

FREDERICK FORSYTH duas carreiras seguindo em direes opostas. Lucinda recebera a oferta de uma grande promoo, a chance de sua vida, mas significava trabalhar
em Midlands. O casamento estava em risco, e as ordens de Mike eram de assumir o comando do Esquadro B 22 do SAS e seguir secretamente para a Bsnia. Para todos
os efeitos, eles fariam parte da Unprofor, uma fora de manuteno de paz da ONU. Na verdade, eles iriam caar e capturar criminosos de guerra. Ele no tinha permisso
para contar os detalhes a Lucinda, apenas que iria partir novamente. Foi a gota d gua. Ela presumiu que era uma transferncia de volta para a Arbia e lhe deu um
ultimato: voc pode ter o Regimento de Pra-quedistas, o SAS e o seu maldito deserto, ou pode ir para Birmingham e continuar o casamento. Martin pensou no assunto
e escolheu o deserto.
Fora da recluso dos vales altos das montanhas Brancas, seu velho lder de partido Younis Khals morreu, e o partido Hizbi-Islami ficou inteiramente sob o controle
de Hekmatyar, a quem Izmat odiava por ter uma reputao de crueldade.
Quando o beb de Izmat nasceu em fevereiro de 1994, o presidente Najibullah cara mas ainda estava vivo, confinado a uma casa de hspedes da ONU, em Cabul. Ele supostamente
fora sucedido pelo professor Rabbani, que era um tadjique, e como tal no aceito pelos pashtuns. Fora de Cabul, apenas os comandantes militares governavam seus domnios,
mas os verdadeiros mestres eram o caos e a anarquia.
Mas outra coisa tambm estava ocorrendo. Depois da guerra sovitica, milhares de jovens afegos haviam retornado s madrassas paquistanesas para completar sua educao.
Outros, jovens demais para ter lutado na guerra, foram at a fronteira para obter uma educao, independentemente da sua natureza.

O AFEGO

119

O que receberam foram anos de lavagem cerebral wahabi. Agora estavam retornando, mas eram diferentes de Izmat Khan.
Como o velho Younis Khals, embora ultradevoto, possua alguma dose de moderao, suas madrassas nos campos de refugiados haviam ensinado o isl com uma pitada de
racionalidade. Outras se concentravam apenas nas passagens ultra-agres-sivas dos Versculos da Espada, encontradas no Coro Sagrado. E o velho Nuri Khan, ainda que
tambm devoto, era humano e no via mal algum em cantar, danar, praticar esportes e demonstrar alguma tolerncia para com o prximo.
Mas os jovens que estavam retornando eram ignorantes, instrudos por imames semi-analfabetos. No sabiam nada sobre a vida, sobre mulheres (a maioria vivia e morria
virgem) ou sobre as prprias culturas tribais, coisas que Izmat aprendera com o pai. Alm do Coro, eles conheciam apenas uma coisa: guerra. A maioria vinha do sul
do Afeganisto, onde eram professadas as variantes mais rgidas do isl.
No vero de 1994, Izmat Khan e um primo desceram o vale e seguiram para Jalalabad. Foi uma visita breve, mas longa o suficiente para que testemunhassem o massacre
selvagem que seguidores de Hekmatyar infligiram a uma aldeia que finalmente se recusara a pagar-lhes mais tributo. O dois viajantes encontraram os homens torturados
e chacinados, as mulheres espancadas, a aldeia queimada. Izmat ficou enjoado. Em Jalalabad descobriu que o que vira eram bem mais comuns.
Ento alguma coisa aconteceu no sul. Desde a queda de qualquer coisa semelhante a um governo central, os soldados do velho Exrcito afego oficial simplesmente puseram-se
s ordens do comandante militar local que pagasse melhor. Fora de Candahar, alguns soldados capturaram duas adolescentes e

120

FREDERICK FORSYTH as levaram at seu acampamento, onde foram estupradas por todos os homens.
O religioso da aldeia das moas, que tambm possua a prpria escola religiosa, foi at o acampamento do Exrcito com 30 estudantes e 16 fuzis. Apesar de todas as
chances em contrrio, derrotaram os soldados e enforcaram o comandante do bando pendurando-o no cano de um carro de combate. O religioso chamava-se Mohammad Ornar,
ou mula Ornar. Ele perdeu o olho direito na batalha.
A notcia se espalhou. Outros rogaram ajuda a Ornar. Seu grupo cresceu em nmero e atendeu os apelos. Eles no tomavam dinheiro, no roubavam colheitas, no estupravam
mulheres, no pediam recompensas. Tornaram-se heris locais. Em dezembro de 1994, 12 mil homens haviam se juntado a eles, adotando o turbante negro do mula Ornar.
Eles se autodenominavam estudantes. Em pashto, estudante  talib, e o plural  taliban. De vigilantes de aldeias, os talibs tornaram-se um movimento e, depois que
capturaram a cidade de Candahar, um governo alternativo.
O Paquisto, atravs de seu servio de inteligncia com suas tramias incessantes, vinha tentando derrubar o tadjique Rabba-ni em Cabul por meio de um apoio a Hekmatyar,
mas fracassando sucessivamente. Com o ISI profundamente infiltrado por muulmanos ultra-ortodoxos, o Paquisto voltou seu apoio para o Talib. Com a captura Candahar,
o novo movimento herdou um arsenal imenso de armas, carros blindados, caminhes, canhes, seis Mig 21 (caas de combate da extinta Unio Sovitica) e seis helicpteros
de combate. Eles comearam a se movimentar para o norte. Em 1995, Izmat Khan abraou a esposa, deu um beijo de despedida em seu beb e desceu das montanhas para
juntar-se ao Talib.

O AFEGO 121

Mais tarde, no cho de uma cela em Cuba, Izmat se lembraria dos dias no vale, em companhia da esposa e do filho, como os mais felizes de sua vida. Tinha 23 anos.
Izmat Khan descobriu, tarde demais, que o Talib tinha um lado sombrio. Em Candahar, embora tivessem sido devotos antes, os pashtuns foram submetidos ao regime mais
rgido j visto no mundo do isl.
Todas as escolas femininas foram fechadas prontamente. As mulheres foram proibidas de sair de casa, salvo em companhia de um parente do sexo masculino. A burca,
que envolve completamente o corpo, deveria ser usada todo o tempo. O som produzido por sandlias femininas nos ladrilhos foi proibido por decreto; foi julgado sensual
demais.
Atividades como cantar, danar, tocar msica, praticar esportes, e at soltar pipa, que  um passatempo nacional, foram proibidas. As preces deveriam ser entoadas
as cinco vezes exigidas por dia. O uso de barba era obrigatrio para os homens. A obedincia a essas regras era garantida por adolescentes fanticos de turbantes
pretos, que haviam aprendido apenas os Versculos da Espada, crueldade e guerra. De libertadores tornaram-se os novos tiranos, mas era impossvel det-los. Sua misso
era destruir o domnio dos comandantes militares, e como esses eram odiados, o povo aceitou as novas regras. Pelo menos havia lei e ordem. No existia mais corrupo,
estupros ou crimes; apenas ortodoxia fantica.
Mula Omar era um sacerdote-guerreiro, e nada mais. Tendo iniciado sua revoluo enforcando um estuprador no cano de um carro de combate, tornou-se um recluso em
sua fortaleza sul, em Candahar. Seus seguidores pareciam sados da Idade Mdia, e entre as muitas coisas que no conheciam estava o medo. Idolatravam o caolho mula
Omar, e antes que o Talib

122

FREDERICKFORSYTH casse, 80 mil morreriam por ele. Muito longe dali, no Sudo, o saudita alto, que agora controlava 20 mil rabes e estava baseado no Afeganisto,
observava e aguardava.
Izmat Khan juntou-se a um lashkar de homens oriundos da prpria provncia, Nangarhar. Rapidamente tornou-se respeitado porque era maduro e lutara contra os russos.
O brao Talib no era realmente um exrcito; no tinha comandante-geral, estado-maior-geral, oficiais, postos ou infra-estrutura. Cada lashkar era semi-independente
sob as ordens de seu lder tribal, que geralmente mantinha a posio atravs de sua personalidade e coragem em combate, alm de sua devoo religiosa. Como os guerreiros
muulmanos dos primeiros califados, destruiam os inimigos com sua coragem fantica, que lhes concedia uma reputao de invencibilidade, tanta que os oponentes geralmente
rendiam-se sem um nico tiro. Quando finalmente se chocaram com soldados de verdade, as foras do lder carismtico tadjique Shah Massoud, tiveram perdas imensas.
Como no mantinham mdicos militares, os feridos simplesmente morriam  margem da estrada. Mesmo assim, continuaram avanando.
Nos portes de Cabul, negociaram com Massoud, mas ele se recusou a aceitar seus termos e se retirou para suas prprias montanhas do norte, onde fora vitorioso contra
os russos. Assim comeou a nova guerra civil, entre o Talib e a Aliana do Norte, formada pelo tadjique Massoud e pelo uzbeque Dostum. Era 1996. Apenas o Paquisto
(que o organizara) e a Arbia Saudita (que o financiara) reconheceu o novo estranho governo do Afeganisto.
Para Izmat Khan, os dados foram lanados. Seu antigo aliado, Shah Massoud, era agora seu inimigo. Longe, ao sul, um avio pousou. Trazia de volta o saudita alto
que falara com ele

O AFEGO 123

oito anos antes, numa caverna em Jaji, e o doutor gorducho, que retirara estilhaos da artilharia sovitica de sua perna. Ambos os homens mostraram obedincia ao
mula Ornar, oferecendo um imenso tributo em dinheiro e equipamento, portanto assegurando sua lealdade vitalcia.
Depois de Cabul, houve uma pausa na guerra. Praticamente o primeiro ato do Talib foi arrancar o ex-presidente deposto, Najibullah, de sua priso domiciliar, e ento
tortur-lo, mutil-lo e execut-lo antes de pendurar seu cadver num poste. A medida deu o tom do governo que viria. Izmat Khan no gostava de crueldades. Lutara
com tanto afinco na conquista de seu pas que fora alado de voluntrio para comandante de seu prprio lashkar, que cresceu  medida que os elogios  sua liderana
espalharam-se pelas quatro divises do Exrcito talib. Depois pediu permisso para retornar  sua terra natal, Nangarhar, e foi designado governador de provncia.
Em Jalalabad, podia visitar sua famlia, esposa e filho.
Nunca ouvira falar de Nairbi ou de Dar-es-Salaam. Nunca ouvira falar de algum chamado William Jefferson Clinton. Mas escutara falar muito de um grupo, ento com
base em seu pas, chamado al-Qaeda, e sabia que seus integrantes haviam declarado jihad global contra todos os infiis e, especialmente, o Ocidente, e acima de tudo
um lugar chamado Amrica do Norte. Mas aquele jihad no era dele.
Estava combatendo a Aliana do Norte para unir sua terra natal de uma vez por todas, e a Aliana fora reduzida a dois enclaves pequenos e obscuros. Um era um grupo
de resistncia da tribo hazara, sitiado nas montanhas de Darai-Suf, e o outro o prprio Massoud, no impenetrvel vale Panjshir e na regio noroeste chamada Badakshan.

124

FREDERICK FORSYTH
Em 7 de agosto de 1998, bombas explodiram diante das embaixadas americanas de duas capitais africanas. Ele no sabia nada a respeito disso. Ouvir rdios estrangeiras
agora era proibido. Em 20 de agosto, os Estados Unidos da Amrica lanaram 70 msseis Tomahawk contra o Afeganisto. Foram disparados dos navios de guerra Cowpen
e Shiloh no mar Vermelho, e dos destrieres Brscoe, Elliot, Hayler e Milius, alm do submarino Columbia. Todas essas embarcaes estavam posicionadas no golfo Arbico,
ao sul do Paquisto.
Os msseis foram apontados contra os campos de treinamento da al-Qaeda e as cavernas de Tora Bora. Um mssil desgarrado entrou na boca de uma caverna vazia na montanha
de Maloko-zai. A detonao em suas profundezas fez uma face inteira da montanha ruir. Dez milhes de toneladas de rocha desabaram no vale abaixo.
Quando Izmat Kahn chegou  montanha, no havia mais nada. O vale inteiro fora soterrado. No existia mais crrego, fazenda, pomares, cercados de animais, ou complexos
habitacionais. Toda a sua famlia e vizinhos tinham morrido. Pais, tios, tias, irms, esposa e filho, mortos debaixo de milhes de toneladas de cascalho. No havia
onde cavar nem motivo para cavar. Ele se tornara um homem sem razes, pais ou cl.
No sol poente de agosto, ele se ajoelhou no monte que agora era a imensa sepultura da famlia e, virado para oeste na direo de Meca, abaixou a cabea at o cho
e rezou. Mas foi uma prece diferente; um juramento poderoso, uma declarao de vendeta, um jihad pessoal at a morte, contra as pessoas que tinham feito aquilo.
Ele declarou guerra aos Estados Unidos da Amrica.
Uma semana depois, havia renunciado de seu posto de governador e retornado para o front. Durante dois anos comba
O AFEGO 125

teu a Aliana do Norte. Enquanto estivera afastado, o taticamente brilhante Massoud contra-atacara e, mais uma vez, causara perdas imensas para o menos competente
Taliba. Ocorreram massacres em Mazar-i-Sharif, onde primeiro a tribo Hazara revoltara-se e matara 600 talibs. Em busca de vingana, os tali-bs tinham retornado
e chacinado mais de dois mil civis.
O Acordo de Dayton fora assinado; tecnicamente, a Guerra da Bsnia estava terminada. Mas o que ela deixara para trs era um pesadelo. A Bsnia muulmana fora o principal
teatro de guerra, com bsnios, srvios e croatas envolvidos. Tinha sido o conflito mais sangrento na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.
Os croatas e srvios, de longe os mais bem armados, haviam infligido a maioria das brutalidades. Chocada e envergonhada, a Europa estabeleceu um tribunal de crimes
de guerra em Haia, Holanda, e esperou as primeiras acusaes. O problema era que os culpados no iriam se apresentar de mos para o alto. Milosevic no ofereceria
nenhuma ajuda; inclusive, estava preparando novos sofrimentos para outra provncia muulmana, Kosovo.
Parte da Bsnia, o tero exclusivamente srvio, declarara a si mesma Repblica Srvia, e a maioria dos criminosos de guerra estava escondida l. Essa era a misso:
identific-los, captur-los e lev-los a julgamento. Vivendo principalmente nos campos e florestas, o SAS passou todo o ano de 1997 caando o que eles chamavam de
PIFWICs - sigla em ingls para pessoas indiciadas por crimes de guerra .
Em 1998, Martin estava de volta ao Reino Unido e ao Regimento de Pra-quedistas, ento tenente-coronel e instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior, em Camberley.
No

126

FREDERICK FORSYTH ano seguinte, foi promovido a oficial de Comando do Primeiro Batalho, conhecido como Pra-Um. Os aliados da Otan mais uma vez intervieram nos
Blcs, dessa vez um pouco mais rpido que antes, e novamente para prevenir um massacre grande o bastante para fazer a mdia empregar uma palavra cada vez mais comum:
genocdio.
O setor de inteligncia convencera os governos britnico e americano de que Milosevic pretendia limpar a provncia rebelde de Kosovo, e fazer isso integralmente.
O meio seria a expulso da maior parte do 1,8 milho de cidados a oeste para a vizinha Albnia. Sob a bandeira da Otan, os aliados deram um ultimato a Milosevic.
Ele o ignorou, e colunas de kosovares chorosos e destitudos foram conduzidas atravs de passagens montanhosas at a Albnia.
A reao da Otan no foi de invaso ao territrio, mas bombardeios que duraram 78 dias e reduziram a runas tanto Kosovo quanto a prpria Iugoslvia. Com o pas
destrudo, Milosevic finalmente cedeu e a Otan entrou em Kosovo para tentar governar as runas. O militar encarregado era o general Mike Jackson, membro da Brigada
de Pra-quedismo desde o comeo de sua carreira, e o Pra-Um o acompanhou.
Essa provavelmente seria a ltima ao de Mike Martin, no fosse a turma do Oriente Mdio.
Em 9 de setembro de 2001, espalhou-se por todo o Exrcito talib uma notcia que fez os soldados gritarem repetidamente Allahu-akhbar (Al  Grande). O ar acima
do acampamento de Izmat Khan, nas cercanias de Bamiyan, estalava com tiros disparados num delrio de alegria. Algum assassinara Ahmad Shah Massoud. Seu inimigo
estava morto. O homem cujo carisma sustentara a causa do intil Rabbani, cuja astcia como

O AFEGO 127

guerrilheiro fizera os soviticos reverenci-lo e reduzira as foras talibs a pedaos, no existia mais.
Na verdade, ele fora assassinado por dois homens-bomba, marroquinos ultrafanticos com passaportes belgas roubados que se fingiram de jornalistas e foram enviados
por Osama bin Laden como um favor ao seu amigo mula Ornar. O saudita no traara o plano; fora o astuto egpcio Ayman al-Zawahiri que compreendera que se a al-Qaeda
prestasse o favor a Ornar, o caolho no iria conden-los pelo que estava para acontecer.
Em 11 de setembro, quatro avies de passageiros foram seqestrados na costa leste dos Estados Unidos. Em 90 minutos, dois destruram o World Trade Center, em Manhattan,
um devastou o Pentgono, e o quarto, graas aos passageiros, que se rebelaram e invadiram a cabine de comando para arrancar os seqestradores dos controles, caiu
numa plantao.
Em poucos dias a identidade dos 19 seqestradores foi revelada; mais alguns dias e o novo presidente americano deu ao mula Omar um ultimato simples: entregue os
lderes ou assuma as conseqncias. Por causa de Massoud, Omar no podia capitular. Era o cdigo.
Em Serra Leoa, uma sucursal do inferno na frica Ocidental, anos de guerra e barbrie reduziram a antes riqussima colnia britnica a uma regio infestada por caos,
banditismo, sujeira, doenas, pobreza e braos e pernas mutilados. Anos antes, os britnicos decidiram intervir e persuadiram a ONU a enviar 15 mil soldados que,
na maioria das vezes, simplesmente ficavam sentados em suas tendas na capital, Freetown. A selva alm dos limites da cidade era considerada perigosa demais. Mas
a fora da ONU inclua um elemento do Exrcito britnico, e este pelo menos patrulhava o interior.

128

FREDERICK FORSYTH
No fim de agosto, uma patrulha de 11 homens do Royal Irish Rangers, regimento de infantaria britnico, foi atrada para fora da estrada principal e por uma trilha
at a aldeia que funcionava como QG de um bando de rebeldes que se autodenominavam West Side Boys. Na verdade, eram psicopatas descontrolados - estavam sempre bbados
com aguardente caseira; esfregavam cocana nas gengivas ou laceravam os braos para passar a droga nos cortes e assim ficar doides mais depressa. Os horrores que
infligiram aos camponeses de uma grande rea do pas so impronunciveis. Os West Side Boys eram 400 homens, e estavam armados at os dentes. Os Rangers foram rapidamente
capturados e mantidos refns.
Mike Martin, depois de uma temporada em Kosovo, levara o Pra-Um a Freetown, onde estavam acantonados no Acampamento Waterloo. Depois de negociaes complexas, cinco
deles foram libertados sob resgate, os outros seis pareciam destinados ao esquartejamento. Em Londres, o chefe do Gabinete de Defesa, Sir Charles Guthrie, deu a
ordem: vo at l e retirem-nos  fora.
A fora-tarefa era composta por 48 homens do SAS, 24 do SBS e 90 homens do Pra-Um. Dez pra-quedistas do SAS em camuflagem de selva foram deixados na regio uma
semana antes do ataque e passaram a viver na selva nas cercanias da aldeia dos rebeldes, observando e escutando sem serem vistos. Tudo que os West Side Boys diziam
e faziam era ouvido pelos homens do SAS escondidos na vegetao, e retransmitido para a base. Foi assim que os britnicos souberam que no havia qualquer esperana
de resgate pacfico.
Mike Martin seguiu para o local com o segundo grupo, depois que um morteiro rebelde acidentalmente feriu seis in
O AFEGO 129

tegrantes do Pra-Um, inclusive o comandante do primeiro grupo, que teve de ser evacuado imediatamente.
A aldeia dos rebeldes - na verdade as aldeias gmeas de Gberi Bana e Magbeni - estendia-se  margem de um rio lodoso e fedorento chamado riacho Rokel. Os 70 homens
do SAS tomaram Gberi Bana, onde os refns estavam localizados, resgataram todos eles e resistiram a uma srie de contra-ataques enfurecidos. Os 90 do Pra-Um tomaram
Magbeni. Ao amanhecer, havia cerca de 200 West Side Boys em cada aldeia.
Seis prisioneiros foram capturados, amarrados e levados de volta at Freetown. Alguns deles escaparam para a selva. No se tentou contar os corpos, nem nas runas
das duas aldeias nem na selva circundante, mas ningum questionou uma estimativa de 300 mortos.
O SAS e o Pra tiveram 12 feridos e um dos SAS, Brad Tinnion, morreu devido aos ferimentos. Mike Martin, tendo perdido o comandante do primeiro grupo, chegou no
segundo e liderou o ataque final a Magbeni. Foi um combate  moda antiga, com tiros  queima-roupa e luta corpo a corpo. No lado sul do riacho Rokel, o Pra perdera
seu rdio para a mesma exploso de morteiro que matara o lder do ataque. Assim os helicpteros circulando acima de suas cabeas no podiam avisar sobre os morteiros,
e a selva densa no permitia v-los cair.
No fim das contas, os integrantes do Pra simplesmente avanaram, gritando e xingando at que os West Side Boys, felizes por terem torturados camponeses e prisioneiros,
fugiram, morreram, fugiram de novo e morreram at no restar um s deles.
Seis meses depois de Martin voltar para Londres, seu caf-da-manh foi interrompido por aquelas imagens inacreditveis

130

FREDERICK FORSYTH na tela de TV: avies cheios de passageiros com os tanques de combustvel repletos, voando direto contra as Torres Gmeas. Uma semana depois, estava
claro que os EUA teriam de entrar no Afeganisto para perseguir os responsveis, com ou sem a concordncia do governo de Cabul.
Londres imediatamente concordou em fornecer tudo o que fosse necessrio de seus prprios recursos. Os pedidos imediatos foram de avies de reabastecimento areo
e Foras Especiais. O chefe de seo do SIS em Islamabad disse que precisaria de todo o apoio que pudesse obter.
Era um trabalho para Vauxha Cross, mas o adido de Defesa em Islamabad tambm pediu ajuda. Mike Martin foi retirado de sua escrivaninha no QG do Regimento de Pra-quedistas
e posto no vo seguinte para Islamabad, como oficial de ligao das Foras Especiais.
Ele chegou exatamente duas semanas depois da destruio do World Trade Center e no dia dos primeiros ataques aliados.

CAPTULO 7

IZMAT KHAN AINDA ESTAVA COMANDANDO NO NORTE, NO FRONT de Badakhshan, quando as bombas choveram sobre Cabul. Enquanto o mundo estudava Cabul e tticas de distrao
eram efetuadas no sul, as foras especiais americanas infiltraram-se em Badakhshan para ajudar o general Fahim, que assumira o Exrcito de Massoud. Ali ocorreria
o verdadeiro combate: o resto seria decorao de vitrine para a mdia. Os pontos fortes seriam as foras de solo da Aliana do Norte e o poderio areo americano.
Sem jamais decolar, a pfia fora area afeg foi evaporada. Seus tanques e artilharia, quando localizados, eram extirpados . O uzbeque Rashid Dostum que passara
anos em segurana do outro lado da fronteira, foi persuadido a retornar e abrir uma segunda frente de combate no noroeste para eqivaler  frente de Fahim no nordeste.
E em novembro comeou a grande fuga. O segredo residia na marcao de alvos, a tecnologia revolucionria introduzida na Guerra do Golfo, em 1991.
Ocultos entre as foras aliadas, especialistas das Foras Especiais olhavam por seus binculos de longo alcance para iden

132

FREDERICK FORSYTH tifcar os postos, canhes, carros de combate, arsenais, depsitos de suprimentos e abrigos de comando do inimigo. Cada um era marcado ou pintado
com um ponto infravermelho emitido por um projetor apoiado no ombro do especialista. Por rdio, um ataque areo era convocado.
O Exrcito talib sofreu ataques desferidos do sul, onde os porta-avies americanos estavam posicionados na costa, ou de avies A-10, que decolavam do bem recompensado
Uzbequisto. Unidade por unidade, com bombas e foguetes que no podiam errar ao seguirem o raio infravermelho, o Exrcito talib foi destrudo e os tadjiques atacaram,
triunfantes.
Izmat Khan recuou e recuou, enquanto uma posio depois da outra era devastada e destruda. O Exrcito talib do norte comeou com mais de 30 mil soldados, mas perdia
mil por dia. No dispunha de medicamentos ou mdicos. Os feridos faziam suas preces e morriam como moscas. Eles gritavam Allahu-akhbaf e investiam contra muralhas
de projteis.
Os voluntrios do Exrcito talib j tinham sido empregados nas batalhas desde o comeo. Restavam poucos. Esquadres de recrutamento talibs pressionavam dezenas
de milhares a ingressarem em suas fileiras, mas muitos no queriam lutar. Os verdadeiros fanticos estavam morrendo. E mesmo assim Izmat Khan precisava orden-los
a recuarem, cada vez mais convencido de que, estando na frente de cada combate, ele no sobreviveria a mais um dia. Em 18 de novembro eles haviam alcanado a cidade
de Kunduz.
Por um capricho da Histria, Kunduz  um pequeno enclave de sulistas de Gilzai, todos pashtuns, num mar de tadjiques e hazaras. Portanto o Exrcito talib poderia
buscar refgio no local. E foi ali que concordaram em se render.

O AFEGO

133

Para os afegos, no h nada de desonroso em uma rendio negociada, e que depois de acertada tem seus termos sempre respeitados, O Exrcito talib inteiro rendeu-se
ao general Fahim, e para a fria dos americanos, Fahim aceitou.
Dentro do Talib havia dois grupos no-afegos. Havia 600 rabes, todos devotados a Osama bn Laden, que os mandara para l. Bem mais de trs mil rabes haviam morrido,
e os americanos no derramariam lgrimas salgadas se o restante tambm fosse encontrar Al.
Tambm havia cerca de dois mil paquistaneses que claramente iriam se tornar um constrangimento imenso para Is-lamabad se fossem descobertos. Depois do 11 de Setembro,
o soberano do Paquisto, general Musharraf, no tinha mais dvida de que tinha uma escolha: tornar-se um aliado dedicado dos EUA, com bilhes e bilhes de dlares
em auxlio de guerra; ou continuar a apoiar (atravs do ISI) o Talib, e portanto Bin Laden, e arcar com as conseqncias diretas. Ele escolheu os EUA.
Mas o ISI ainda tinha um pequeno exrcito de agentes dentro do Afeganisto. Durante trs noites, uma ponte area secreta transferiu de volta para o Paquisto a maior
parte dos voluntrios paquistaneses que lutavam contra o Talib.
Em outro acordo secreto, cerca de quatro mil prisioneiros foram vendidos por somas variadas, de acordo com o nvel de interesse, para os EUA e para a Rssia. Os
russos estavam interessados sobretudo nos chechenos.
O exrcito que se rendeu era de mais de 14 mil homens, mas seus nmeros caram vertiginosamente. Finalmente, a Aliana do Norte anunciou  imprensa mundial que aflua
para o norte para cobrir a guerra verdadeira, que tinha em seu poder apenas 8 mil prisioneiros.

134 FREDERICK FORSYTH
Depois decidiu-se entregar mais 5 mil ao comandante uzbeque, o general Dostum. Ele queria lev-los para oeste, at Sheberghan, no interior do prprio territrio.
Eles foram transportados em contineres de ao, sem comida ou gua, to espremidos que podiam apenas ficar de p, esticando-se para usufruir do ar acima de suas
cabeas. Em algum lugar na estrada para oeste, concordou-se em fazer buracos de respirao. Eles foram feitos com metralhadoras que continuaram atirando at que
os gritos parassem.
Dos 3.015 restantes, foram separados os rabes. Eles provinham das diversas partes do mundo muulmano: eram sauditas, iemenitas, marroquinos, argelinos, egpcios,
jordanianos e srios. Os ultra-radicais uzbeques tinham sido encaminhados para Tashkent, a capital do Uzbequisto, bem como a maioria dos chechenos, mas uns poucos
conseguiram ficar. Durante a campanha, os chechenos conquistaram a reputao de serem os mais ferozes, cruis e suicidas.
Cerca de 2.400 ficaram para trs, em mos tadijques, e desses no se ouviu mais falar desde ento. Um dos responsveis pela seleo dirigiu-se a Izmat Khan em rabe.
Como respondeu em rabe, foi considerado rabe. Ele no portava distintivos de posto, estava imundo, deprimido, faminto e exausto. Quando foi empurrado por um dos
homens, estava to cansado que no esboou qualquer reao. Assim acabou como um dos doze afegos no grupo destinado a ser enviado para oeste at Mazar-i-Sharif,
para as mos de Dostum e seus uzbeques. A essa altura, a mdia ocidental estava atenta, e os prisioneiros receberam da recm-chegada ONU uma garantia de salvo-conduto.
Conseguiram-se caminhes em algum lugar, e 600 homens foram embarcados na longa jornada para oeste pela acidentada

O AFEGO

135

estrada at Mazar. Mas seu destino final no seria a cidade propriamente dita, e sim uma imensa fortaleza-priso 16 quilmetros mais a oeste.
Assim chegaram ao porto do inferno, mas todos o chamavam de forte de Qala-i-Jangi.
A conquista do Afeganisto, se medida desde a primeira bomba at a queda de Cabul nas mos da Aliana do Norte, demorou aproximadamente 50 dias, mas as Foras Especiais
de ambos os pases aliados estavam operando dentro do Afeganisto desde bem antes disso. Mike Martin queria partir com os outros, mas o Alto Comissariado Britnico
em Islamabad foi irredutvel em sua posio de que precisava dele no local para operar em conjunto com os oficiais do Exrcito paquistans.
At Bagram. Tendo pertencido anteriormente aos soviticos, a vasta base area ao norte de Cabul prometia tornar-se uma das principais bases aliadas durante a ocupao.
As aeronaves talibs baseadas no local tinham sido reduzidas a destroos, e a torre de controle estava em runa. Contudo, o tamanho da pista de decolagem, os numerosos
e imensos hangares e as acomodaes que um dia acolheram a guarnio sovitica podiam ser restaurados com tempo e dinheiro.
A base foi capturada na terceira semana de novembro e uma equipe de homens do SBS mudou-se para l, denominando-a domnio britnico. Mike Martin usou a notcia como
a desculpa perfeita para pegar uma carona com os norte-americanos no aeroporto de Rawalpindi para ir dar uma olhada no local.
O lugar era sombrio e desconfortvel, mas o SBS havia liberado um hangar antes que os americanos tomassem a maior parte, e estavam recolhidos no fundo do local,
o mais longe possvel do vento gelado.

136

FREDERICK FORSYTH
Soldados possuem um talento notvel para transformar os lugares mais horrveis em locais acolhedores. Os membros das Foras Especiais so especialistas no assunto
porque costumam ir parar nos piores lugares do mundo. A unidade SBS, composta por 20 homens, sara em seus Land Rovers em longas expedies, durante as quais se
apoderara de uma srie de contineres de ao, os quais arrastaram para dentro do galpo.
Com tambores, tbuas e muito engenho, os contineres estavam sendo transformados em camas, sofs, mesas, e o mais importante, em um fogo no qual se poderia aquecer
gua para o ch.
Foi na manh de 26 de novembro que o comandante da unidade disse aos seus homens:
- Parece que est acontecendo alguma coisa num lugar chamado Qala-i-Jangi, a oeste de Mazar. Aparentemente, alguns prisioneiros se revoltaram, tomaram as armas dos
guardas e agora esto lutando contra eles. Acho que devemos ir at l, dar uma olhada.
Seis fuzileiros foram escolhidos e dois Land Rovers alocados e abastecidos. Quando estavam prontos para partir, Martin perguntou:
- Posso ir junto? Vocs podem precisar de um intrprete. O comandante da pequena unidade do SBS era um capito dos fuzileiros navais. Martin era um coronel do Regimento
de Pra-quedistas. No houve objeo. Ele embarcou no segundo veculo, ao lado do motorista. Atrs dele estavam dois fuzileiros acocorados sobre uma metralhadora
calibre 30. Seguiram para o norte num percurso de seis horas, atravessando a passagem Salang at as plancies do norte, a cidade de Mazar e o forte de Qala-i-Jangi.

O AFEGO

137

At hoje no se sabe ao certo que incidente deu origem ao massacre dos prisioneiros em Qala-i-Jangi. Mas existem pistas contundentes.
A mdia ocidental, com sua tendncia a divulgar informaes erradas, afirmou que os prisioneiros eram talibs. Eles eram o oposto disso. Tratava-se, na verdade,
com exceo dos seis afegos includos por acidente, do exrcito derrotado da al-Qaeda. Tinham ido ao Afeganisto especificamente para realizar seu jihad, lutar
e morrer. As pessoas enviadas para oeste de Kunduz eram os 600 homens mais perigosos na sia.
O que eles encontraram em Qala foi uma centena de uz-beques parcialmente treinados sob um comandante incompetente. O prprio Rashid Dostum estava longe; no comando
estava seu imediato, Safed Kamel.
Entre os 600 estavam cerca de 60 de trs categorias no-rabes. Havia chechenos que, tendo suspeitado ainda em Kunduz de que serem remetidos para os russos era uma
receita para a morte, evitaram o massacre. Havia uzbeques anti-Tashkent que tambm tinham descoberto que apenas uma morte miservel os aguardava no Uzbequisto,
e assim se esconderam. E existiam paquistaneses que, erroneamente, evitaram ser repatriados para o Paquisto, onde teriam sido libertados.
Os outros eram rabes. Ao contrrio de muitos membros do Talib deixados para trs em Kunduz, eram todos voluntrios, e no recrutas. Todos ultrafanticos. Tinham
passado pelos campos de treinamento da al-Qaeda; sabiam como lutar com ferocidade e percia. E todos tinham pouco desejo de viver. Haviam rogado a Al pela chance
de levar alguns ocidentais, ou amigos de ocidentais, junto com eles, e assim morrerem como shahid, ou mrtires.

138

FREDERICK FORSYTH
O forte de Qala no  construdo como um forte ocidental.  um imenso complexo de 40 mil metros quadrados com espaos abertos, rvores e construes de um s andar.
O lugar  cercado por um muro de 15 metros, e cada lado  inclinado de modo que um homem pode subir pela rampa e chegar at o alto.
O muro grosso abraa um labirinto de quartis, armazns e passagens. E, abaixo de tudo isso, outro emaranhado de tneis e depsitos. Os uzbeques tinham-no capturado
havia apenas dez dias e pareciam no saber que existia um arsenal talib na ala sul. Foi onde eles puseram os prisioneiros.
Em Kunduz, os cativos tinham sido privados de seus fuzis e granadas, mas ningum os revistara. Caso os tivessem revistado, os captores teriam descoberto que praticamente
cada homem possua uma ou duas granadas escondidas sob seus mantos. Foi assim que chegaram no comboio de caminhes em Qala.
A primeira pista surgiu na noite do sbado no qual chegaram. Izmat Khan estava no quinto caminho e ouviu o estrondo a algumas centenas de metros. Um dos rabes,
reunindo vrios uzbeques ao seu redor, detonou sua granada, reduzindo a si prprio e a cinco uzbeques a cinzas. A noite estava caindo, e no havia iluminao. Os
homens de Dostum decidiram fazer revistas corporais na manh seguinte. Conduziram os prisioneiros para o complexo, sem comida ou gua, e deixaram-nos acocorados
no cho, cercados por homens armados, explicitamente nervosos.
Ao amanhecer comearam as revistas. Os prisioneiros, ainda dceis devido  fadiga da batalha, permitiram que as mos fossem amarradas s costas. Como no havia cordas,
os uzbeques usaram os turbantes dos prisioneiros. Mas turbantes no so cordas.

O AFEGO

139

Um a um, os prisioneiros foram postos de p e revistados. Encontrou-se pistolas, granadas... e dinheiro. Quando a pilha de dinheiro cresceu muito, Sayid Kamel e
seu segundo em comando levaram-na para uma sala lateral. Um pouco mais tarde, um soldado uzbeque olhou pela janela e viu os dois homens embolsando o dinheiro. O
soldado entrou para protestar mas recebeu uma ordem bem clara para sair. Ele saiu, mas Voltou com um fuzil.
Dois prisioneiros viram a cena e conseguiram desatar as mos. Entraram na sala depois do soldado, tomaram o fuzil e usaram a coronha para martelar os trs uzbeques
at a morte. Como no houve disparos, nada foi notado, mas o complexo estava se tornando um barril de plvora.
Os americanos da CIA, Johnny Mike Spann e Dave Tyson haviam entrado na rea. Mike Spann iniciou uma srie de interrogatrios em campo aberto. Estava cercado por
600 fanticos cuja nica ambio antes de se encontrarem com Al era matar um americano. Ento um guarda uzbeque viu o rabe armado e gritou em alerta. O rabe disparou
e o matou. O barril de plvora explodiu.
Izmat Khan estava acocorado no cho, esperando sua vez. Como os outros, ele libertara as mos. Quando o uzbeque baleado caiu, outros postados no alto dos muros abriram
fogo com metralhadoras. O abate comeou.
Mais de uma centena de prisioneiros morreram de mos amarradas e foram encontrados dessa maneira quando o local finalmente estava seguro para a entrada dos observadores
da ONU. Outros desataram as mos dos companheiros para que pudessem lutar. Izmat Khan liderou um grupo, incluindo os cinco amigos afegos, todos correndo curvados
e em ziguezague atravs das rvores at o muro sul onde, devido a uma visita

140 FREDERICK FORSYTH anterior quando o forte estava em mos talibs, ele sabia existir um arsenal.
Vinte rabes prximos de Mike Spann caram sobre ele e o espancaram at a morte com punhos e ps. Dave Tyson esvaziou sua pistola na turba, matou trs, ouviu o clique
do co da arma batendo na cmara vazia e teve sorte de alcanar o porto principal bem a tempo.
Em dez minutos, o complexo estava vazio, com exceo dos cadveres e dos feridos, que ficaram deitados, gritando at morrerem. Com os uzbeques agora do outro lado
do muro, o porto principal foi derrubado e os prisioneiros estavam do lado de dentro. O cerco havia comeado; duraria seis dias e ningum estava nem um pouco interessado
em tomar prisioneiros. Cada lado estava convencido de que o outro rompera os termos de rendio, mas a essa altura isso no importava mais.
A porta do arsenal foi derrubada rapidamente e o tesouro distribudo. Aqueles 500 homens estavam com armas suficientes para formar um pequeno exrcito. Havia fuzis,
granadas, lanadores, RPGs e morteiros. O grupo se dispersou pelos tneis e passagens at dominar toda a fortaleza. Cada vez que um uzbeque punha a cabea sobre
o parapeito, um rabe, disparando atravs de uma fenda no complexo, levava um tiro.
Os homens de Dostum no tinham outra coisa a fazer alm de pedir ajuda, urgentemente. Ela veio na forma de centenas de uzbeques do general Dostum, que correram at
Qala-i-Jangi. Os Boinas Verdes norte-americanos tambm a caminho estavam na forma de quatro homens de Forte Campbell, Kentucky, alm de um oficial da Fora Area
americana para assistir na coordenao area e seis da 10g Diviso Montanha. Basicamente seu trabalho era observar, reportar e convocar ataques areos para romper
a resistncia.

O AFEGO

141

No meio da manh, vindos da base em Bagram, ao norte da recm-capturada capital Cabul, chegaram dois Land Rovers com seis oficiais das foras especiais do SBS e
um intrprete, o tenente-coronel Mike Martin, do SAS.
A tera-feira assistiu ao contra-ataque uzbeque tomar forma. Protegidos por um carro de combate simples, eles entraram novamente no complexo e comearam a identificar
as posies rebeldes. Izmat Khan fora reconhecido como comandante de alto escalo e incumbido de uma ala da face sul. Quando o carro de combate abriu fogo, Izmat
ordenou que seus homens entrassem nos depsitos. Quando o bombardeio parou, eles saram novamente.
Izmat Khan sabia que era apenas uma questo de tempo. No havia como fugir ou obter misericrdia. No que ele quisesse. Aos 25 anos, Izmat encontrara o lugar onde
ia morrer, e era um lugar to bom quanto qualquer outro.
A tera-feira tambm presenciou a chegada de uma aeronave de ataque americana. Os quatro Boinas Verdes e o oficial da Fora Area estavam deitados diante do parapeito
no topo da rampa externa, escolhendo alvos para os caas-bombardeiros. Trinta ataques aconteceram naquele dia, dos quais 28 atingiram o prdio onde os rebeldes estavam
escondidos, matando cerca de cem homens, grande parte soterrada. Duas bombas no foram to eficientes.
Mike Martin estava diante do muro, a cerca de cem metros dos Boinas Verdes, quando a primeira bomba errou o alvo. O artefato caiu no meio do crculo formado pelos
cinco americanos. O fato de todos terem sobrevivido com tmpanos estourados e alguns ossos quebrados foi um milagre.
A bomba era uma JDAM, projetada para penetrar fundo numa construo antes de detonar. Ao cair com o nariz para baixo no solo, a JDAM perfurou 12 metros antes de
explodir.

142

FREDERICK FORSYTH
Os americanos viram-se em cima de um terremoto, foram chacoalhados, mas sobreviveram.
O segundo erro de alvo foi ainda mais infeliz. A bomba atingiu o carro de combate uzbeque e o posto de comando por trs dele.
Na quarta-feira, a imprensa ocidental havia chegado e estava espalhada por todo o forte, ou pelo menos pela parte externa. Eles podiam no estar se dando conta,
mas sua presena era o nico fator que inibia os uzbeques de exterminarem os rebeldes at o ltimo homem.
No decorrer dos seis dias, 20 rebeldes arriscaram a vida tentando escapar na escurido da noite e fugir pelo campo. Cada um deles foi capturado pelos camponeses
e linchado. Os camponeses eram da tribo hazara, que no haviam esquecido do massacre cometido pelos talibs contra seu povo, trs anos antes.
Mike Martin estava deitado no topo da rampa, olhando atravs do parapeito para o complexo aberto, abaixo. Os cadveres dos primeiros dias ainda estavam espalhados,
e o cheiro era insuportvel. Os americanos, com seus gorros de l preta, j haviam descoberto os rostos, que j tinham sido bem documentados pelos operadores de
cmera. Os sete britnicos preferiam manter-se annimos. Eles usavam o shemagh, o manto de algodo que protege contra moscas, areia e detritos. Na quarta-feira essa
indumentria servia a mais um propsito: filtro contra o cheiro de decomposio dos cadveres.
Um pouco antes do pr-do-sol, o sobrevivente da CIA, Dave Tyson, que retornara depois de um dia em Mazar-i-Sharif, demonstrou ousadia ao entrar no complexo com uma
equipe de TV desesperada para ganhar o prmio Emmy. Martin os viu se arrastando ao longo do muro do lado oposto. O fuzileiro J estava deitado ao lado dele. Enquanto
observavam, um peloto

O AFEGO

143

de rebeldes emergiu do muro por uma porta, agarrou os quatro ocidentais e os levou para dentro.
- Algum devia tir-los de l - comentou o fuzileiro J em tom de conversa. Olhou em torno. Seis pares de olhos o estavam fitando sem falar nada.
Ele pronunciou um sincero puta merda , pulou o muro, desceu a rampa interna e correu pelo espao aberto. Trs homens do SBS juntaram-se a ele. Os outros dois e Martin
ficaram no muro, dando cobertura com os fuzis. A esta altura os rebeldes estavam confinados na parte sul do muro. A loucura da atitude dos quatro fuzileiros pegou
os rebeldes de surpresa. No houve troca de tiros at eles terem alcanado a porta no muro do lado oposto.
O fuzileiro J foi o primeiro a entrar. Os soldados do SAS e do SBS recebem treinamento para a recuperao de refns, at serem capazes de agir nessas situaes sem
hesitar. Em Hereford, o SAS possui uma casa da morte ; em seu QG, em Poole, o SBS mantm uma instalao semelhante.
Os quatro homens do SBS entraram correndo pela porta, identificaram os trs rebeldes por suas roupas e barbas, e dispararam. O procedimento  chamado de toque duplo
: duas balas bem no rosto. Os trs rabes no dispararam um nico tiro; na verdade, estavam virados na direo errada. David Tyson e a equipe de TV britnica concordaram,
naquele lugar e momento, em jamais mencionar o incidente, e nunca o fizeram.
Na noite de quarta-feira, Izmat Khan compreendeu que ele e seus homens no permaneceriam muito tempo no local. A artilharia chegara, e estava comeando a reduzir
a face sul do complexo a destroos. Os pores eram o ltimo recurso. Os rebeldes sobreviventes tinham sido reduzidos a menos de trezentos.

144

FREDERICK FORSYTH
Alguns desses decidiram no descer ao subsolo, mas morrer sob o cu. Realizaram um contra-ataque suicida que funcionou no espao de cem metros, matando um bom nmero
de uzbeques pegos de surpresa e com pouco tempo para reagir. Mas ento a metralhadora do carro de combate sobressalente dos uzbeques abriu fogo, esfarrapando os
rabes. Eles eram, em sua maioria, iemenitas, com alguns chechenos.
Na quinta-feira, sob o conselho dos americanos, os uzbeques pegaram barris de diesel de seu carro de combate e derramaram seus contedos nos pores. E atearam fogo.
Izmat Khan no estava nessa seo do poro, e o cheiro dos cadveres suplantou o cheiro do diesel, mas ele ouviu o vum do fogo instantneo e sentiu o calor. Mais
rebeldes morreram, mas os sobreviventes saram cambaleando da fumaa em direo a ele. Estavam todos tossindo e vomitando. No ltimo poro, com aproximadamente 150
homens ao seu redor, Izmat Khan fechou e aferrolhou a porta para manter a fumaa do lado de fora. Do outro lado da porta, os gemidos dos moribundos enfraqueceram
at finalmente pararem. Acima deles, bombas explodiram nas salas vazias.
O ltimo poro conduzia a uma passagem, de cujo fundo vinha uma corrente de ar fresco. Os rebeldes foram verificar se havia uma sada, mas constataram que o ar era
proveniente de uma sarjeta acima deles. Naquela noite, Din Muhammad, o novo comandante uzbeque, teve a idia de redirecionar uma vala de irrigao para aquela tubulao.
Depois das chuvas de novembro, a vala estava cheia, e a gua, congelante.
 meia-noite, os homens remanescentes estavam com gua at a cintura. Debilitados por fome e exausto, comearam a escorregar e a se afogar.

O AFEGO

145

No nvel do solo, a ONU estava no comando, e as instrues eram de fazer prisioneiros. Atravs dos destroos dos prdios em runas acima, os ltimos rebeldes ouviram
o megafone ordenando-os a sair, desarmados e com as mos para o alto. Depois de 12 horas, o primeiro homem comeou a cambalear at as escadas. Outros o seguiram.
Finalmente, derrotado, Izmat Khan, o ltimo afego sobrevivente, foi com eles.
Na superfcie, tropeando nos blocos de pedra que um dia formavam a face sul do forte, os derradeiros 86 rebeldes viram-se de frente para uma floresta de armas e
foguetes apontados contra eles.  luz da alvorada de sbado, os homens pareciam espantalhos de um filme de terror. Sujos, fedorentos, enegrecidos por fuligem de
cordite, rasgados, barbados e hipotrmicos, tropearam, e alguns caram. Um desses foi Izmat Khan.
Descendo uma pilha de pedras, ele tropeou, estendeu a mo para se equilibrar e agarrou uma rocha. Ao recolher a mo, um pedao de pedra veio junto. Pensando que
estava sendo atacado, um jovem e nervoso uzbeque disparou seu lana-gra-nadas.
O artefato passou voando perto da orelha do afego, para atingir uma rocha s suas costas. A enorme estrutura estilhaou, e um pedao do tamanho de uma bola de beisebol
atingiu-o com fora devastadora na parte de trs da cabea.
Izmat no estava usando turbante. O pano fora empregado para amarrar suas mos seis dias antes, e jamais recuperado. A pedra teria esfarelado o crnio caso o tivesse
atingido em 90 graus. Mas ela ricocheteou, nocauteando-o praticamente a um estado de coma. Izmat caiu entre os cascalhos, com o sangue esguichando da ferida. Os
outros homens foram obrigados a marchar at os caminhes que os aguardavam do lado de fora.

146 FREDERICK FORSYTH
Uma hora depois, os sete soldados britnicos se retiraram do complexo, fazendo anotaes. Mike Martin, como oficial snior, embora tecnicamente o intrprete da unidade,
teria um longo relatrio a fazer, Ele estava contando os mortos, mesmo ciente de que havia muitos, talvez 200, ainda no subterrneo. Um corpo chamou sua ateno;
ainda estava sangrando. Cadveres no sangram.
Ele virou o corpo de barriga para cima. A roupa estava errada. Era uma veste pashtun. No deveria haver nenhum pashtun ali. Tirou o shemagh da cabea do homem e
limpou o rosto sujo de fuligem. Havia alguma coisa levemente familiar nele.
Quando Martin sacou sua faca, um uzbeque que estava prximo sorriu. Se o estrangeiro queria se divertir, qual era o problema? Martin cortou a perna da cala do homem
na altura da coxa direita.
Ainda estava ali, enrugada pelos seis pontos, a cicatriz no local onde o fragmento de uma bomba sovitica alojara-se 13 anos antes. Pela segunda vez na vida, ele
jogou Izmat Khan sobre um dos ombros, como fazem os bombeiros, e o carregou. No porto principal, encontrou um Land Rover com a insgnia da ONU.
- Este homem est vivo, mas ferido - disse ele. - Est com um ferimento muito grave na cabea.
Dever cumprido, Martin embarcou no Land Rover do SBS para o percurso de volta at Bagram.
Trs dias depois, a equipe de investigao americana encontrou o afego no hospital de Mazar e o levou para interrogatrio. Foram de caminho at Bagram, direto
para a rea americana da base area. Dois dias depois, Izmat Khan recobrou-se lentamente no cho de uma cela improvisada, com frio e algemado, mas vivo.

O AFEGO

147

Em 14 de janeiro de 2002, os primeiros detentos chegaram  baa de Guantnamo, Cuba, trazidos de Candahar. Estavam vendados, algemados, famintos, sedentos e sujos.
Izmat Khan era um deles.
O coronel Mike Martin retornou para Londres na primavera de 2002 para passar trs anos como vice-chefe de Pessoal, no QG da Diretoria das Foras Especiais, Quartel
Duque de York, Chelsea. Foi descomissionado em dezembro de 2005, depois de uma festa na qual um grupo de amigos, que incluam Jonathan Shaw, Mark Carleton-Smith,
Jim Davidson e Mike Jackson, tentou embebed-lo, mas sem sucesso. Em janeiro de 2006, ele comprou um celeiro no vale Meon, Hampshire, e no final do vero comeou
a reform-lo e transform-lo numa casa de campo.
Mais tarde, os registros da ONU demonstraram que 514 fanticos da al-Qaeda morreram em Qala-i-Jangi e 86 sobreviveram, todos feridos. Os sobreviventes foram para
a baa de Guantnamo. Sessenta guardas uzbeques tambm morreram. O general Rashid Dostum tornou-se ministro da Defesa do novo governo afego.

LJLJ

CAPITULO 8

A PRIMEIRA TAREFA DA OPERAO CROWBAR ERA ESCOLHER UMA histria, o disfarce para que mesmo aqueles que estivessem trabalhando nela no soubessem nada a respeito
de Mike Martin, ou mesmo da idia de infiltrar um ssia dentro da al-Qaeda.
A lenda escolhida foi de que a operao seria uma ao conjunta anglo-americana contra uma ameaa crescente representada pelo pio que saa de plantaes afegs
e seguia para refinarias no Oriente Mdio. De l, a herona era infiltrada no Ocidente, tanto para destruir vidas quanto para gerar fundos para mais terrorismo.
Segundo o roteiro , os esforos ocidentais para interromper o suprimento de fundos a terroristas atravs de bancos internacionais tinham induzido os fanticos a
recorrerem a drogas para gerar dinheiro.
E finalmente, embora o Ocidente j tivesse agncias poderosas como a DEA americana e a sua congnere britnica engajadas na luta contra os narcticos, a Crowbar
fora idealizada por ambos os governos como uma operao especfica, de alvo nico, preparada para usar foras alheias  cortesia diplomtica para

152

FREDERICKFORSYTH atacar e destruir quaisquer instalaes encontradas, em qualquer pas estrangeiro que estivesse fazendo vista grossa para o negcio.
O modus operand como a equipe da Operao Crowbar ficaria sabendo  medida que fosse convocada, consistiria em usar a mais alta tecnologia de vigilncia para identificar
criminosos influentes, rotas, armazns, refinarias, navios e aeronaves que estivessem envolvidos. Como logo se constatou, ningum da equipe duvidou de uma nica
palavra da histria inventada.
E todo o discurso contra instalaes clandestinas seria mantido at que no houvesse mais necessidade. Mas depois da conferncia em Forte Meade, os mestres da inteligncia
ocidental no estavam dispostos a arriscar tudo na Operao Crowbar. Esforos frenticos, embora ultradiscretos, prosseguiriam em outra parte at descobrir a que
poderia se referir o cdigo Al-Isra.
Mas as agncias de inteligncia estavam diante de um dilema. Elas mantinham legies de informantes no mundo do fundamentalismo islmico, alguns dispostos a colaborar,
ao passo que outros eram coagidos.
A questo era: at onde podemos ir antes que os verdadeiros lderes descubram que sabemos sobre o Al-Isra? Havia vantagens claras em permitir que a al-Qaeda acreditasse
que nada fora tirado do laptop do tesoureiro morto em Peshawar.
Isso foi confirmado quando as primeiras menes da frase em conversa com os especialistas no Coro, reconhecidos como simpatizantes do extremismo, geraram apenas
respostas corteses ou vazias.
Quem quer que soubesse o verdadeiro significado da frase, a al-Qaeda mantivera esse crculo extremamente fechado, e fi
O AFEGO

153

cou rapidamente claro que no inclura nenhum informante do Ocidente. Assim tomou-se a deciso de responder ao segredo com segredo. A contramedida do Ocidente seria
a Crowbar, e apenas a Crowbar.
A segunda tarefa do projeto era encontrar e estabelecer um QG novo e remoto. Tanto Marek Gumienny quanto Steve Hill concordaram em se afastar de Londres e de Washington.
Seu segundo acordo foi estabelecer a base da Crowbar em algum lugar das ilhas britnicas.
Depois da anlise do que seria necessrio em termos de tamanho, acomodaes, espao e acesso, chegou-se ao consenso de utilizar uma base area desativada. Esses
lugares costumam ficar bem afastados das cidades e abrigam refeitrios, cantinas, cozinhas e acomodaes em grande nmero. Some a isso hangares e uma pista para
pouso e decolagem de visitantes secretos. A no ser que a desativao tenha sido efetuada h muito tempo, a reforma poderia ser realizada com rapidez pela diviso
de manuteno de propriedades de uma das foras armadas - no caso, a Fora Area britnica.
Quando chegou a hora de escolher qual seria a base, foi selecionada uma antiga instalao americana, uma das vrias que a Guerra Fria plantara em solo britnico.
Quinze foram listadas e examinadas, incluindo Chicksands, Alconbury, Lakenheath, Fairford, Molesworth, Bentwaters, Upper Heyford e Greenham Common. Todas foram vetadas.
Algumas estavam operacionais, e seria impossvel calar os funcionrios em servio. Outras estavam nas mos de empresrios do ramo imobilirio. Duas ou trs haviam
tido suas pistas de pouso aradas e readaptadas  agricultura. Duas ainda estavam sendo usadas como stios de treinamento para servios de inteligncia. A Crowbar
queria um terreno s oara ela.

154

FREDERICK FORSYTH
Phillips e McDonald escolheram a base da RAF em Edzell e pediram a aprovao de seus respectivos superiores.
Embora a RAF jamais tivesse perdido a propriedade da base em Edzell, ela estava havia anos arrendada para a Marinha dos Estados Unidos, ainda que ficasse a muitos
quilmetros do mar. Na verdade, estava situada no condado escocs de Angus, ao norte de Brechin e a noroeste de Montrose, no limite sul das Highlands.
Edzell fica bem afastada da rodovia A90, que liga Forfar a Stonehaven. A cidadezinha propriamente dita  composta por um pequeno nmero de casas espalhadas por uma
rea florestal ampla, com o North Esk fluindo atravs dela.
A base, quando os dois oficiais executivos foram visit-la, revelou-se perfeita para todos os propsitos. Era to inacessvel a olhos curiosos quanto desejavam;
contava com duas boas pistas de pouso com torre de controle e todos os prdios necessrios para os militares residentes. Tudo o que seria acrescentado era uma srie
de domos brancos, em forma de bolas de golfe, que esconderiam antenas de escuta capazes de ouvir o bater de asas de um besouro do outro lado do mundo, e a converso
do bloco de operaes da Marinha americana no novo centro de comunicaes.
O complexo manteria links codificados com o QG, em Cheltenham, e com a NSA, em Maryland; linhas diretas e seguras para Vauxhall Cross e Langley, que permitiriam
contato instantneo com Marek Gumienny e Steve Hill; e uma alimentao permanente de mais oito agncias de Informao de ambas as naes, sendo a principal delas
o NRO (Escritrio de Reconhecimento Nacional), em Washington, que tinha acesso aos principais satlites espaciais americanos.

O AFEGO 155

Com a permisso concedida, uma equipe da RAF colocou a mo na massa e iniciou uma operao emergencial para reativar Edzell. A pacata cidadezinha de Edzell notou
que alguma coisa estava em andamento, mas com trocas de piscadelas e gestos de boca de siri , concordaram que se tratava de algo altamente secreto, como nos velhos
tempos. O taberneiro local aumentou o estoque de cerveja e usque, torcendo para que os negcios revertessem para seu estado anterior ao fechamento da base. Afora
isso, ningum disse nada.
Enquanto os pintores corriam seus rolos de tinta pelas paredes das acomodaes de uma base area escocesa, o escritrio da firma Siebart & Abercrombie, numa modesta
rua da City londrina chamada Crutched Friars, recebeu uma visita.
O Sr. Ahmed Lampong chegara para um encontro marcado em trocas de e-mails entre Londres e Jacarta e foi conduzido ao gabinete do Sr. Siebart, filho do fundador.
O corretor de remessas navais no sabia, mas lampong  simplesmente o nome de uma das lnguas faladas na ilha de Sumatra, de onde seu visitante indonsio viera.
E era uma alcunha, embora seu passaporte, uma falsificao impecvel, confirmasse o nome.
O ingls do Sr. Ahmed Lampong era igualmente impecvel. Em resposta aos elogios de Alex Siebart, admitiu ter aperfeioado seu domnio da lngua para obter o mestrado
em economia, na London School of Economics. O Sr. Ahmed era um homem calmo e simptico; mais importante, tinha perspectiva de negcios. Nada em sua pessoa sugeria
que fosse um membro fantico da organizao terrorista islmica Jemaat Islamiya, responsvel por uma srie de atentados a bomba em Bali.
Suas credenciais como scio snior da Sumatra Trading International estavam em ordem, assim como suas referncias

156

FREDER1CK FORSYTH bancrias. Quando pediu permisso para apresentar seu problema, o Sr. Siebart prestou total ateno. Como prembulo, o Sr. Lampong pousou solenemente
uma folha de papel na frente do corretor britnico.
A folha continha uma lista comprida. Comeava com Alder-ney, uma das ilhas do canal britnico, e continuava por Anguila, Antgua e Aruba. Essas eram apenas os As
. Havia 43 nomes, terminando com Uruguai e Vanuatu.
- So parasos fiscais, Sr. Siebart - disse o indonsio. - E todos praticam segredo bancrio. Gostemos ou no, alguns empreendimentos extremamente questionveis,
inclusive criminosos, abrigam seus segredos financeiros em lugares como esses. - Ele mostrou uma segunda lista. - E estas so as marinhas mercantes mais propensas
a propsitos questionveis.
Antgua estava outra vez no topo da lista, juntamente com Barbuda, Bahamas, Barbados, Belize, Bermuda e Bolvia. Havia 27 nomes na lista, terminando com So Vicente,
Sri Lanka, Tonga e Vanuatu.
Havia pases africanos como a Guin Equatorial, pontinhos quase invisveis no mapa-mndi como So Tome e Prncipe, a Repblica Federal Islmica Comores e o atol
de corais Vanuatu. Entre os lugares mais encantadores estavam Luxemburgo, Monglia e Camboja, pases de fronteira seca, sem acesso ao mar. O Sr. Siebart estava perplexo,
embora nada fosse novidade para ele.
- Somando as duas, o que temos? - perguntou o Sr. Lampong, triunfante. - Fraude, meu caro senhor. Fraude em grande e crescente escala. Atividade que, lamentavelmente,
prevalece na parte do mundo onde eu e meus scios operamos. Foi por causa disso que decidimos que no futuro lidaremos apenas com a instituio renomada por sua integridade,
a City de Londres.

O AFEGO

157

-  lanita gentileza sua - murmurou o Sr. Siebart. -
Caf? ;
- Roubo de carga, Sr. Siebart. Constante e crescente... No, obrigado, acabo de tomar o caf-da-manh. Cargas so despachadas, cargas valiosas, e ento desaparecem.
Nenhum sinal do navio, dos fretadores, dos corretores, da tripulao, da carga e muito menos dos proprietrios. Tudo escondido em meio a essa floresta de marinhas
mercantes e bancos, em sua maioria altamente corruptos.
- Lamentvel - concordou Siebart. - Em que posso ajudar?
- Meus parceiros e eu concordamos que estamos cansados disso.  verdade, custar um pouco mais. Mas no futuro queremos lidar apenas com navios da marinha mercante
britnica, sados dos portos britnicos sob um capito britnico e atestado por um corretor londrino.
- Excelente - disse Siebart com um sorriso. - Uma escolha sbia. E, obviamente, no podemos esquecer da cobertura de seguro total para a embarcao e para a carga,
garantida pelo Lloyds de Londres. Que cargas vocs querem transportar?
Combinar cargueiros com cargas e cargas com cargueiros  precisamente o que faz um corretor de remessas, e a Siebart & Abercrombie era, havia muito, um dos pilares
da antiqs-sima companhia de navegao da City de Londres, a Baltic Exchange.
- Fiz uma pesquisa cuidadosa - disse o Sr. Lampong, apresentando mais cartas de recomendao. - Temos negociado com esta companhia: exportadores de limusines britnicas
e carros esporte para Cingapura. Da nossa parte, remetemos madeiras finas para moblias, como jacarand e lamo branco da Indonsia para os Estados Unidos. Elas
vm de Bor

158

FREDERICK FORSYTH nu do Norte, mas seria um meio frete, com o restante consistindo em contineres no convs com sedas de Surabaia, Java, tambm com destino aos
Estados Unidos. - Ele pousou na mesa uma ltima carta. - Aqui esto os detalhes de nossos amigos em Surabaia. Todos concordamos que queremos negociar com os britnicos.
Claramente, esta seria uma viagem triangular para qualquer cargueiro britnico. Voc poderia nos conseguir um cargueiro adequado, registrado no Reino Unido, para
essa tarefa? Eu tenho em mente uma parceria regular e contnua.
Alex Siebart tinha certeza de que poderia encontrar uma dzia de navios de bandeira britnica que poderia levar a carga. Ele precisaria saber o tamanho da embarcao,
o preo e as datas desejadas.
Finalmente, ficou acertado que ele entregaria ao Sr. Lam-pong um cardpio de embarcaes adequadas para fretes duplos. Depois de consultar os scios, o Sr. Lampong
ofereceria uma lista de datas desejadas nos dois portos do Extremo Oriente e no porto de entrega nos Estados Unidos. Os dois homens se despediram com expresses
mtuas de confiana e boa vontade.
Depois de ouvir o relato enquanto almoavam no Rules, o pai de Alex Siebart comentou:
- Como  agradvel negociar com cavalheiros civilizados!
Se havia um lugar onde Mike Martin no poderia mostrar seu rosto era a base area de Edzell. Para solucionar o problema, Steve Hill colocou em ao aquela coleo
de contatos que existe em qualquer ramo, a rede de veteranos .
- No estarei em casa durante a maior parte do inverno - disse seu convidado enquanto almoavam no Clube das

O AFEGO

159

Foras Especiais.-Vou tentar aproveitar o sol do Caribe. Creio que voc possa usar o lugar.
- Pagaremos um aluguel,  claro - disse Hill. - Tanto quanto meu oramento modesto permita.
- E ser cuidadoso, espero - comentou o convidado. - Tudo bem, ento. Quando posso t-lo de volta?
- Esperamos ficar l apenas at meados de fevereiro. Usaremos apenas para alguns seminrios de instruo. Tutores indo e voltando, uma coisa desse tipo. No haver
nada... fsico.
Martin voou de Londres at Aberdeen e foi recebido por um ex-sargento do SAS a quem ele conhecia bem. Era um escocs duro que claramente retornara para seu hbitat
natural depois de se aposentar.
- Como vai, chefe? - perguntou ele, empregando o velho jargo dos homens do SAS ao se dirigirem a um oficial. Guardou a bolsa de viagem de Martin no porta-malas
e conduziu o carro para fora do estacionamento do aeroporto. Virou para o norte nas cercanias de Aberdeen e pegou a rodovia A96 na direo de Inverness. Depois de
alguns quilmetros, foram abraados pelas montanhas das Highlands escocesas. Onze quilmetros depois da curva, o carro saiu da estrada principal.
A placa dizia simplesmente: Kemnay. Atravessaram a aldeia de Monymusk e chegaram  estrada Aberdeen-Alford. Cinco quilmetros  frente, o Land Rover virou  direita,
atravessou Whitehouse em alta velocidade e seguiu para Keig. Havia um rio ao lado da estrada; Martin perguntou-se se ali existia salmo, truta ou nenhum dos dois.
Um pouco antes de Keig, a trilha passou pelo rio e fez uma subida longa e coleante. Finalmente, depararam-se com um antigo castelo, pousado de modo majestoso contra
uma vista deslumbrante de colinas e clareiras.

160

FREDERICK FORSYTH
Dois homens saram da entrada principal do castelo e se apresentaram.
- Gordon Phillips. Michael McDonald. Bem-vindos ao castelo Forbes, lar da famlia de lorde Forbes. Fez boa viagem, coronel?
-  Mike, e vocs estavam me esperando. Como? Meu amigo Angus, aqui, no deu nenhum telefonema.
- Bem, tnhamos um homem no avio. Apenas como medida de precauo - disse Phillips.
Mike Martin grunhiu. No percebera o agente; estava claramente fora de forma.
-Tudo bem, Mike - disse McDonald, o homem da CIA. - O importante  que voc est aqui. Agora, teremos muitos tutores dedicando-se exclusivamente a voc durante 18
semanas. Por que no vai tomar um banho? Depois do almoo teremos a primeira reunio.
Durante a Guerra Fria, a CIA mantivera uma rede de casas seguras por todos os EUA. Algumas eram apartamentos em reas urbanas, nos quais se realizavam conferncias
discretas quando era aconselhvel que seus participantes no fossem vistos no QG, Outros eram retiros rurais, como casas de fazenda reformadas, onde os agentes,
aps retornar de uma misso estressante e perigosa, podiam descansar enquanto eram interrogados detalhadamente.
E havia alguns lugares escolhidos por sua obscuridade, onde um desertor sovitico podia ser mantido sob vigilncia enquanto eram feitas checagens sobre sua autenticidade,
e onde uma vingativa KGB, operando a partir da embaixada ou consulado sovitico, no podia alcan-lo.

O AFEGO

161

Os veteranos da agncia ainda estremeciam ao se lembrar do coronel Yurchenko, que desertou em Roma e recebeu permisso para jantar fora, em Georgetown, com seu oficial
de interrogatrio. Ele foi ao banheiro masculino e nunca mais voltou. Na verdade, ele fora contatado pela KGB, que lhe comunicou o que aconteceria  sua famlia
em Moscou. Cheio de remorso, conseguiu uma promessa de anistia e mais uma vez mudou de lado. Jamais se ouviu falar dele novamente.
Marek Gumienny tinha uma pergunta simples para o pequeno escritrio de Langley que gerencia e mantm as casas seguras : qual  a instalao mais obscura e de acesso
difcil que ns temos?
A resposta de seu colega do setor de propriedades foi imediata.
- Ns a chamamos de A Cabana. Fica longe de toda raa humana, em algum lugar da floresta Pasayten, na cordilheira Cascades.
Gumienny pediu cada detalhe e cada foto disponvel. Trinta minutos depois de receber o arquivo, tinha feito sua escolha e recebido suas ordens.
A leste de Seattle, nas florestas do estado de Washington, fica a cordilheira de montanhas cobertas de rvores (e de neve, no inverno) conhecida como Cascades. Dentro
de sua fronteira ficam trs zonas: o Parque Nacional, a floresta madeireira e a floresta Pasayten, As duas primeiras zonas possuam estradas de acesso e algumas
habitaes.
Todos os anos, centenas de milhares de visitantes vo aos parques enquanto ele est aberto. Seu interior abriga um emaranhado de trilhas, adequadas para passeios
a p ou a cavalo, alm de pequenas estradas, ideais para veculos com trao nas quatro rodas. E os guardas-florestais conheciam cada centmetro delas.

162 FREDERICK FORSYTH
A floresta madeireira  interditada ao pblico por razes de segurana, mas ela tambm conta com uma rede de trilhas atravs das quais caminhes arrastam os troncos
tombados at os pontos de entrega para as serrarias. No meio do inverno, ambas as zonas so fechadas, porque a neve impossibilita a maioria dos deslocamentos.
Mas a leste das duas zonas, subindo at a fronteira canadense, est localizada a floresta virgem. Ali no h estradas, apenas uma ou duas trilhas, e somente no extremo
sul do terreno, e perto da passagem Hart, h umas poucas cabanas de troncos.
Os proprietrios de cabanas tendem a passar o vero na floresta, e depois trancam suas propriedades e se retiram para suas manses na cidade. Provavelmente, no
existe nos EUA lugar mais sombrio ou remoto no inverno, com a possvel exceo da rea ao norte de Vermont conhecida simplesmente como O Reino , onde um homem pode
desaparecer e ser encontrado na primavera, ainda congelado.
Anos antes, uma cabana de troncos remota fora posta  venda, e a CIA a comprara. Fora uma compra de impulso, lamentada posteriormente, embora de vez em quando a
propriedade fosse usada pelos oficiais de alto escalo para suas frias. Em outubro, quando Marek Gumienny fez sua pergunta, ela estava fechada e trancada, A despeito
do inverno e dos custos, ele exigiu que ela fosse reaberta e sua transformao iniciada.
- Se  isso que voc quer, por que no usa o Centro de Deteno Noroeste, em Seattle?
Apesar de estar falando com um colega, Gumienny no teve escolha seno mentir.

O AFEGO

163

- No  apenas uma questo de manter um recurso de valor elevado longe de olhos curiosos, nem de impedir que ele escape. Preciso considerar tambm a segurana dele.
J vimos fatalidades mesmo em prises de segurana mxima.
O chefe das casas seguras tinha razo. Pelo menos, achava que tinha. O lugar era completa e inteiramente invisvel, completa e inteiramente  prova de fugas. Ele
trouxe a equipe que idealizara a segurana na temvel priso de segurana mxima da baa Pelican, na Califrnia.
Para incio de conversa, a cabana era quase inacessvel. Uma estrada muito simples seguia por alguns quilmetros para o norte da cidadezinha de Mazama e depois desviava,
para seguir mais 16 quilmetros. No havia outra forma de chegar l que no fosse por via area. Ele precisaria de um helicptero, para ser usado intensamente. Com
o poder que lhe fora investido, Marek Gumienny pediu  base da Fora Area McChord, a sul de Seattle, um helicptero Chinook, que seria usado o tempo todo, para
qualquer tipo de servio.
A equipe de construo veio da engenharia do Exrcito. Materiais de construo foram comprados no local, sob a consultoria da polcia estadual. Ningum recebia mais
informao do que a necessria para a tarefa; a lenda era de que A Cabana estava sendo convertida num centro de pesquisa de segurana mxima. Na verdade, estava
sendo transformada numa priso para uma s pessoa.
No castelo Forbes, o treinamento comeou e estava se tornando cada vez mais intenso. Mike Martin foi ordenado a trocar as roupas ocidentais pelo manto e pelo turbante
de um membro da tribo pashtun. Sua barba e seu cabelo teriam de crescer tanto quanto o tempo permitisse.

164

FREDERICK FORSYTH
A governanta recebeu permisso para ficar. Ela no nutria o menor interesse pelos hspedes do castelo. Hector, o jar-dineiro, tambm no. O terceiro residente remanescente
era Angus, o ex-sargento do SAS que se tornara o administrador das propriedades de lorde Forbes. Com Angus  espreita, somente uma pessoa muito insensata tentaria
entrar na propriedade.
Quanto aos outros, hspedes iam e vinham, salvo duas pessoas que seriam permanentes. Uma era Najib Qureshi, afego nativo, ex-professor em Candahar, refugiado que
recebera asilo na Gr-Bretanha, naturalizado cidado e tradutor do QG de Cheltenham. Ele fora dispensado de seus deveres e transferido para o castelo Forbes. Era
o tutor de idioma e instrutor de todos os hbitos de comportamento que seriam esperadas de um pashtun. Ensinava linguagem corporal, gestos, como acocorar nos calcanhares,
comer, caminhar e as posturas adotadas para oraes.
A outra pessoa era a Dra. Tamian Godfrey; cerca de 65 anos, cabelos cinzentos amarrados em um coque, ela fora casada durante muitos anos com um alto oficial do servio
secreto britnico, o MI5, at sua morte, dois anos antes. Sendo uma de ns , como Steve Hill costumava dizer, estava acostumada a procedimentos de segurana, ao
culto do saber-apenas-o-neces-srio, e a no ter a menor inteno de mencionar sua presena na Esccia a qualquer outra pessoa.
Alm disso, ela poderia deduzir, sem que ningum precisasse lhe dizer, que o homem que seria seu pupilo iria vivenciar uma situao de alto risco, e ficou determinada
a no permitir que ele fracassasse por causa de algum detalhe que ela pudesse esquecer. Sua especialidade era o Coro; seu conhecimento sobre o assunto era enciclopdico,
e seu rabe, impecvel.

O AFEGO

165

- J ojftvgu falar de Muhammad Asad? - perguntou ela a Martin.
Ele admitiu que no.
- Ento devemos comear com ele. Nasceu como Leopold Weiss, um judeu alemo. Converteu-se ao isl e se tornou um de seus maiores estudiosos. Ele  autor do que talvez
seja o melhor tratado sobre o Al-Isra, a jornada da Arbia para Jerusalm, e de l para o paraso. Essa foi a experincia que instituiu as cinco oraes dirias,
a pedra fundamental da f. Voc teria aprendido isso na sua madrassa quando era menino, e o seu imame, sendo um wahabi, teria acreditado totalmente que essa jornada
era real, fsica, e no apenas um sonho. Portanto, voc acredita na mesma coisa. E agora, as preces dirias. Diga depois de mim...
Najib Qureshi estava impressionado. Ela conhece o Coro melhor que eu, pensou ele.
Como exerccio, eles vestiam roupas quentes e iam caminhar pelas colinas, seguidos por Angus, equipado com seu fuzil de caa.
Embora soubesse rabe, Mike Martin compreendeu a imensa quantidade de coisas que precisava aprender. Najib Qureshi ensinou-o a falar rabe com sotaque pashtun, porque
a voz de Izmat Khan, falando rabe com colegas prisioneiros no Campo Delta, fora gravada secretamente para o caso de ele ter segredos para divulgar. Ele no tinha,
mas para o Sr. Qureshi, a gravao era valiosssima. Com ela, poderia ensinar seu aluno a imitar o sotaque de Izmat Khan.
Ainda que Mike Martin tivesse passado seis meses com os mujahedins nas montanhas durante a ocupao sovitica, isso fora h 18 anos, e desde ento ele esquecera
muita coisa. Qureshi

166 FREDERICK FORSYTH instruiu-o na linguagem pashto, embora tivesse sido acordado desde o incio que Martin jamais poderia passar-se por pashtun entre outros pashtuns.
Mas eram principalmente duas coisas: as oraes e o que acontecera a ele na baa de Guantnamo. A CIA era o principal fornecedor de interrogadores no Campo Delta;
Marek Gumienny descobrira trs ou quatro que haviam mantido contato com Izmat Khan desde o momento de sua chegada.
Michael McDonald voou de volta at Langley para passar dias com esses homens, arrancando deles cada detalhe que poderiam recordar, alm das anotaes e gravaes
que tivessem feito. Michael contou a eles uma histria de que o governo estava pensando em libertar Izmat Khan, mas Langley queria certificar-se de que ele no representava
mais perigo.
Todos os interrogadores frisavam que o guerreiro monta-nhs pashtun e comandante talib era o homem mais difcil da priso. Contara pouco, no se queixara a respeito
de nada, quase no cooperara, aceitara todas as privaes e punies com estoicismo. Mas, todos eles concordavam que, quando se fitava os olhos negros de Izmat Khan,
tinham certeza de que ele adoraria arrancar fora suas cabeas.
Depois que McDonald concluiu seu trabalho, todos eles voaram de volta no jato CIA Grumman e pousaram na base area de Edzell. De l, um carro levou McDonald para
o norte at o castelo Forbes, onde repassou as informaes para Mike Martin.
Tamian Godfrey e Najib Qureshi concentraram-se nas preces dirias. Como Martin precisaria diz-las na frente de outras pessoas, era melhor que o fizesse corretamente.
Segundo Najib, havia um fio de esperana. Martin no era rabe de nascimen
O AFEGO

167

to, e a nica linguagem do Coro era o rabe clssico. Uma palavra errada sempre poderia ser atribuda a uma falha de pronncia, mas para um menino que passara sete
anos numa madrassa, uma frase inteira errada seria inadmissvel. Assim, com Najib prostrado no tapete, levantando e abaixando ao lado de Martin, e Tamian Godfrey
(devido aos seus joelhos enrijecidos) sentada numa cadeira, eles recitaram. E recitaram. E recitaram.
Tambm estava havendo progresso na base area de Edzell, onde uma equipe de tcnicos anglo-americanos realizava instalaes e conexes para vincular todos os servios
britnicos e americanos de inteligncia.
Quando a Marinha americana usara a base, havia ali, alm das acomodaes e estaes de trabalho, pista de boliche, salo de beleza, delicatessen, quadra de basquete,
correio, ginsio e teatro. Gordon Phillips, ciente de seu oramento e da superviso atenta de Steve Hill, deixou os luxos mais ou menos como estavam: fora de uso.
A RAF enviou uma equipe de catering, e o Regimento da RAF assumiu a segurana do permetro. Ningum duvidou que a base estava sendo transformada num posto de escuta
para traficantes de pio.
Dos Estados Unidos, chegaram voando os gigantes Galaxies e Starlifters com monitores de escuta que poderiam, e iriam, perscrutar o mundo. No foram trazidos tradutores
de rabe, porque essa atribuio ficaria a cargo do QG de Cheltenham e Forte Meade; ambas as agncias permaneceriam em contato constante e seguro com Crowbar, nome
de cdigo do novo posto de escuta.

168

FREDERICK FORSYTH
Antes do Natal, os 12 computadores foram instalados e conectados. Eles forneciam o centro nervoso, e seis operadores passariam dia e noite diante de suas telas.
O Centro Crowbar jamais foi projetado como uma nova agncia de inteligncia, mas simplesmente uma operao dedicada (ou seja, com um nico propsito) e de curto
prazo, com a qual todas as agncias britnicas e americanas iriam, graas  autoridade de John Negroponte, cooperar sem hesitao ou atraso.
Para possibilitar isso, os computadores do Centro Crowbar foram equipados com linhas ISDN Brent ultra-seguras e duas chaves Brent para cada computador. Cada um deles
possua seu prprio HD removvel, que seria tirado quando no em uso, e armazenado num cofre.
Alm disso, os computadores do Centro estariam ligados diretamente aos sistemas de comunicao do Escritrio Central, como era chamado o QG do SIS em Vauxhall Cross,
e do Grosvenor, o termo empregado para a estao da CIA na embaixada americana em Grosvenor Square, Londres.
Para isolar a operao de qualquer interferncia indesejada, o endereo do Centro Crowbar para suas comunicaes foi escondido sob um cdigo de acesso STRAP3 com
uma lista Bigot limitada ao conhecimento de uns poucos oficiais de alto escalo.
Em seguida, o Centro comeou a ouvir cada palavra falada no Oriente Mdio, na lngua rabe e no mundo do isl. A central fazia apenas o que j vinha sendo feito
por diversos rgos, mas a farsa precisava ser mantida.
Quando o Centro Crowbar entrou em operao, ele teve mais um acesso. Alm de escuta, estava interessado em viso.  obscura base da Fora Area escocesa tambm estavam
sendo encaminhadas as imagens que o NRO americano recebia de seus

O AFEGO 169

satlites Keyhole KH-11, posicionados sobre o mundo rabe, e dos avies no tripulados Predator, cada vez mais empregados e cujas imagens de alta definio obtidas
de 20 mil ps eram enviadas de volta para o comando central do Exrcito americano, ou Centcom, cujo QG ficava em Tampa, Flrida. Algumas das mentes mais perspicazes
em Edzell compreenderam que o Centro Crowbar estava preparado e aguardando por alguma coisa, mas que coisa era essa eles no sabiam.
Um pouco antes do Natal de 2006, o Sr. Alex Siebart voltou a entrar em contato com o Sr. Lampong em sua companhia na Indonsia para propor, como adequado ao seu
propsito, um de dois cargueiros de transporte registrados em Liverpool. Ambos eram de propriedade de uma pequena companhia naval, cujos servios a firma de Siebart
& Abercrombie empregara anteriormente para seus clientes, com imensa satisfao. A McKendrick Shipping era uma empresa familiar; estava na Marinha Mercante havia
um sculo. O chefe da companhia era o patriarca, Liam McKendrick; ele comandava o Countess ofRichmond e o filho dele era o capito do outro navio.
O Countess ofRichmond pesava, oito mil toneladas, ostentava a bandeira comercial inglesa, tinha um preo razovel e estaria disponvel para uma nova carga nos portos
britnicos a partir de 1Q de maro.
O que Alex Siebart no contou foi que ele havia recomendado veementemente o contrato a Liam McKendrick, e que o velho capito concordara. Se Siebart Abercrombie
pudessem conseguir para ele uma carga de volta dos EUA para o Reino Unido, aquela viagem seria uma triangulao bastante lucrativa.

170

FREDERICK FORSYTH
Sem que os dois soubessem, o Sr. Lampong fez contatos com algum na cidade britnica de Birmingham, um acadmico da Universidade Aston, que se dirigiu a Liverpool.
O Countess ofRichmondfoi examinado em detalhes por binculos superpotentes, e uma lente de longo alcance tirou mais de cem fotografias de seus mais diversos ngulos.
Uma semana depois, o Sr. Lampong respondeu ao e-mail. Pediu desculpas pelo atraso, explicando que havia se ausentado para visitar sua serraria, mas que o Countess
ofRichmondparecia extremamente adequado. Seus amigos em Cingapura entrariam em contato sobre os detalhes da carga de limusines a ser levada do Reino Unido para o
Extremo Oriente.
Na verdade, os amigos em Cingapura no eram chineses, mas malaios, e no simplesmente muulmanos, e sim os islmicos ultrafanticos. Tinham recebido dinheiro de
uma conta recm-criada nas Bermudas pelo ltimo Sr. Tewfik al-Qur, que, antes de fazer a transferncia, havia deixado o dinheiro em um pequeno banco no Vietn, que
de nada desconfiara. Nem mesmo pretendiam ter prejuzo com as limusines, mas recuperar  investimento vendendo-as depois que o obietivo fosse alcanado.
A explicao de Marek Gumienny aos interrogadores da CIA, de que Izmat Khan poderia vir a ser julgado, no era uma inverdade. Pretendia providenciar exatamente isso
e assegurar-lhe anistia e liberao.
Em 2005, uma Corte de Apelao dos Estados Unidos decretara que os direitos dos prisioneiros de guerra no se aplicavam aos membros da al-Qaeda. A Corte Federal
apoiara a inteno do presidente Bush de incumbir a tribunais

O AFEGO 171

militares especiais os julgamentos de suspeitos de terrorismo. Isso, pela primeira vez em quatro anos, concedeu aos detentos a chance de empregarem um advogado de
defesa. Gumienny pretendia que a defesa de Izmat Khan fosse de que ele jamais pertencera a al-Qaeda, tendo sido um oficial do Exrcito afego, embora a servio do
Talib, e sem qualquer relao com o 11 de Setembro ou com o terrorismo islmico. E ele esperava que o tribunal aceitasse isso.
Para tal, seria preciso que John Negroponte, como diretor da Inteligncia Nacional, requisitasse ao seu colega Donald Rumsfeld, que era secretrio de Defesa, uma
palavrinha com os juizes militares do caso.
A perna de Mike Martin estava ficando boa, Ele notara, ao ler a pasta fina sobre Izmat Khan depois do encontro em sua horta, que o homem jamais descrevera como adquirira
a cicatriz na coxa direita. Martin tambm no viu nenhum motivo para mencionar isso. Mas quando Michael McDonald voltou de Langley com as anotaes mais abundantes
obtidas durante os diversos interrogatrios de Izmat Khan, ele ficara preocupado com a possibilidade de os interrogadores terem pressionado o afego por uma explicao
pela cicatriz e jamais terem recebido uma. Caso a existncia da cicatriz fosse, de algum modo, conhecida por algum dentro da al-Qaeda, e Mike Martin no a apresentasse
tambm, ele seria descoberto.
Assim, um cirurgio fora trazido de Londres para Edzell, e de l, at o gramado do castelo Forbes, no recm-adquirido helicptero Bell Jetranger. Ele era o cirurgio
de Harley Street, com autorizao plena de segurana, que podia ser chamado ocasionalmente para remover uma bala sem comunicar a ningum.

171

FREDERICK FORSYTH
A operao foi feita inteiramente com anestesia local. A inciso foi fcil, pois no havia bala ou fragmento para ser extrado. O problema no era fazer com que
a cicatriz se formasse em algumas semanas, mas fazer com que ela parecesse bem mais antiga que isso.
O cirurgio, James Newton, extirpou uma quantidade de tecido abaixo e em torno da inciso para faz-la parecer mais profunda, como se alguma coisa tivesse sado,
e criar uma concavidade na carne. Suas suturas foram pontos grandes e desajeitados, aproximando as extremidades do ferimento de modo que elas iriam enrugar enquanto
curassem. Tentou fazer com que os seis pontos parecessem ter sido feitos num hospital militar instalado numa caverna.
-  bom que voc saiba uma coisa - disse o mdico enquanto se preparava para sair. - Se um cirurgio vir isso, provavelmente vai perceber que no pode ter 15 anos.
Um homem sem formao mdica pode aceitar sem problemas. Mas vai precisar de 12 semanas para ficar bom.
A operao foi realizada no comeo de novembro. No Natal, a natureza e o corpo de um homem de 44 anos em boa forma fsica tinham feito um trabalho excelente. No
havia mais inchao ou vermelhido.

CAPTULO 9

- MlKE, MEU RAPAZ, SE VOC EST INDO AONDE EU ACHO QUE voc est indo, ter de dominar os diversos nveis de agressividade e fanatismo que dever encontrar - disse
Tamian Godfrey, durante uma das caminhadas dirias. - O mago de tudo  o suposto jihad, ou Guerra Santa, mas diversas faces chegam a ele atravs de vrias rotas
e se comportam de diversas formas. E todas essas faces so muito diferentes umas das outras.
- Parece comear com o wahabismo - disse Martin.
- De certa forma, sim, mas no podemos esquecer que o wahabismo, uma corrente do islamismo,  a religio nacional da Arbia Saudita e que Osama bin Laden declarou
guerra ao establishment saudita por consider-lo hertico. Existem muitos grupos na ala extremista alm dos ensinamentos de Muhammad AIWahab.
Ele foi um pregador do sculo XVIII que veio de Nejd, a regio mais sombria e inclemente da pennsula saudita. Seu legado foi a mais rgida e intolerante das muitas
interpretaes do Coro. Isso foi naquela poca. Hoje, ele j foi superado. O wahabismo saudita no declarou guerra ao Ocidente, ou 

174

FREDERICK FORSYTH cristandade. O wahabismo saudita no se prope a realizar assassinatos em massa, principalmente de mulheres e crianas. O que Wahab legou foi a
semente da intolerncia total que os atuais mestres do terrorismo plantam nos meninos antes de transform-los em assassinos.
- Ento, como eles ainda no esto confinados  pennsula rabe? - indagou Martin.
Foi Najib Qureshi quem respondeu a essa pergunta:
- Porque durante 30 anos a Arbia Saudita usou seus petrodlares para financiar a internacionalizao de seu credo nacional, e isso inclui cada pas muulmano no
mundo, e tambm o lugar onde nasci. No temos motivo para pensar que a Arbia Saudita soubesse que estava libertando um monstro, ou que esse credo seria usado para
justificar assassinatos em massa. Inclusive, hoje temos grandes motivos para acreditar que a Arbia Saudita sente um medo profundo da criatura que ela fortaleceu
por trs dcadas.
- Ento, por que a al-Qaeda declarou guerra na fonte de seu credo e de sua fundao?
- Porque surgiram novos profetas, ainda mais intolerantes. Esses profetas pregaram no apenas a intolerncia contra qualquer coisa no islmica, como tambm o dever
de atacar e destruir. Condenaram o governo saudita por ter negociado com o Ocidente, permitindo a entrada de tropas americanas em seu solo sagrado. E isso se aplica
tambm a todos os governos muulmanos seculares. Para os fanticos, eles so to culpados quanto os cristos e os judeus.
- Ento, quem voc acha que eu encontrarei em minhas viagens, Tamian? - indagou Martin. A acadmica encontrou uma pedra do tamanho de uma cadeira e sentou nela para
descansar as pernas.

O AFEGO 175

- Existem diversos grupos, mas dois esto no centro. Conhece a palavra salafi ?
- J ouvi falar - admitiu Martin.
- Eles constituem uma brigada do retorno s origens. Querem realmente restaurar a era dourada do isl. Voltar aos quatro primeiros califados, que ocorreram h mais
de mil anos. Barbas grandes, sandlias, mantos, o rigoroso cdigo legal Sharia, rejeio da modernidade e do Ocidente que a trouxe.  claro que no existe esse paraso
na Terra, mas fanticos jamais se deixam desanimar pela realidade. Na perseguio de seus sonhos manacos, nazistas, comunistas, maostas e seguidores de Pol Pot
chacinaram centenas de milhares de pessoas, metade delas de sua prpria nao e raa por no serem extremistas o bastante. Pense nas purificaes empreendidas por
Stalin e Mao... em todos os comunistas que eles mataram por serem apstatas.
- Quando descreve os salafis, voc est descrevendo os talibs - comentou Martin.
- Entre outros. Eles so os homens-bomba, os crentes simples; aqueles que acreditam cegamente em seus mestres, que seguem seus guias espirituais, que no so muito
inteligentes, mas que so absolutamente obedientes e acreditam que todo o seu dio insano agrada ao poderoso Al.
- Eles so piores? - indagou Martin.
- So sim - disse Tamian Godfrey, voltando a caminhar, mas direcionando o grupo de volta ao castelo, cuja torre podia ser vista a dois vales de distncia.
- Os ultra, os verdadeiros ultra, eu designaria com uma palavra: Takfir . Seja l o que esse nome significava na poca de Wahab, mudou. Os verdadeiros salafi no
fumam, jogam ou danam. Eles no aceitam msica em sua presena, no bebem

176

FREDERICK FORSYTH lcool nem mantm relaes com mulheres ocidentais. Com suas vestes, aparncia e devoo religiosa, o takfir  imediatamente identificvel pelo
que ele . Do ponto de vista da segurana interna, a capacidade de identificar o inimigo  metade da batalha.
Mas alguns adotam costumes do Ocidente, por mais que os odeiem, para se passar por completamente ocidentalizados e, portanto, inofensivos. Todos os 19 homens-bomba
do 11 de Setembro tinham conseguido passar despercebidos porque pareciam e agiam como seus personagens. O mesmo ocorreu com os quatro homens-bomba de Londres; aparentemente
rapazes normais, que freqentavam a academia de ginstica e jogavam crquete, eram prestativos, um deles era professor de portadores de necessidades especiais, e
sorriam constantemente. E o tempo todo estavam planejando um atentado. So pessoas assim que devem ser vigiadas.
Muitos so instrudos, possuem um bom diploma, andam barbeados e bem-vestidos. Esses so os mais perigosos; preparados para negar sua f para poderem cometer assassinatos
em massa em nome dela. Graas a Deus, chegamos. Minhas pernas velhas estavam exaustas.  hora das preces do meio-dia. Mike, voc vai fazer o chamado, e em seguida
nos liderar na prece. Podem lhe pedir que faa isso.  um grande privilgio.
Logo depois do Ano-novo, um e-mail foi enviado do escritrio da Siebart & Abercrombie para Jacarta. O Countess of Richmond, com uma carga cheia de automveis Jaguar
para Cingapura, partiria de Liverpool em primeiro de maro. Depois de descarregar em Cingapura, o navio seguiria com lastro para Bornu do Norte para trazer em seus
pores uma carga de

O AFEGO

177

madeira, antes de seguir para Surabaia e recolher para seu convs a carga de caixotes com peas de seda.
A equipe de construo trabalhando dentro da floresta Pasayten viu-se profundamente aliviada ao terminar o servio no fim de janeiro. Para manter o ritmo de trabalho,
os homens tinham optado por operar em turnos duplos e, at o aquecimento central comear a funcionar, as noites tinham sido extremamente frias. Mas os benefcios
eram grandes e tentadores. Eles enfrentaram o desconforto e terminaram dentro do cronograma.
A olho nu, a Cabana parecia a mesma, porm maior. Na verdade, fora transformada. Para acomodar uma equipe de dois oficiais, os quartos de dormir seriam suficientes;
para que os oito guardas extras mantivessem um regime de vigilncia 24 horas, uma outra casamata fora construda, assim como um refeitrio ao seu lado.
A espaosa sala de estar foi mantida como era, mas fora criado ainda mais um anexo para abrigar uma sala de recreao com mesa de bilhar, biblioteca, TV de plasma
e uma ampla seleo de DVDs. Todos esses novos cmodos tinham sido construdos com toras de pinheiro revestidos com isolamento trmico.
O terceiro anexo parecia ser feito com as toras rsticas usuais. As paredes externas na verdade eram revestidas com troncos partidos ao meio; por dentro, as paredes
eram reforadas em concreto. A ala penitenciria inteira era extremamente slida, e no permitia qualquer chance de fuga.
Chegava-se  ala penitenciria atravs dos cmodos dos guardas, por uma nica porta de metal munida de uma porti-nhola para entrega de comida e um olho mgico invertido.
Do outro lado da porta ficava um cmodo simples, mas espa

178 FREDERICKFORSYTH coso. Abrigava uma cama de armao de metal presa no soa-lho de concreto. Jamais poderia ser removida sem o uso de alguma ferramenta: um p-de-cabra.
Nem ela nem as prateleiras na parede, que eram integradas ao concreto.
No havia tapetes, e o calor provinha de grelhas no cho, que no podiam ser abertas. O cmodo tambm contava com uma porta na parede oposta  porta de metal, e
esta o detento poderia abrir ou fechar  vontade, pois conduzia a uma sala de exerccios.
E a sala era totalmente desprovida, salvo por um banco de concreto fora do alcance das paredes, que tinham trs metros de altura e eram lisas como uma mesa de bilhar.
Nenhum homem seria capaz de alcanar o teto, nem havia na sala algo capaz de ser deslocado, empurrado contra a parede ou no qual se pudesse subir.
Para fins sanitrios, havia um recesso a partir da sala de estar quarto de dormir, com um nico buraco no cho para funes fisiolgicas e um chuveiro cujos controles
estavam nas mos dos guardas no lado de fora.
Como todos os materiais novos tinham chegado de helicptero, o nico acrscimo externo visvel era um heliporto sob a neve. Afora isso, a Cabana ficava em um terreno
de dois quilmetros quadrados, cercada por todos os lados por pinhei- 1 ros, larios e abetos, embora todas as rvores num raio de 90 ; metros tivessem sido cortadas.
1

Quando chegaram, os dez guardies daquela que provavelmente era a priso mais cara e inacessvel do pas, eles eram dois agentes de nvel mdio da CIA, vindos de
Langley, e oito funcionrios juniores que tinham completado todos os testes mentais e fsicos na escola de treinamento da Firma e estavam torcendo para receber uma
primeira misso empolgante. Em vez disso,

O AFEGO 179

foram mandados para uma floresta nevada. Mas estavam todos em excelentes condies fsicas e ansiosos por impressionar.
O julgamento militar na baa de Guantnamo comeou um pouco antes do fim de janeiro e foi realizado numa das salas maiores do bloco de interrogatrio. Se algum
esperava um quase enlouquecido coronel Jessup, ou qualquer uma das histrionices retratadas no filme Questo de honra, ficou profundamente decepcionado. Os procedimentos
foram discretos e organizados.
Oito detentos estavam tendo sua libertao considerada por no representarem mais perigo , e sete declararam-se solenemente inofensivos. Apenas um deles manteve
silncio escar-ninho. Seu caso foi o ltimo a ser ouvido.
- Prisioneiro Khan, em que lngua o senhor gostaria que esses procedimentos fossem traduzidos? - perguntou o coronel presidindo o inqurito.
O coronel estava entre um major e uma capito, no palanque no fundo da sala sob o braso dos Estados Unidos da Amrica. Todos os trs eram do departamento jurdico
dos fuzileiros navais.
O prisioneiro estava de frente para eles, obrigado a ficar de p pelos fuzileiros que o flanqueavam. Mesas voltadas umas para as outras tinham sido ocupadas pelos
advogados de acusao e defesa; o primeiro, militar; o segundo, civil. O prisioneiro deu de ombros e olhou para a capito durante vrios segundos. Ento seu olhar
repousou na parede acima dos juizes.
- Este tribunal est ciente de que o prisioneiro compreende rabe, de modo que  a linguagem escolhida. O advogado de defesa tem alguma objeo?

180

FREDERICK FORSYTH
O advogado fez que no com a cabea. Ele fora alertado sobre o cliente quando aceitara o caso. Pelo que ouvira, tinha certeza de que no teria a menor chance. Sua
defesa seria baseada nos direitos civis, e sabia o que os fuzileiros ao seu redor pensavam dos heris do movimento pelos direitos civis. Um cliente prestativo teria
sido bom. Mesmo assim, raciocinou o advogado, a atitude do afego pelo menos servira para desconcertar o advogado de acusao. Nenhuma objeo, rabe seria timo.
O intrprete de rabe avanou e se posicionou perto dos fuzileiros. Foi uma escolha sbia; havia apenas um intrprete pashtun e ele passou maus bocados com os americanos
porque no conseguira extrair nada do afego. Agora ele no tinha nada a fazer, e via a aproximao do fim de um estilo de vida muito confortvel.
Apenas sete pashtuns haviam estado em Gitmo e foram includos erroneamente entre os combatentes estrangeiros em Kunduz cinco anos antes. Quatro haviam retornado,
rapazes de fazenda muito simples que renunciaram a todo o extremismo muulmano com entusiasmo considervel; e os outros dois tinham sofrido abalos nervosos to profundos
que ainda estavam sob cuidados psiquitricos. O comandante talib era o ltimo.
O advogado de acusao comeou seu discurso, e o intrprete pronunciou um jorro de rabe sibilante. A essncia do que foi dito  que os ianques vo te mandar de
volta para a priso e jogar foras as chaves, seu talib arrogante. Izmat Khan lentamente abaixou o olhar para fix-lo no intrprete. Os olhos diziam tudo. O americano
nascido no Lbano no precisava de nenhuma traduo literal. O homem podia estar vestido num macaco laranja ridculo, com mos e ps acorrentados, mas com bastardos
como esse todo cuidado era pouco.

1

O AFEGO 181

O advogado de acusao no demorou muito. Enfatizou cinco anos de silncio virtual, recusa em apontar os nomes de colaboradores na guerra do terrorismo contra os
EUA e o fato de o prisioneiro ter sido capturado num levante de priso no qual um americano fora chutado brutalmente at a morte. Ento ele se sentou. No tinha
qualquer dvida sobre qual seria o resultado. O homem ainda permaneceria anos sob custdia.
O advogado dos direitos civis demorou um pouco mais. Estava feliz com o fato de que, sendo afego, o prisioneiro no tinha relao nenhuma com a atrocidade do 11
de Setembro. Nessa poca, estivera lutando numa guerra civil completamente afeg, sem nenhuma relao com os rabes por trs da al-Qaeda. Quanto a mula Ornar e o
governo afego protegendo Bin Laden e seus comparsas, essa era uma ditadura  qual o Sr. Khan servira como oficial, mas da qual no fizera parte.
- Rogo a este tribunal que admita a realidade - disse ele. - Se este homem  um problema, ele  um problema afego. L agora existe um governo democraticamente eleito.
Deveramos enviar o prisioneiro de volta para seu pas, para que seja julgado por seu prprio governo.
Os trs juizes se retiraram. Ficaram fora durante 30 minutos. Quando retornaram, a capito estava rosada de raiva. Ainda no acreditava no que acabara de ouvir.
Apenas o coronel e o major haviam se reunido com o presidente do Estado-Maior Conjunto, e sabiam suas ordens.
- Prisioneiro Khan, levante-se. Este tribunal foi informado de que o governo do presidente Karzai concordou que se voc for devolvido  sua terra natal, ser sentenciado
l  priso perptua. Sendo assim, este tribunal decidiu que os contribuintes americanos no devem mais sustentar o senhor. Sero tomadas providncias para envi-lo
de volta a Cabul. O

182

FREDERICK FORSYTH senhor retornar como chegou... acorrentado.  s. Corte dispensada.
A capito no era a nica pessoa chocada com aquilo. O advogado de acusao se perguntou como aquilo iria repercutir em suas perspectivas de carreira. O advogado
de defesa estava se sentindo levemente inebriado. O intrprete entrou em pnico por um instante, temendo que o coronel ordenasse que as algemas do prisioneiro fossem
abertas, caso no qual ele, o bom filho de Beirute, sairia correndo para pular pela janela.
O gabinete britnico das Relaes Exteriores fica situado na King Charles Street, bem perto de Whitehall, com vista para a Parliament Square, na qual o rei Charles
I fora decapitado.  medida que o feriado de fim de ano reduzia-se a uma vaga lembrana, a pequena equipe de protocolo que fora estabelecida no vero anterior retomou
seu trabalho.
Este era combinar com os americanos os detalhes cada vez mais complexos da prxima conferncia do G8, em 2007. A reunio de 2005 dos governos dos oito pases mais
ricos do mundo fora realizada no Hotel Gleneagles, Esccia, e fora um sucesso at certo ponto. A questo era que a multido de manifestantes que apresentava problemas
estava cada vez pior. Em Gleneagles, a paisagem de Perthshire fora desfigurada por quilmetros e mais quilmetros de cerca de arame para isolar a propriedade inteira.
A estrada de acesso tambm teve de ser protegida com cercas e sentinelas.
Liderado por duas estrelas decadentes da cultura pop, o chamado fora para que um milho de pessoas protestassem contra a pobreza do mundo marchando por Edimburgo,
cidade prxima da sede do evento. E essa foi apenas a brigada anti
O AFEGO 183

pobreza. Depois os detratores da globalizao haviam atirado suas bombas de farinha e brandido seus cartazes.
- Esses malucos no compreendem que o comrcio global gera a riqueza que combate a pobreza? - perguntou um diplomata irritado. A resposta foi: aparentemente, no.
Gnova foi lembrada com um arrepio. Era por causa disso que a idia da Casa Branca, que seria a anfitri em 2007, era considerada simples, elegante, brilhante. Uma
locao suntuosa mas absolutamente isolada; protegida, inalcanvel, segura e em controle total. O que preocupava a equipe de protocolo era a massa de detalhes;
isso e a antecipao para o meio de abril. Alguma relao com as prvias eleitorais. Assim, a equipe britnica aceitou o que fora acertado e anunciado e mergulhou
em suas tarefas administrativas.
Muito longe dali, a sudoeste, dois imensos Starlifters da Fora Area americana comearam a descer no Sultanato de Om. Eles vinham da costa leste dos EUA com apenas
um reabastecimento em pleno ar por um avio-tanque sobre os Aores. Os dois gigantes voadores desceram ao pr-do-sol para as colinas Dhofari, seguindo para leste
e pedindo instrues de pouso  base anglo-americana no deserto de Thumrait.
Em seus imensos interiores, os dois gigantes continham uma unidade militar inteira. Um carregava todos os recursos de subsistncia da equipe tcnica de 15 pessoas,
desde bangals, geradores de eletricidade, condicionadores de ar e antenas de televiso, at saca-rolhas. O outro avio de carga carregava o que  conhecido como
a menina dos olhos . Dois avies automatizados de reconhecimento Predator, seu equipamento de orientao e captao de imagens, e os homens e as mulheres capacitados
a oper-los.

184

FREDERICKFORSYTH
Uma semana depois, eles estavam instalados. Numa das extremidades da base area, proibida a pessoas no autorizadas, os bangals estavam montados, os condicionadores
de ar zumbiam, as latrinas estavam escavadas, a cozinha produzia comida; e sob seus abrigos cercados os dois Predators aguardavam at receber sua misso. A vigilncia
area tambm estava sendo retransmitida para Tampa, na Flrida, e Edzell, na Esccia. Algum dia eles receberiam suas ordens sobre o que deveriam vigiar, dia e noite,
fizesse sol ou chuva, fotografando e transmitindo. At l, os homens e as mquinas aguardavam no calor.
A instruo final de Mike Martin demorou trs dias inteiros, e era vital que Marek Gumienny viesse voando no Grumman da agncia. Steve Hill veio de Londres e os
dois agentes juntaram-se a seus oficiais-executivos McDonald e Phillips.
Eram s os cinco na sala, pois Gordon Phillips operava sozinho o que ele chamava de show de slides . Bem mais avanado que os projetores de slides de outrora, o
demonstrador exibia uma sucesso de fotografias num televisor de plasma de alta definio em cores e detalhes perfeitos. A um toque no controle remoto, a imagem
poderia ser fechada em qualquer detalhe e ser ampliada para encher a tela.
O objetivo da reunio era mostrar a Mike Martin cada informao obtida por toda a gama de agncias ocidentais a respeito dos fatos com os quais teria de lidar.
A fontes no eram apenas as agncias anglo-americanas. Agncias de mais de 40 naes estavam despejando suas descobertas nos bancos de dados centrais. Afora os estados
terroristas, Ir, Sria e os estados fracassados como Somlia, governos do planeta inteiro estavam compartilhando informaes sobre terroristas do credo islmico
ultra-agressivo.

O AFEGO

185

Rabat foi inestimvel em apontar os prprios marroquinos; Aden apresentou nomes e rostos do Imen do Sul; Riad engoliu seu constrangimento e proveu colunas de rostos
de sua prpria lista saudita.
Martin olhou para todos aqueles rostos, exibidos um depois do outro. Algumas fotografias eram retratos policiais tirados em delegacias; outras tinham sido obtidas
com lentes teleobjeti-vas em ruas ou hotis. As variaes possveis dos rostos eram exibidas: com ou sem barba, em vestes rabes ou ocidentais; cabelos compridos,
curtos ou barbeados.
Eram mulas e imames de vrias mesquitas extremistas; jovens que provavelmente eram apenas mensageiros; simpatizantes da causa, que ajudavam com dinheiro, transporte
e casas.
E tambm estavam ali os figures, aqueles que controlavam as diversas divises globais e tinham acesso ao topo.
Alguns estavam mortos, como Mohammed Atef, primeiro diretor de Operaes, morto por uma bomba americana no Afeganisto; seu sucessor, cumprindo priso perptua sem
condicional; o sucessor deste, tambm morto; alm daquele que se acreditava ser o atual chefe.
Em algum lugar ali estava o rosto reconstrudo de Tewfik Al-Qur, que mergulhara de uma varanda, cinco meses antes. E tambm o rosto de Saud Hamud Al-Utaibi, novo
chefe da al-Qaeda na Arbia Saudita, e presumivelmente muito vivo.
E havia tambm os vazios, o contorno de uma cabea, preto sobre branco. Entre esses estavam o chefe da al-Qaeda no Sudeste da sia, sucessor de Hanbali e provavelmente
o homem por trs dos ltimos atentados a bomba a resorts luxuosos no Oriente Mdio. E surpreendentemente o chefe da al-Qaeda no Reino Unido.

186

FREDERICKFORSYTH - At uns seis meses atrs, sabamos quem ele era - disse Gordon Phillips. - Ento ele fugiu. Bem a tempo. Est novamente no Paquisto, caado dia
e noite. Cedo ou tarde o ISI vai captur-lo.,.
- E mand-lo para ns l em Bagram-resmungou Marek; Gumienny.
Todos eles sabiam que dentro da base americana ao norte de Cabul havia uma instalao muito especial, na qual todos acabavam cantando .
-Voc deve ficar de olho neste - disse Steve Hill, quando o rosto sorumbtico de um imame apareceu na tela. Era uma foto tirada sorrateiramente e vinha do Paquisto.
- E neste.
Era um homem idoso, parecendo calmo e educado; tambm era uma foto batida sem o conhecimento do retratado, em algum cais, com uma massa de gua azul brilhando ao
fundo. A fotografia provinha das Foras Especiais dos Emirados rabes Unidos, em Dubai.
Fizeram uma pausa, almoaram, dormiram e recomearam. Phillips s desligara o televisor quando a governanta entrara na sala com bandejas de comida. Durante esse
perodo, Tamian Godfrey e Najib Qureshi permaneceram em seus quartos ou caminharam juntos pelas colinas. Finalmente, acabou.
- Amanh voaremos - disse Marek Gumienny.
A Sra. Godfrey e o analista afego foram at o heliporto para ver Martin partir. Ele era jovem o bastante para ser filho dos especialistas em Coro.
- Cuide-se, Mike - disse ela, e xingou ao perceber que estava quase chorando. - Merda, que estpida. Que Deus te guie, rapaz.
- E se tudo o mais falhar, que Al cuide de voc - desejou Qureshi.

O AFEGO 187

O Jetranger poderia levar apenas os dois controladores e Martin. Os dois oficiais executivos seguiriam de carro at Edzell e reiniciariam sua misso.
O Bell pousou bem longe dos olhos curiosos, e o grupo de trs pessoas correu at o Grumman V da CIA. Uma tempestade de neve escocesa obrigou todos eles a se abrigarem
sob capas seguradas acima de suas cabeas, de modo que ningum viu que um dos homens no estava trajado como um ocidental.
A tripulao do Grumman estava acostumada com alguns passageiros de aparncia estranha e sabia se conter para no lanar olhares desconfiados para o afego de barba
densa que o vice-diretor de Operaes estava escoltando sobre o Atlntico junto com um convidado britnico.
No voaram para Washington, mas para uma pennsula remota na costa sudoeste de Cuba. Logo depois do amanhecer de 14 de fevereiro, o avio pousou em Guantnamo e
taxiou direto at um hangar cujas portas fecharam prontamente.
- Sinto muito, mas voc ter de ficar no avio, Mike - disse Marek Gumienny. - Tiraremos voc daqui quando escurecer.
A noite cai depressa nos trpicos. s 19 horas, estava escuro como breu. Foi quando quatro agentes de misses especiais da CIA entraram na cela de Izmat Khan. Ele
se levantou, sentindo que alguma coisa estava errada. Os guardas haviam sado do corredor de sua cela meia hora antes. Isso jamais acontecera at ento.
Embora no fossem violentos, os quatro homens no estavam dispostos a ouvir no como resposta. Dois agarraram o afego, um pelo tronco com os braos para trs; o
outro, pelas coxas. O chumao com clorofrmio levou apenas 20 segundos para fazer efeito. O prisioneiro parou de espernear.

188 FREDERICKFORSYTH
Foi colocado numa maa e em seguida transferido para uma outra com rodas. Um lenol de tecido de algodo cobriu o corpo, e a maa do prisioneiro foi empurrada para
fora. O caixote estava esperando. No havia nenhum guarda no bloco inteiro do presdio. Alguns segundos depois do seqestro, o afego estava dentro do caixote.
No era um caixote mal equipado. Do lado de fora parecia apenas uma caixa de madeira, do estilo usado para transporte de cargas. At as marcas eram completamente
autnticas.
O interior fora isolado para ficar  prova de som. No teto havia um pequeno painel removvel para a entrada de ar, mas no seria retirado antes que o caixote estivesse
voando. Havia duas cadeiras de braos confortveis soldadas ao piso e uma lmpada cor de mbar de baixa voltagem.
Izmat Khan foi posto na cadeira que j estava equipada com amarras. Sem cortar a circulao para os membros, o prisioneiro foi amarrado de modo a poder relaxar,
mas no sair da cadeira. Ainda estava adormecido.
Finalmente satisfeito, o quinto agente da CIA, aquele que viajaria dentro do caixote, fez um sinal com a cabea para seus colegas. A lateral foi ento fechada. Uma
empilhadeira levantou o volume do solo e o conduziu pelo campo de pouso at onde o Hrcules aguardava. Era um AC-130 Talon das Foras Especiais, equipado com tanques
extragrandes para chegar at seu destino sem reabastecer.
Vos misteriosos para dentro e para fora de Gitmo eram comuns; a torre autorizou a decolagem, e o Hrcules seguiu para a base McChord, estado de Washington.
Uma hora depois, um carro fechado chegou ao Campo Echo. Dentro da cela aberta estava um homem vestido num macaco

O AFEGO 189

laranja. O afego inconsciente fora fotografado antes de ser coberto e removido. Com a orientao da fotografia instantnea, alguns pequenos cortes foram feitos
na barba e no cabelo do substituto. Cada tufo aparado foi coletado e removido.
Quando a operao terminou, houve algumas despedidas e o grupo se retirou, trancando a cela. Vinte minutos depois, os soldados estavam de volta, intrigados, mas
no curiosos. O poeta Tennyson definira bem ao dizer que no lhes cabia questionar.
Olharam para a figura familiar de seu prisioneiro importante e esperaram o amanhecer.
O sol da manh banhava os picos de Cascades quando o AC-130 desceu em sua base em McChord. O comandante local fora informado de que aquela era uma remessa da CIA
para sua nova instalao de pesquisa na floresta virgem. Apesar de seu posto, ele no precisava saber mais nada, de modo que no perguntou mais nada. Os papis estavam
em ordem e o Chinook ficou de prontido.
Durante o vo, o afego acordara. O painel do teto se encontrava aberto e o ar no interior do Hrcules estava completamente pressurizado e fresco. O afego foi cumprimentado
com um sorriso simptico por sua escolta, que em seguida lhe ofereceu comida e bebida. O prisioneiro aceitou tomar um refrigerante de canudinho.
Para surpresa do agente da CIA, o prisioneiro disse algumas palavras em ingls, claramente aprendidas ao escut-las por cinco anos em Guantnamo. Perguntou as horas
duas vezes durante o percurso. Em seguida abaixou a cabea o mximo que conseguiu e murmurou suas preces. Afora isso, no disse mais nada.
Um pouco antes da aterrissagem o painel do teto foi recolocado e o condutor da empilhadeira no suspeitou que no

190

FREDERICKFORSYTH estava retirando uma carga ordinria da rampa traseira do Hrcules e conduzindo-a at o Chinook.
Mais uma vez, as portas da rampa foram fechadas. A pequena lmpada-piloto mantida por bateria dentro do caixote permaneceu acesa, mas invisvel por fora, assim como
todos os sons internos mantinham-se inaudveis. E o prisioneiro, conforme seu guarda informaria mais tarde a Marek Gumienny, foi manso como um gatinho. Absolutamente
nenhum problema, senhor.
Considerando que estavam em meados de fevereiro, deram sorte com o clima. O cu estava limpo, apesar da baixa temperatura. No heliporto, diante da cabana, o grande
Chinook de hlices duplas pousou e abriu as portas traseiras. Mas o caixote permaneceu do lado de dentro. Era mais fcil desembarcar os dois passageiros do caixote
direto para a neve.
Ambos os homens tremeram de frio quando a parede traseira do caixote foi removida. A equipe de Guantnamo viera a bordo do Hrcules e estava parada diante do Chinook,
aguardando a ltima formalidade.
As mos e os ps do prisioneiro foram acorrentados antes das amarras serem removidas. Em seguida, ele teve de se levantar e descer a rampa para a neve. Os oficiais
residentes, todos os dez, estavam de p em semicrculos, apontando suas armas.
Com uma escolta to grande que eles mal conseguiram passar pelas portas, o comandante talib foi obrigado a caminhar atravs do heliporto at as acomodaes que
o aguardavam. Quando a porta foi fechada, isolando o ar cortante, ele parou de tremer.
Na cela grande, o prisioneiro viu-se cercado por seis guardas, enquanto as correntes finalmente eram removidas. Cami
O AFEGO

191

nhando de costas, saram da cela e bateram a porta de metal. O prisioneiro olhou em torno. Era uma cela melhor, mas ainda era uma cela. Lembrou-se da sala do tribunal.
O coronel dissera-lhe que ele seria devolvido ao Afeganisto. Mais uma vez, haviam mentido.
Era o meio da manh e o sol brilhava sobre Cuba quando outro Hrcules pousou. O aparelho tambm estava equipado para vos de longa distncia, mas ao contrrio do
Talon, no estava armado at os dentes e no pertencia s Foras Especiais. Vinha da Mats, a diviso de transportes da Fora Area. Seu objetivo era transportar
um nico passageiro atravs do globo.
A porta da cela foi aberta.
- Prisioneiro Khan, levante-se. De frente para a parede. Em posio!
O cinto foi passado em torno do seu corpo; correntes desceram at as argolas do tornozelo e mais um conjunto para os pulsos, mos unidas e na frente da cintura.
A posio permitia caminhar arrastando os ps, no mais que isso.
Houve uma caminhada curta at o fim do bloco com seis guardas armados. O caminho de alta segurana tinha degraus na traseira, tela de arame entre os prisioneiros
e o motorista, e janelas escuras.
Quando recebeu autorizao para sair para o campo de pouso, o prisioneiro ficou cego pela luz forte do sol.
Balanou a cabea e pareceu desorientado. Enquanto seus olhos se acostumavam  luz, olhou em torno e viu o Hrcules que o aguardava, e um grupo de americanos olhando
para ele. Um deles avanou e o chamou com um gesto.
Caminhou humildemente pelo asfalto ardente. Apesar de algemado, seis guardas armados cercavam-no o tempo inteiro.

192

FREDERICK FORSYTH
Virou para ver uma ltima vez o lugar onde estivera encerrado por cinco anos miserveis. Arrastando os ps, embarcou no helicptero.
Numa sala a um lance de escadas abaixo do deque de operaes da torre de controle, dois homens se levantaram e olharam para ele.
- L vai o seu homem - disse Marek Gumienny.
- Se descobrirem quem  realmente, que Al tenha piedade de sua alma - disse Steve Hill.

PARTE QUATRO
A Jornada

CAPTULO 10

FOI UMA JORNADA LONGA E CANSATIVA. NO HOUVE REABAStecimentos em vo, pois eram muito caros. Aquele Hrcules era apenas uma aeronave-priso, prestando um favor ao
governo afego, que deveria ter pego seu prisioneiro em Cuba, mas no dispunha de nenhum veculo para fazer o servio.
Eles voaram atravs das bases americanas no Aores e em Ramstein, Alemanha, e foi no fim da tarde do dia seguinte que o C-130 desceu na grande base area de Bagram,
na extremidade sul da sombria plancie Shomali.
A tripulao de vo mudara duas vezes, mas o peloto de escolta permanecera, jogando cartas, tirando cochilos em turnos, enquanto a aeronave prosseguia cada vez
mais para o leste. O prisioneiro permaneceu acorrentado. Ele tambm tentou dormir tanto quanto pde.
Enquanto o Hrcules manobrava para a rea cimentada ao lado dos hangares imensos que dominavam a zona americana dentro da base Bagram, o grupo de recepo estava
esperando. O major superintendente americano do grupo ficou feliz ao ver que os afegos no estavam correndo riscos. Alm do furgo da

196

FREDERICK FORSYTH priso, havia 20 soldados das Foras Especiais do Afeganisto, liderados pelo comandante de unidade, brigadeiro Yusuf.
O major desceu a rampa para preencher a documentao antes de entregar sua carga. Isso levou alguns segundos. Em seguida, cumprimentou seus colegas com um aceno
de cabea. Eles desacorrentaram o afego da fuselagem e o conduziram, arrastando os ps, para fora, onde o aguardava o inclemente inverno do Afeganisto.
Os soldados o envolveram, arrastaram-no at o veculo e o empurraram para dentro. A porta foi batida e trancada. O major americano decidiu que nem em mil anos aceitaria
trocar de lugar com ele. Prestou continncia para o brigadeiro, que respondeu.
- Fique de olho nele, senhor - disse o americano. - Esse  um homem muito duro.
- No se preocupe, major - disse o oficial afego. - Ele vai passar o resto da vida na priso de Pul-i-Charki.
Minutos depois o furgo saiu, seguido pelo caminho com os soldados das Foras Especiais do Afeganisto. O veculo pegou a estrada sul at Cabul. S quando a escurido
estava completa foi que o furgo e o caminho se separaram, no que mais tarde foi descrito como um acidente infeliz. O furgo prosseguiu sozinho.
Pul-i-Charki  um edifcio funesto a leste de Cabul, perto do desfiladeiro no lado leste da plancie Cabul. Durante a ocupao sovitica, o local era controlado
pela polcia secreta de Khad, e constantemente quem estivesse nas proximidades ouvia os gritos dos torturados.
Durante a guerra civil, dezenas de milhares de pessoas no saram vivas do lugar. As condies tinham melhorado desde a criao da nova e eleita Repblica do Afeganisto,
mas os gritos

O AFEGO

197

de seus fantasmas ainda pareciam ecoar por suas ameias, corredores e masmorras.
Felizmente, o furgo da priso jamais chegou at ela.
Dezesseis quilmetros depois de se afastar da escolta militar, uma picape saiu de uma estrada lateral e assumiu posio atrs do furgo. Quando a picape piscou os
faris, o motorista do furgo parou no acostamento da estrada, atrs de um aglomerado de rvores. Ali ocorreu a fuga .
O prisioneiro teve as algemas retiradas to logo o furgo sara da ltima checagem de segurana no permetro de Bagram. Mesmo com o furgo em movimento, ele pusera
uma shalwar kameez de l cinza e botas. Um pouco antes da parada, ele enrolara em torno da cabea o temido turbante negro do Talib.
O brigadeiro Yusuf, que descera da cabine do furgo para embarcar na picape, ento assumiu o comando. Havia quatro corpos deitados na traseira aberta do veculo.
Todos tinham recm-chegado ao necrotrio. Dois eram barbados, e tinham sido vestidos em trajes talibs. Na verdade eram operrios de construo que tinham subido
num andaime que cara, matando a ambos.
Os outros dois foram vtimas de acidentes de automvel. As estradas afegs so to esburacas que o lugar mais plano para se dirigir  pelo canteiro entre as pistas.
Como se considera efeminado desviar porque algum est vindo na direo contrria, a quantidade de fatalidades  impressionante. Os dois cadveres de rosto liso
foram vestidos com uniformes de servio da priso.
Os oficiais da priso seriam encontrados com armas sacadas, mas mortos; as balas foram disparadas aqui e ali nos corpos. Os talibs que teriam feito a emboscada
foram espalhados pelo acostamento, tambm atingidos pelas pistolas dos guardas.

198

FREDERICK FORSYTH
A porta do furgo foi arrombada com uma picareta e deixada aberta. Seria assim que encontrariam o furgo em algum momento no dia seguinte.
Quando o cenrio estava montado, o brigadeiro Yusuf sentou no banco da frente da picape ao lado do motorista. O ex-prisioneiro subiu na traseira com os dois homens
das Foras Especiais que tinham vindo com ele. Todos os trs puxaram a ponta de seus turbantes em torno dos rostos, para abrigar-se do frio.
A picape saiu da cidade de Cabul e atravessou o campo at cruzar com a rodovia sul para Ghazni e Candahar. Ali aguardaram, como em toda noite, a longa coluna daquilo
que a sia inteira conhece como os caminhes badalantes.
Pareciam ter sido construdos havia um sculo. Rangem e chiam por cada estrada do Oriente Mdio e do Extremo Oriente, vomitando colunas de fumaa preta. Freqentemente,
so vistos quebrados no acostamento, enquanto seu motorista caminha por muitos quilmetros para encontrar e comprar a pea necessria.
Mas eles conseguiam atravessar passagens entre montanhas e percorrer trilhas de colinas que eram praticamente intransponveis para outros veculos. Algumas vezes,
a carcaa de um desses caminhes podia ser vista cada num desfiladeiro  margem de uma estrada. Mas eles constituem a fora vital do comrcio de um continente,
carregando uma variedade estrondosa de suprimentos at as aldeias menores e mais isoladas, alm de transportar as pessoas que nelas residiam.
Os britnicos tinham-nos apelidado de caminhes badalantes havia muitos anos, devido s suas decoraes. Eram pintados cuidadosamente em cada espao disponvel com
cenas de religio e histria. Eram representaes do cristianismo, isl,

O AFEGO 199

hindusmo, siquismo e budismo, freqentemente misturados gloriosamente. Eram decorados com laos, fitas e at sinos. Portanto, eles badalavam.
Ao longo do acostamento da rodovia ao sul de Cabul havia uma fila com vrias centenas de caminhes badalantes estacionados. Os caminhoneiros dormiam em suas cabines,
esperando o amanhecer. A picape parou ao lado da fila. Mike Martin saltou da traseira e caminhou at a cabine. O motorista tinha seu rosto escondido por um shebagh
de tecido xadrez.
Sentado ao lado do motorista, o brigadeiro Yusuf cumprimentou Martin com um meneio de cabea, mas no disse nada. Fim da estrada. Comeo da jornada. Ao dar as costas
para o caminho, ouviu o motorista falar:
- Boa sorte, chefe.
Novamente, o termo. Apenas os homens do SAS chamavam seus oficiais de chefe. Ao fazer a entrega, alm de no saber quem era seu prisioneiro, o major superintendente
tambm no soubera que, desde a posse do presidente Hamid Karzai, as Foras Especiais do Afeganisto tinham sido criadas e treinadas pelo SAS.
Martin comeou a caminhar ao longo da fila de caminhes estacionados. Atrs dele, as lanternas traseiras da picape distanciavam-se enquanto ela retornava para Cabul.
Na cabine, o sargento do SAS fez uma chamada de celular para um nmero em Cabul. Foi atendido pelo chefe de estao. O sargento pronunciou duas palavras e desligou.
O chefe do SIS para todo o Afeganisto tambm fez uma chamada numa linha segura. Eram quatro da manh em Cabul, onze da noite na Esccia. Uma mensagem de uma linha
apareceu numa das telas. Phillips e McDonald j estavam

200

FREDERICK FORSYTH na sala, torcendo para ver o que eles viram. Crowbar em andamento.
Numa rodovia extremamente fria, Mike Martin permitiu-se uma ltima olhada para trs. As lanternas traseiras da picape tinham sumido. Virou-se e continuou andando.
Depois de caminhar uns cem metros, ele havia se tornado O Afego.
Sabia o que estava procurando, mas teve de passar por cem caminhes antes de achar. Uma placa da cidade de Karachi, Paquisto. O motorista de um caminho como aquele
dificilmente seria pashtun, de modo que no perceberia seu domnio imperfeito do idioma pashto. Provavelmente seria um balchi seguindo para casa, na provncia de
Baluchisto, no Paquisto.
Era cedo demais para os caminhoneiros estarem acordando, e insensato acordar o motorista do caminho escolhido; homens cansados no ficavam em seu melhor humor quando
acordados subitamente, e Martin precisava dele num humor generoso. Durante duas horas, ele ficou enrodilhado debaixo do caminho, tremendo.
Por volta das seis a paisagem leste ficou rosada. No acostamento algum acendeu uma fogueira e ps um bule para ferver. Na sia central, grande parte da vida se
passa em torno da casa de ch, a cahi-khana, que pode ser criada at com uma fogueira, um bule de ch e um grupo de homens. Martin se levantou, caminhou at a fogueira
e aqueceu as mos.
O homem que estava fazendo o ch era pashtun, mas taciturno, o que convinha a Martin. Ele tirara o turbante, desenrolara-o e guardara-o na bolsa que pendia de seu
ombro. Seria insensato da parte de Martin anunciar que era talib antes de saber se o homem era um simpatizante. Com um punhado de moedas afegs, comprou uma xcara
fumegante e bebeu grato. Minutos depois o membro da tribo balchi

I
O AFEGO 201

desceu sonolento de sua cabine e caminhou at a fogueira, para tomar seu ch.
O dia amanheceu. Alguns dos caminhes comearam a voltar  vida, exalando lufadas de fumaa preta. O balchi caminhou de volta at o caminho. Martin seguiu-o.
- Saudaes, meu irmo.
O balchi respondeu, mas com alguma suspeita.
- Por acaso voc est indo para o sul, at a fronteira, at a cidade de Spin Boldak?
Se o homem estava seguindo de volta para o Paquisto, a pequena fronteira ao sul de Candahar seria o lugar por onde passaria. Mas Martin sabia que a essa altura
haveria um preo por sua cabea. Teria de evitar a p os guardas de fronteira.
- Se Al quiser - disse o balchi.
- Ento, em nome do Todo-Piedoso, voc daria carona a um pobre homem que est tentando voltar para sua famlia?
O balchi pensou. Geralmente seu primo o acompanhava nessas viagens longas at Cabul, mas ele adoecera em Karachi. O balchi vinha dirigindo sozinho na viagem, e
estava sendo muito cansativo.
- Voc sabe dirigir um destes? - perguntou o balchi.
- Na verdade, fui caminhoneiro durante muitos anos.
Eles dirigiram para o sul em silncio cordial, ouvindo msica popular oriental no velho rdio de plstico acomodado sobre o painel. O aparelho zumbia e chiava, mas
Martin no teve certeza se devido  esttica ou  melodia.
O dia se arrastou enquanto rodavam por Ghazni e em direo a Candahar. Na estrada, pararam para tomar ch e comer, o prato costumeiro de carne de bode com arroz,
e encheram o tanque. Martin ajudou a pagar com seu punhado de moedas afegs, e o balchi tornou-se muito mais amistoso.

202

FREDERICK FORSYTH
Embora Martin no falasse nem o dialeto urdu nem o balchi, e o homem de Karachi dominasse apenas um pouco de pashto, uma linguagem de sinais e um pouco de rabe
do Coro serviram bem.
Fizeram um pequeno pernoite ao norte de Candahar, porque o balchi recusava-se a dirigir na escurido. Estavam na provncia Zabol, terra selvagem e povoada por homens
selvagens. Era mais seguro dirigir  luz do dia com centenas de outros caminhoneiros  frente e atrs, e ainda outros seguindo para o norte. Os bandoleiros prefeririam
agir  noite.
Ao passarem pelos subrbios ao norte de Candahar, Martin alegou precisar de um cochilo e se enrascou no banco de trs, que o balchi fazia de cama. Candahar fora
quartel-general e fortaleza do Talib, e Martin no queria que um talib reformado pensasse ter visto um antigo amigo num caminho de passagem.
Ao sul de Candahar, Martin novamente rendeu o balchi ao volante. Ainda estava no meio da tarde quando chegaram a Spin Boldak; Martin alegou morar no subrbio norte,
despediu-se de seu anfitrio com palavras de gratido, e foi deixado a alguns quilmetros do posto de controle da fronteira.
Como no falava pashto, o balchi manteve seu rdio sintonizado numa estao de msica popular e no ouviu as notcias. Na fronteira, as filas estavam mais longas
que o normal, e quando ele finalmente chegou  barreira, mostraram-lhe uma fotografia. O rosto de um talib de barba preta olhou para ele.
Ele era um homem honesto e trabalhador. Queria chegar em casa para rever sua esposa e seus quatro filhos. A vida j era muito difcil. Por que passar dias, talvez
semanas, numa priso afeg tentando explicar que ele tinha sido totalmente ignorante?

O AFEGO 203

- PeJb profeta, juro que no o vi - perjurou, e deixaram-no ir.
Nunca mais, pensou enquanto seguia para o sul pela estrada de Quetta. Ele podia vir da cidade mais corrupta da sia, mas l pelo menos voc sabia que estava em sua
prpria cidade natal. Os afegos no eram seu povo; por que se envolver? Tentou imaginar o que o talib fizera.
Martin fora alertado de que o seqestro do furgo da priso, o assassinato dos dois supostos guardas e a fuga de um prisioneiro da baa de Guantnamo no poderiam
ser encobertos. Para incio de conversa, a embaixada americana ia fazer um escndalo.
A cena do assassinato fora descoberta por patrulhas enviadas para a estrada de Bagram quando o furgo no voltara para a priso. A separao do furgo de sua escolta
militar foi atribuda  incompetncia. Mas a libertao do prisioneiro fora claramente realizada por uma gangue de remanescentes do Talib. As autoridades iriam
empreender uma caada a eles.
Infelizmente, a embaixada americana ofereceu ao governo Karzai uma fotografia, que no podia ser recusada. Os chefes locais da CIA e do SIS tentaram acalmar as coisas,
mas no tinham muito o que fazer. Quando todos os postos de fronteira haviam recebido uma fotografia por fax, Martin ainda estava ao norte de Spin Boldak.
Embora no soubesse nada disso, Martin estava determinado a no correr riscos na travessia da fronteira. Ele subiu as colinas acima de Spin Boldak e esperou pela
noite. De l, podia ver o contorno da paisagem e a rota que tomaria na marcha noturna que o aguardava.
A cidadezinha estava oito quilmetros  frente e um quilmetro e meio abaixo dele. Podia ver a estrada coleando e os204

FREDERICK FORSYTH caminhes seguindo por ela. Podia ver o imenso forte antigo que servira um dia de fortaleza para o Exrcito britnico.
Sabia que a captura do Forte, em 1919, fora a ltima vez em que o Exrcito britnico usara escadas medievais de escalada. Os soldados haviam se aproximado secretamente
 noite e, descontando os relinchos das mulas, foram silenciosos como tumbas para no acordar os defensores.
Mas quando suas escadas se revelaram trs metros curtas demais, os soldados britnicos caram no fosso seco. Felizmente, os defensores pashtuns, acocorados por trs
das muralhas, presumiram que a Fora atacante era enorme, e fugiram pela porta dos fundos, para buscar abrigo nas colinas. Assim, os ingleses tomaram o Forte sem
um nico disparo.
Antes da meia-noite, Martin passara silenciosamente por suas muralhas, atravessara a cidade e entrara no Paquisto. O nascer do sol pegou-o depois de percorrer 16
quilmetros da estrada de Quetta. Ali encontrou um chai-khana e esperou at que passasse um caminho que aceitasse passageiros pagantes. O motorista concordou em
lev-lo at Quetta. Por fim o turbante negro do talib, instantaneamente reconhecido naquelas bandas, era uma vantagem em vez de um estorvo. E assim foi.
Se Peshawar  uma cidade islmica extremista, Quetta  ainda mais, superada apenas por Miram Shah em sua simpatia feroz pela al-Qaeda. Essas cidades ficavam dentro
das provncias da fronteira norte, onde prevalecem as leis das tribos locais. Embora tecnicamente do outro lado da fronteira do Afeganisto, o povo pashtun ainda
prevalece, assim como a linguagem pashto e a devoo extrema ao isl ultratradiciona-lista. Um turbante talib  a marca de um homem com quem voc pode contar.

O AFEGO

205

Ainda que a estrada principal para o sul a partir de Quetta leve at Karachi, Martin fora aconselhado a fazer o percurso mais curto por uma rodovia at o miservel
porto de Gwadar.
O porto fica quase na fronteira iraniana na regio oeste do Baluchisto. Anteriormente uma aldeia de pescadores sonolenta c fedorenta, Gwadar desenvolvera-se para
um porto e depsito importante, alegremente dedicado ao contrabando, especialmente de pio. O isl pode condenar o uso de narcticos, mas apenas para os muulmanos.
Se os infiis do Ocidente querem se envenenar e pagar bem por esse privilgio, isso no  da conta dos verdadeiros servos do Profeta.
Portanto, cultivam-se papoulas no Ir, Paquisto e, principalmente, no Afeganisto. A flor  refinada localmente para morfina bsica e contrabandeada mais para oeste,
para tornar-se herona e morte. Neste negcio sagrado, Gwadar desempenha seu papel.
Em Quetta, evitando conversar com pessoas que falassem pashto e que, portanto, poderiam desmascar-lo, Martin encontrara outro caminhoneiro balchi indo para Gwadar.
Foi apenas em Quetta que soube que havia um prmio de cinco milhes de afeganes por sua cabea... mas apenas no Afeganisto.
Foi na terceira manh depois de ter ouvido as palavras boa sorte, chefe , que ele saltou do caminho e se serviu de uma xcara de ch verde adocicado numa lanchonete
de rua. Ele era esperado, mas no por nativos.
O primeiro dos Predators havia decolado de Thumrait 24 horas antes. Voando em turnos, os veculos areos no tripulados manteriam uma patrulha constante dia e noite
sobre a rea que lhes fora designada para vigiar.

206

FREDERICK FORSYTH
Fabricado pela General Atomics, o UAV-RQ. 1 L Predator no chama ateno por sua beleza. Parece uma engenhoca montada no quintal de um aeromodelista.
Mede apenas oito metros de comprimento e  fino como um lpis. Suas asas de gaivota possuem uma envergadura de 14 metros. Na sua traseira, um nico motor Rotax de
113 cavalos de fora move as hlices que o empurram para a frente, e o motor simplesmente suga combustvel de seu tanque de 454 litros.
Mesmo com esse impulso mnimo, o Predator pode alcanar at 117 ns ou planar a 73. Sua permanncia mxima no ar  de 40 horas, mas suas misses mais normais requerem
voar at um raio de 400 milhas nuticas de sua base, operar durante 24 horas e voar de volta para casa.
Sendo um aparelho impulsionado por motor traseiro, seus controles direcionais ficam na frente. Eles podem ser operados manualmente por seu controlador ou por um
programa computadorizado que far o que for necessrio at que receba novas instrues.
A genialidade do Predator reside em seu nariz bulboso, o mdulo avinico destacvel Skyball.
Todo o mdulo de comunicaes fica voltado para cima para se comunicar com os satlites no espao. Os satlites recebem todas as foto-imagens e conversas captadas
pelo Predator, retransmitindo-as para a base.
A parte que fica voltada para baixo  o radar Lynx Synthetic Aperture e a unidade fotogrfica L-3 Wescam. Verses mais modernas, como os dois usados sobre Om, podem
superar noite, nuvens, chuva, granizo e neve com o sistema de alvo multi-espectral.

O AFEGO 207

Depois da invaso do Afeganisto, quando os alvos mais suculentos eram localizados mas no podiam ser atacados a tempo, o Predator voltou para seus fabricantes e
uma nova verso foi disponibilizada. Esta portava o mssil Hellfire, concedendo  pequena aeronove uma variao armada.
Dois anos depois, o lder da al-Qaeda no Imen saiu de seu complexo no interior do pas com quatro companheiros num Land Cruiser. Ele no sabia, mas vrios pares
de olhos americanos estavam-no observando numa tela em Tampa.
Bastou um simples comando, e o Hellfire saiu das entranhas do Predator, e segundos depois o Land Cruiser e seus ocupantes simplesmente foram vaporizados. Tudo foi
testemunhado em cores vivas num televisor de plasma na Flrida.
Os dois Predators que decolaram deThumrait no estavam armados. Sua tarefa consistia em patrulhar a 20 mil ps, fora de vista, inaudveis e imunes a radar, e observar
o solo e o mar abaixo.
Havia quatro mesquitas em Gwadar, mas inquritos britnicos do ISI paquistans apontavam que a quarta, e menor, era um bero de agitao fundamentalista. Como a
maioria das mesquitas pequenas no isl era um local de adorao que contava com um imame, sobrevivendo de doaes dos fiis, e fora criada e era dirigida por Abdullah
Halabi.
Halabi conhecia bem sua congregao e, ao conduzir as preces de sua cadeira elevada, percebeu o visitante. Mesmo ao fundo da mesquita, o turbante talib preto chamou
sua ateno.
Mais tarde, antes que o estranho de barba negra pudesse calar de novo suas sandlias e se perder na multido na rua, o imame puxou sua manga.

208

FREDERICK FORSYTH - Que as graas de nosso Senhor misericordioso estejam com voc - murmurou o imame. Ele disse a frase em rabe, e no urdu.
- E com voc, imame - respondeu o estranho.
O imame notou que, embora dominasse o rabe, o estranho falava com sotaque pashto. Suspeita confirmada: o homem provinha dos territrios tribais.
- Meus amigos e eu vamos nos reunir na madafa - disse o imame. - Gostaria de participar conosco e tomar um pouco de ch?
O pashtun considerou o convite durante um segundo, e ento inclinou solenemente a cabea. A maioria das mesquitas possua uma madafa anexada, um clube mais relaxado
e particular para oraes, fofocas e ensinamentos religiosos. No Ocidente, a converso de adolescentes em ultra-extremistas costuma ser realizada nas madafas.
- Sou o imame Halabi. O nosso novo adorador possui um nome?
Sem hesitao, Martin disse o primeiro nome do presidente afego e o segundo do brigadeiro das Foras Especiais.
- Sou Hamid Yusuf- disse ele.
- Ento seja bem-vindo, Hamid Yusuf- disse o imame. - Notei que voc ousa vestir o turbante do Talib. Voc foi um deles?
- Desde 1995, quando me juntei ao mula Ornar, em Candahar.
Havia uma dzia de homens na madafa, um barraco desma-zelado atrs da mesquita. Ch foi servido. Martin notou um dos homens olhando para ele. Em seguida, o mesmo
homem puxou o imame para um canto e ps-se a sussurrar frenetica-mente. Ele jamais assistia  televiso e suas imagens sujas, expli
O AFEGO

209

cou, mas passara diante de uma loja de eletrnicos com um aparelho ligado na vitrine.
-Tenho certeza de que  ele - sussurrou. - Ele escapou de Cabul h trs dias.
Martin no entendia o dialeto urdu, principalmente o de sotaque balchi, mas presumiu o que estava sendo falado. O imame poderia deplorar todas as coisas ocidentais
e modernas, mas como a maioria das pessoas, considerava um celular um acessrio tremendamente conveniente, mesmo se ele tivesse sido fabricado pela Nokia na Finlndia,
um pas cristo. O imame pediu a trs amigos que puxassem conversa com o estranho e que no o deixassem sair. Em seguida, retirou-se para seus aposentos humildes
e fez vrias chamadas. Retornou muito impressionado.
Ter sido um talib desde o comeo; ter perdido a famlia e o cl inteiros para os americanos; ter comandado metade do front norte na invaso dos ianques; ter invadido
o arsenal em Qala-i-Jangi; ter sobrevivido anos numa priso americana; ter escapado das garras do regime de Cabul, que se curvava a Washington - este homem no era
um fugitivo, e sim um heri.
O imame Halabi podia ser paquistans, mas nutria um dio ardente pelo governo de Islamabad devido  sua colaborao com os Estados Unidos. Suas simpatias eram inteiramente
para com a al-Qaeda. Para ser justo com ele, a recompensa de cinco milhes de afeganes, que iria deix-lo rico pelo resto da vida, no o tentou nem um pouco.
Ele voltou para a sala e chamou pelo estranho.
- Eu sei quem voc  - sussurrou. -  aquele a quem chamam O Afego. Voc est seguro comigo, mas no em Gwadar. H agentes do ISI por toda parte, e existe um prmio
pela sua cabea. Onde esto suas coisas?

210

FREDERICK FORSYTH - No tenho nada. Acabo de chegar do norte - disse Martin.
- Eu sei de onde voc veio. Est tudo nos jornais. Voc deve ficar aqui, mas no por muito tempo. Voc tem de sair de Gwadar, Vai precisar de documentos, identidade
nova, um transporte seguro para fora daqui. Talvez eu conhea algum que possa ajudar.
Ele mandou um garoto de sua madrassa correr at o cais. O barco que procurou no estava no porto. Chegou 24 horas depois. O menino ainda estava esperando pacientemente
na doca em que a embarcao sempre aportava.
Faisal bin Selim nascera na tribo catariana. Filho de pescadores pobres, fora criado num barraco na beira de um crrego lamacento perto da vila que acabou se tornando
a prspera capital Doha. Mas isso foi depois da descoberta do petrleo, da criao dos Emirados rabes Unidos a partir dos Estados em Trgua, da partida dos britnicos,
da chegada dos americanos, e muito antes de o lugar ser inundado por dinheiro.
Em sua infncia, conhecera a pobreza e desenvolvera a de-ferncia imediata aos estrangeiros de pele branca. Mas desde a idade mais tenra, bin Selim fora movido pela
determinao de subir na vida. A trilha que escolheu foi a que ele conheceu: o mar. Fez-se grumete num cargueiro costeiro, e  medida que seu navio percorria a costa
da ilha Masirah e de Sallah, na provncia Dhofari de Om, passando pelos portos de Kuait e Barein no golfo Prsico, ele aprendeu muitas coisas com sua mente gil.
Aprendeu que sempre havia algum preparado para vender alguma coisa, e preparado para vend-la barato. E que havia outra pessoa, em algum lugar, preparada para comprar
essa mesma coisa, pagando mais.

O AFEGO

211

Entre essas duas pessoas estava a instituio conhecida como Alfndega. Faisal bin Selim tornou-se prspero com o contrabando.
Em suas viagens, conheceu muita coisa que passou a admirar: tecidos e tapearias finos, arte islmica, cultura religiosa, Coroes antigos, manuscritos preciosos e
a beleza das grandes mesquitas. E conheceu muita coisa que passou a desprezar: ocidentais ricos, rostos porcinos, peles queimadas pelo sol, mulheres execrveis em
biqunis nfimos, bbados arrogantes, todo aquele dinheiro imerecido.
O fato de que os regentes dos Estados do Golfo tambm se beneficiavam do dinheiro que simplesmente brotava em jorros negros das areias do deserto no escapava a
ele, E como adotavam os hbitos ocidentais, bebiam lcool importado, dormiam com as prostitutas douradas, tambm passou a desprez-los.
Quando estava na casa dos 40, duas dcadas antes de um pequeno menino balchi esperar por ele na doca de Gwadar, duas coisas haviam acontecido a Faisal bin Selim.
Ganhara e economizara dinheiro suficiente para comprar e pagar os impostos para operar um soberbo dhow, um barco de madeira com velas, construdo pelos melhores
artesos em Sur in Oman. Batizou a embarcao de Rasha, prola . E se tornara um wahabi fervoroso.
Quando os novos profetas surgiram para seguir os ensinamentos de Maududi e Sayyid Qutb, declararam jihad contra as foras da heresia e da degenerao. E Faisal bin
Selim os apoiara. Quando rapazes foram combater os soviticos ateus no Afeganisto, suas preces foram com eles; quando outros conduziram avies de passageiros contra
as torres do deus ocidental do dinheiro, ele se ajoelhou e rezou para que eles entrai-sem nos jardins de Al.

212

FREDERICK FORSYTH
Para o mundo ele permanecia um homem corts, de vida frugal, que possua e comandava o Rasha. Fazia seus negcios ao longo de toda a costa do Golfo e pelo mar Arbico.
No procurava problemas, mas se um Crente Verdadeiro pedisse sua ajuda, fosse na forma de caridade ou de uma passagem para a segurana, ele fazia o que estivesse
ao seu alcance.
Faisal bin Selim chamara a ateno das foras de segurana ocidentais porque um ativista da al-Qaeda, capturado em Hadramaut, ao ser interrogado numa cela em Riad,
deixou escapar que mensagens destinadas ao prprio Bin Laden, to secretas que s poderiam ser confidenciadas a um mensageiro capaz de memoriz-las ao p da letra
e que estivesse disposto a morrer para no ser capturado, ocasionalmente saam da pennsula saudita de barco. O emissrio era embarcado na costa balchi, de onde
levava sua mensagem para o norte, para as cavernas desconhecidas do Waziristo, onde residia o xeque. O barco era o Rasha. Com a aceitao e assistncia do ISI,
o barco no era interceptado, apenas observado.
Bin Selim chegou em Gwadar com uma carga de mercadorias da Zona Franca de Dubai. Geladeiras, mquinas de lavar, fornos de microondas e televisores eram vendidos
por uma frao do preo de revenda fora da zona franca.
Estava compromissado a voltar para o Golfo levando uma carga de tapetes paquistaneses, tricotados pelos dedos finos de menininhos escravos, destinados aos ps de
ocidentais ricos que compravam manses luxuosas em ilhas nas costas de Dubai e Catar.
Ouviu solenemente o menininho passar a mensagem, as-sentiu com a cabea, e duas horas depois, com sua carga desembarcada e a salvo da Alfndega do Paquisto, deixou
o Rasha a

O AFEGO 213

cargo de seu grumete omani e caminhou serenamente por Gwadar at a mesquita.
Depois de anos negociando no Paquisto, o rabe corts falava bem urdu, e ele e o imame conversaram nessa lngua.
Bebericou o ch, comeu bolinhos doces e enxugou os dedos num lencinho de cambraia. O tempo todo, ele assentiu e olhou para O Afego. Quando soube da sua fuga do
furgo da priso, sorriu em sinal de aprovao. Ento disse em rabe:
- E voc deseja sair do Paquisto, irmo?
- No h lugar para mim aqui - disse Martin. - O imame tem razo. A polcia secreta vai me encontrar e me entregar de volta para os ces de Cabul. Mas porei fim
 minha vida antes que isso acontea.
- Seria uma lstima - murmurou o catariano. - Que grande vida... at aqui. Se eu o levar para os Estados do Golfo, o que voc far?
- Tentarei encontrar outros Crentes Verdadeiros e oferecer o que posso.
- O que seria isso? O que voc pode fazer?
- Posso lutar. E estou preparado para morrer na Guerra Santa de Al.
O capito corts pensou por um momento.
- O embarque dos tapetes ser ao amanhecer- disse ele. - Levar muitas horas. Sero colocados nos deques mais inferiores, para no serem estragados pela maresia.
Depois eu vou zarpar, velas baixas. Deverei passar perto da beirada do quebra-mar. Se um homem saltasse do concreto para o convs, ningum notaria.
Depois das saudaes rituais, Mike se retirou. Em meio  escurido, foi conduzido pelo menino at a doca. Ali estudou o Rasha, para que pudesse reconhec-lo de manh.
O barco pas

214

FREDERICK FORSYTH sou pelo quebra-mar um pouco antes das onze. A distncia era de dois metros e meio, que depois de uma pequena corrida, Martin conseguiu saltar
com vrios centmetros de folga.
O omani estava ao leme. Faisal bin Selim saudou Martin com um sorriso gentil. Ofereceu ao seu convidado gua fresca para lavar as mos e tmaras deliciosas das palmeiras
de Muscat.
Ao meio-dia, o homem idoso estendeu dois tapetes no convs de carga. Lado a lado, os dois homens ajoelharam-se para fazer as preces do meio-dia. Para Martin foi
a primeira ocasio em que rezou fora de uma multido, na qual uma nica voz era abafada por todas as outras. Pronunciou cada palavra com perfeio.
Quando um agente est fora, no frio, num trabalho obscuro e perigoso, seus controladores ficam vidos por algum sinal de que ele esteja bem, ainda vivo, ainda em
liberdade, ainda atuando. Esta indicao pode vir do prprio agente, por telefone, uma mensagem colocada nos classificados de um jornal ou rabiscada com giz numa
parede previamente combinada. Pode vir de um observador, que no faz contato mas olha com ateno e volta com a informao. No meio, chama-se isso de sinal de vida
. Depois de dias de silncio, os controladores ficam muito ansiosos, aguardando um sinal de vida.
Era meio-dia em Thumrait; hora do caf na Esccia; madrugada em Tampa. Om e Estados Unidos podiam ver o que o Predator podia ver, mas no conheciam sua significao.
 o modus operandi da necessidade de saber; eles no sabiam. Mas a base area de Edzell sabia.
Alternadamente abaixando a cabea para o convs e levan-tando-a para olhar para o cu, O Afego estava fazendo suas preces no Rasha. Os operadores na sala de operaes
iniciaram

O AFEGO

215

uma discusso. Segundos depois, Steve Hill recebeu uma chamada  mesa do caf e deu  sua esposa um beijo ardente e inesperado.
Dois minutos depois, Marek Gumienny recebeu um telefonema na cama na velha Alexandria. Ele levantou, ouviu, sorriu, murmurou j estou indo e voltou a dormir. O Afego
ainda estava em curso.

CAPTULO 11

I
FAVORECIDO PELO VENTO SUL, O RASHA IOU AS VELAS, DESLIGOU os motores, e o ronco foi substitudo pelos sons calmos do mar: a gua beijando a proa, o suspiro do vento
nas velas, o ranger dos cordames.
O dhow, seguido pelo Predator, invisvel seis quilmetros acima, singrou lentamente as guas da costa sul do Ir e entrou no golfo de Om. Ali virou para estibordo,
recolheu um pouco as velas quando o vento passou a soprar com fora sua popa e seguiu para a fenda estreita entre o Ir e a Arbia, conhecida como estreito de Ormuz.
Atravs dessa pequena brecha, onde a ponta da pennsula Musandani de Om fica apenas a 12 quilmetros do litoral persa, um fluxo constante de navios-tanque imensos
passou por eles; alguns de casco baixo, repletos de petrleo cru para o Ocidente faminto de energia, outros de casco alto, subindo para o Golfo, para encher seus
pores com petrleo saudita ou kuaitiano.
Os barcos menores, como o dhow, permaneciam mais perto da costa, concedendo aos gigantes a liberdade do canal pro

O AFEGO

217

fundo. Quando se depara com alguma coisa em seu caminho, um supertanque simplesmente no consegue parar.
O Rasha, sem a menor pressa, passou uma noite de velas baixas, parado entre as ilhas a leste da base naval omani, em Kumzar. Sentado no convs de popa na noite quente,
ainda claramente visvel numa tela de plasma numa base area escocesa, Martin viu duas superlanchas  luz da lua e escutou o rugido de seus imensos motores externos
enquanto saam velozes das guas omanis para fazer a travessia at o sul do Ir.
Eram os contrabandistas sobre os quais ouvira falar; sem dever aliana a pas algum, seus operadores dedicavam-se ao contrabando. Em alguma praia vazia iraniana
ou balchi, fariam contato ao amanhecer com os receptores, descarregariam a carga de cigarros e levariam para bordo, surpreendentemente, bodes angor, que eram valiosssimos
em Om.
Num mar calmo, esses barcos finssimos de alumnio, com sua carga acomodada na parte central e a tripulao segurando-se como podia, seriam impulsionados por dois
imensos motores externos de 250 HP para alcanar at 50 ns. Eram virtualmente inalcanveis, e seus tripulantes conheciam cada baa ou enseada da costa, e estavam
acostumados a navegar sem luzes e na escurido completa, nos rastros dos navios-tanque.
Faisal bin Selim sorriu, tolerante. Ele tambm era contrabandista, mas muito mais digno que os vagabundos do Golfo, que estava ouvindo ao longe.
- E depois que eu levar voc para a Arbia, meu amigo, o que voc vai fazer? - perguntou baixinho. O grumete omani estava no poro de proa, tentando fisgar um bom
peixe para o caf-da-manh. Ele se juntara aos outros dois para as preces da noite. Agora era a hora para conversas agradveis.

218

FREDERICK FORSYTH - Eu no sei - admitiu O Afego. - Tudo que sei  que sou um homem morto em meu prprio pas. O Paquisto est fechado para mim, porque eles so
cachorrinhos dos ianques. Espero encontrar os Crentes Verdadeiros e pedir para lutar com eles.
- Mesmo? Mas no h luta alguma nos Emirados rabes Unidos. Eles tambm so aliados do Ocidente. O interior  da Arbia Saudita, onde voc ser encontrado e enviado
de volta imediatamente. Assim...
O Afego deu de ombros.
- Quero apenas servir a Al. Eu vivi a minha vida. Deixarei meu destino aos cuidados Dele.
- E voc diz que est preparado para morrer por Ele - disse o catariano corts.
Mike Martin recordou de sua infncia e de quando estudara em Bagd. A maioria dos alunos eram meninos iraquianos, filhos da nata da sociedade cujos pais queriam
que eles falassem ingls perfeito e chegassem a dirigir grandes empresas, negociando com Londres e Nova York. O currculo era em ingls, que inclua o aprendizado
de poesia inglesa tradicional.
Martin sempre tivera uma poesia favorita: a histria de como Horcio de Roma defendeu a ltima ponte contra o exrcito invasor da Casa deTarqunio, enquanto os romanos
destruam a ponte atrs dele. Havia um verso que os meninos costumavam cantar juntos:
Para cada homem sobre a terra, A morte chegar um dia E no h melhor modo de morrer Que lutando em imensa desvantagem

O AFEGO

219

Pelas cinzas de seus ancestrais E pelos templos de seus deuses.
- Seu eu puder morrer shahid, a servio do jihad de Al  claro - retrucou.
O capito do dhow pensou durante algum tempo e mudou de assunto.
- Voc est usando as roupas do Afeganisto - disse ele. - Vai ser localizado numa questo de minutos. Espere um pouco.
Ele desceu e voltou pouco depois com um manto recm-lavado, branco, de tecido de algodo, que cai reto dos ombros at os calcanhares.
- Troque-se - ordenou. - Jogue esse shalwar kameez e o turbante talib na gua.
Depois que Martin tinha trocado de roupas, Bin Selim deu-lhe um novo turbante, o keffiyeh salpicado de vermelho de um rabe do Golfo e a cordinha que o mantm no
lugar.
- Melhor assim - disse o velho, depois que seu convidado terminara a transformao. - Voc vai conseguir se passar por um rabe do Golfo, desde que se mantenha de
boca fechada. Mas existe uma colnia de afegos na rea de Jid. Eles esto na Arbia Saudita h geraes, mas falam como voc. Diga que veio de l, e os estranhos
acreditaro em voc. Agora vamos dormir. Teremos de acordar ao amanhecer para nosso ltimo dia de viagem.
O Predator viu o dhow levantar ncora e sair das ilhas, velejando ento gentilmente em torno dos rochedos de Al Ghanam e seguindo para sudoeste pela costa dos Emirados
rabes Unidos.
A Federao dos Emirados rabes Unidos  composta por sete emirados, mas ele se lembrava apenas dos nomes dos maiores e mais ricos, Dubai, Abu Dhabi e Charjah. Os
outros qua

220

FREDERICKFORSYTH tro eram bem menores, mais pobres e quase annimos. Dois desses, Ajman e Umm Al Qaiuain, fazem fronteira com Du-bai, cujas riquezas petrolferas
tornaram-no o mais rico e desenvolvido dos sete emirados.
Fujairah fica sozinho do outro lado da pennsula, com a parte leste voltada para o golfo de Om. O stimo  Ras-al-Khaimah. Ele est localizado na mesma costa de
Dubai, um pouco mais ao norte da costa, em direo ao estreito de Ormuz.  um emirado pobre e ultratradicionalista. Por esse motivo ele tem aceitado com sofreguido
os presentes da Arbia Saudita, incluindo mesquitas e escolas... todas ensinando o wahabismo. Ras-al-K, como  conhecido pelos ocidentais,  a sede local do fundamentalismo
e nutre simpatia pela al-Qaeda e pelo jihad. A bombordo do dhow, Ras-al-K seria o primeiro emirado que eles alcanariam. Isso ocorreu ao pr-do-sol.
-Voc no tem documentos - disse o capito ao seu convidado. - E eu no posso lhe conseguir isso. Mas tudo bem, eles sempre foram uma impertinncia ocidental. A
coisa mais importante  o dinheiro. Tome.
Ele enfiou na mo de Martin um mao de dirrs dos Emirados rabes Unidos.  luz tnue do entardecer, eles estavam passando a um quilmetro e meio da costa da cidade.
As primeiras luzes comearam a piscar entre os edifcios.
- Eu vou desembarcar voc mais adiante - disse Bin Selim. -Voc vai encontrar a estrada da costa e caminhar de volta. Eu conheo uma pequena penso na cidade velha.
 barata, limpa e discreta. Hospede-se l. No saia. Voc estar seguro e, inshal-lah, eu tenho amigos que talvez o ajudem.
Estava completamente escuro quando Martin viu as luzes da casa de hspedes e o Rasha comeou a se aproximar da costa. Bin Selim conhecia-a bem; o Forte Hamra, que
tinha um clube

O AFEGO

221

de praia para seus convidados estrangeiros, contava com um cais, que ficava abandonado  noite.
- Ele est desembarcando do dhow - disse uma voz na sala de operaes na base area de Edzell. A despeito da escurido, o captador termogrfico de imagens do Predator
a 20 mil ps viu a figura gil saltar da embarcao para o cais, e o comerciante reverter seu motor e recuar para guas mais profundas, em direo ao mar.
- Esqueam o barco. Acompanhem a figura em movimento - disse Gordon Phillips, debruando-se sobre o ombro do operador.
As ordens seguiram paraThumrait, e o Predator foi instrudo a acompanhar a imagem trmica de um homem caminhando ao longo da estrada da costa, em direo a Ras-al-K.
Foi uma caminhada de mais de sete quilmetros, mas Martin alcanou a seo da cidade velha por volta da meia-noite. Ele perguntou duas vezes e foi direcionado ao
endereo da penso. Ficava a 400 metros da casa da famlia de Al-Shehhi, da qual viera Marwan al-Shehhi, o homem que pilotara o avio de passageiros at a Torre
Sul do World Trade Center, em 11 de setembro de 2001. Ele ainda era um heri local.
O proprietrio mostrou-se grosseiro e desconfiado at Martin mencionar Faisal bin Selim. A meno ao nome e a viso de um mao de dirrs foram suficientes para quebrar
o gelo. Ele foi convidado a entrar e levado at um quarto simples. Aparentemente, havia apenas mais dois hspedes pagantes, que no estavam no local quela hora.
Firme em sua atitude, o dono da penso convidou Martin a tomar uma caneca de ch antes de dormir. Martin teve de explicar que vinha de Jid, mas que era de origem
pashtun.

222

FREDERICK FORSYTH
Com sua pele morena, barba preta cheia e as referncias repetidas a Al tpicas de um verdadeiro devoto, Martin convenceu seu anfitrio de que tambm era um Crente
Verdadeiro. Eles se despediram com votos mtuos de uma boa noite de sono.
O capito do dhow velejou dia e noite. Seu destino era o porto conhecido como Riacho , no corao de Dubai. Um dia fora simplesmente isso, um riacho lamacento que
fedia a peixes mortos, no qual pescadores lanavam suas redes sob o calor do dia. Agora havia se tornado a mais recente atrao pitoresca da capital, de frente para
o soukh dourado - o mercado rabe -, abaixo das janelas dos altssimos hotis ocidentais. Ali os dhows comerciais ficam ancorados lado a lado e os turistas vo olhar
para a ltima poro da antiga Arbia.
Bin Selim chamou um txi e instruiu o motorista a lev-lo por quatro quilmetros e meio costa acima at o Sultanato de Ajman, o menor e o segundo mais pobre dos
sete. Ali dispensou o txi e entrou num soukh coberto, percorrendo um labirinto de becos para despistar qualquer pessoa que o estivesse perseguindo, caso algum
o fizesse.
No era o caso. O Predator estava concentrado numa penso no corao de Ras-al-Khaim. O capito do dhow saiu do soukh para uma pequena mesquita e pediu para falar
com o imame. Um menino foi correndo para a cidade e voltou com um rapaz que era um estudante da escola tcnica local. Ele tambm formara-se no campo de treinamento
Darunta, que at 2001 fora mantido e administrado pela al-Qaeda nas cercanias de Jalalabad.
O velho sussurrou no ouvido do jovem, que fez que sim e agradeceu. Ento o capito do dhow voltou atravs do mercado coberto, fez sinal para um txi e retornou para
seu cargueiro no

O AFEGO

223

Riacho. Ele fizera tudo que estava a seu alcance. Agora tudo estava nas mos de homens mais jovens. Inshallah.
Na mesma manh - um pouco mais tarde, devido ao fuso horrio - o Countess ofRichmond saiu do esturio de Mersey e entrou no mar da Irlanda. O capito McKendrick
estava no comando e conduziu seu cargueiro para o sul. Em pouco tempo, mantendo Gales  sua esquerda, a embarcao sairia do mar da Irlanda e de Lizard Point para
encontrar o canal da Mancha e o Atlntico leste. Ento rumaria para o sul, passando por Portugal, atravs do Mediterrneo at o canal de Suez, e dali para o oceano
ndico. Abaixo de seu convs,  medida que os mares glidos de maro varriam a proa do Countess, estava uma carga de automveis da Jaguar cuidadosamente protegida
em contineres, destinada s feiras automobilsticas de Cingapura.
Quatro dias se passaram at O Afego hospedado em Ras-al-Khaim receber suas visitas. Seguindo instrues, no sara nem para ir at a rua. Mas ele pegara ar no
ptio fechado nos fundos da casa, protegido das ruas por portes duplos com quase trs metros de altura. Ali chegavam e saam diversos furges de entregas.
Nas vezes em que estivera no ptio, fora visto pelo Predator, e seus controladores na Esccia notaram a mudana de vestes.
Seus visitantes, quando eles chegaram, no vieram para entregar comida, bebida ou roupas lavadas, mas para fazer uma coleta, O furgo manobrou em marcha  r at
chegar perto da porta do prdio. O motorista permaneceu ao volante; os outros trs entraram na casa.
Os dois hspedes estavam no trabalho, e o proprietrio sara para fazer compras. Os trs homens tinham suas instrues. Seguiram depressa at a porta apropriada
e entraram sem bater. A figura

224

FREDERICK FORSYTH sentada, lendo o Coro, levantou-se para dar de cara com uma pistola empunhada por um homem treinado no Afeganisto. Todos os trs estavam encapuzados.
Foram silenciosos e eficazes. Martin sabia o bastante sobre soldados para reconhecer que seus visitantes tinham noo do que estavam fazendo. O capuz foi posto sobre
sua cabea e caiu sobre os ombros. Suas mos foram puxadas para trs e presas com algemas plsticas. Em seguida, foi conduzido para fora do quarto, atravs do corredor
azulejado e para o interior de um furgo. Foi deitado de lado, ouviu a porta ser batida, sentiu o veculo sair num solavanco e pegar a rua.
O Predator registrou tudo, mas os controladores julgaram que era apenas mais uma entrega de lavanderia. Numa questo de minutos o furgo sumiu de vista. H muitos
milagres que a tecnologia moderna de espionagem pode realizar, mas mesmo assim controladores e mquinas podem ser enganados. O esquadro de captura no tinha a menor
idia de que havia um Predator acima deles, mas o fato de terem preferido o meio da manh ao meio da noite enganou os observadores em Edzell.
Foram necessrios trs dias para que eles se dessem conta de que seu homem no aparecia mais diariamente no ptio para dar sinal de vida . Em suma, ele desaparecera.
A Esccia estava vigiando uma casa vazia. E no tinha a menor noo de qual dos furges o havia levado.
Na verdade, o furgo no fora muito longe. Os arredores de Ras-al-K so um deserto selvagem e rochoso, que sobe at as montanhas de Rus-al-Jibal. Nada pode viver
ali alm de bodes e salamandras.
Apenas para o caso de o homem que eles haviam seqestrado estar sendo vigiado, com ou sem seu conhecimento, os seqestradores no estavam correndo riscos. Havia
trilhas que su
O AFEGO

225

biam as colinas, e eles pegaram uma delas. Na traseira do furgo, Martin sentiu o veculo deixar a estrada de terra e comear a sacolejar pela trilha acidentada.
Caso estivessem sendo seguidos por um veculo, ele teria sido avistado. Mesmo se estivesse fora de vista, seria delatado pela coluna de p de deserto que levantaria.
Um helicptero de vigilncia teria sido ainda mais bvio.
O furgo parou a oito quilmetros da trilha para as colinas. O lder, o homem com a arma, pegou binculos poderosos e perscrutou o vale e a costa, at a cidade antiga,
da qual tinham vindo. Ningum os estava seguindo.
Satisfeito, o homem mandou o furgo dar meia-volta. Seu destino verdadeiro era uma manso no meio de um complexo murado nos subrbios da cidade. Com os portes da
manso novamente fechados, o furgo deu marcha  r at uma porta aberta e Martin foi conduzido para fora e para baixo por outra passagem azulejada.
As algemas plsticas foram retiradas de seus pulsos e uma argola de metal frio envolveu o esquerdo. Sabia que haveria uma corrente ligada a uma argola na parede,
que ele no conseguiria desprender. Quando o capuz foi retirado, eram os seqestradores quem estavam agora com as cabeas cobertas. Recuaram de costas e a porta
foi batida. Ele ouviu ferrolhos encaixarem nos soquetes.
No era uma cela no sentido verdadeiro da palavra. Era uma sala no andar trreo, que fora fortificada. A janela estava lacrada com tijolos, e embora Martin no pudesse
notar, uma pintura de janela adornava a parede externa para enganar quem olhasse para o complexo atravs de binculos.
Considerando todas as coisas que sofrer durante o curso de resistncia a interrogatrio no SAS, aquele quarto era at

226

FREDERICK FORSYTH confortvel. No teto havia uma nica lmpada, protegida por uma estrutura de arame. A luz era fraca, mas adequada.
Havia uma cama de campanha e folga suficiente em sua corrente para permitir que se deitasse. A sala tambm dispunha de uma cadeira de encosto alto e de uma privada
qumica. Tudo ao seu alcance, mas em direes diferentes.
Contudo, havia em seu pulso esquerdo uma pulseira de ao atada a uma corrente, que se ligava a um suporte na parede. Ele no podia alcanar a porta pela qual seus
interrogadores entrariam, por acaso com comida e gua, e um visor na porta significava que eles poderiam observ-lo sempre que quisessem, mas que ele no poderia
v-los ou ouvi-los.
No castelo Forbes tinham ocorrido discusses longas e passionais a respeito de um problema: ele deveria estar com algum tipo de dispositivo de rastreamento?
Hoje em dia existem transmissores de rastreamentos to pequenos que podem ser injetados sob a pele sem que nem mesmo fosse necessrio cortar a epiderme. So do tamanho
de uma cabea de alfinete. Aquecidos pelo sangue, dispensam qualquer outra fonte de energia. Mas o alcance  limitado. Pior ainda, existem tambm sensores ultra-sensveis
que podem detect-los.
- Essa gente no  nem um pouco estpida - afirmara Phillips. Seu colega do Departamento de Antiterrorismo da CIA concordou.
- A maioria teve uma educao excepcional - dissera McDonald. -Alguns, inclusive, possuem um domnio extraordinrio de alta tecnologia, e em especial de informtica.
Ningum em Forbes duvidava de que se Martin fosse submetido a um exame hipertecnolgico e alguma coisa fosse encontrada, ele estaria morto numa questo de minutos.

O AFEGO

227

A deciso final fora: sem bipe implantado. Sem emissor de sinais.
Uma hora depois, os seqestradores vieram busc-lo. Mais uma vez, estavam encapuzados.
A revista corporal foi longa e completa. Primeiro ele foi deixado totalmente nu, e as roupas foram levadas para serem examinadas em outro cmodo.
Eles no introduziram nenhuma sonda em sua garganta ou nus. O scanner cuidou de tudo. O aparelho foi passado sobre seu corpo centmetro a centmetro. Emitiria um
bipe caso descobrisse uma substncia que no fosse um tecido vivo. Isso aconteceu apenas em sua boca. Eles a abriram  fora e examinaram cada obturao. Afora isso...
nada.
Devolveram suas roupas e se preparaxam para sair.
- Meu Coro ficou na penso - disse o prisioneiro. - No tenho nem relgio nem tapete, mas deve ser a hora da orao.
O lder fitou-o atravs dos orifcios ern seu capuz. No disse nada, mas dois minutos depois retornou com um tapete e um Coro. Martin agradeceu-lhe solenemente.
Comida e gua eram trazidas regularmente. Cada uma das vezes ele era ordenado a recuar com um aceno de pistola, e a bandeja era depositada em um lugar onde poderia
ser alcanada depois que tivessem se retirado. O sanitrio qumico era trocado da mesma forma.
Passaram-se trs dias at que seu interrogatrio comeasse. Encapuzado para no olhar pelas janelas j foi conduzido pelos corredores. Quando o capuz foi removido,
ele ficou atnito. O homem  sua frente, sentado calmam ente por trs de uma mesa de refeitrio, parecia um empresrio preparado para entrevistar um candidato a
emprego. Era jovial, elegante, civiliza

228

FREDERICK FORSYTH do, urbano e tinha o rosto descoberto. Falava com fluncia e perfeio em rabe do Golfo.
- No vejo motivos para mscaras ou nomes ridculos - disse o homem. - O meu, a propsito,  Dr. Al-Khattab. No farei mistrio. Se eu ficar convencido de que voc
 quem diz ser, ser bem recebido entre ns. Mas se no me convencer, sinto dizer que vai ser morto imediatamente. Portanto no finja-mos, Sr. Izmat Khan. Voc 
realmente a quem chamam de O Afego?
Eles estaro preocupados com duas coisas , alertara-o Gordon Phillips durante uma das aulas interminveis no castelo Forbes. Se voc  realmente Izmat Khan e se
 o mesmo Izmat Khan que lutou em Qala-i-Jangi. Ou os cinco anos que passou em Guantnamo o transformaram em outra coisa?
Martin fitou os olhos do rabe sorridente. Recordou-se dos conselhos de Tamian Godfrey. No d bola para os homens barbados que s sabem gritar. Mas tome cuidado
com aqueles que forem bem barbeados e capazes de fumar, beber e se relacionar com mulheres para se passarem por um de ns. Os totalmente ocidentalizados. Eles so
camalees humanos, escondendo o dio. So totalmente mortais. Existe uma palavra para defini-los: takfir.
- Existem muitos afegos - disse ele. - Quem me chama de O Afego?
- Ah, voc esteve isolado do mundo por cinco anos. Depois de Qala-i-Jangi, falou-se muito a seu respeito. Voc no sabe nada sobre mim, mas eu sei muita coisa sobre
voc. Alguns dos nossos foram libertados do Campo Delta. Eles falaram muito bem de voc. Disseram que voc nunca cedeu.  verdade?
- Eles fizeram perguntas a meu respeito. Isso eu respondi.

O AFEGO

229

- Mas nunca denunciou outros? No mencionou nomes?  isso que os outros dizem a seu respeito.
- Eles destruram a minha famlia. A maior parte do meu ser morreu com eles. Como se pode punir um homem que j est morto?
- Uma boa resposta, meu amigo. Ento, vamos conversar sobre Guantnamo. Conte-me sobre Gitmo.
Martin fora instrudo durante muitas horas a respeito do que lhe acontecera na pennsula cubana. Chegara em 14 de janeiro de 2002, com fome e sede, as roupas urinadas,
rosto vendado e pulsos algemados to fortemente que tinham ficado anestesiados por semanas. Tivera a barba e os cabelos raspados, fora vestido com macaco laranja,
e ento encapuzado e empurrado para a escurido...
O Dr. Al-Khattab fazia longas anotaes, escrevendo num bloquinho amarelo com uma velha caneta-tinteiro. Quando chegava a uma passagem que conhecia todas as respostas,
parava e contemplava seu prisioneiro com um sorriso gentil.
No fim da tarde, ele mostrou uma fotografia.
- Conhece este homem? - perguntou. - J viu?
Martin fez que no com a cabea. A fotografia era do general Geoffrey D. Miller, sucessor como comandante de campo do general Rick Baccus. O segundo assistira aos
interrogatrios, mas o general Miller deixara isso a encargo das equipes da CIA.
- Completamente certo - disse Al-Khattab. - Ele te viu, segundo um dos nossos amigos libertados, mas voc estava sempre encapuzado como punio por no cooperar.
E quando as condies comearam a melhorar?
Eles conversaram at o pr-do-sol, e ento o rabe se levantou.

230

FREDERICK FORSYTH - Tenho muitas coisas para conferir - disse ele. - Se est me dizendo a verdade, ns continuaremos durante alguns dias. Se no est, acho que terei
de passar as instrues apropriadas a Suleiman.
Martin foi levado de volta para a cela. O Dr. Al-Khattab emitiu ordens rpidas para os guardas e saiu. Ele dirigiu um modesto carro alugado e voltou ao Hotel Hilton,
na cidade de Ras-al-Khaim, cujo prdio dominava elegantemente o porto de guas profundas de Al Saqr. Passou a noite e foi embora no dia seguinte. Estava usando
um terno tropical creme, de corte impecvel. Quando se apresentou no check in da British Airways no Aeroporto Internacional de Dubai, seu ingls foi impecvel.
Na verdade, Ali Aziz al-Khattab nascera no Kuait, filho de um diretor de banco. Segundo os padres do Golfo, isso significava que sua juventude fora tranqila e
privilegiada. Em 1989, seu pai foi mandado para Londres como vice-diretor do Bank of Kuwait. A famlia foi junto, e assim acabou poupada da invaso de sua terra
natal por Saddam Hussein, em 1990.
Ali Aziz, ento j com um domnio muito bom da lngua inglesa, foi matriculado numa escola britnica aos 15 anos. Trs anos mais tarde formou-se com notas excelentes
e um ingls absolutamente sem sotaque. Quando a famlia voltou para casa, ele decidiu ficar e estudar no Loughborough Technical College. Quatro anos depois, recebeu
o diploma em engenharia qumica e iniciou o doutorado.
No foi no golfo rabe, e sim em Londres, que comeou a freqentar a mesquita administrada por um pregador fervoroso e cheio de dio pelo Ocidente, e se tornou aquilo
que a mdia gosta de definir como um radical . Na verdade, aos 21 anos ele

O AFEGO 231

sofrer uma lavagem cerebral completa, e era um defensor fantico da al-Qaeda.
Um caador de talentos sugeriu que talvez ele gostasse de visitar o Paquisto, Al-Khattab aceitou. Passou seis meses num campo de treinamento de terroristas da al-Qaeda.
J tinha sido selecionado para ser um sleeper , um agente que ficaria aguardando discretamente na Inglaterra, sem jamais chamar a ateno das autoridades.
Em Londres, ele fez o que todos eles faziam; contou  sua embaixada que perdera seu passaporte e recebeu um novo que no continha o visto de entrada no Paquisto,
o que acabaria levantando suspeitas. Para quem quisesse ouvir, diria que fora visitar familiares e amigos no Golfo e que jamais estivera perto do Paquisto, quanto
mais do Afeganisto. Em 1999, conseguiu um cargo de professor na Aston University, em Birmingham. Dois anos depois, foras anglo-americanas invadiram o Afeganisto.
Viveu vrias semanas com medo de que restassem indcios de sua permanncia nos campos de treinamento de terroristas, mas em seu caso, o chefe de pessoal da al-Qaeda,
Abu Zubaydah, fizera um trabalho perfeito. No havia pistas de que Al-Khattab estivera l. Assim, permaneceu sem ser descoberto e ascendeu a agente comandante da
al-Qaeda no Reino Unido.
Enquanto o avio de passageiros no qual viajava o Dr. Al-Khattab decolava com destino a Londres, o Java Star saa de seu porto no Sultanato de Brunei, na costa do
Bornu do Norte indonsio, e seguiu para mar aberto.
O destino do navio era o porto de Fremantle, a oeste da Austrlia, e para seu capito noruegus, Knut Herrmann, aquela seria uma jornada como todas as outras: rotineira
e sem acidentes.

232

FREDERICK FORSYTH
Sabia que os mares daquela regio continuavam sendo as guas mais perigosas do mundo; mas no devido a bancos de areia, mars altas, rochas, tempestades, recifes
ou tsunamis. O perigo eram os ataques de piratas.
Todo ano, entre o estreito de Malaca, no oeste, e o mar Celebes, no leste, ocorrem mais de 500 ataques a navios mercantes e mais de 100 seqestras. Ocasionalmente,
a tripulao  liberada aps o pagamento do resgate pelos proprietrios do navio; ocasionalmente, so todos mortos e deles jamais se ouve falar; nesses casos, a
carga  roubada e vendida ao mercado negro.
Se o capito Herrmann singrava despreocupado por aquele trajeto rotineiro at Fremantle, era porque estava convencido de que sua carga era intil para os bandidos
do mar. Mas dessa vez estava enganado.
A primeira parada de seu curso era ao norte, longe do destino final. Ele demorou seis horas para passar pela cidade em runas de Kudat e contornar a ponta norte
de Sabah e a ilha de Bornu. S ento ele pde seguir para sudoeste, em direo ao arquiplago Sulu.
O capito pretendia atravessar as ilhas de coral e de selva pegando o estreito de guas profundas entre Tawitawi e as ilhas Joio. Ao sul das ilhas haveria um percurso
completamente desobstrudo pelo mar Celebes at o sul, e finalmente a Austrlia.
Sua partida de Brunei fora observada, e uma chamada de celular realizada. Mesmo se tivesse sido interceptada, a ligao referia-se apenas  recuperao de um tio
doente que receberia alta em 12 dias. Isso significava: 12 horas para interceptar.
A chamada foi recebida numa enseada da ilha Joio. O homem que a recebeu teria sido reconhecido pelo Sr. Alex Siebart, da Crutched Friars, da City de Londres. Era
o Sr.

O AFEGO

233

Lampong, que no se parecia mais com um homem de negcios de Sumatra.
Os 12 homens que comandava naquela abafada noite tropical eram assassinos, que tinham sido bem pagos e permaneceriam obedientes. Descontando a criminalidade, eram
tambm extremistas muulmanos. O movimento de Abu Sayyaf, nas Filipinas do sul, cuja ltima pennsula fica apenas a algumas milhas da Indonsia, no mar Sulu, possui
uma reputao no apenas de abrigar extremistas religiosos, como tambm assassinos de aluguel. A oferta do Sr. Lampong possibilitara queles homens que exercessem
ambas as funes.
Ao amanhecer, eles ocuparam duas lanchas, que assumiram posio entre as duas ilhas e aguardaram. Uma hora depois, ojava Star aproximou-se para passar do mar Sulu
para o Celebes. Abordar ojava Star foi uma tarefa simples para aqueles piratas experientes.
O capito Herrmann assumira o leme  noite e ao amanhecer passara-o para seu primeiro-oficial indonsio e descera para seu camarote. A tripulao de dez lascares
tambm estava em seus beliches.
A primeira coisa que o primeiro-oficial indonsio viu foi um par de lanchas aproximando-se pela popa, uma de cada lado. Homens morenos, descalos e geis saltaram
sem esforo dos barcos para o deque e correram pela superestrutura at alcanar o passadio. O indonsio teve tempo apenas de apertar o boto de emergncia da cabine
do capito, antes dos assaltantes invadirem a cabine de comando. Ento uma faca foi encostada em sua garganta e uma voz gritou:
- Capito... capito...
Nem precisava chamar. Um exausto Knut Herrmann j estava subindo para verificar o que estava acontecendo. Ele e o

234

FREDERICK FORSYTH
Sr. Lampong chegaram juntos ao passadio. Lampong empunhava uma mini Uzi. O noruegus sabia que era melhor no resistir. O resgate seria negociado entre os piratas
e a sede de sua companhia em Fremantle.
- Capito Herrmann...
O desgraado sabia seu nome. Fora tudo premeditado.
- Por favor, pergunte ao seu primeiro-oficial se por acaso ele fez uma transmisso de rdio nos ltimos cinco minutos.
Nem precisava perguntar. Lampong estava falando em ingls. Para o noruegus e seu oficial indonsio, aquela era uma lngua comum. O primeiro-oficial gritou que no
havia tocado o boto do transmissor de rdio.
- Excelente - disse Lampong, e emitiu uma torrente de ordens no dialeto local. Ento o primeiro-oficial compreendeu e abriu a boca para gritar. O noruegus no sabia
uma palavra daquele dialeto, mas compreendeu quando o pirata que segurava seu primeiro-oficial puxou a cabea do marinheiro para trs e abriu sua garganta com um
nico corte. O indonsio esperneou, estremeceu, curvou-se e morreu. Em seus 40 anos de mar o capito Herrmann no enjoara uma nica vez, mas dessa vez ele se debruou
contra o leme e esvaziou o estmago.
- Duas poas de sujeira para limpar - disse Lampong. - Agora, capito, para cada minuto que o senhor recusar a obedecer s minhas ordens, isso vai acontecer a um
de seus homens. Fui claro?
O noruegus foi escoltado at a pequena estao de rdio atrs do passadio, onde selecionou o canal 16, freqncia internacional de chamada e socorro. Lampong deu
ao capito uma folha com um texto escrito.
- O senhor no vai ler isto numa voz calma, capito. Quando eu apertar transmitir e acenar com a cabea, o senhor vai

O AFEGO 235

gritar esta mensagem com pnico na voz. Ou os seus homens morrero, um a um. Est pronto?
O capito Herrmann fez que sim. Ele nem precisaria fingir pnico.
- Mayday, Mayday, Mayday. Java Star,Java Star... incndio catastrfico na sala de mquinas... No posso salvar o barco. .. minha posio...
Ele sabia que a posio estava errada: uma centena de milhas ao sul no mar Celebes. Mas no iria discutir, e leu como estava escrito. Lampong cortou a transmisso.
Levou o noruegus sob a mira do revlver de volta para o passadio.
Dois de seus marinheiros tinham sido postos para limpar freneticamente o sangue e o vmito do soalho do passadio. Os outros oito foram aglomerados num grupo aterrorizado,
com seis piratas a vigi-los.
Mais dois seqestradores permaneceram no passadio. Os outros quatros estavam jogando botes e coletes salva-vidas em uma das lanchas. Era a embarcao com tanque
de combustvel extra.
Quando estavam prontos, a lancha desencostou da lateral do Java Star e rumou para o sul. Num mar tropical calmo ela alcanaria com facilidade 15 ns, e estaria a
cem milhas dali em sete horas, e dez horas depois de volta  enseada dos piratas.
- Novo curso, capito - disse Lampong ao noruegus. Seu tom de voz era gentil, mas seus olhos implacveis no transmitiam qualquer sinal de humanidade.
O novo curso era novamente para noroeste, para longe do aglomerado de ilhas que compunham o arquiplago Sulu, e atravs da linha nacional at guas filipinas.
A provncia sul da ilha de Mindanao  Zamboanga, e parte dela  simplesmente rea restrita para as foras do governo

236

FREDERICKFORSYTH filipino. Aquele  o territrio de Abu Sayyaf. Ali eles esto seguros para recrutar, treinar e armazenar as mercadorias pilhadas. O Java Star certamente
era um grande esplio, embora no fosse comercializvel. Lampong conferenciou no idioma local com o pirata mais experiente. O homem apontou  frente para a entrada
de uma enseada estreita, flanqueada pela selva impenetrvel.
O que ele perguntou foi:
- Consegue conduzir o barco por ali?
O pirata fez que sim. Lampong gritou ordens para o grupo em torno dos marinheiros lascares na proa. Sem responder, conduziram os marinheiros at a amurada e abriram
fogo. Os homens gritaram e caram na gua morna. Em algum lugar em suas profundezas, tubares viraram-se ao farejar sangue.
Isso pegou o capito Herrmann to de surpresa que ele precisaria de dois ou trs segundos para reagir. Mas era tarde demais. A bala de Lampong atingiu-o em cheio
no peito, e o capito tambm cambaleou para trs para cair pela amurada e mergulhar no mar. Meia hora depois, puxado por dois pequenos rebocadores que tinham sido
roubados semanas antes, o Java Star estava em sua nova doca ao lado do quebra-mar.
A selva envolvia o navio por todos os lados. Duas oficinas compridas tambm estavam ocultas, com telhados de estanho, que abrigavam placas de ao, cortadores, soldadores
de oxiace-tileno, tinta e um gerador de fora.
O ltimo grito de desespero Ao Java Star no canal 16 fora ouvido por uma dzia de embarcaes, porm a mais prxima era um navio-frigorfico que transportava frutas
frescas altamente perecveis para o mercado americano atravs do Pacfico. Era comandado por um capito finlands, que prontamente mudou de rumo para o local. Ali
ele encontrou pe
O AFEGO

237

quenas tendas no oceano, que na verdade eram os salva-vidas, que haviam aberto e inflado automaticamente, conforme o projeto original. O finlands circulou uma delas
e viu os cintos salva-vidas e duas jaquetas inflveis. Todas estavam marcadas com o nome: MV Java Star. Segundo a lei martima, que ele respeitava, o capito Raikkonen
cortou a fora dos motores e baixou uma lancha para olhar o interior dos botes. Como estavam vazios, ordenou que fossem afundados. Perdera vrias horas e no podia
se demorar mais. No havia sentido.
Com um corao pesado, ele transmitiu por rdio que o Java Star estava perdido com todos seus marinheiros. Muito longe, em Londres, a notcia foi anotada por seguradores
do Lloyd s Internacional, e em Ipswich, Reino Unido, o Registro de Remessa Martima do Lloyd s contabilizou a perda. Para o mundo, o Java Star simplesmente deixara
de existir.

CAPTULO 12

NA VERDADE, O INTERROGADOR FICOU AFASTADO POR UMA SEMAna. Martin permaneceu na cela com apenas o Coro por companhia. Tinha a impresso de que em breve estaria na
ilustre companhia daqueles que tinham decorado cada um de seus 6.666 versculos. Mas os anos nas Foras Especiais tinham finalmente lhe concedido um dom raro entre
humanos: a capacidade de permanecer imvel por perodos excepcionalmente longos e vencer o tdio e a necessidade de se mexer.
Assim, mais uma vez forou-se a adotar a vida interior contemplativa, que era o nico recurso que um homem em confi-namento solitrio poderia empregar para no enlouquecer.
Esse talento no impedia que as pessoas na sala de operaes da base area de Edzell ficassem muito tensas. Tinham perdido seu agente secreto, e Marek Gumienny em
Langley, e Steve Hill em Londres, estavam cada vez mais insistentes em suas perguntas. O Predator tinha uma misso dupla: observar Ras-al-Khaim para o caso de Crowbar
aparecer de novo, e monitorar o dhow Rasha quando ele aparecesse no Golfo e atracasse em alguma parte dos Emirados rabes Unidos.

O AFEGO

239

O Dr. Al-Khattab retornou depois de ter confirmado cada aspecto da histria no que dizia respeito  baa de Guantnamo. No fora fcil. No tinha a menor inteno
de se trair perante qualquer um dos quatro prisioneiros britnicos que tinham sido mandados de volta para casa. Todos haviam declarado repetidamente que no eram
extremistas, e que tinham sido capturados na rede americana por acidente. Embora no fosse possvel saber o que os americanos pensavam disso, a al-Qaeda poderia
confirmar que era tudo verdade.
Para dificultar ainda mais, Izmat Khan passara tanto tempo na solitria por no cooperar, que nenhum outro detento conhecera-o bem. Admitia que havia aprendido um
pouco de ingls, mas isso se devera aos interrogatrios interminveis, nos quais ouvira um agente da CIA e em seguida a traduo proferida por um intrprete que
falava pashto.
At onde Al-Khattab conseguira descobrir, seu prisioneiro no falhara nem uma vez. O pouco que pudera ser aferido com o Afeganisto indicara que a fuga do furgo
entre Bagram e a priso de Pul-e-Charki realmente fora genuna. O que ele no podia saber era que esse trabalho fora realizado pelo com-petentssimo gabinete do
chefe de seo do SIS dentro da embaixada britnica. O brigadeiro Yusuf fingira raiva de forma muito convincente, e os agentes do ento renascido Talib estavam
convencidos. E foi o que disseram quando perguntados pela al-Qaeda.
- Vamos retornar aos primeiros dias, em Tora Bora - props ao recomear o interrogatrio. - Fale-me de sua infncia.
Al-Khattab era um homem inteligente, mas no sabia que, embora o homem  sua frente fosse um ssia, Martin conhecia as montanhas do Afeganisto melhor que ele. Os
seis meses que o kuaitiano passara no campo de treinamento de terroris

240

FREDERICK FORSYTH tas fora exclusivamente entre conterrneos rabes, no entre montanheses pashtuns. Ele fez muitas anotaes, at dos nomes das frutas nos pomares
de Maloko-zai. Sua mo corria pelo bloquinho, cobrindo uma pgina depois da outra.
No terceiro dia da segunda sesso, a narrativa chegara  data que se revelara crucial na vida de Izmat Khan: 20 de agosto de 1998, o dia em que os msseis Tomahawk
atingiram as montanhas.
- Ah, sim - murmurou. - Realmente trgico. E estranho, porque voc deve ser o nico afego que no possui nenhum parente vivo que possa confirmar sua histria. 
uma coincidncia espantosa, e como cientista, eu odeio coincidncias. Que efeito isso exerceu sobre voc?
Em Guantnamo, Izmat Khan recusara-se a falar sobre seu motivo para odiar os americanos com tanto ardor. Essa lacuna fora preenchida pelas informaes oferecidas
pelos outros combatentes que haviam sobrevivido a Qala-i-Jangi e chegado ao Campo Delta. No Exrcito talib, Izmat Khan tornara-se um cone. Seu nome era sussurrado
em torno de fogueiras, reverenciado como um homem imune ao medo. Os outros sobreviventes haviam contado aos inquisidores americanos a histria da famlia aniquilada.
Al-Khattab fez uma pausa e fitou seu prisioneiro. Ele ainda nutria reservas, mas de uma coisa tinha certeza. O homem realmente era Izmat Khan. Suas dvidas residiam
na segunda questo: teria sido ele transformado pelos americanos?
- Ento voc alega que declarou uma espcie de guerra particular? Um jihad muito pessoal? E que nunca cedeu? Mas o que voc fez realmente em seu jihad?
- Lutei contra a Aliana do Norte, os aliados dos americanos

O AFEGO

241

- Mas no at outubro e novembro de 2001 - disse Al-Khattab.
- At ento no havia americanos no Afeganisto - argumentou Martin.
-  verdade. Ento voc lutou pelo Afeganisto... e perdeu. Agora deseja lutar por Al.
Martin assentiu e disse:
- Como o xeque predisse.
Pela primeira vez, o Dr. Al-Khattab se viu deserdado de todo seu autocontrole. Durante 30 segundos ficou de boca aberta, caneta no ar, imvel. Finalmente disse num
sussurro:
- Voc... realmente conheceu o xeque?
Apesar de ter passado semanas no campo de treinamento, Al-Khattab jamais conhecera pessoalmente Osama bin Laden. Apenas uma vez vira um Land Cruiser de vidro fume
passar, sem parar. Mas ele teria, literalmente, empunhado um faco de carne e decepado a mo esquerda se isso tivesse lhe valido a chance de ver o homem a quem mais
admirava em todo o mundo. Martin fitou seus olhos e assentiu. Al-Khattab recobrou o equilbrio.
- Voc vai comear do incio desse episdio e descrever o que aconteceu realmente. No deixe nada de fora, descreva tudo nos mnimos detalhes.
Ento Martin contou. Contou que quando adolescente servira ao lashkar de seu pai como mensageiro, logo depois que voltara da madrassa nas cercanias de Peshawar.
Falou a respeito da patrulha que fizera junto com outros, e de como tinham sido capturados na encosta de uma montanha com apenas algumas rochas para servir de abrigo.
No fez nenhuma meno a um oficial britnico, nem ao mssil Blowpipe, ou  destruio do helicptero de combate Hind. Falou apenas sobre a metralhadora no bico
do hclicp

242

FREDERICK FORSYTH tero. Contou como fragmentos de balas e de rocha tinham voado ao seu redor at que o Hind, que Al seja louvado, ficasse sem munio e fosse embora.
Narrou como sentira uma dor na coxa, como se tivesse sido atingido por um martelo. Explicou que fora carregado por seus camaradas atravs de vales, at acharem um
homem com uma mula e confiscarem o animal.
E contou como fora levado at um complexo de cavernas em Jaji, onde fora entregue aos sauditas que viviam e trabalhavam no local.
- Mas o xeque... Conte sobre o xeque - insistiu Al-Khattab.
Ento Martin contou. O kuaitiano anotou palavra por palavra.
- Repita isso, por favor.
- Ele me disse: Chegar o dia em que voc no ser mais til ao Afeganisto, mas Al sempre precisar de um bom guerreiro.
- E ento, o que aconteceu?
- Ele mudou o curativo em minha perna.
- O xeque fez isso?
- No. O mdico que estava com ele. O egpcio.
Dr. Al-Khattab recostou-se e deixou escapar um suspiro longo.  claro, o doutor, Ayman al-Zawahiri, companheiro e confidente, o homem que unira as foras do jihad
islmico egpcio s do xeque para criar a al-Qaeda. Ele comeou a arrumar seus papis.
- Preciso deix-lo novamente. Vai levar uma semana, talvez mais. Voc ter de ficar aqui. Acorrentado, infelizmente. Voc viu demais, sabe demais. Mas se for realmente
um Crente Verdadeiro, e se for realmente O Afego, ir se juntar a ns como um recruta de honra. Se no for...

I
O AFEGO 243

Martin foi devolvido  sua cela quando o kuaitiano partiu. Dessa vez Al-Khattab no retornou direto para Londres. Ele foi at o Hilton e passou um dia e uma noite
inteiras escrevendo. Quando terminou, fez vrios telefonemas num celular novo e limpo , que em seguida foi arremessado no porto de guas profundas. Na verdade, ele
no estava sendo ouvido; mas se estivesse, suas palavras teriam significado muito pouco. Mas o Dr. Al-Khattab ainda estava em liberdade justamente por ser um homem
muito cauteloso.
Telefonemas foram feitos, e ele marcou um encontro com Faisal bin Selim, o capito do Rasha, que estava atracado em Dubai. Naquela tarde, dirigiu o carro alugado
at Dubai e conversou com o velho capito, que pegou uma carta longa e pessoal e escondeu sob o manto. E o Predator continuava voando a 20 mil ps.
Os grupos de terrorismo islmico j perderam muitos agentes de alto nvel que no haviam se dado conta de quo perigosos so os celulares e telefones via satlite.
Os recursos de interceptao, escuta e decodificao do Ocidente so simplesmente bons demais. Outro erro fatal  transferir grandes somas de dinheiro atravs do
sistema bancrio normal.
Para evitar o segundo risco, eles usavam o sistema hundi que, com variao,  to velho quanto o primeiro Califado. Hundi baseia-se no conceito de confiana total,
que seria desaconselhado por qualquer advogado. Mas funciona porque qualquer um que faz lavagem de dinheiro que traia seu cliente logo ser retirado dos negcios...
ou pior.
O pagante entrega a quantia em dinheiro vivo ao homem hundi no Ponto A e pede que seu amigo no Ponto B receba o equivalente, menos a percentagem do homem hundi.

244

FREDERICK FORSYTH
O homem hundi tem um parceiro de confiana, geralmente um parente no Ponto B. Ele informa seu parceiro e o instrui a disponibilizar a quantia toda, em dinheiro vivo,
ao amigo do pagador, que ir se identificar de uma maneira pr-combinada.
Considerando as dezenas de milhes de muulmanos que mandam dinheiro para suas famlias em seu velho pas, e levando em conta que l no existem nem computadores
nem mesmo extratos bancrios; considerando que toda quantia  transmitida em dinheiro vivo e que tanto os pagantes quanto os receptores podem usar pseudnimos, a
movimentao  virtualmente impossvel de ser interceptada ou rastreada.
Para fins de comunicao, a soluo reside em esconder as mensagens terroristas em cdigos de trs algarismos que podem ser enviados por correio eletrnico ou por
celular, via SMS. S o receptor com a lista de decodificao de at 300 desses grupos numricos pode compreender a mensagem. Isso funciona com instrues breves
e com avisos. Ocasionalmente um texto longo e exato precisa viajar meio mundo.
S o Ocidente est sempre com pressa. O Oriente tem pacincia. No importa se vai demorar. O Rasha partiu naquela noite e retornou para Gwadar. Ali, um emissrio
local, alertado por uma mensagem de texto em Karachi, chegara em sua motocicleta. Ele pegou a carta e seguiu para o norte, atravs do Paquisto, at Miran Shah,
uma cidade pequena e bero de fanticos.
Ali, o homem suficientemente confivel para ir at os picos altos do Waziristo do Sul estava aguardando na chai-khana pr-combinada. E o envelope lacrado mais uma
vez mudou de mos. A resposta retornou da mesma forma. Ao todo, levou dez dias.

O AFEGO

245

Mas o Dr. Al-Khattab no permaneceu no golfo rabe. Ele voou at o Cairo e seguiu para o Marrocos. Ali entrevistou e selecionou os quatro norte-africanos que iriam
se tornar parte da segunda equipe. Como ainda no estava sob vigilncia, a jornada do Dr. Al-Khattab no apareceu no radar de ningum.
Quando as cartas foram distribudas, o Sr. Wei Wing Li recebeu duas. Baixo, atarracado e parecido com um sapo, tinha os ombros encimados por uma cabea redonda como
uma bola de futebol, e um rosto salpicado por manchas de varola. Mas era bom no que fazia.
Ele e sua tripulao haviam chegado  enseada escondida na pennsula de Zamboanga dois dias antes do Java Star. A jornada a partir da China, onde faziam parte do
submundo de Gwangdong, no envolvera a inconvenincia de passaportes ou vistos. Simplesmente haviam embarcado num cargueiro cujo capito fora fartamente recompensado.
Ao chegarem  ilha Joio, embarcaram em duas lanchas vindas do litoral filipino.
O Sr. Wei saudara seu anfitrio, o Sr. Lampong, e o chefe local, Abu Sayyaf, que o recomendara. O Sr. Wei inspecionara as acomodaes de seus 12 tripulantes, recebera
adiantados os 50 por cento de sua comisso e pedira para ver as oficinas. Depois de uma inspeo longa, contou os tanques de oxignio e acetileno e se mostrou satisfeito.
Em seguida, estudou as fotografias tiradas em Liverpool. Quando o Java Star finalmente chegou  enseada, o Sr. Wei sabia o que precisava ser feito e j estava pronto.
Transformar navios era sua especialidade, e mais de 50 navios de carga singrando pelos mares do sudoeste da sia com formas, nomes e documentos falsos tinham a assinatura
do Sr. Wei. Ele dissera que precisava de duas semanas e recebera trs,

246 FREDERICK FORSYTH e nem uma hora a mais. Nesse tempo ojava Star iria se tornar o Countess ofRichmond. O Sr. Wei no sabia disso. E no precisava saber.
Nas fotografias que estudou, o nome verdadeiro do navio havia sido apagado, O Sr. Wei no se importava com nomes ou documentos. Ele se importava apenas com formas.
Haveria partes do Java Star que seriam retiradas, e outras que seriam recortadas. Em alguns pontos, seria preciso pintar por cima do ao. Contudo, o mais importante
seria a criao de seis contineres de metal longos que, em trs pares, ocupariam o convs desde o passadio at a dianteira do navio.
Mas os contineres no seriam reais. Vistos de todos os lados, pareciam autnticos, contando at com a logomarca da Hapag-Lloyd. Passariam por qualquer inspeo
a poucos metros de distncia. Entretanto, eles no possuiriam paredes internas; constituiriam uma longa galeria com um teto com dobradias e acesso atravs de uma
porta que seria cortada no tabique abaixo do passadio, e em seguida disfarada para ficar invisvel para todos, exceto para aqueles que soubessem onde ficava o
puxador.
O Sr. Wei e sua equipe no fariam a pintura. Os terroristas filipinos cuidariam disso, e o novo nome do navio seria pintado depois que ele tivesse ido embora.
No dia em que ele acionou seus soldadores de oxiacetileno, o Countess ofRichmond estava atravessando o canal de Suez.
Quando Ali Aziz al-Khattab retornou para a manso, era um outro homem. Ordenou que os grilhes de seu prisioneiro fossem removidos e o convidou a juntar-se a ele
 mesa para almoarem. Seus olhos reluziam com empolgao.
- Eu me comuniquei com o xeque em pessoa - vangloriou-se. Estava claramente consumido por essa honra. A res
O AFEGO

247

posta no fora escrita. Fora confidenciada verbalmente nas montanhas ao mensageiro, que a memorizara. Essa tambm  uma prtica comum nos escales mais elevados
da al-Qaeda.
O mensageiro fora trazido at o golfo rabe, e quando o Rasha aportou, a mensagem fora passada, palavra por palavra, ao Dr. Al-Khattab.
- H uma ltima formalidade - disse ele. - Voc poderia, por favor, levantar a bainha do seu manto at o meio da coxar
Martin obedeceu. No sabia nada sobre qual seria a disciplina cientfica de Al-Khattab; apenas que ele possua um doutorado. Rezou para que no fosse em dermatologia.
O kuaitiano examinou a cicatriz com ateno. Ficava onde lhe fora dito que ficaria. H 18 anos, um homem a quem ele idolatrava havia suturado aqueles seis pontos
numa caverna em Jaji.
- Obrigado, meu amigo. O xeque enviou suas saudaes pessoais. Que honra incrvel. Ele e o doutor se lembraram do jovem guerreiro e das palavras proferidas.
Ele me autorizou a incluir voc numa misso que ir infligir ao Grande Sat um golpe to terrvel que at a destruio das torres parecer insignificante. Voc ofereceu
sua vida a Al. A oferta foi aceita. Voc vai morrer gloriosamente, um verdadeiro shahid. Voc e seus companheiros mrtires sero lembrados por mil anos.
Depois de trs semanas de tempo perdido, o Dr. Al-Khattab estava apressado. Todos os recursos da al-Qaeda nas redondezas foram convocados. Um barbeiro veio aparar
a juba desmazelada em um corte de estilo ocidental. Ele tambm se preparou para raspar a barba. Martin protestou. Como muulmano e afego, queria sua barba. Al-Khattab
concedeu que fosse mantida uma barbicha fina na ponta do queixo, e no mais que isso.

248

FREDERKK FORSYTH
O prprio Suleiman tirou fotos de rosto e, 24 horas depois, apareceu com um passaporte perfeito mostrando que o proprietrio era um engenheiro naval de Barein, conhecido
como um sultanato fortemente pr-Ocidente.
Um alfaiate veio, tirou medidas e reapareceu com sapatos, meias, gravata e um terno cinza-escuro, juntamente com uma pequena mala de viagem para guard-los.
A equipe preparou-se para partir no dia seguinte. Suleiman, que se revelou ser de Abu Dhabi, iria at o fim, acompanhando o Afego. Os outros dois eram apenas guarda-costas,
recrutados localmente, e por isso dispensveis. A manso servira a seu propsito; agora seria incendiada e abandonada.
Enquanto se preparava para partir antes deles, o Dr. Al-Khattab virou-se para Martin.
- Tenho inveja de voc, Afego. Jamais saber o quanto. Voc lutou por Al, sangrou por Ele, sofreu dores e humilhaes por Ele. E agora ir morrer por Ele. Como
eu gostaria de acompanhar voc!
Ele estendeu a mo, ao estilo ingls, mas ento se lembrou de que era um rabe e abraou o Afego.  porta, virou-se mais uma vez.
- Voc vai chegar ao Paraso antes de mim, Afego. Guarde um lugar para mim nele. Inshallah!
E ento se retirou. Sempre estacionava o carro alugado a vrias centenas de metros da manso. Ao sair dos portes da casa, ele se agachou, como sempre fazia, para
amarrar um ca-daro, enquanto olhava para ambas as direes da estrada. No viu nada alm de uma garota a cerca de 200 metros, tentando dar a partida numa lambreta
que se recusava a pegar. Era uma moradora local, com um jilbab que lhe cobria os cabelos e me
O AFEGO

249

tade do rosto. Ainda assim, sentia-se ofendido por ver uma mulher dirigindo qualquer tipo de veculo motorizado.
Ele se virou e caminhou at o carro. A garota com o motor engasgado inclinou-se para a frente e falou com alguma coisa dentro da cesta acima do pra-lama dianteiro.
Ela aprendera seu ingls claudicante no Cheltenham Ladies College.
- Mongoose Um, em movimento - disse ela.
Qualquer um que j tenha se envolvido com aquilo que Kipling chamou de O Grande Jogo e o que James Jesus Angleton, da CIA, referia-se como sendo o mundo da fumaa
e dos espelhos , decerto concordar que o maior de todos os inimigos  o imprevisto.
O imprevisto provavelmente arruinou mais misses secretas do que atos de traio ou de manobras brilhantes de con-tra-inteligncia por parte do opositor. E foi o
imprevisto que praticamente ps fim  Operao Crowbar. E tudo comeou porque todos os envolvidos estavam tentando ser prestativos.
As fotografias dos dois Predators que sobrevoavam os Emi-rados rabes Unidos e o mar rabe estavam sendo enviadas de Thumrait para a base area de Edzell, que sabia
exatamente por qu, e para o Centcom do Exrcito americano em Tampa, Flrida, que achava que os britnicos simplesmente haviam requisitado alguma vigilncia area
rotineira. Martin insistira que no mais de 12 pessoas deveriam saber que ele estava no frio, e o nmero ainda era de apenas dez. E eles no estavam em Tampa.
Sempre que os Predators pairavam sobre os Emirados, suas imagens mostravam uma massa de rabes, no-rabes, carros, txis, docas e casas. Eram elementos demais para
serem checados um a um. Mas o dhow e seu capito idoso eram conhecidos.

250

FREDERICKFORSYTH
Assim, quando o Rasha estava aportado, qualquer pessoa que o visitasse era tambm considerada de interesse.
Mas a embarcao era visitada por um grande nmero de pessoas. Precisava ser reabastecida com provises. O marinheiro omani que limpava o Rasha costumava trocar
gentilezas com transeuntes no cais. Turistas aproximavam-se para admirar um autntico dhow, construdo com a tradicional madeira de teca. O capito era visitado
a bordo por seus agentes locais e amigos. Quando um jovem rabe de barba feita e manto branco conversava com Faisal bin Selim, ele era apenas um dentre muitos.
A sala de operaes em Edzell tinha um catlogo de mil rostos de agentes - confirmados e suspeitos - e simpatizantes da al-Qaeda. Cada imagem enviada pelos Predators
era comparada eletronicamente com o catlogo. O Dr. Al-Khattab no chamou a ateno porque era desconhecido. Assim, Edzell deixou-o passar; esse tipo de coisa acontece.
O rabe jovem e magro que visitou o Rasha tambm no chamou a ateno em Tampa, mas o Exrcito mandou as fotografias, como cortesia, para aNSA, em Forte Meade, Maryland,
e ao NRO, responsvel pelos satlites espies, em Washington. A NSA ofereceu essas fotos para seus parceiros britnicos no QG de Cheltenham, que deram uma boa e
longa olhada, no se importaram com Al-Khattab, e enviaram as imagens para o servio secreto britnico responsvel pela contra-inteligncia, mais conhecido como
MI5, na casa do Tmisa, a uma pequena distncia das casas do Parlamento.
Ali, um jovem estagirio, ansioso por impressionar, comparou os rostos de todos os visitantes do Rasha com o banco de dados de reconhecimento de rostos.
No faz muito que o reconhecimento de rostos humanos dependia de agentes talentosos, que trabalhavam na penum
O AFEGO

251

bra, examinando com lupas as imagens granuladas para tentar responder a duas perguntas: quem  o homem mulher nesta foto; e ns j os vimos antes? Sempre fora uma
jornada solitria, e um examinador solitrio levava anos para desenvolver o sexto sentido que recordaria que o chapa na foto comparecera a um coquetel diplomtico
vietnamita em Dlhi cinco anos antes, e que por esse motivo certamente pertencia  KGB.
Ento veio o computador. Surgiram softwares preparados para reduzir o rosto humano a mais de 600 medidas minsculas e armazen-las. Aparentemente, cada rosto humano
no mundo pode ser identificado por meio de medidas. Pode ser a distncia exata (at o ltimo mcron) entre as pupilas dos olhos, a largura do nariz a sete pontos
entre as sobrancelhas e a ponta, 22 medidas apenas para os lbios, e as orelhas...
Ah, as orelhas. Analistas faciais adoram orelhas. Cada protu-berncia e reentrncia, ruga e curva, dobra e lbulo,  diferente. Orelhas so como digitais. Mesmo
aquelas nos lados esquerdo e direito da cabea no so iguais. Os cirurgies plsticos as ignoram, mas d a um bom observador de rostos ambas as orelhas numa boa
definio, e ele encontrar seu par .
O software tinha um banco de dados bem maior que os mil rostos armazenados em Edzell. Continha criminosos condenados sem nenhuma convico poltica aparente, porque
at eles podem trabalhar para terroristas quando o preo  justo. Armazenava imigrantes, legais e ilegais, e no necessariamente convertidos muulmanos. Milhares
e milhares de rostos fotografados por cmeras ocultas em passeatas, enquanto os manifestantes brandiam seus cartazes e entoavam palavras de ordem. E o banco de dados
no se restringia ao Reino Unido. Em suma, possua mais de trs milhes de faces humanas do mundo inteiro. ? 

252

FREDERICK FORSYTH
O computador decomps o rosto que estava falando com o capito do Rasha. Para compensar o ngulo oblquo, escolheu a nica imagem na qual o homem levantara a cabea
para olhar um jato decolando do aeroporto de Abu Dhabi, obteve suas 600 medidas e comeou a comparar. O computador podia at mesmo realizar ajustes, acrescentando
ou retirando plos faciais.
Embora operasse rpido, o computador ainda assim demorou uma hora. Mas encontrou seu homem.
Era um rosto numa multido diante de uma mesquita, logo depois do 11 de Setembro, aplaudindo entusiasticamente tudo que o orador dizia. O orador em questo era conhecido
como Abu Qatada, simpatizante fantico da al-Qaeda na Gr-Bretanha, e a multido  qual ele estava se dirigindo naquela tarde de setembro de 2001 era o Al-Muhajiroun,
grupo extremista que apoiava o jihad.
O estagirio retirou o rosto do arquivo e o levou ao superior. De l, o rosto seguiu para a formidvel dama que geria o MI5, Eliza Manningham-Buller. Ela ordenou
que o homem fosse rastreado. Nesse momento, ningum sabia que o estagirio havia descoberto o chefe da al-Qaeda na Gr-Bretanha.
Levou mais algum tempo, mas surgiu outro par: o homem recebendo o doutorado numa cerimnia acadmica. Seu nome era Ali Aziz-al-Khattab, acadmico altamente ocidentalizado
com um cargo na Aston University, Birmingham.
Com o que as autoridades tinham, ele ou era um sleeper de longa data, altamente bem-sucedido, ou um insensato que, em seus dias de estudante, flertara com a poltica
extremista. Se cada cidado nessa categoria fosse preso, as prises ficariam abarrotadas.
Com toda certeza, ele aparentemente no chegara nem perto de extremistas desde aquele dia diante da mesquita. Mas um

O AFEGO 253

radical regenerado no  visto conversando com o capito do Rasha no porto de Abu Dhabi. Assim... ele se enquadrava na primeira categoria: sleeper at prova em contrrio.
Checagens adicionais discretas mostraram que ele estava de volta  Gr-Bretanha, retomando seu trabalho laboratorial em Aston. A questo era: prend-lo ou observ-lo?
O problema era: uma fotografia area que no podia ser tornada pblica no era garantia de condenao. Assim, decidiu-se manter o acadmico sob vigilncia, por mais
oneroso que fosse.
O dilema foi resolvido uma semana depois, quando o Dr. Al-Khattab comprou uma passagem de volta para o golfo rabe. Foi ento que o SRR (Regimento de Reconhecimento
Especial) foi acionado.
Havia anos a Gr-Bretanha possua uma das melhores unidades de rastreamento do mundo. Era conhecida como a 14a Companhia de Inteligncia, ou o Destacamento, ou mais
simplesmente, o Det . E era extremamente secreta. Ao contrrio do SAS e do SBS, no fora projetada como uma unidade de supercombatentes. Seus talentos eram disfarce
extremo e capacidade de plantar escutas, tirar fotografias a longa distncia, vigiar e perseguir. A unidade era particularmente eficaz contra o IRA, na Irlanda do
Norte.
Em muitos casos era a informao provida pelo Det que possibilitava ao SAS montar uma emboscada para uma unidade de ataque terrorista e dizim-la. Ao contrrio das
unidades de combate, o Det empregava principalmente mulheres. Como rastreadoras, tinham mais chances de se fazer passar por inofensivas. Mas as informaes que colhiam
podiam causar muitos danos.
Em 2005, o governo britnico decidiu expandir e aprimorar o Det. Ele se tornou o SRR. Em seu desfile inaugural,

254

FREDERICK FORSYTH

todos, inclusive o general, foram fotografados apenas da cintura para baixo. Seu QG permanece secreto, e se o SAS e o SBS so discretos, o SRR  invisvel. Mas Dama
Eliza requisitou seu servio, e foi atendida.
Quando o Dr. Al-Khattab embarcou no avio de passageiros de Heathrow para Dubai, havia seis membros do SRR a bordo, disfarados entre 300 passageiros. Um deles era
a jovem contadora na fila atrs do kuaitiano.
Como era apenas uma operao de perseguio, no houvera motivos para requisitar a cooperao das Foras Especiais dos Emirados rabes Unidos. Desde que fora descoberto
que um dos terroristas no ataque ao World Trade Center, Marwan al-Shehhi, viera dos Emirados rabes, e principalmente desde o vazamento de que a Casa Branca cogitara
bombardear a estao de TV da Al-Jazeera no Catar, os Emirados rabes estavam extremamente cautelosos em relao ao extremismo islmico. E a mais cautelosa de todas
suas instituies eram suas Foras Especiais, cujo QG ficava em Dubai.
Assim, dois carros e duas scooters alugados estavam disponveis  equipe do SRR no aeroporto, para o caso de algum vir pegar o Dr. Al-Khattab. Fora notado que ele
estava apenas com bagagem de mo. Eles no precisavam ter-se preocupado; o Dr. Al-Khattab alugou um carro compacto japons, o que lhes conferiu tempo para assumir
posies.
Primeiro, o Dr. Al-Khattab foi seguido do aeroporto at a enseada em Dubai, onde mais uma vez o Rasha estava ancorado aps o retorno de Gwadar. Dessa vez ele no
se aproximou do barco, preferindo estacionar o carro a cem metros, descer e ficar parado at que Bin Selim o visse.
Minutos depois, um jovem desconhecido saiu dos conveses inferiores do Rasha, atravessou a multido e sussurrou algo no ou
O AFEGO 255

vido do kuaitiano. Era a resposta do homem nas montanhas do Wazaristo retornando. O rosto de Al-Khattab registrou surpresa.
Em seguida, ele dirigiu pelo trfego intenso da estrada at a costa, atravs de Ajman e Umm-Al-Qaiuain, at entrar em Rasai- Khaim. Ali seguiu at o Hilton para
se registrar e trocar de roupas. Foi muita gentileza da parte dele, porque permitiu s trs jovens da equipe do SRR usar o banheiro feminino para trocar suas roupas
por jilbabs que cobriam completamente seus corpos, e ento retornar aos seus veculos.
O Dr. Al-Khattab surgiu em seu manto rabe branco e conduziu o carro pela cidade. Al-Khattab adotou vrias manobras que tinham como objetivo despistar um perseguidor,
mas no teve a menor chance. No golfo rabe as scooters esto por toda parte, dirigidas por ambos os sexos e, sendo as roupas as mesmas, todos os pilotos so parecidos.
Quando recebera a misso, a equipe estudara mapas rodovirios de todos os sete Emirados rabes at decorar cada avenida e rua. Foi assim que o Dr. Al-Khattab foi
seguido at a manso.
Todas as dvidas de que o Dr. Al-Khattab era inocente caram por terra. Homens inocentes no realizam manobras antiperseguio. Ele no passou a noite na manso,
e a agente do SRR seguiu-o de volta at o Hilton. Os trs homens encontraram no topo de uma colina uma posio da qual se podia ver a manso-alvo e manter viglia
durante a noite inteira. Ningum entrou ou saiu.
O segundo dia foi diferente. Houve visitantes. Os observadores no tinham como saber disso, mas os visitantes trouxeram os novos passaportes e as novas roupas. As
placas de seus veculos foram anotadas e um de seus motoristas seria seguido e preso depois. O terceiro era o barbeiro, que tambm seria seguido mais tarde.

256

FREDERICKFORSYTH
No final do segundo dia, Al-Khattab saiu para a ltima tarefa. Foi ento que Katy Sexton, fingindo lidar com um defeito em sua scooter, alertou seus colegas de que
o alvo estava em movimento.
No Hilton, o acadmico kuaitiano revelou seus planos quando, ao falar de seu quarto, no qual tinham instalado escutas em sua ausncia, reservou uma passagem para
o vo matutino de Dubai para Londres. Ele foi acompanhado durante todo o percurso at Birmingham, sem jamais suspeitar de nada.
O MI5 fizera um trabalho excelente, e sabia disso. O feito foi comunicado em memorandos classificados como confidenciais para apenas quatro homens na comunidade
britnica de inteligncia. Um deles foi Steve Hill, que tomou o maior susto de sua vida.
O Predator foi realinhado para vigiar a manso no subrbio  margem do deserto, em Ras-al-Khaim. Mas era o meio da manh em Londres, tarde no Golfo. O avio viu
apenas os limpadores entrando. E o ataque.
Era tarde demais para impedir que as Foras Especiais dos Emirados rabes enviassem seu prprio esquadro comandado por um ex-oficial britnico, Dave de Forest.
Hill foi avisado pelo chefe de seo do SIS em Dubai, que era seu amigo pessoal. Imediatamente espalhou-se a notcia de que a batida fora realizada em decorrncia
de uma denncia annima de um vizinho meio paranico.
Os dois limpadores no sabiam de nada; eles trabalhavam para uma agncia, tinham sido pagos previamente e recebido as chaves por meio de um mensageiro. Contudo,
no haviam terminado, e uma grande quantidade de cabelos pretos havia sido amontoada em uma pilha, evidentemente oriundos tanto de couro cabeludo quanto de barba
- a textura era diferente.

O AFEGO 257

Afora isso, no havia nenhuma pista dos homens que haviam morado ali. Os vizinhos relataram um furgo fechado, mas nenhum deles conseguiu se lembrar da placa. Quando
o veculo foi encontrado abandonado, descobriu-se que ele tinha sido roubado, mas era tarde demais para que a informao tivesse qualquer utilidade.
O alfaiate e o barbeiro foram uma aquisio mais valiosa. Eles no hesitaram em falar, mas tudo que puderam fazer foi descrever os cinco homens na casa. Al-Khattab
j era conhecido. Suleiman foi descrito e em seguida identificado a partir de fotografias policiais por constar de uma lista local de suspeitos. Os dois moradores
foram descritos, mas no foi possvel identific-los.
De Forest, com seu domnio absoluto do idioma rabe, concentrou-se no quinto homem, O chefe de seo do SIS ficou sentado, assistindo. O alfaiate e o barbeiro sauditas
provinham de Ajman e eram simples profissionais.
Ningum naquela sala sabia nada a respeito do Afego; eles simplesmente pegaram uma descrio completa e a passaram para Londres. Ningum sabia nada a respeito de
passaportes, porque Suleiman preparara todos os documentos sozinho. Ningum sabia por que Londres estava ficando histrica a respeito de um homem grande com cabelos
negros desgrenhados e barba cheia, Tudo que podiam reportar era que ele agora estava de cabelo e barba feitos, e possivelmente usando um terno de duas peas escuro,
de plo de cabra angor.
Mas foi a ltima informao obtida com o alfaiate que deixou Steve Hill, Marek Gumienny e a equipe em Edzell absolutamente extasiados.
Os sauditas estavam tratando o agente secreto como um convidado de honra. Ele estava sendo claramente preparado

258

FREDERICK FORSYTH para partir numa viagem. No era um cadver cado num soa-lho azulejado no golfo rabe.
Em Edzell, Michael McDonald e Gordon Phillips estavam igualmente felizes... e intrigados. Sabiam que seu agente passara em todos os testes e fora aceito como um
Jihad Verdadeiro. Depois de semanas de preocupao haviam obtido o segundo sinal de vida .
Mas teria seu agente descoberto alguma coisa a respeito do Stingray, o objeto do exerccio inteiro? Para onde ele fora? Haveria alguma forma de entrar em contado
com ele?
Mas suas curiosidades no seriam saciadas nem se eles pudessem falar com seu agente. Ele tambm no sabia.
E ningum sabia que o Countess ofRichmond estava descarregando os Jaguares em Cingapura.

CAPTULO 13

EMBORA O GRUPO EM VIAGEM NO SOUBESSE QU1 ESTAVA SENDO perseguido, a fuga fora um golpe de sorte.
Caso tivessem seguido para a costa que margeava os seis emirados, provavelmente teriam sido capturados. Na verdade, seguiram para leste, pelo istmo montanhoso em
direo ao stimo emirado, Fujairah, no golfo de Om.
Eles logo saram da ltima estrada asfaltada e pegaram as trilhas acidentadas que se perdiam entre as colinas amarronzadas de Jebel Yibir. Da passagem no alto da
cordilheira, desceram at o pequeno porto de Dibbah.
Bem ao sul na mesma costa, a polcia da cidade de Fujairah recebeu uma requisio e uma descrio completa de Dubai e montou um bloqueio de estrada na entrada para
a cidade. Muitos furges foram parados, mas nenhum deles levava os quatro terroristas.
Dibbah no  grande coisa; apenas um amontoado de casas brancas, uma mesquita de domo verde, um pequeno porto para barcos de pesca e ocasionalmente um iate alugado
por ocidentais que vinham praticar mergulho. A duas enseadas

260

FREDERICK FORSYTH dali, um bote de alumnio aguardava, com o imenso motor externo levantado para fora da gua. Seu espao de carga a meia-nau estava ocupado por
tanques de combustvel extras acorrentados ao convs. A tripulao de dois homens protegia-se do sol  sombra de um nico cobertor de pele de camelo entre as rochas.
Para os dois rapazes da localidade, aquele era o fim da estrada Eles levariam o furgo roubado at as colinas e ento iriam abandon-lo. Depois iriam simplesmente
desaparecer nas mesmas ruas que haviam produzido Marwan al-Shehhi. Suleiman e o Afego, roupas ocidentais ainda guardadas em bolsas para proteg-las da maresia,
ajudaram a empurrar a embarcao estreita de volta para a gua, que batia na altura de suas cinturas.
Com ambos os passageiros e a tripulao a bordo, o barco de contrabando subiu a costa bem devagar, chegando at quase a ponta da pennsula Musandamn. Seria em meio
 escurido que os contrabandistas fariam a travessia do estreito.
Vinte minutos depois do pr-do-sol, o timoneiro mandou seus passageiros se segurarem e ligou o motor. O barco saltou das guas rochosas da ltima ponta da Arbia
e se arremeteu para o Ir. Com 500 cavalos de fora na parte traseira, a lancha levantou o nariz e comeou a espumar. Martin julgou que eles estavam rasgando a superfcie
da gua a quase 50 ns. A menor variao na gua era o mesmo que bater num tronco, e um forte jorro os aoitava. Todos os quatro, que tinham embrulhado seus keffiyehs
em torno dos rostos para proteg-los do sol, agora mantinham-nos para proteg-los da gua.
Em menos de 30 minutos, as primeiras luzes da costa persa estavam visveis a bombordo, e a lancha de contrabando correu para leste em direo a Gwadar e ao Paquisto.
Era a rota que Martin fizera durante a viagem calma do Rasha um ms

O AFEGO 261

antes. Agora estava retornando numa velocidade dez vezes maior.
Diante das luzes de Gwadar, a embarcao reduziu sua velocidade e parou. Foi um alvio bem-vindo. Com rolamentos e msculos, conduziram os tambores at a popa e
reabasteceram cada motor at a borda. Eles teriam de se virar para encontrar onde reabastecer para a viagem de volta.
Faisal bin Selim dissera a Martin que os contrabandistas atravessavam das guas omanis at Gwadar numa nica noite e estavam de volta com uma carga nova ao amanhecer.
Dessa vez, tudo indicava que estavam indo ainda para mais longe e teriam tambm de viajar de dia.
A alvorada encontrou o barco em guas paquistanesas, perto o bastante da praia para ser confundido com um barco de pesca, sendo que quela velocidade jamais pegariam
nenhum peixe. Contudo, a guarda costeira do Afeganisto no deu sinal de vida, e a costa amarronzada logo foi deixada para trs. Ao meio-dia, Martin concluiu que
seu destino devia ser Karachi. Com que propsito, no tinha idia.
Reabasteceram mais uma vez  noite e, enquanto o sol morria a oeste s suas costas, foram desembarcados numa fedorenta aldeia de pescadores nas proximidades do maior
porto do Paquisto.
Suleiman podia no ter estado ali antes, mas recebera um relatrio de algum que estivera e fizera um reconhecimento. Martin sabia que a al-Qaeda fazia pesquisas
meticulosas, a despeito de tempo e gastos; era uma das poucas coisas na organizao que ele conseguia admirar.
O rabe procurou pelo nico veculo para alugar na aldeia e negociou um preo. O fato de que dois estranhos tinham desembarcado de uma lancha de contrabando iem
qual

262

FREDERICK FORSYTH quer sugesto de legalidade no causou nenhum estranhamento. Ali era o Baluchisto; as regras do Karachi eram para os idiotas.
O carro fedia a peixe e suor, e o motor barulhento no conseguia alcanar mais de 60 quilmetros por hora.
As estradas tambm no ajudavam. Mas eles encontraram a rodovia e chegaram ao aeroporto com tempo de sobra.
O Afego mostrou-se apropriadamente pasmo e desajeitado. Viajara apenas duas vezes pelo ar, sempre num Hrcules C-130 americano, e sempre como um prisioneiro algemado.
No sabia nada sobre balces de check-in, passagens, controles de passaporte. Com um sorriso zombeteiro, Suleiman mostrou-lhe como agir.
Em algum lugar na vasta massa humana que circula pelo saguo principal do Aeroporto Internacional de Karachi, o rabe encontrou o balco da Malaysian Airlines e
comprou duas passagens de ida na classe econmica para Kuala Lumpur. Havia formulrios compridos para preencher; Suleiman encarregou-se da tarefa, em ingls. Pagou
em dlares americanos, a moeda corrente do mundo.
A viagem foi a bordo de um Airbus 330 e levou seis horas, alm das duas devido  mudana de fuso horrio. O avio pousou s oito e meia da manh, depois das comissrias
terem servido um pequeno desjejum. Pela segunda vez, Martin ofereceu seu novo passaporte bareinita e se perguntou se ele convenceria. Convenceu; era perfeito.
Da rea de desembarque internacional, Suleiman caminhou na frente at o setor de embarque domstico e comprou duas passagens. Somente quando teve de entregar seu
carto de embarque Martin viu para onde estavam indo... a ilha de Labuan.

O AFEGO

263

Ouvira falar de Labuan apenas vagamente. Situada ao norte de Bornu, pertencia  Malsia. Embora sua publicidade turstica falasse de uma ilha cosmopolita com belssimos
recifes de coral nas guas internacionais, seu submundo criminoso pintava outra reputao, mais sombria.
Labuan j fizera parte do Sultanato de Brunei, a 20 milhas aquticas da costa de Bornu. Os britnicos tomaram-na em 1846 e a mantiveram por 117 anos, menos os trs
que passou sob ocupao japonesa na Segunda Guerra Mundial. Em 1963, Labuan foi entregue pela Gr-Bretanha ao Estado de Sabab como parte do processo de descolonizao,
e ento cedida  Malsia, em 1984.
 uma daquelas aberraes que no possua qualquer economia visvel dentro de seu territrio de 80 quilmetros quadrados, de modo que criou uma. Com um status de
centro financeiro costeiro, zona franca e Meca do contrabando, Labuan tem atrado alguns clientes extremamente dbios.
Martin deu-se conta de que estava voando para o corao da maior indstria do mundo de seqestro de navios, roubo de carga e assassinatos de tripulaes. Martin
precisava fazer contato com a base para dar um sinal de vida, e ele precisava descobrir como. Depressa.
Houve uma pequena parada em Kuching, primeira estao na ilha de Bornu, mas os viajantes que no tinham aquele lugar como destino nem chegaram a descer do avio.
Quarenta minutos depois, o avio decolou para oeste, circulou o mar e seguiu para noroeste em direo a Labuan. Muito abaixo do avio em manobra, o Countess ofRichmond,
com os pores de carga preenchidos com lastro, seguia para Kota Kinabalu para pegar sua carga de sequia e pau-rosa.

264

FREDERICKFORSYTH
Depois da decolagem, a comissria distribuiu os cartes que deveriam ser preenchidos com os dados do viajante, e entregues  Imigrao logo aps a aterrissagem.
Suleiman pegou ambos e comeou a preench-los. Martin teve de fingir que no sabia ler nem escrever em ingls, e que podia falar apenas o bsico. Mas podia ouvir
tudo que era dito ao seu redor. Alm disso, embora ele e Suleiman tivessem trocado de roupas, agora vestidos em camisas e terno, Martin no dispunha de uma caneta
ou de uma desculpa para pedir uma emprestada. Para todos os propsitos, eles eram um engenheiro bareinita e um contador omani de viagem para Labuan, sob contrato
com a indstria do gs natural, e era isso que Suleiman estava preenchendo.
Martin murmurou que precisava ir ao banheiro. Levantou e caminhou at onde havia dois. Um estava vago, mas fingiu que ambos estavam ocupados, virou-se e seguiu em
frente. Havia um sentido nisso. O Boeing 737 abrigava duas classes: econmica e executiva. Separando as duas havia uma cortina, e Martin precisava passar por ela.
Parando diante da porta do banheiro da classe executiva, fez sinal para a comissria que distribura os cartes, exprimiu desculpas e tirou do bolso superior da
blusa dela um carto em branco e sua caneta. A porta do banheiro abriu e ele entrou. Houve tempo apenas para rabiscar uma mensagem curta no verso do carto, dobr-lo
no bolso, sair do banheiro e devolver a caneta. Ento voltou para seu lugar.
Podiam ter dito a Suleiman que o Afego era confivel, mas ele o seguia como uma sombra. Talvez Suleiman quisesse evitar que O Afego cometesse erros, devido  sua
ingenuidade ou inexperincia; talvez fosse devido aos seus anos de treinamento na al-Qaeda, mas ele jamais relaxava em sua vigilncia, nem mesmo durante as preces.

O AFEGO 265

O aeroporto de Labuan era um contraste com o de Karachi: pequeno e vazio. Martin ainda no sabia exatamente para onde estavam indo, mas suspeitou que o aeroporto
podia ser sua ltima chance de deixar a mensagem e torceu por um golpe de sorte.
Foi um momento fugaz que se passou na calada do lado de fora. As instrues memorizadas de Suleiman deviam ter sido extraordinariamente precisas. Ele conduzira
ambos por meio mundo e era claramente um viajante experiente. Martin no podia saber que o rabe estava com a al-Qaeda havia dez anos e que servira ao movimento
no Iraque e no Oriente Mdio, particularmente na Indonsia. Tambm no tinha como saber qual era a especialidade de Suleiman.
Suleiman estava seguindo a rua de acesso at o prdio que servia tanto a chegadas quanto a partidas em um pavimento, e estava procurando por um txi quando apareceu
um vindo na direo deles. Estava ocupado, mas claramente prestes a desembarcar seus passageiros na calada.
Eram dois homens, e Martin percebeu o sotaque ingls imediatamente. Eram grandes e musculosos; usavam shorts caqui e bermudas floridas. Estavam suados devido ao
sol e  umidade, 30 graus de calor pr-mones. Um pagou o taxista com dinheiro malsio, o outro retirou as bagagens do porta-malas. Eram mochilas de equipamento
de mergulho. Os dois tinham passado algum tempo mergulhando nos recifes da costa a servio da revista britnica Sport Diver.
O homem ao lado do porta-malas pegou todas as quatro bolsas, duas de roupas, duas de equipamento. Antes que Suleiman pudesse dizer uma palavra, Martin ajudou o mergulhador
carregando uma das mochilas de equipamento tia rua pari I

266

FREDERICK FORSYTH calada. Ao ajud-lo, o carto de pouso dobrado entrou num dos diversos bolsos laterais da mochila.
- Obrigado, amigo - disse o mergulhador, e os dois homens seguiram para o check-in de partida para encontrar seu vo para Kuala Lumpur com uma conexo para Londres.
As instrues de Suleiman para o taxista malsio foram em ingls; uma agncia de navegao no corao das docas. Ali finalmente os viajantes encontraram algum esperando
para receb-los. Como os recm-chegados, ele no suscitava curiosidade usando roupas ostentosas ou plos faciais. Como eles, era takfir. O homem se apresentou como
Sr. Lampong e levou-os at um cruzador de 50 ps, disfarado de barco pesqueiro. Numa questo de minutos tinham sado do porto.
O cruzador manteve a velocidade em dez ns e virou para noroeste, na direo de Kudat, o acesso para o mar Sulu e o esconderijo terrorista na provncia Zamboanga
das Filipinas. Fora uma jornada cansativa, durante a qual eles haviam apenas tirado cochilos nos avies. O embalo do mar era sedutor, e a brisa, depois do calor
de sauna de Labuan, refrescante. Os dois passageiros adormeceram. O timoneiro pertencia ao grupo terrorista Abu Sayyaf; ele sabia o caminho; estava indo para casa.
O sol se ps e a escurido tropical no estava mais para trs. Os motores do cruzador continuaram funcionando por toda a noite, passando pelas luzes de Kudat, atravessando
o estreito de Balabac e a fronteira invisvel para guas filipinas.
O Sr. Wei terminara sua tarefa antes do tempo e j estava seguindo para casa, sua terra natal, China. No via a hora de chegar. Mas pelo menos estava num navio chins,
comendo boa comida chinesa em vez das porcarias que os marujos serviam no acampamento da enseada.

I
O AFEGO 267

A respeito do que deixara para trs, o Sr. Wei nada sabia, nem se importava. Ao contrrio dos assassinos Abu Sayyaf ou dos dois ou trs indonsios fanticos que
rezavam de joelhos, testas encostadas no tapete, cinco vezes por dia, Wei Wing Li era um membro da trade Snakehead e no rezava por nada.
Na verdade, os resultados de seu trabalho eram uma rplica, at o ltimo rebite, do navio Countess ofRichmond, criada a partir de um navio de tamanho, tonelagem
e dimenses semelhantes. No sabia o nome da embarcao original, nem qual seria o nome da nova. Tudo que importava para ele era o mao gordo de dlares de alto
valor, sacados de um banco em Labuan contra uma linha de crdito providenciada pelo falecido Sr. Tewfik al-Qur, que anteriormente estivera no Cairo, Peshawar e no
necrotrio.
Ao contrrio do Sr. Wei, o capito McKendrick rezava. No com a freqncia com que deveria, reconhecia ele, mas fora criado como um bom catlico irlands de Liverpool;
havia uma imagem da Virgem Maria no passadio imediatamente  frente do leme, e em sua cabine ele possua um crucifixo preso  parede. Antes de navegar, o capito
McKendrick sempre rezava por uma boa viagem e, ao voltar, agradecia ao Senhor pelo regresso seguro.
No precisou rezar enquanto o piloto malsio reduzia a velocidade do Countess ao passarem pelos recifes e ocupar sua posio no ancoradouro em Kota Kinabalu, que
anteriormente fora um porto colonial de Jesselton onde negociantes britnicos, nos tempos em que ainda no existia refrigerao, s dispunham de manteiga derretida,
que serviam de uma pequena jarra.
O capito McKendrick recolocou sua bandana em torno do pescoo e agradeceu ao piloto. Finalmente, ele podia fechar

268

FREDERICK FORSYTH todas as portas e escotilhas e desfrutar de ar refrigerado. E uma cerveja tambm cairia bem, pensou. O lastro de gua seria evacuado de manh.
Podia ver a carga de toras sob as luzes da doca; com uma boa equipe de carregamento, poderia estar de volta ao mar na noite do dia seguinte.
Os dois jovens mergulhadores, tendo trocado de avies em Kuala Lumpur, estavam num jato da British Airways com destino a Londres. Como aquele no era um avio abstmio
, os mergulhadores tinham consumido cerveja suficiente para cair num sono profundo. O vo poderia durar 12 horas, mas eles ganhariam sete devido ao fuso horrio
e pousariam em Heath-row ao amanhecer. As malas de armao de metal estavam no compartimento de carga e as mochilas de equipamento estavam acima de suas cabeas
enquanto dormiam. Elas continham ps-de-pato, mscaras, roupas de mergulho, reguladores e jaquetas de controle de flutuabilidade. Apenas as facas de mergulho iam
dentro das malas no compartimento de carga. Uma das mochilas tambm continha o carto de Mike, ainda no descoberto.
Numa enseada na pennsula de Zamboanga, trabalhando  luz dos holofotes de uma plataforma instalada sobre a popa, um pintor habilidoso estava afixando o ltimo D
no nome do navio atracado. De seu mastro adejava uma bandeira vermelha. A cada lado de sua popa e em torno de sua proa estavam as palavras Countess of Richmond e,
apenas na popa, a palavra Liverpool por baixo. Quando o pintor desceu e as luzes foram apagadas, a transformao estava completa.
Ao amanhecer, um cruzador disfarado de barco pesqueiro entrou lentamente na enseada. Trazia os ltimos dois membros

O AFEGO 269

da nova tripulao do navio que fora o Java Star, aqueles que conduziriam o navio na sua ltima viagem... e deles tambm.
O carregamento do Countess of Richmond comeou ao amanhecer, quando o ar ainda estava frio e agradvel. Em trs horas ele retornaria para seu habitual calor de sauna.
Os guindastes da doca no eram exatamente ultramodernos, mas os estivadores sabiam o que estavam fazendo, e toras de madeira rara amarradas por correntes foram iadas
para bordo e armazenadas no poro de carga pela tripulao.
No calor do meio-dia, at os nativos de Bornu tiveram de parar, e durante quatro horas os trabalhadores dormiram s sombras que conseguiram encontrar no velho porto
de carregamento. Faltava apenas um ms para a mono da primavera, e a umidade, nunca a menos de 90%, estava beirando os cem.
O capito McKendrick estaria mais feliz no mar, mas o carregamento e a reposio das coberturas de convs foram terminado ao pr-do-sol, e o piloto subiria a bordo
apenas de manh, para guiar o cargueiro de volta para mar aberto. Significava mais uma noite na sauna, de modo que McKendrick suspirou e mais uma vez encontrou refgio
no ar condicionado dos deques inferiores.
O agente local subiu a bordo com o piloto s seis da manh, e os novos documentos foram assinados. Ento o Countess se fez ao mar do sul da China.
Como o Java Star fizera antes, o Countess rumou para noroeste para contornar a ponta de Bornu, e em seguida para o sul, atravs do arquiplago Sulu para Java, onde
o capito acreditava que seis contineres cheios de sedas orientais aguarda

270

FREDERICK FORSYTH vam-no em Surabaia. Ele no sabia que no havia, nem jamais tinha havido, sedas em Surabaia.
O cruzador depositou sua carga num velho quebra-mar a meio caminho enseada acima. O Sr. Lampong caminhou na frente at uma casa comprida sobre palafitas. O local
serviria como dormitrio e refeitrio para os homens que aguardavam para partir na misso que Martin conhecia como Stingray e Lampong como Al-Isra. Outros que estavam
na casa comprida seriam deixados para trs. Tinham sido eles quem haviam preparado o seqestro ojava Star.
Era uma mistura de indonsios do Jemaat Islamiya, grupo que plantara as bombas de Bali, indonsios de outras ilhas do arquiplago e filipinos do Abu Sayyaf. Os idiomas
variavam do tagalo local ao dialeto javans com ocasionalmente um pouco de rabe murmurado por aqueles que provinham mais do Oriente. Martin conseguiu identificar
os tripulantes um a um, assim como as atribuies especiais de cada um deles.
Os engenheiros, navegadores e operadores de rdio eram todos indonsios. Suleiman revelou que sua especialidade era a fotografia. Independentemente do que fosse
acontecer, o trabalho dele, antes de morrer como um mrtir, seria fotografar o clmax numa cmera digital e usar um laptop para transmitir a imagem para a emissora
de TV Al-Jazeera.
Tinha um adolescente que parecia paquistans, embora Lampong tenha se dirigido a ele em ingls. Quando respondeu, o menino revelou que s podia ser ingls de nascimento
e criao, filho de paquistaneses. O sotaque era do norte da Inglaterra; Martin calculou que pertencesse  rea de Leeds Bradford. No conseguiu deduzir qual seria
a funo do rapaz, embora possivelmente fosse o cozinheiro.

O AFEGO

271

Assim restavam trs: o prprio Martin, cuja presena era considerada um presente pessoal de Osama bin Laden; um engenheiro qumico e presumivelmente especialista
em explosivos; e o comandante da misso. Mas ele no estava presente. Todos iriam encontr-lo depois.
No meio da manh, Lampong, o comandante local, recebeu uma chamada em seu celular via satlite. Foi breve e discreto. O Countess ofRichmondzarpara de Kota Kinabalu
e estava no mar. O navio chegaria entre as ilhas Tawitawi e Joio mais ou menos na hora do pr-do-sol. As tripulaes das lanchas que iriam intercept-lo s precisariam
partir em quatro horas. Suleiman e Martin haviam trocado os ternos ocidentais por calas compridas, camisas floridas e sandlias tpicas da regio. Receberam permisso
para descer os degraus at as guas rasas da enseada e tomar banho antes das preces e de um jantar de arroz e peixe,
Tudo que Martin podia fazer era observar, compreendendo muito pouco, e esperar.
Os dois mergulhadores deram sorte, A maioria de seus colegas passageiros provinham da Malsia e foram encaminhados para a fila de passaportes no-britnicos, deixando
para os poucos britnicos acesso fcil ao controle de imigrao. Estando entre os primeiros a desceram at a esteira de bagagens, eles podiam pegar suas malas e
caminhar at o salo de nada a declarar .
Podem ter sido as cabeas raspadas, o cavanhaque em seus queixos ou os braos morenos emergindo de camisas floridas numa manh de maro fria, mas um dos oficiais
da Alfndega chamou-os at o guich de exames.
- - Por favor, posso ver seus passaportes?

272

FREDERICK FORSYTH
Era uma formalidade. Estavam em ordem.
- E de onde vocs acabam de chegar?
- Malsia.
- Propsito da visita?
Um dos rapazes apontou para a mochila de equipamento. Sua expresso indicou o quanto aquela pergunta era estpida, considerando que as mochilas ostentavam a logomarca
de uma companhia de equipamentos famosa. Contudo,  um grave erro escarnecer de um oficial de imigrao. Seu rosto permaneceu impassvel, mas em sua longa carreira
ele interceptara grandes quantidades de fumos exticos ou drogas injetveis oriundos do Extremo Oriente. Ele gesticulou na direo de uma das mochilas de equipamento.
Dentro da mochila no havia nada alm de equipamento de mergulho padro. Enquanto puxava o zper da mochila, correu os dedos pelos bolsos laterais. De um deles,
retirou um carto dobrado, olhou para ele e o leu.
- Onde conseguiu isto, senhor?
O mergulhador estava genuinamente intrigado.
- No sei. Nunca vi isso antes.
A alguns metros dali, outro inspetor alfandegrio sentiu a tenso crescente, indicada pela cortesia excessiva, e se aproximou.
- O senhor poderia ficar aqui, por favor? - disse o primeiro, e entrou numa porta s suas costas. Aqueles espelhos grandes nos corredores das alfndegas no esto
l para servir  vaidade dos passageiros. So espelhos falsos, atrs dos quais membros da segurana interna - no caso da Gr-Bretanha, MI5 - alternam-se em turnos.
Numa questo de minutos, ambos os mergulhadores, com suas bagagens, estavam em salas de interrogatrio separadas.

O AFEGO 273

Os inspetores alfandegrios vasculharam a bagagem, p-de-pato por p-de-pato, mscara por mscara, camisa por camisa. No havia nada ilegal.
O homem  paisana estudou o carto, ento desdobrado.
- Algum deve ter posto isso a - protestou o mergulhador. - No tenho nada a ver com isso.
Eram nove e meia. Steve Hill estava  sua mesa em Vauxhall Cross quando seu telefone particular, que no constava em nenhum catlogo telefnico, tocou.
- Com quem estou falando? - perguntou uma voz. Hill ficou furioso.
- Talvez eu deva fazer a mesma pergunta. Acho que voc deve ter ligado para o nmero errado - retrucou.
O oficial do MI5 lera o texto da mensagem encontrado na mochila de equipamento do mergulhador. Ele tendia a acreditar na explicao do homem. Portanto, nesse caso...
- Estou falando de Heathrow, Terminal Trs. Escritrio de segurana interna. Interceptamos um passageiro do Extremo Oriente. Algum enfiou uma mensagem escrita em
letra mida. Crowbar significa alguma coisa para vocs?
Para Steve Hill aquilo foi como um soco no estmago. No era engano, no era linha cruzada. Ele se identificou por servio e posto, requisitou que ambos os homens
fossem detidos e disse que estava a caminho. Em cinco minutos, seu carro saltou do estacionamento subterrneo, atravessou a ponte Vauxhall e virou na Cromwell Road
em direo ao aeroporto de Heathrow.
Para os mergulhadores, foi um tremendo azar perderem a manh inteira, mas depois de uma hora de interrogatrio, Steve Hill teve certeza de que eram inocentes. Pediu
para os dois um caf-da-manh completo no refeitrio do aeroporto e lhes pediu

I

274

FREDERICK FORSYTH que escavassem seus crebros por uma pista sobre quem teria colocado o bilhete dobrado no bolso lateral.
Eles recordaram de todos com quem haviam se encontrado desde que tinham feito as malas. Finalmente, um deles disse:
- Mark, voc se lembra do sujeito com cara de rabe que te ajudou com as malas no aeroporto?
- Cara de rabe? - perguntou Hill.
Os dois descreveram o homem da melhor forma possvel. Cabelos e barba com fios negros e bem cortados. Olhos negros, compleio morena. Cerca de 45 anos, em boa forma
fsica. Terno escuro. Hill tinha as descries obtidas com o barbeiro e o alfaiate de Ras-al-Khaim. Era Crowbar. Ele agradeceu com sinceridade aos dois homens e
pediu que um chofer os levasse de volta para casa em Essex.
Quando ligou para Gordon Phillips, em Edzell, e Marek Gumienny, em Washington, Hill pde revelar a mensagem rabiscada no papel. Dizia simplesmente: se voc ama seu
pas,
V PARA CASA E TELEFONE PARA XXXXXXXXX. APENAS FALE PARA ELES QUE CROWBAR DISSE QUE SER ALGUM TIPO DE NAVIO.
- Prioridade mxima: vasculhar o mundo em busca de um navio desaparecido - disse a Edzell.
Assim como fizera o capito Herrmann do Java Star, Liam McKendrick optara por conduzir pessoalmente seu navio em torno dos diversos pontais, entregando-o apenas
depois de sair do estreito entre as ilhas de Tawitawi e Joio.  frente jazia a vastido do mar de Celebes, e o curso diretamente para o sul rumo ao estreito de Makassar.
Ele contava com uma tripulao de seis homens; cinco indianos de Kerala, todos cristos, leais e eficazes, e seu pri
O AFEGO 275

meiro-oficial, um gibraltarino. Entregara o leme e descera quando as lanchas surgiram pela popa. Exatamente como ocorrera com o Java Star, a tripulao no teve
a menor chance. Numa questo de segundos, dez piratas tinham pulado o balastre e estavam correndo at o passadio. O Sr. Lampong, ao comando do seqestro, mostrou-se
mais calmo.
Dessa vez no havia necessidade para cerimnia ou ameaas de violncia, a no ser que as instrues fossem desobedecidas. A nica tarefa que o Countess ofRichmondprecisava
executar era desaparecer, com sua tripulao e para sempre. Sua carga valiosa, que os atrara at aquele lugar, seria completamente perdida, o que era triste mas
inevitvel.
A tripulao simplesmente foi conduzida em marcha at o balastre da popa e executada a rajadas de metralhadora. Seus corpos, estremecendo em protesto contra a injustia
da morte, caram direto no mar. Nem era preciso pesos ou lastro para mand-los para o fundo. Lampong conhecia seus tubares.
Liam McKendrick foi o ltimo a ir, rugindo seu dio contra os assassinos, chamando Lampong de porco pago. Como o muulmano fantico no gostava de ser chamado de
porco, garantiu que o marinheiro de Liverpool estivesse ferido, mas ainda vivo, ao bater na gua.
Os piratas de Abu Sayyaf j tinham afundado navios suficientes para saber onde ficavam as vlvulas. Quando o poro de carga comeou a inundar, eles saram do Countess
e se afastaram em suas lanchas, parando a uma certa distncia para observar o navio empinar sobre sua popa e deslizar lentamente para o fundo do mar de Celebes.
Quando o navio sumiu por inteiro, os assassinos deram meia-volta e retornaram a toda velocidade para casa.

I

276

FREDERICK FORSYTH
Para o grupo na casa comprida da enseada filipina, foi outro telefonema breve, feito por Lampong em alto-mar, que estabeleceu a hora da partida. Eles embarcaram
em fila no cruzador. Enquanto faziam isso, Martin percebeu que aqueles que ficaram para trs no estavam demonstrando qualquer sinal de alvio, apenas inveja profunda.
Em sua carreira nas Foras Especiais, Martin jamais conhecera realmente um homem-bomba. Agora estava cercado por eles, e se tornara um deles.
No castelo Forbes lera profusamente sobre o quadro psicolgico do homem-bomba: a convico absoluta de que o atentado seria feito em nome de uma causa sagrada; de
que ele seria automaticamente abenoado pelo prprio Al; que receberia uma passagem garantida e imediata para o paraso; e que isso era imensamente maior que qualquer
amor que pudesse ter pela vida.
Martin tambm aprendera a respeito do nvel e da profundidade do dio que deveria ser imbudo no shahid, juntamente com o amor de Al. Um apenas no funciona. O
dio precisa ser um cido corrosivo dentro da alma, e ele estava cercado por isso.
Vira esse dio nos rostos dos integrantes do Abu Sayyaf, que aproveitavam cada oportunidade de matar um ocidental; vira nos coraes dos rabes quando rezavam por
uma chance de matar o maior nmero possvel de cristos, judeus e muulmanos seculares no momento de suas prprias mortes; e, principalmente, ele vira o dio nos
olhos de Al-Khattab e Lampong, precisamente porque eles se conspurcavam para passar despercebidos entre os inimigos.

O AFEGO

277

Enquanto eles entravam lentamente na enseada, a selva fe-chando-se de cada lado do barco e comeando a cerrar o cu acima deles, Martin estudou os companheiros de
viagem. Todos compartilhavam do mesmo dio e fanatismo. Cada um considerava-se mais abenoado do que qualquer outro Crente Verdadeiro na Terra.
Martin estava convencido de que todos os homens ao seu redor no sabiam mais do que ele a respeito da natureza exata do sacrifcio que os esperava; para onde estavam
indo, qual era o alvo e com o qu iriam atac-lo.
Sabiam apenas, porque tinham se oferecido para morrer, e sido aceitos e selecionados com cuidado, que iriam atingir o Grande Sat de uma forma que seria comentada
por uma centena de anos. Eles, como o Profeta tantos anos antes, iriam partir numa grande jornada para o paraso; a jornada chamada Al-Isra.
Mais adiante, a enseada bifurcou-se. O cruzador ronro-nante tomou o brao mais amplo e, ao fazer uma curva, um navio ancorado surgiu. Estava voltado a favor da corrente,
pronto para partir para mar aberto. Seu convs de carga aparentemente estava armazenado nos seis contineres que ocupavam seu convs de vante. O nome do navio era
Countess of Richmond.
Por um momento, Martin se viu tentado a escapar para a selva que o cercava. Passara por semanas de treinamento na selva em Belize, a escola de treinamento de selva
do SAS. Mas concluiu que no teria a menor chance. No conseguiria avanar nem um quilmetro e meio sem bssola ou faco, e o grupo de perseguio o alcanaria em
uma hora. Ento viriam dias de agonia inimaginvel, enquanto os detalhes de sua misso lhe seriam arrancados. No havia sentido em tentar. Teria de esperar por uma
oportunidade melhor, se surgisse alguma.

278

FREDERICK FORSYTH
Um a um subiram a escada para o convs do cargueiro: o engenheiro, o navegador e o operador de rdio, todos indonsios; o qumico e o fotgrafo, ambos rabes; o
paquistans do Reino Unido com sotaque do norte, caso algum insistisse em falar com o Countess por rdio; e o Afego, que poderia ser ensinado a segurar o leme
e manter o curso. Em todo seu treinamento em Forbes, em todas as horas estudando rostos de suspeitos conhecidos, jamais vira nenhum daqueles. Quando chegou ao convs,
o homem que iria comandar a todos em sua misso para a glria eterna estava l para receb-los. Ele, o ex-membro do SAS, reconheceu. Da galeria de viles que lhe
fora mostrada no castelo Forbes, sabia que estava olhando para Yusuf Ibrahim, segundo no comando e brao direito de Al-Zarqawi, seu amigo homicida jordaniano.
O rosto pertencera ao time principal que lhe fora mostrado no castelo Forbes. O homem era baixo e atarracado, conforme ele esperava, e seu brao esquerdo invlido
pendia ao lado. Lutara no Afeganisto contra os soviticos e vrios fragmentos de bombas tinham se alojado em seu brao durante um ataque. Em vez de aceitar uma
amputao limpa, preferiu deixar o brao pendendo, intil.
Haviam corrido rumores de que ele morrera l; no eram verdicos. Fora remendado nas cavernas, e em seguida levado para o Paquisto para ser submetido a cirurgias
mais avanadas. Depois da evacuao sovitica, ele desaparecera.
O homem do brao esquerdo atrofiado reaparecera depois do ataque da Coalizo ao Iraque, em 2003, tendo passado o tempo intermedirio como chefe de segurana em um
dos campos da al-Qaeda sob o regime Taliba.
Para Mike Martin, o momento foi tenso, porque ele temeu que o homem reconhecesse Izmat Khan daqueles dias no
I

O AFEGO

279

Afeganisto e quisesse conversar com ele. Mas o comandante da misso simplesmente o fitou com olhos reluzentes como prolas negras.
Durante 20 anos este homem matara e matara, amando cada momento. No Iraque, como auxiliar de Musab al-Zarqawi, ele cortara cabeas diante de cmeras e adorara isso.
Tivera prazer em ouvir suas vtimas gritarem e implorarem. Martin fitou os olhos vazios, manacos, e fez a saudao habitual. Que a paz esteja convosco, Yusuf Ibrahim,
Aougueiro de Karbala.
I
I

CAPTULO 14

O NAVIO QUE HAVIA SIDO OjAVA StAR EMERGIU DA ENSEADA FILIPINA

12 horas depois da destruio do Countess of Richmond. Ele saiu do golfo de Moro e seguiu para o mar de Celebes, indo para o sul pelo sudoeste para juntar-se  rota
martima que o Countess teria feito atravs do estreito de Makassar.
O timoneiro indonsio se encontrava ao leme, e ao lado dele estavam o adolescente britnico paquistans e o Afego, a quem ele instruiu sobre como manter um curso
firme.
Havia anos as agncias de antiterrorismo sabiam que, para espanto do mundo da Marinha Mercante, naquelas guas freqentemente navios eram seqestrados, conduzidos
em crculos por horas com sua tripulao toda trancada, e por fim abandonados.
O motivo era simples: assim como os seqestradores do 11 de Setembro tinham adquirido sua percia em escolas de pilotagem americanas, os seqestradores martimos
do Oriente Mdio vinham praticando como conduzir um grande navio em alto-mar. O indonsio ao leme do novo Countess era um desses homens.
i

I 
O AFEGO 281

O engenheiro que estava na parte inferior da embarcao realmente fora engenheiro da Marinha antes de o navio no qual trabalhava ter sido seqestrado por Abu Sayyaf.
Para no morrer, concordara em juntar-se aos terroristas e tornar-se um deles.
O terceiro indonsio aprendera tudo a respeito de procedimentos navais enquanto trabalhava no escritrio de um anco-radouro comercial de Bornu do Norte, at ter-se
convertido ao isl e ser aceito nas legies do Jemaat Islamiya, mais tarde ajudando a plantar as bombas na discoteca de Bali.
Dos oito homens, os trs eram os nicos que precisavam deter conhecimento tcnico a respeito de navios. O qumico rabe ficaria encarregado da detonao da carga;
Suleiman, o homem dos Emirados rabes, enviaria pela internet as imagens que abalariam o mundo; caso fosse necessrio, o jovem paquistans imitaria o sotaque do
norte da Inglaterra do falecido capito McKendrick; e o Afego iria se revezar com o timoneiro durante os dias de navegao que os aguardavam.
Estavam no fim de maro, mas a primavera nem mesmo tentara tocar a cordilheira Cascades. Ainda fazia um frio terrvel e uma camada de neve grossa jazia na floresta
do outro lado dos muros da Cabana.
No lado de dentro estava quente e acolhedor. O inimigo, a despeito de televiso 24h, DVDs, msica e jogos, era o tdio. Como faroleiros, os homens no tinham muito
a fazer, e o perodo de seis meses era um grande teste para a capacidade de solido interna e auto-suficincia.
Os guardas podiam calar esquis ou sapatos de neve e andar pela floresta para se manter em forma e tirar uma folga da

282

FREDERICK FORSYTH penitenciria, do refeitrio e da sala de jogos. Para o prisioneiro, imune  fraternizao, a tenso era bem maior.
Izmat Khan ouvira o presidente da Corte Militar em Guantnamo pronunci-lo livre para ir embora, e estava convencido de que a priso de Pul-i-Charki no iria cont-lo
por mais de um ano. Aps ser levado para aquela vastido solitria - na qual, at onde sabia, ficaria para todo o sempre -, ficou difcil sufocar a raiva que ardia
em seu peito.
Assim, vestiu a jaqueta com forro de paina que haviam lhe dado, saiu para a rea de exerccios e se ps a caminhar pelo ptio murado. Dez passos de comprimento,
cinco passos de largura. Podia caminhar de olhos fechados e jamais chocar-se contra a parede. A nica variao era ocasionalmente o cu acima.
A maior parte do cu era uma nuvem cinza-chumbo, da qual a neve descia. Mas antes, naquele perodo no qual os cristos decoram rvores e cantam canes, fizera muito
frio, mas o cu tinha estado azul.
Depois ele vira guias e corvos rodopiando no alto. Pssaros menores tinham pousado no topo do muro e olhavam para ele, como se perguntando por que no saa para
juntar-se a eles na liberdade. Mas o que mais gostava de olhar eram os avies.
Alguns, ele sabia, eram avies de guerra, embora jamais tivesse ouvido falar nem da cordilheira Cascades onde ele estava, nem da base da Fora Area McChord, que
ficava 80 quilmetros a oeste. Mas, no norte do Afeganisto, vira uma aeronave de combate americana manobrar para fazer um bombardeio, e notou que era o mesmo tipo
de avio.
E tambm havia os avies de passageiros. Apresentavam cores diferentes, com desenhos variveis nas caudas, mas ele

O AFEGO 283

tinha conhecimento o suficiente para ter certeza de que no eram emblemas nacionais, e sim logomarcas de companhias. Exceto pela folha de bordo. Alguns dos avies
sempre tinham estampado a folha na cauda. E esses sempre vinham do norte.
Era fcil identificar o norte; a oeste ele podia ver o sol se pr, e rezava no lado oposto, em direo a Meca, bem longe no leste. Suspeitava estar nos EUA porque
o sotaque dos guardas era claramente americano. Mas ento, por que vinham do norte avies com um emblema nacional? S podia ser porque existia em algum lugar ao
norte uma outra terra, uma terra onde as pessoas rezavam para uma folha vermelha num campo branco. Assim, continuou caminhando no ptio, pensando na terra da folha
vermelha. Na verdade, estava vendo os vos da Air Canada decolarem de Vancouver.
Num bar na regio porturia de Port of Spain, Trinidad, dois marinheiros mercantes foram atacados por uma gangue local e deixados  morte. Ambos tinham sido esfaqueados
com percia.
Quando a polcia chegou, as testemunhas sofriam de uma amnsia temporria, conseguindo lembrar apenas que tinham sido cinco agressores que haviam provocado a briga
no bar, e que eram todos ilhus. A polcia jamais descobriria nada mais do que isso, nem efetuaria qualquer priso.
Na verdade, os assassinos eram bandidos locais que nada tinham a ver com terrorismo islmico. Mas o homem que os contratara era um dos principais terroristas do
Jamaat-al-Musli-meen, o maior grupo partidrio da al-Qaeda em Trinidad.
Mantendo-se o mais distante possvel da mdia ocidental, o Jamaat-al-Muslimeen vinha crescendo continuamente nos

284

FREDERICK FORSYTH ltimos anos, assim como outros grupos da bacia caribenha. Numa rea conhecida por seu cristianismo, o isl vinha crescendo discretamente com a
imigrao do Oriente Mdio, sia Central e subcontinente indiano.
O dinheiro pago pelo Jamaat-al-Muslimeen pelos assassinatos viera de uma linha de crdito criada pelo falecido Sr. Tewfik al-Qur. As ordens especficas tinham vindo
de um emissrio do Dr. Al-Khattab, que ainda estava na ilha.
Como no se tentara roubar as carteiras dos homens mortos, a polcia de Port of Spain identificou-os rapidamente como cidados venezuelanos de um navio tambm de
bandeira venezuelana, que ento estava aportado.
O mestre, o capito Pablo Montalban, ficou chocado e entristecido ao ser informado sobre a perda dos tripulantes. Contudo, no poderia esperar por muito tempo no
porto.
Enquanto a embaixada e o consulado da Venezuela cuidavam dos detalhes do traslado dos corpos para Caracas, o capito Montalban contatou o agente local para substituir
os marinheiros. O homem fez alguma pesquisa, mas logo deu sorte. Encontrou dois jovens indianos educados e vidos por trabalho. Tinham vindo de Kerala trabalhando
em troca de suas passagens, e embora carecessem de documentos de naturalizao, tinham registros de marinheiro.
Aceitos a bordo, juntaram-se aos outros quatro marinheiros que compunham a tripulao, e o Dona Maria se lanou ao mar com apenas um dia de atraso.
O capito Montalban sabia vagamente que a maior parte da ndia era hindu, mas no tinha a menor idia de que o pas tambm abrigava 150 milhes de muulmanos. No
estava a par de que a converso dos muulmanos indianos fora to vigorosa quanto no Paquisto, ou que Kerala, que um dia fora

O AFEGO

285

uma regio altamente comunista, tornara-se particularmente receptiva ao extremismo islmico.
Os dois novos tripulantes realmente tinham vindo da ndia como grumetes, mas sob ordens e para obter experincia. Por fim, o venezuelano catlico no tinha a menor
idia de que, embora nenhum dos dois tivesse o suicdio em mente, trabalhavam com e para o Jamaat-al-Muslimeen. Os marujos tinham sido assassinados justamente para
abrir vagas para os dois fanticos em seu navio.
Marek Gumienny decidiu voar pelo Atlntico quando ouviu o relatrio do Extremo Oriente. Mas levou consigo um especialista numa outra disciplina.
- Os especialistas rabes serviram bem a seu propsito, Steve - disse ele a Hill antes de decokr. - Agora precisamos de gente que conhea o mundo da Marinha Mercante.
O homem que ele levou era do Departamento de Alfndega e Proteo de Fronteiras americano, diviso da Marinha Mercante. Steve Hill saiu de Londres para o norte acompanhado
por outro de seus colegas; ele provinha da diviso de antiter-rorismo do SIS, seo martima.
Em Edzell os dois jovens se conheceram: Chuck Heming-way, de Nova York, e Sam Seymour, de Londres. Ambos tinham ouvido falar um do outro por meio de documentos e
relatrios da comunidade antiterrorista. Haviam recebido um comunicado de que tinham 12 horas para se reunir e preparar uma avaliao de ameaa e um plano de como
lidar com ela. Quando se dirigiram a Gumienny, Hill, Phillips e McDonald, Chuck Hemingway foi o primeiro a falar.
- Isto no  apenas uma caada,  uma busca por uma agulha num palheiro. Uma caada possui um alvo conhecido,

286

FREDERICK FORSYTH tudo que temos  que estamos atrs de uma coisa que flutua. Talvez. Deixem-me explicar melhor.
Neste momento h 46 mil navios mercantes operando nos oceanos do mundo. Metade deles ostenta bandeiras de convenincia, que podem ser trocadas praticamente de acordo
com a vontade do capito.
Oitenta e cinco por cento da superfcie do mundo  coberta por oceano, em uma rea to vasta que literalmente milhares de navios passam a maior parte do tempo fora
do alcance visual de terra ou de outras embarcaes.
Oitenta por cento do comrcio mundial ainda  realizado pelo mar, e isso significa algo um pouco abaixo de seis bilhes de toneladas. E h quatro mil portos mercantes
viveis em todo o mundo.
Finalmente, vocs procuram uma embarcao. Mas no sabem o tipo, tamanho, tonelagem, forma, contornos, idade, propriedade, bandeira, capito ou nome. E para localizar
esse navio... ns chamamos esse tipo de embarcao de navio fantasma. .. vamos precisar de muito mais dados do que esses; ou de uma dose imensa de sorte. Vocs podem
nos oferecer uma das duas coisas?
Um silncio depressivo baixou na sala.
- Isso  desalentador - disse Marek Gumienny. - Sam, h por acaso um fio de esperana?
- Chuck e eu concordamos que pode haver uma forma de identificar o tipo de alvo que os terroristas podem estar visando e em seguida checar todos os navios que estejam
seguindo em direo a esse alvo e exigir uma inspeo armada da embarcao e da carga - disse Seymour.
- Estamos todos ouvindo - disse Hill. - Que tipo de alvo  mais possvel que eles estejam visando?

O AFEGO 287

- Faz anos que as pessoas em nosso ramo esto preocupadas com situaes como essa. Os oceanos so um parque de diverses para terroristas. Na verdade, no faz o
menor sentido que a al-Qaeda tenha escolhido para seu primeiro grande atentado um ataque pelo ar. Eles queriam apenas destruir quatro andares das torres do World
Trade Center, mas deram uma sorte incrvel. E todo o tempo, o mar esteve de braos abertos para eles.
- A segurana dos portos aumentou imensamente - disse Marek Gumienny. - Eu sei disso; vi os oramentos.
- Com todo o respeito, senhor, no  o suficiente. Temos notcias de que os seqestros de navios em guas ao redor da Indonsia... ou seja, em todas as direes...
vm aumentando constantemente desde a virada do milnio. Alguns desses seqestros foram simplesmente para fazer dinheiro para os cofres terroristas. Mas outros eventos
no mar desafiam a lgica.
- Tais como?
- Houve dez casos de piratas que roubaram rebocadores. Alguns jamais foram recuperados. Eles no possuem qualquer valor para revenda porque so difceis de serem
disfarados. Para que eles queriam os rebocadores? Achamos que poderiam ser usados para puxar um superpetroleiro capturado at um porto internacional muito movimentado,
como Cingapura.
- E ento explodi-lo? - perguntou Hill.
- No seria preciso. Apenas afund-lo com as escotilhas de carga abertas. O porto ficaria fechado por uma dcada.
- Certo - disse Marek Gumienny. - Ento... alvo possvel nmero um. Seqestrar um superpetroleiro e us-lo para fechar um porto comercial. Isso  espetacular? Parece
bem banal, exceto para o porto em questo... No h baixas.

288

FREDERICK FORSYTH - Fica pior - alertou Chuck Hemingway. - H outras coisas que podem ser destrudas com um grande navio, com grandes danos  economia mundial. No
vdeo de outubro de 2004, o prprio Bin Laden disse que estava mudando de estratgia, para infligir danos  economia.
Ningum l fora nos shopping centers ou postos de gasolina se d conta de como o comrcio mundial hoje depende de entregas just-in-time, ou seja, imediatas. Ningum
deseja mais armazenar ou estocar. A camiseta feita na China, vendida em Dallas na segunda-feira, provavelmente chegou ao porto na sexta-feira anterior. O mesmo ocorre
com a gasolina.
E quanto ao canal do Panam? Ou o de Suez? Feche-os e a economia mundial inteira entrar em caos. Estamos falando em prejuzos de centenas de bilhes de dlares.
H outros estreitos to vitais que o afundamento de um cargueiro ou um petroleiro realmente grande iria fech-los.
- Muito bem - disse Marek Gumienny. - Olhe, eu tenho um presidente e mais cinco superiores a quem me reportar. Voc, Steve, tem um primeiro-ministro. No podemos
nos contentar com essa mensagem de Crowbar. Nem podemos nos debulhar em lgrimas. Precisamos propor medidas concretas. Nossos superiores vo querer agir, serem vistos
fazendo alguma coisa. Portanto, liste as possibilidades e sugira algumas contra-medidas... Mas que droga, ns no estamos sem recursos de defesa.
Chuck Hemingway mostrou um documento no qual ele e Seymour haviam trabalhado.
- Certo, senhor. Ns sentimos que a probabilidade um  o seqestro de uma embarcao muito grande... petroleiro, cargueiro de minrio... e seu afundamento numa passagem
marinha estreita mas vital. Contramedidas? Identificar todas as pas
O AFEGO 289

sagens estreitas e colocar navios de guerra em cada extremidade. Todas as embarcaes que entrarem na passagem devem ser abordadas por fuzileiros navais.
- Meu Deus! - exclamou Steve Hill. - Isso seria um caos. Todos vo nos acusar de estarmos agindo como piratas. E quanto aos proprietrios das guas anfitris? Eles
no vo dizer nada?
- Se os terroristas forem bem-sucedidos, tanto os outros navios quanto os pases costeiros sero arruinados. No pode haver atrasos. Os fuzileiros devem abordar
cada cargueiro assim que ele reduzir a velocidade. E, francamente, os terroristas a bordo de qualquer navio fantasma no permitiro a abordagem. Iro reagir com
tiros, e vo acabar se expondo. Acho que os proprietrios de navios vero a situao sob o mesmo ngulo que ns.
- Probabilidade dois? - inquiriu Steve Hill.
- Conduzir o navio fantasma, abarrotado com explosivos, at uma grande instalao como uma ilha artificial de oleodutos ou uma plataforma de petrleo, e explodi-la
em pedacinhos. Isso causar um dano ecolgico imenso e uma runa econmica por anos. Saddam Hussein fez isso no Kuait. Ele queimou todos os poos de petrleo  medida
que a Coalizo avanava, para deix-la vivendo de terra calcinada. Contra-medida: de novo, a mesma. Identificar e interceptar cada embarcao que se aproxime da
instalao. Obter identificao positiva para todas as embarcaes num raio de dez milhas, gerando um cordo de isolamento.
- No temos navios de guerra suficientes! - protestou Steve Hill. - Cada refinaria de petrleo, cada plataforma martima?
-  por isso que as naes proprietrias devero repartir os custos. E no precisam ser navios de guerra. Ao disparar

290

FREDERICKFORSYTH contra algum interceptor, o navio fantasma ir se expor, e assim poder ser afundado do ar.
Marek Gumienny correu a mo pela testa.
- Mais alguma coisa?
- H uma possvel terceira probabilidade - disse Seymour. - O uso de explosivos para causar um terrvel massacre humano. Nesse caso, o alvo certamente seria um resort
na costa.  uma perspectiva horrvel, semelhante  destruio de Halifax, Nova Esccia, em 1917, quando um navio-paiol explodiu no corao do porto. A cidade foi
varrida do mapa. At hoje ainda  considerada a maior exploso no-nuclear da Histria.
- Eu preciso relatar, Steve, e no vou gostar disso - disse Gumienny, enquanto o grupo trocava apertos de mos na pista de pouso. - A propsito, se contramedidas
forem efetuadas, e tero de ser, no haver como manter a mdia afastada. Precisamos pensar numa tima histria para os terroristas no desconfiarem do coronel Martin.
Mas, como sabem, por mais que eu tire meu chapu para ele, vocs precisam aceitar a realidade. As chances so de que ele no esteja mais entre ns.
Protegendo os olhos contra o brilho do sol do Arizona,i o major Larry Duval maravilhou-se, como sempre fazia, diante dViso do F-15 Strike Eagle que o aguardava.
Pilotara a verso F-15 durante dez anos, e o considerava o amor de sua vida.
Durante sua carreira ele tambm pilotara aeronaves como o F-l 11 Aardvark e o F-G Wild Weasel, e considerava ambos peas maravilhosas de maquinaria. Mas, depois
de 20 anos como piloto da Fora Area americana, ele podia dizer com total convico: o Eagle era o melhor de todos.

O AFEGO 291

O caa que iria pilotar naquele dia, da base da Fora Area de Luke at Washington, ainda estava sendo trabalhado. Imune a amor ou desejo, dio ou medo, posava silencioso
em meio  equipe de homens e mulheres de macaco que engatinhavam sobre a fuselagem. Larry Duval invejou seu Eagle; apesar de toda a complexidade, ele no sentia
nada. Portanto, jamais conheceria o medo.
O avio que estava sendo preparado para o teste areo daquela manh estivera na base area de Luke para uma reviso geral. A regra ditava que depois de um perodo
longo na oficina, a aeronave deveria ser submetida a um vo de teste.
Assim ela aguardava ao sol reluzente da manh no Arizona; 19 metros de comprimento, 5,5 de altura e 12 de envergadura, pesando 18 toneladas vazio e podendo decolar
com at 36 toneladas de peso total. Larry Duval virou-se quando seu WSO, como  mais conhecido o oficial que opera os sistemas de armas, capito Nicky Johns, aproximou-se
aps ter terminado a checagem do equipamento. No Eagle, o WSO viaja atrs do piloto, cercado por milhes de dlares em instrumentos. Durante um vo longo at a base
area de McChord, ele iria testar cada um deles.
Um utilitrio aberto conduziu os dois homens pelos 600 metros que os separavam do caa. Eles passaram dez minutos realizando checagens de vo, por mais escassas
que fossem as chances da equipe de solo ter deixado passar alguma coisa.
Uma vez a bordo, afivelaram os cintos de segurana e cumprimentaram a tripulao de solo com um ltimo aceno. Os tcnicos retriburam o cumprimento e se retiraram
da pista.
Larry Duval acionou os dois poderosssimos motores F-100, a cpula desceu sibilando e o Eagle comeou a andar. A aeronave se virou contra a brisa suave que soprava
pela pista, parou,

292

FREDERICK FORSYTH

recebeu liberao para decolar e fez um teste final nos freios. As turbinas expeliram chamas de nove metros, e o major Duval liberou a potncia total da aeronave.
O Eagle percorreu 1.600 metros pela pista at que, a 185 ns, as rodas do trem de pouso desprenderam-se do asfalto e a aeronave decolou. Trem de pouso recolhido,
flaps erguidos, afogadores acionados para reduzir o consumo de combustvel e o poderio militar ativado. Duval estabeleceu um ritmo ascendente de 5 mil ps por minuto.
Atrs dele, o oficial de sistema de armas passou-lhe uma orientao de navegao por bssola. A 30 mil ps de altitude num cu azul puro, o Eagle nivelou e apontou
o nariz para o norte, em direo a Seattle. As montanhas rochosas, cobertas por um lenol de neve, permaneceriam abaixo deles por todo o percurso.
No gabinete de Relaes Exteriores da Gr-Bretanha, os detalhes finais para o transporte do governo britnico e de seus consultores para a reunio do G8 de abril
estavam quase completos. A delegao inteira embarcaria num avio de passageiros fretado e voaria do aeroporto Heathrow ao JFK, em Nova York. L seriam recebidos
formalmente pelo secretrio de Estado americano.
As outras seis delegaes estrangeiras iriam voar de seis capitais diferentes at o mesmo aeroporto.
Todas as delegaes permaneceriam no interior do aeroporto, a um quilmetro e meio dos manifestantes mais prximos, grudados ao permetro de isolamento. O presidente
no ia permitir que aquela gente a quem ele chamava de maluquinhos gritasse insultos ou ameaas de qualquer espcie a seus convidados. No queria uma reprise de
Seattle e Gnova.
O traslado para fora do JFK seria atravs de uma ponte area de helicpteros que desembarcariam seus passageiros num

O AFEGO 293

segundo ambiente completamente isolado, De l eles caminhariam at a sede da conferncia, onde estariam isolados em luxo e privacidade durante cinco dias. Um esquema
simples e impecvel.
- No sei como ningum teve essa idia antes - disse um dos diplomatas ingleses. -  brilhante. Talvez devamos fazer a mesma coisa.
- Sabe o que  ainda melhor? - murmurou um colega mais velho e experiente. - Depois de Gleneagles vai levar anos at ser nossa vez de novo. Vamos deixar que outros
cuidem da segurana por uns tempos.
To cedo Marek Gumienny no estaria pessoalmente com Steve Hill. Aquele fora escoltado pelo diretor de sua prpria agncia at a Casa Branca e explicara aos seis
diretores as dedues que haviam sido obtidas aps o recebimento de uma mensagem bizarra da ilha de Labuan.
- Eles disseram o mesmo de sempre -- reportou Gumienny. - O que quer que seja, onde quer que seja, encontre e destrua.
- O mesmo com meu governo - disse Steve Hill, - Sem restries. Destruir ao avistar. E eles querem que ns trabalhemos juntos nisto.
- Sem problemas. Mas, Steve, meu pessoal est convencido de que o alvo provvel so os Estados Unidos da Amrica. Assim, a nossa proteo costeira assume precedncia
sobre todo o resto... Oriente Mdio, sia, Europa. Ns temos prioridade total em todos os nossos recursos: satlites, navios de guerra, tudo. Mas se localizarmos
o navio fantasma em algum lugar fora de nossa costa, desviaremos os recursos para destru-lo.

294

FREDERICK FORSYTH
O diretor de Inteligncia Nacional americana, John Negro-ponte, autorizou a CIA a informar seus colegas britnicos, em carter confidencial, sobre as medidas que
os Estados Unidos pretendiam tomar.
A estratgia de defesa seria baseada em trs estgios: vigilncia area, identificao de embarcaes e checagem. Qualquer explicao insatisfatria, qualquer desvio
no explicado, de curso e trajetria, geraria uma interceptao fsica. Qualquer resistncia implicaria a destruio no mar.
Para estabelecer um territrio martimo, uma linha foi desenhada para criar um crculo completo de 300 milhas em torno da ilha de Labuan. Da curva norte do crculo,
uma linha foi traada atravs do Pacfico at a cidade de Anchorage, na costa sul do Alasca. Uma segunda linha foi estabelecida do arco sul do crculo indonsio,
atravessando o Pacfico, at a costa do Equador.
A rea coberta envolvia principalmente o oceano Pacfico. Abrangia toda a costa oeste do Canad, EUA e Mxico at o Equador, incluindo o canal do Panam.
A Casa Branca decidiu que ainda no havia necessidade de anunciar a ao, mas pretendia-se monitorar cada navio nesse tringulo, seguindo para leste at a costa
americana. Nenhuma embarcao que sasse do tringulo ou rumasse para a sia seria importunada. Todas as outras seriam identificadas e vistoriadas.
Graas a anos de presso exercida por algumas entidades freqentemente classificadas como excntricas, a operao contava com um aliado logstico. As principais
companhias de navegao americanas haviam concordado em passar a registrar planos de rota, assim como fazem rotineiramente as companhias areas. Setenta por cento
dos navios na zona de verificao tinham suas rotas registradas, e as companhias

O AFEGO

295

proprietrias podiam entrar em contato com seus capites. Sob as novas regras, tambm havia um acordo de que os capites martimos sempre usariam uma determinada
palavra, conhecida apenas por seus proprietrios, caso estivessem seguros. O no-pronunciamento da palavra poderia significar que o capito estava com problemas.
Passadas 72 horas depois da conferncia na Casa Branca, o primeiro satlite KH-11 Keyhole assumiu posio no espao e comeou a fotografar o crculo indonsio. Os
computadores tinham sido instrudos para fotografar, qualquer que fosse a direo da rota, todo navio da Marinha Mercante num raio de 3 mil milhas da ilha de Labuan.
Como computadores obedecem instrues, ele fez isso. Enquanto o satlite comeava a fotografar, o Countess ofRichmond seguindo para sul pelo estreito de Makassar,
estava a 310 milhas ao sul de Labuan. No foi fotografado.
Para Londres, a obsesso da Casa Branca em relao a um ataque pelo Pacfico era apenas metade do quadro. Os alertas da conferncia de Edzell foram submetidos ao
Reino Unido e aos EUA para anlise adicional, mas as descobertas foram amplamente endossadas.
Foi preciso um telefonema longo e pessoal pela linha direta entre Downing Street e a Casa Branca para se chegar a um acordo sobre as duas vias mais importantes a
leste de Malta. O pacto ditava que a Marinha Real britnica, em parceria com os egpcios, monitoraria a extremidade sul do canal de Suez para interceptar todos os
navios,  exceo das pequenas embarcaes, vindos da sia.
Os navios de guerra da Marinha americana no golfo Prsico, mar rabe e oceano ndico iriam patrulhar o estreito de Ormuz.

296

FREDERICKFORSYTH
Ali a ameaa seria representada apenas pelo nico e imenso navio, capaz de afundar no canal de guas profundas que segue pelo centro do estreito. O trfego principal
de Ormuz era de superpetroleiros, que chegavam vazios do sul e retornavam cheios de leo cru depois de serem abastecidos em uma das muitas ilhas espalhadas pelas
costas do Ir, Catar dos Emirados rabes, Barein, Arbia Saudita e Kuait.
A boa notcia para os americanos era que as companhias proprietrias das embarcaes se resumiam a um pequeno nmero e estavam dispostas a cooperar para prevenir
um desastre comum. Pousar um peloto de fuzileiros navais americanos descidos de um helicptero Sea Stallion no convs de um super-petroleiro a caminho do estreito,
ainda que a 300 milhas de distncia, e fazer uma inspeo rpida do passadio tomava pouqussimo tempo e no retardava a embarcao.
Quanto s ameaas dois e trs, cada governo da Europa com um grande porto martimo foi alertado quanto  possvel existncia de um navio fantasma sob o comando de
terroristas. Cabia  Dinamarca proteger Copenhagen; a Sucia cuidaria de Estocolmo e Gotemburgo; a Alemanha ficaria de olho em qualquer coisa que entrasse em Hamburgo
ou Kiel; a Frana foi alertada para defender Brest e Marselha. Avies da Marinha britnica baseados em Gibraltar comearam a -patrulhar o estreito entre as Colunas
de Hrcules, entre Gibraltar e Marrocos, para identificar qualquer coisa vinda do Atlntico.
Durante todo o percurso sobre as montanhas rochosas, o major Duval submetera o Eagle a uma srie de testes, a aeronave passara com louvor. Abaixo dele, o clima mudara.

O AFEGO

297

O cu azul sem nuvens do Arizona deixava  mostra alguns fiapos de nuvens carregadas, que adensaram  medida que o jato saa de Nevada para Oregon. Quando Duval
cruzou o rio Columbia sobre o estado de Washington, a nuvem abaixo estava slida do topo at sua base, 20 mil ps acima do solo, e se estendia at a fronteira canadense
ao norte. A 30 mil ps, Duval ainda flanava num cu azul, mas a descida envolveria um percurso considervel atravs de vapor denso. Quando faltavam 200 milhas, chamou
a base da fora area de McChord e requisitou uma aterrissagem controlada do solo.
O operador em McChord pediu-lhe que permanecesse a leste, manobrasse para o interior de Spokane e descesse navegando por instrumentos. O Eagle estava fazendo uma
volta para a esquerda em direo a McChord quando aquela que estava para se tornar a chave de fenda mais cara da Fora Area escorregou do lugar onde fora enfiada
entre duas linhas hidrulicas no motor de estibordo. Quando o Eagle nivelou, a chave de fenda deslizou para dentro da turbina.
O primeiro resultado foi um estrondo metlico emitido de algum lugar nas entranhas do motor F-100 a estibordo quando as ps da turbina, afiadas como faces de aougueiro,
comearam a distorcer. Cada lmina retorcida espremeu-se contra as demais. Em ambas as carlingas uma luz vermelha piscou em resposta ao grito de Que porra foi essa?
de Nicky Johns.
 frente dele, Larry Duval estava ouvindo alguma coisa dentro de sua cabea gritar: Desliga tudo.
Depois de anos de vo, os dedos de Duval faziam o trabalho quase sozinhos; desligando uma chave depois da outra: combustvel, circuitos eltricos, linhas hidrulicas.
Mas o motor de estibordo estava em chamas. Os extintores de incndio internos foram acionados automaticamente, mas tarde demais.

298

FRDERICK FORSYTH
O F-1OO de estibordo estava lacerando a si mesmo em pedacinhos, no que  conhecido como falha de motor catastrfica .
Atrs de Duval, o oficial de sistema de armas estava dizendo a McChord:
- mayday, mayday, mayday, motor de estibordo em chamas...
Foi interrompido por outro rugido s suas costas. Em vez de desligar, uma das ps da turbina rasgara a fuselagem e estava danificando o lado esquerdo do avio. Mais
luzes vermelhas piscaram. O segundo motor tambm pegara fogo. Mesmo com o combustvel reduzido, e com um nico motor em funcionamento, Larry Duval poderia ter conseguido
aterrissar. Mas com ambos os motores apagados, um caa moderno no plana como aqueles de outrora; ele mergulha com a velocidade de uma bala.
Mais tarde, o capito Johns diria no inqurito que a voz de seu piloto permaneceu calma e inalterada. Ele ajustara o rdio em transmitir , para que o controlador
de trfego areo em McChord no precisasse ser informado; ele estava ouvindo em tempo real.
- Perdi os dois motores - informou o major. - Preparar para ejeo.
O oficial de sistema de armas olhou uma ltima vez para seus instrumentos. Altura: 24 mil ps. Mergulhando, ngulo cada vez mais fechado. Do lado de fora o sol ainda
brilhava, mas a massa de nuvens coleava em direo a eles. O oficial de sistema de armas olhou em torno, sobre seu ombro. O Eagle era uma tocha, inflamado de ponta
a ponta. Ele ouviu a mesma voz calma vindo da frente.
- EJETAR, EJETAR.

O AFEGO 299

Os dois homens abaixaram os braos at a maaneta ao lado do assento e a puxaram. Era tudo que precisavam fazer. Os modernos ejetores de assentos so to automatizados
que at se o piloto estiver inconsciente, os dispositivos fazem tudo por ele.
Nem Larry Duval nem Nicky Johns chegou realmente a ver a morte de seu avio. Com segundos de sobra, seus corpos foram arremessados para a estratosfera congelante
atravs da cpula que se estilhaava. O assento segurou as pernas e braos para que seus membros no se debatessem e quebrassem. O assento protegeu seus rostos da
rajada de vento que poderia empurrar os malares atravs dos crnios.
Ambos os ejetores em queda foram estabilizados por aletas diminutas e mergulharam para o solo. Num segundo eles estavam perdidos na massa de nuvens. Embora pudessem
enxergar atravs dos visores, os dois tripulantes s conseguiam ver nuvens cinzentas passando por eles.
Os assentos possuam sensores para detectar que estavam prximos o bastante do solo para liberar seus passageiros. Os cintos de segurana simplesmente se abriram
e os homens, agora separados um do outro por um quilmetro e meio, separaram-se de seus assentos, que mergulharam pela paisagem abaixo.
Os pra-quedas, tambm automticos e munidos de um dispositivo para estabilizar no ar o homem em queda, de repente abriram-se. Cada um dos homens sentiu um puxo
violento quando a velocidade extrema de 193 quilmetros por segundo foi reduzida para aproximadamente vinte.
Comearam a sentir o frio intenso atravs do nilon de seus macaces de vo. Tinham a impresso de estar num estranho limbo mido e cinzento, entre o cu e o inferno,
at colidirem contra copas de pinheiro e abeto.

300

FREDERICKFORSYTH
Na sombra projetada por uma nuvem, o major pousou numa clareira, com a queda amortecida por galhos de conferas cados no cho. Depois de vrios segundos atordoado
e sem flego, abriu a fivela principal do pra-quedas e se levantou. Ento comeou a transmitir um sinal de rdio, para que a equipe de resgate pudesse localiz-lo.
Nicky Johns tambm cara entre as rvores, mas no numa clareira; cara em cheio nelas.  medida que se chocava com os galhos, foi encharcado pela neve acumulada
neles. Esperou pelo choque contra o cho, que nunca chegou. Acima dele, na escurido congelante, ele conseguiu ver que seu pra-quedas aberto estava preso nas rvores.
Abaixo, conseguia divisar o cho. Neve e folhas de pinheiro, pensou, uns cinco metros abaixo. Respirou fundo, apertou o boto de liberao e caiu.
Com sorte ele teria pousado e se levantado. Contudo, sentiu a perna esquerda partir exatamente na tbia ao deslizar entre dois galhos endurecidos sob a neve. Era
o sinal de que o frio e o choque comeariam a devorar suas foras sem misericrdia. Ele tambm acionou seu transmissor.
O Eagle tentara voar durante alguns segundos depois de ser abandonado por sua tripulao. Apontou o nariz para baixo, mergulhou, rodopiou, recomeou seu mergulho
e, ao entrar na massa de nuvens, simplesmente explodiu. As chamas tinham alcanado os tanques de combustvel.
Enquanto a aeronave se desintegrava, os dois motores desprenderam-se e caram. Vinte mil metros abaixo, cada motor - cinco toneladas de metal rugindo a 800 quilmetros
por hora - atingiu a floresta de Cascades. Um deles destruiu 20 rvores. O outro, causou ainda mais destruio.
O oficial de Operaes Especiais da CIA que comandava a guarnio na Cabana demorou dois minutos para recuperar

O AFEGO

301

a conscincia e se levantar do soalho do refeitrio onde estivera almoando. Estava tonto e enjoado. Encostou-se na parede da cabana de toras em meio  poeira e
gritou pelos companheiros. Foi respondido com gemidos. Vinte minutos depois, ele tinha feito um levantamento. Os dois homens jogando sinuca estavam mortos. Trs
outros estavam feridos. Os sortudos foram aqueles que tinham sado para passear fora do complexo. Estavam a cem metros quando o meteorito, porque era isso que achavam
que fosse, acertara a Cabana. Depois de confirmar que 12 agentes da CIA haviam morrido, trs necessitavam de hospitalizao de emergncia, dois que tinham sado
para passear estavam ilesos, e que os cinco restantes encontravam-se muito abalados, eles foram ver como o prisioneiro estava.
Mais tarde eles seriam acusados de lentido em suas responsabilidades, mas o inqurito acabaria determinando que haviam tido razo em cuidar primeiro de si prprios.
Uma olhada atravs do visor do quarto do Afego revelou que havia luz demais l dentro. Ao entrar, constataram que a porta que dava para o ptio de exerccios estava
aberta. O quarto propriamente dito, feito de concreto reforado, sobrevivera intacto.
A parede do complexo no teve a mesma sorte. Concreto ou no, o motor F-100 dera uma mordida de um metro e meio na parede antes de ricochetear para os aposentos
da guarnio. E o Afego tinha desaparecido.

CAPTULO 15

ENQUANTO OS AMERICANOS FECHAVAM SUA ARMADILHA EM TORNO das Filipinas, Bornu e Indonsia ocidental, por toda a extenso do Pacfico at a costa americana, o Countess
ofRichmond saa do mar de Flores, atravs do estreito de Lombok, entre Bali e Lombok, e entrava no oceano ndico. Dali ele mudou de curso para oeste, em direo
 frica.
O chamado de socorro do Eagle moribundo fora ouvido por pelo menos trs postos de escuta. A base da fora area de McChord obviamente tinha tudo gravado, porque
seu operador falara com a tripulao. A estao aeronaval na ilha de Whibbey, ao norte de McChord, tambm mantivera viglia no canal 16, assim como a unidade da
Guarda Costeira americana em Bellingham. Segundos depois do chamado eles entraram em contato, para dizer que estavam a postos para triangular as posies dos tripulantes.
J se foi o tempo em que pilotos passavam dias vagando pelo deserto ou perdidos numa floresta esperando que algum os encontrasse. Os tripulantes modernos contam
com um colete

O AFEGO 303

munido com um emissor de sinal pequeno e poderoso, alm de um transmissor que permite comunicao de voz.
Os sinais foram captados imediatamente e os trs postos de escuta estabeleceram as posies dos homens com uma margem de erro de poucos metros. O major Duval estava
no corao da parte selvagem e o capito Johns cara na floresta madeireira. O acesso a ambas ainda estava fechado devido ao inverno.
A cobertura de nuvens, no muito acima das copas das rvores, impediria a extrao por helicptero, a forma mais rpida e eficaz. A base da nuvem iria forar um
resgate  moda antiga. Veculos off-road conduziriam os grupos de busca at o ponto mais prximo ao longo de uma das trilhas; de l at o tripulante as nicas ferramentas
seriam msculos e suor.
O inimigo agora era a hipotermia, e no caso de Johns com a perna quebrada, o traumatismo. O xerife do condado de What-com entrou em contato via rdio para dizer
que seus auxiliares estavam preparados para agir, e que dentro de meia hora iriam se encontrar na cidadezinha de Glacier, na beira da floresta. Eles estavam mais
prximos do oficial de sistemas de armas, Nicky Johns, que quebrara a perna. Alguns lenhadores moravam nas redondezas de Glacier e conheciam cada estrada de transporte
de madeira atravs da floresta. Ele recebeu a posio exata de Johns com uma margem de poucos metros e partiu.
Para manter a moral do ferido, a base de McChord conectou o xerife com o comunicador preso no colete do oficial de sistemas de armas; assim o xerife podia falar
palavras de encorajamento ao tripulante  medida que seu grupo se aproximava dele.
O servio dos parques nacionais de Washington optou pelo major Duval. Eles tinham experincia de sobra; todo ano pre

304

FREDERICK FORSYTH cisavam resgatar quem se perdia pelo caminho. Eles conheciam cada estrada atravs do parque, cada trilha. Eles seguiram em snowmobiles e triciclos
motorizados. Como o homem no estava ferido, com sorte no seria necessrio transport-lo numa maa.
Mas  medida que os minutos se arrastavam, a temperatura corporal dos tripulantes comeou lentamente a cair, e mais rpido com Johns, que no podia se mover. A corrida
era para suprir os dois homens com luvas, botas, cobertores trmicos e sopa quente antes que morressem de frio.
Ningum disse aos grupos de busca, porque ningum sabia, que havia outro homem na floresta naquele dia, um homem muito perigoso.
A salvao da equipe da CIA na Cabana destruda era que seus equipamentos de comunicao no tinham sido atingidos. O comandante tinha apenas um nmero para telefonar,
mas era o nmero . A chamada seguiu em linha segura at a mesa do vice-diretor de Operaes Marek Gumienny, em Langley. Trs zonas de fuso horrio a leste, um pouco
depois das 16 horas, ele recebeu o telefonema.
Ouviu completamente em silncio. No se queixou ou praguejou, embora estivesse recebendo a notcia de um grande desastre da Companhia. Antes que seu colega de posto
inferior na floresta de Cascades terminasse, ele j estava analisando a catstrofe. Em temperaturas congelantes, os dois cadveres teriam de esperar um pouco. Os
trs feridos precisavam de atendimento mdico urgente. E o fugitivo precisava ser caado.
- Um helicptero pode chegar a para pegar vocs?
- No, senhor. Temos nuvem roando as copas das rvores, e est ameaando nevar mais.

O AFEGO

305

- Qual  a cidade mais prxima, alcanvel por trilha?
- Mazama. Fica fora da floresta, mas tem uma trilha que liga a cidade  passagem Hart. Fica a um quilmetro e meio daqui. No h nenhuma trilha de l at aqui.
- Vocs so uma instituio de pesquisas secreta, entendeu? Vocs sofreram um grande acidente. Chame o xerife em Mazama e mande ele ir at a com tudo que tiver.
Carros e snowmobiles que possam chegar at o mais perto possvel de vocs. Esquis, sapatos de neve e trens para o ltimo quilmetro e meio. Leve esses homens at
o hospital. Enquanto isso, vocs conseguem se manter aquecidos?
- Sim, senhor. Duas salas foram destrudas, mas temos trs isoladas. O aquecimento central no est funcionando, mas estamos empilhando toras na lareira.
- Certo. Quando o grupo de resgate alcanar vocs, tranquem tudo e destruam todos os equipamentos de comunicao codificada. Peguem todos os cdigos e saiam junto
com os feridos.
- Senhor,.,?
- Sim, - E o Afego?
- Deixe-o por minha conta.
Marek Gumienny pensou na carta-branca que John Negro-ponte dera-lhe no comeo da Operao Crowbar. Poderes plenos. Sem limites. Era hora de fazer o Exrcito valer
os dlares que ganhava atravs dos impostos. Ele ligou para o Pentgono.
Graas a anos na Companhia e ao novo esprito de compartilhamento de informaes, ele possua contatos fortes dentro do Ministrio da Defesa, que por sua vez eram
os melhore amigos das Foras Especiais. Vinte minutos depois, ele dc.su briu que tivera sua primeira colher de ch num dia muito ruim

306

FREDERICK FORSYTH
A no mais de seis quilmetros da base da fora area de McChord fica o Forte Lewis. Embora seja um imenso campo militar, o Lewis possui uma zona restrita, que 
o lar do Primeiro Grupo das Foras Especiais, conhecido por seus raros amigos como Destacamento Operacional Alpha 143. O terminal 3 significa uma companhia de operao
em montanhas, ou esquadro A . Seu comandante de operaes era o capito Michael Linnet.
Quando recebeu o telefonema do Pentgono, o adjunto da unidade no pde ser muito prestativo, embora estivesse falando com um general de duas estrelas.
- Senhor, neste momento eles no se encontram na base. Esto envolvidos num exerccio ttico em monte Rainer.
O general, baseado em Washington, jamais ouvira falar dessa montanha sombria no condado de Pierce, muito ao sul de Tacoma.
- Tenente,  possvel providenciar que eles voltem de helicptero para a base?
- Sim, senhor. Creio que sim. O teto de nuvem est na altura mnima para isso.
- Eles podem voar at um lugar chamado Mazama, perto da passagem Hart, na beira da floresta virgem?
- Terei de verificar isso, senhor.
O general esperou na linha por trs minutos at o tenente voltar.
- No, senhor. O teto de nuvem de l est roando nas copas das rvores, e pode haver uma tempestade de neve a qualquer momento. A nica forma de chegar at l seria
de caminho.
- Bem, leve-os at l, pela rota mais rpida possvel. Voc disse que eles esto fazendo manobras?

O AFEGO 307

- Sim, senhor.
- Esto portando tudo de que precisariam para operar na floresta virgem de Pasayten?
- Tudo que  preciso para operar em terreno acidentado e lob temperaturas abaixo de zero, general.
- Esto com munio real?
- Sim, senhor. A manobra era uma simulao de caada a terroristas no Parque Nacional de Rainer.
- Bem, tenente, no  mais uma simulao. Mande a unidade inteira para o posto policial de Mazama. Mande falarem com um agente da CIA chamado Olsen. Fique em contato
contnuo com Alpha e me mantenha informado sobre o progresso.
Para poupar tempo, o capito Linnett, ciente de que havia ul ,nm tipo de emergncia enquanto descia o monte Rainer, ici uisitou retirada por ar. O Forte Lewis possua
o prprio In licptero de transporte de tropas Chinook, que 30 minutos tl )ois recolheu o esquadro Alpha do estacionamento de visi-i.mtes vazio no sop da montanha.
O Chinook levou o esquadro at o mximo ao norte que foi permitido pelas nuvens. Deixou-os num pequeno campo h pouso a oeste de Burlington. O caminho, que passara
uma Imra seguindo pela estrada, chegou ao campo de pouso quase .ui mesmo tempo.
De Burlington, a Interestadual-20 segue um percurso coleante  margem do rio Skagit at entrar nos Cascades. O acesso s montanhas fica fechado durante o inverno,
exceto para veculos dotados de equipamento especial. O caminho das Foras Especiais estava preparado para qualquer tipo de terreno bem como para alguns ainda no
existentes. Mas o progresso foi lento. Passaram-se quatro horas at que o motorista exausto parasse na cidadezinha de Mazama.

308

FREDERICK FORSYTH
A equipe da CIA tambm estava cansada, mas pelo menos seus colegas feridos, dopados com morfina, estavam em ambulncias seguindo para serem recolhidos por um helicptero
e levados ao hospital Tacoma Memorial.
Olsen contou ao capito Linnett o que julgou ser suficiente. Linnett frisou que precisava de mais informaes.
- Esse fugitivo est usando roupas e calados de neve?
- No. Botas de caminhadas, calas compridas bem forradas, casaco leve.
- Sem esquis nem sapatos de neve? Est armado?
- No, no est.
- Mas est escuro... Ele possui culos de viso noturna? Qualquer coisa que o ajude a se mover?
- No, certamente no. Ele era um prisioneiro confinado.
- timo! - exclamou Linnett. - Nesta temperatura, avanando atravs de um metro de neve e sem bssola, s pode estar andando em crculos. Vamos peg-lo.
- Tem mais uma coisa. Ele  um montanhs. Nasceu e foi criado nas montanhas.
- Nesta regio?
- No. Em Tora Bora. Ele  um afego.
Linnett fitou-o pasmo. Ele lutara em Tora Bora. Estivera na primeira invaso ao Afeganisto quando Foras Especiais da Coalizo, americanas e britnicas, vasculharam
a cordilheira de Spin Gahr em busca de um grupo de sauditas fugitivos, um deles medindo um metro e noventa e trs de altura. E ele voltara para tomar parte na Operao
Anaconda, que tambm no tinha sido nada agradvel. Alguns homens bons foram perdidos na Anaconda. Linnett tinha contas a acertar com os pashtuns de Tora Bora.

O AFEGO

309

- Vamos partir! - gritou ele, e o esquadro embarcou de novo no caminho.
O caminho iria lev-los pelo restante da trilha at a passagem Hart. Depois disso, seu meio de transporte se resumiria a esquis e sapatos de neve.
Enquanto eles saam, o xerife informou por rdio que ambos os tripulantes tinham sido encontrados e resgatados, com frio, mas vivos. Os dois estavam num hospital
em Seattle. A notcia era boa, mas um pouco tardia para um homem chamado Lemuel Wilson.
Os investigadores anglo-americanos da Marinha Mercante que tinham assumido a Operao Crowbar ainda estavam se concentrando na Ameaa Um, a idia de que a al-Qaeda
estaria planejando fechar uma via mundial na forma de uma passagem estreita.
Nesse caso, o tamanho da embarcao era vital.
A natureza da carga no era importante, exceto pelo fato de que, expelindo leo, a embarcao praticamente impossibilitaria o trabalho dos mergulhadores. Eles estavam
se comunicando com todas as partes do mundo, tentando identificar qualquer navio de grande tonelagem que estivesse navegando.
Obviamente, os navios realmente imensos eram raros, e a maioria pertencia a companhias respeitveis e gigantescas. Os 500 principais cargueiros grandes e ultragrandes,
os ULCC e os VLCC, conhecidos como superpetroleiros, foram checados. Constatou-se que as companhias mantinham comunicao constante com todos eles. Em seguida, as
tonelagens foram reduzidas em mdulos de dez mil toneladas, completamente carregados. Depois que todas as embarcaes de 50 mil tonela

310

FREDERICK FORSYTH das para cima tinham sido checadas, o pnico do bloqueio a estreitos comeou a diminuir.
A lista de remessas navais do Lloyd?s provavelmente ainda  o arquivo mais completo do mundo, e a equipe em Edzell estabeleceu uma linha direta com a empresa, que
estava sendo acionada constantemente. A conselho do Lloyds, concentraram-se nas embarcaes com bandeiras de convenincia e naquelas registradas em portos de propriedade
de indivduos suspeitos. Tanto o Lloyds quanto o servio de inteligncia da Marinha juntaram esforos com a CIA e a Guarda Costeira americana numa operao que visava
impedir, sem o conhecimento de seus capites ou proprietrios, que 200 navios se aproximassem da costa. Mas at ento nada anormal fora constatado.
O capito Linnett conhecia suas montanhas e estava ciente de que nenhum homem sem calados especiais, tentando avanar atravs da neve por um terreno salpicado com
rvores, razes, fendas e valas conseguiria caminhar mais de 600 metros por hora.
Esse homem provavelmente tropearia na neve e cairia num riacho, e ento, com os ps molhados, comearia a perder temperatura corporal a um ritmo alarmante, o que
conduziria  hipotermia e ao congelamento dos dedos.
A mensagem de Olsen proveniente de Langley no deixara espao para dvidas: eles no poderiam permitir, sob nenhuma circunstncia, que o fugitivo colocasse os ps
no Canad. Ou, apenas para garantir, que ele colocasse as mos em um telefone.
Linnett tinha poucas dvidas. Sem uma bssola, seu alvo vagaria em crculos. Tropearia e cairia a cada dois passos.

O AFEGO

311

No conseguiria ver em meio  escurido projetada pelas rvores, que nem mesmo a lua, se no estivesse oculta pela nuvem densa a 20 mil ps, conseguiria penetrar.
Era verdade que o homem tinha uma vantagem de cinco horas, mesmo em linha reta, que em distncia lhe daria menos de quatro quilmetros e meio de terreno coberto.
O capito Linnett tinha razo sobre os esquis. Do ponto de parada do caminho no final da trilha, ele alcanou as runas da cabana da CIA em menos de uma hora. Linnett
e seus homens examinaram-na rapidamente para ver se o fugitivo retornara para procurar equipamentos melhores. No havia qualquer sinal. Os dois cadveres, rgidos
no frio, estavam deitados, mos cruzadas sobre os peitos, dentro do refeitrio, a salvo dos animais selvagens. Teriam de esperar que as nuvens se dispersassem, possibilitando
o pouso de um helicptero.
Doze homens compem o esquadro A ; Linnett era o nico oficial, e seu adjunto era um sub-tenente. Os outros dez eram todos homens alistados, sendo de segundo-sargento
a patente mais baixa entre eles.
Eles se dividiram em dois engenheiros (para demolio), dois operadores de rdio, dois mdicos, um terceiro-sargento (no uma, mas duas especialidades), um sargento
de inteligncia e dois atiradores. Enquanto Linnett estava dentro da cabana arruinada, seu terceiro-sargento, que era um rastreador experiente, analisou o terreno
externo.
A tempestade de neve que ameaava cair ainda no comeara. A rea em torno do heliporto e da porta da frente, por onde a equipe de resgate de Mazama chegara, estava
coberta por vrias pegadas. Mas saindo da parede ruda do complexo havia uma nica trilha de pegadas seguindo para o norte.

312

FREDERICKFORSYTH
Coincidncia?, pensou Linnett. Era a nica direo que o fugitivo no deveria ter tomado. Levava ao Canad, a 35 quilmetros dali. Mas para o Afego, 44 horas de
caminhada. Ele jamais conseguiria, ainda que andasse em linha reta. Em todo caso, a equipe Alpha o alcanaria no meio do caminho at l.
Foi necessrio mais uma hora para cobrir o quilmetro e meio seguinte, usando sapatos de neve. Foi ento que eles acharam outra cabana. Ningum havia mencionado
as outras duas ou trs cabanas que existiam na floresta de Pasayten construdas antes da proibio. A vidraa arrebentada e a pedra cada no cho no deixaram dvida.
O capito Linnett foi o primeiro a entrar, carabina destra-vada em punho. Posicionados em torno do vidro estilhaado, os homens deram cobertura. Levaram menos de
um minuto para ter certeza de que no havia ningum na cabana, no depsito de lenha ou na garagem. Mas os sinais estavam por toda parte. O capito tentou acender
a luz, mas a energia certamente vinha de um gerador que funcionava quando o proprietrio estava na residncia. E o gerador ficava fechado, isolado atrs da garagem.
A equipe recorreu s suas lanternas.
Ao lado da lareira na sala de estar havia uma caixa de fsforos e vrios atiadores para acender as toras de madeira. Havia tambm um punhado de velas, para a eventualidade
de falha do gerador. O intruso usara tanto os fsforos quanto as velas para caminhar dentro da casa. O capito Linnett virou-se para um de seus sargentos de comunicaes.
- Ligue para o xerife do condado e descubra quem  o dono da cabana - disse ele.
Ele comeou a vasculhar o local. Nada estava destrudo, mas o lugar fora revistado.

O AFEGO

313

-  um cirurgio de Seattle - reportou o sargento. - ku as frias de vero aqui, e quando chega o outono, fecha [tudo.
- Ele deve ter deixado o nome e o telefone de contato cum o xerife. Descubra.
 sargento descobriu, e foi instrudo a contatar Forte Lewis t mandar que telefonassem para a casa do cirurgio e o colo- na linha. O fato de o dono da cabana ser
cirurgio era Um K lpe de sorte; ele certamente tinha um bipe para casos de Mirrgcncia. E aquela situao definitivamente se encaixava sa categoria.

10 navio fantasma jamais passou perto de Surabaia. No havia nenhuma carga de sedas orientais carssimas para ser trazida a bordo, e os seis contineres falsos do
Countess of Richmond ]& ficavam posicionados no deque de vante, onde era seu lugar.
A embarcao pegou a rota ao sul de Java, passou pela ilha Christmas e seguiu para o oceano ndico. Para Mike Martin, ri rotinas de bordo tornaram-se um ritual.
O psicopata Ibrahim ficava quase todo o tempo em sua Cnbinc, e a boa notcia era que ele vinha passando muito mal. Dos sete homens restantes, o engenheiro cuidava
dos motores, funcionando a plena potncia apesar do gasto de combustvel. Pura onde quer que estivesse indo, o Countess no precisaria de goinbustvel para uma viagem
de volta.
Para Martin, os enigmas permaneciam sem resposta. Para onde o navio estava indo, e que poder explosivo jazia abaixo de icus conveses? Ningum parecia saber, com
a possvel exceo do engenheiro qumico. Mas ele jamais falava, e o assunto nunca M comentado.

314

FREDERICK FORSYTH
O especialista em rdio, que mantinha uma viglia de escuta, devia ter-se informado a respeito de uma busca martima em andamento no Pacfico e nas entradas para
o estreito de Ormuz e o canal de Suez. Ele deve ter reportado isso a Ibrahim, mas no mencionado nada aos outros.
Os outros cinco homens revezavam-se em turnos na cozinha do navio para devorar um prato depois do outro de comida enlatada, e tambm ao leme. O navegador estabelecia
a rota - sempre para o leste, depois para o sul, e finalmente a leste do cabo da Boa Esperana.
Quanto aos outros, eles rezavam cinco vezes por dia, de acordo com as escrituras, reliam o Coro e admiravam o mar.
Martin considerou tentar tomar o navio. Ele no dispunha de nenhuma arma alm da chance de roubar uma faca de cozinha, e teria de matar sete homens, sendo que Ibrahim
provavelmente tinha uma ou mais armas de fogo. E os terroristas estavam espalhados pelo navio, da cabine de rdio ao castelo de proa. E quando se aproximassem de
um alvo evidente na praia, Martin sabia que teria de ajud-los. Mas ele podia adiar esse momento enquanto viajava atravs do oceano ndico.
Martin no sabia se a mensagem na mochila de equipamento de mergulho fora encontrada ou jogada em algum poro sem ser lida; e tambm no sabia que havia acionado
uma caada global a um navio.
-  com o Dr. Berenson que estou falando?
Michael Linnett pegou o fone do aparelho nas costas do sargento e mentiu, - Sou do posto policial de Mazama - disse ele. - Neste momento estou na sua cabana na floresta.
Sinto informar que houve um arrombamento.

O AFEGO

315

- Mas que droga. E fizeram muitos estragos? - perguntou a voz que vinha de Seattle.
- A pessoa invadiu quebrando a janela da frente com uma pedra, doutor. Parece ter sido o nico dano estrutural. Eu quero verificar com o senhor se houve furtos.
O senhor mantinha alguma arma de fogo aqui?
- Nenhuma. Possuo dois fuzis de caa e um revlver, mas trago eles comigo quando volto para casa.
- Certo. Agora, roupas. O senhor tem um armrio com roupas pesadas de inverno?
- Claro. Fica  direita da porta do armrio.
O capito Linnett acenou com a cabea para seu terceiro-sargento, que liderou o caminho com uma lanterna. O closet era espaoso e estava cheio de roupas de inverno.
- Tambm guardo l um par de botas de neve, alm de calas e um casaco com capuz forrados com pele.
Tudo havia sumido.
- Esquis ou sapatos de pele, doutor?
- Ambos. Na mesma prateleira. Tambm tinham sumido.
- Algum outro tipo de arma? Bssola?
Deveria haver uma grande faca de caa, guardada em sua bainha, pendurada do lado de dentro da porta do armrio, c uma bssola e uma lanterna nas gavetas da escrivaninha.
Mm tinham sido levadas. O fugitivo tambm vasculhara a cozinhai mas o cirurgio no deixara comida fresca l, para no estraga Uma lata aberta de feijes cozidos,
aberta e esvaziada, e o brldor jaziam no balco com duas latas de refrigerante vazia . Havia um vidro de picles vazio que estvera cheio de moeik , mm ningum sabia
disso.

316

FREDERICK FORSYTH - Obrigado, doutor. Se eu fosse o senhor, assim que o tempo clareasse viria aqui com uma equipe para instalar uma janela nova e preencheria uma
queixa de roubo.
O lder do esquadro Alpha cortou a conexo e olhou em torno para sua unidade.
- Vamos - foi tudo que ele disse. Ele sabia que a cabana e o que o Afego levara reduziam suas chances de ser pego. Calculou que o fugitivo, que deveria ter passado
uma hora na cabana contra os 30 minutos de Linnett, deveria estar com uma dianteira de trs horas, mas agora se movendo muito depressa.
Engolindo seu orgulho, decidiu levar alguma cavalaria. Pediu uma pausa e falou novamente com o Forte Lewis.
- Diga a McChord que quero um Spectre, agora. Empregue toda a autoridade de que precisar; Pentgono, se for preciso. Quero o Spectre sobre os Cascades e falando
diretamente comigo.
Enquanto esperavam pelo seu novo aliado, os 12 homens do Alpha 143 apertaram o passo. O sargento rastreador estava na frente, a lanterna encontrando as pegadas dos
sapatos do fugitivo na neve congelada. Estavam avanando o mais rpido que podiam, mas carregando mais equipamento que o homem  sua frente. Linnett estimava que
eles estavam avanando depressa, mas estariam ganhando terreno? Ento a neve comeou a cair. Foi uma bno e uma maldio. Caindo das conferas ao redor dos soldados,
os flocos de neve cobriram rochas e tocos, permitindo mais uma pausa rpida para trocar de sapatos para esquis, que eram mais rpidos. Mas tambm apagaram a trilha.
Linnett precisava de uma mo que o guiasse do cu, e ela chegou logo depois da meia-noite na forma de um avio de

O AFEGO

317

ataque Lockheed-Martin AC-130 Hrcules, voando a 20 mil ps, acima da camada de nuvens, mas olhando diretamente atravs dela.
Entre os muitos brinquedos que as Foras Especiais ganham, o avio de ataque Spector , do ponto de vista do inimigo no solo, o mais odioso de todos.
O avio de transporte Hrcules original tivera seu interior esvaziado para acomodar uma profuso de dispositivos tecnolgicos projetados para localizar e matar um
oponente no solo. Eram ms notcias num valor de 70 milhes de dlares.
Em seu primeiro papel, de localizar, no faz diferena se a misso for  luz do dia ou  noite, ou sob chuva, vento, neve, ou granizo. O Sr. Raytheon tivera a gentileza
de prover um radar e um captador trmico de imagens, que poderiam reconhecer num terreno qualquer objeto que emita calor corporal. Alm disso, a imagem no  um
borro indistinto; e  ntida o bastante para diferenciar um animal de quatro patas de um de duas. Mas no podia compreender a excentricidade do Sr. Lemuel Wilson.
Ele tambm tinha uma cabana, bem nos limites da floresta Pasayten, nas colinas mais baixas de monte Robinson. Ao contrrio do cirurgio de Seattle, ele se orgulhava
de sua capacidade de passar o inverno l em cima, porque no dispunha de nenhuma casa alternativa urbana.
Assim, sobrevivia sem eletricidade, com uma lareira para se aquecer e lampies de querosene para iluminar o ambiente. Iodo vero ele caava pequenos animais e salgava
a carne para o inverno. Cortava a prpria lenha e catava forragem para seu resistente cavalo montanhs. Mas ele tinha outro hobby.

318

FREDERICKFORSYTH
Mantinha um equipamento de radioamador, alimentado por um pequeno gerador, para passar as horas de inverno ouvindo as ondas curtas da polcia e dos servios de emergncia.
Foi assim que ele ouviu o relato dos dois tripulantes cados na floresta e das equipes de busca que estavam tentando chegar ao local.
Lemuel Wilson considerava-se um cidado responsvel, embora as autoridades preferissem o termo enxerido . Assim que os dois aviadores transmitiram seus pedidos de
socorro, e as autoridades forneceram suas posies exatas, Lemuel Wilson selou o cavalo e partiu. Pretendia cruzar a metade sul da floresta para alcanar o parque
e resgatar o major Duval.
Como seu equipamento de radioamador era grande demais para ser transportado, no ouviu que os dois aviadores tinham sido resgatados. Mas fez contato humano.
Ele no viu o homem vir em sua direo. Num segundo estava tocando seu cavalo atravs de um monte de neve mais profundo que o normal, e no seguinte achou que estava
sendo vtima de uma avalanche. Mas era aspenas um homem vestido com roupas trmicas prateadas, como um astronauta.
Um brao em torno de seu pescoo puxou-o do cavalo; enquanto caa, sentiu a lmina penetrar sua caixa torcica e rasgar seu corao.
Um captador trmico de imagens funciona bem para detectar calor corporal, mas o cadver de Lemuel Wilson, largado numa fenda a nove metros do local de sua morte,
perdeu rapidamente o calor. Trinta minutos mais tarde, quando o AC-130 Spectre iniciou sua rota circular acima dos Cascades, Lemuel Wilson no foi rastreado por
seus sensores.
- Aqui  Spectre Echo Foxtrot, chamando Esquadro Alpha, copia, Alpha?

O AFEGO

319

- Situao cinco - respondeu o capito Linnett. - Somos 12 aqui embaixo; pode nos ver?
- D um sorriso bonito para eu tirar sua foto -- disse o Operador de infravermelho, seis quilmetros acima deles.
- Vamos deixar as piadinhas para depois - disse Linnett. - Temos um fugitivo cinco quilmetros ao sul. Sozinho, seguindo para o norte em esquis. Confirma?
Houve uma pausa.
- - Negativo. Nenhuma imagem - disse a voz no cu.
- Impossvel - argumentou Linnett. - Ele est em algum ponto  nossa frente.
Os ltimos bordos e tamargas tinham ficado bem para trs.
Eles emergiram da floresta para uma base rochosa, sempre subindo para o norte. Ali a neve caa sem o anteparo dos galhos, Muito atrs deles, engolidos pela escurido,
estavam a montanha Lake e o pico Monument. Os homens de Linnett pareciam figuras fantasmagricas, mortos-vivos brancos numa paisagem branca. Se Linnett estava tendo
dificuldades, o Afego certamente tambm estaria. S havia uma explicao para o fato de no ter sido captada qualquer imagem: o Afego buscara abrigo numa caverna
ou num buraco coberto de neve. Os esquis estavam deslizando com facilidade pela encosta da montanha e havia mais floresta adiante.
O Spectre fixou sua posio. A 32 quilmetros da fronteira canadense. A cinco horas da alvorada, ou o que se passava por alvorada naquela terra de neve, picos, rochas
e rvores.
Linnett deu mais uma hora ao Spectre, que circulou e observou, mas no detectou nada para reportar.
- Cheque de novo - requisitou o capito Linnett.
Ele estava comeando a pensar que havia alguma coisa errada, Teria o Afego morrido ali em cima? Possivelmente, e

320

FREDERICK FORSYTH aquilo explicaria a ausncia de deteco de calor. Estaria escondido numa caverna? Era possvel, mas ele s tinha como opes morrer l ou sair
e fugir. E ento...
Izmat Khan, obrigando o cavalo arisco e cansado a descer a base rochosa, conseguira aumentar a dianteira. A bssola indicava que estava indo para o norte.
- Estou fazendo uma varredura num arco de 90 graus a partir de vocs - disse o operador do captador de imagens. - Direto at a fronteira. Nesse arco posso ver oito
animais. Quatro gamos, dois ursos pretos, cujos sinais esto muito fracos porque esto hibernando em grutas, um possvel leo da montanha perambulando e um nico
alce trotando para o norte. Cerca de seis quilmetros  frente de vocs.
O problema era que as roupas trmicas do cirurgio funcionavam bem demais. O cavalo,  beira da exausto, estava suando; mas o homem que o montava, debruado para
a frente ao longo do pescoo do animal para faz-lo avanar, estava to bem isolado que se mesclava ao cavalo.
- Senhor - disse um dos sargentos-engenheiros. - Eu sou de Minessota.
- Guarde seus problemas para o capelo - esbravejou Linnett.
- O que quero dizer, senhor - insistiu o rosto coberto de neve ao seu lado -,  que um alce no subiria uma montanha num tempo como este. Ele desceria para o vale
para pastar. No pode ser um alce.
Linnet ordenou uma parada. Era bem-vinda. Olhou para a neve que caa  sua frente. No tinha a menor idia de como o homem conseguia avanar. Talvez outra cabana
isolada, cujo dono era um idiota amante de invernos que tinha um estbu
O AFEGO 321

Io. De algum modo, o Afego conseguira um cavalo e o estava usando para ganhar terreno.
Seis quilmetros  frente, de volta  mata cerrada, Izmat Khan, que emboscara Lemuel Wilson, ento teve sua vez de sofrer uma emboscada. O puma era velho, um pouco
lerdo para caar gamos, mas astuto e deveras faminto. Ele saltou de uma pedra entre duas rvores; se no estivesse exausto, o cavalo malhado teria sentido seu cheiro.
A primeira coisa que o Afego percebeu foi que alguma coisa veloz e marrom-amarelada atingira o cavalo e estava descendo pelo lado. O cavaleiro teve tempo de sacar
o fuzil da bainha ao lado do cabeote da sela e se jogar para trs. Desmontou, virou-se, apontou e disparou.
Teve sorte que o puma investira no contra ele, e sim contra seu cavalo. Contudo, o Afego perdeu a montaria. O animal ainda estava vivo, mas rasgado em torno da
cabea e do dorso por garras com 65 quilos de msculos furiosos. Ele no ia se levantar. Uma segunda bala ps fim ao seu sofrimento. O cavalo desmoronou, caindo
meio de lado sobre o corpo do puma. No fazia diferena para o Afego, mas o dorso e as pernas dianteiras da fera estavam debaixo do cavalo.
Ele desenganchou os sapatos de neve de trs da sela, encaixou-os nas botas, ps a correia do fuzil no ombro, verificou a bssola e caminhou em frente. Cem metros
 frente havia uma protuberncia rochosa. Parou para desfrutar brevemente de um abrigo contra a neve. O Afego no sabia, mas a rocha masca-rou sua emisso de calor.
- Elimine o alce - ordenou o capito Linnett. - Acho que  um cavalo com o fugitivo em cima dele.
O operador tornou a estudar a imagem.

322

FREDERICK FORSYTH - Tem razo - disse ele. - Posso ver seis pernas. Ele parou para descansar. Agora vai descansar para sempre.
A seo de destruio do Spectre  provida de trs sistemas. O mais pesado de todos  o Howitzer Ml02 105mm, que  to poderoso que us-lo contra um nico ser humano
seria um pouco excessivo.
Em seguida vem o canho Bofors 40mm, derivado da artilharia antiarea sueca, um repetidor rpido com fora suficiente para reduzir prdios ou tanques a fragmentos.
A tripulao do Spectre, informada de que seu alvo era um homem a cavalo, escolheu a metralhadora automtica Gatling Gau-12 U. Aquele horror dispara 1.800 balas
por minuto, cada qual constituindo-se de um projtil de 25mm, e apenas uma  suficiente para dilacerar o corpo de um ser humano. O disparo da metralhadora automtica
de cinco canos  to intenso que se fosse usada num campo de futebol americano por 30 segundos, no sobraria nada maior que um camundongo. E o camundongo morreria
de choque.
A altitude mxima para a metralhadora  de 12 mil ps. Assim, o vo circular do Spectre caiu para 10 mil ps, focou no alvo e disparou por dez segundos, despejando
300 projteis no corpo do cavalo na floresta.
- No restou nada - comentou o operador de captao de imagens. - Homem e animal, ambos mortos.
- Obrigado, Echo Foxtrot - disse Linnett. - Vamos assumir agora.
O Spectre, misso cumprida, retornou para a base da fora area de McChord.
A tempestade parou. A camada de neve recente possibilitou aos esquis a velocidade atingida por atletas habilidosos, e o esquadro Alpha logo alcanou os restos do
cavalo. Poucos fragI

O AFEGO

323

mentos eram maiores que o brao de um homem, mas eles definitivamente pertenciam a um cavalo, e no a um humano. Com exceo dos pedaos com plo castanho.
Linnett passou dez minutos procurando fragmentos de casacos, botas, fmures, crnio, faca de caa, barba ou sapatos de neve.
Os esquis haviam sido abandonados com um dos ps quebrado. Aquilo fora causado pela queda do cavalo. Havia uma manga de pele de ovelha, mas nenhum sinal de fuzil.
Nenhum sapato de neve. Nenhum Afego.
Duas horas para a alvorada, e a perseguio tornara-se uma corrida. Um homem usando sapatos de neve, contra 12 em esquis. Todos exaustos, desesperados. O esquadro
Alpha contava com o sistema de posicionamento GPS. Quando o cu comeou a clarear um pouco a leste, o terceiro-sargento murmurou:
- Fronteira a 800 metros.
Vinte minutos depois chegaram a um penhasco que dava para um vale que ocupava o horizonte da esquerda  direita. Abaixo havia a estrada madeireira que delimitava
a fronteira canadense. Bem  frente havia outro penhasco, com uma rea devastada prxima a um aglomerado de cabanas de troncos; era uma instalao que seria usada
por lenhadores canadenses quando as concesses madeireiras retornassem depois da estao nevada.
Linnet acocorou-se, estendeu os braos e estudou a paisagem atravs de binculos. Nada se movia. A iluminao aumentou.
Sem esperar por ordens, os francos-atiradores de Linnett retiraram as armas das bainhas onde ficaram guardadas durante toda a misso. Fixaram as miras telescpicas,
inseriram uma

324

FREDERICK FORSYTH bala em cada carro e se deitaram de bruos para olhar o vale por meio de suas miras.
No Exrcito, os francos-atiradores so uma classe  parte. Jamais se aproximam do homem a quem devem matar, mas os vem com clareza e proximidade aparentemente maior
do que qualquer outro soldado. Com o combate corpo a corpo praticamente extinto, a maioria dos homens morre no pelas mos dos inimigos, e sim pelo computador deles.
Eles so explodidos por um mssil disparado a um continente de distncia ou de algum ponto sob o mar. Eles so exterminados por uma bomba inteligente despejada por
uma aeronave em uma altitude que no pode ser vista ou ouvida. Eles morrem porque algum dispara uma bala a dois bairros de distncia. Na situao de maior proximidade,
assassinos, descarregando de uma metralhadora num helicptero em vo rasante, vem-nos apenas como formas indistintas, correndo, tentando disparar em resposta. Mas
no como pessoas de verdade.
Mas o franco-atirador v suas vtimas como seres humanos. Deitado em silncio absoluto, completamente imvel, observa seu alvo como um homem com barba de trs dias,
que se espreguia e boceja, que derrama feijes de uma lata, que abre a braguilha e olha na direo de uma lente que ele no pode ver, porque est a um quilmetro
e meio. E ento morre. Francos-atiradores so especiais... dentro da cabea.
Tambm vivem num mundo particular. Tornam-se to obcecados por preciso que mergulham num silncio povoado apenas por projteis, potncias variadas de cargas de
plvora, o desvio que a fora do vento causar na bala, o quanto ela cair ao longo de distncias diversas e se mais algum pequeno ajuste pode ser feito no fuzil.

O AFEGO 325

Como todos os especialistas, eles tm suas paixes particulares por peas de equipamento. Certos francos-atiradores gostam de balas realmente minsculas, como a
M700 de um fuzil Remington 308. A M700  um projtil to pequeno que, para ser introduzida no cano, precisa ser acondicionada numa bainha destacvel.
Outros preferem o M21, a verso para francos-atiradores do fuzil de combate padro Ml4. O mais pesado de todos  o Barrett Light Fifty, um monstro que cospe um projtil
do tamanho de um dedo atravs de um quilmetro e meio com fora suficiente para fazer um corpo humano explodir.
Deitado ao lado dos ps do capito Linnett estava seu principal franco-atirador, o primeiro-sargento Peter Bearpaw. Ele cia um mestio de ndio sioux com me espanhola.
Viera das favelas de Detroit e o Exrcito era a sua vida. Tinha molares ressaltados e olhos estreitos como os de um lobo. E era o melhor atirador que os Boinas Verdes
tinham.
Ele estava olhando pela mira de um Cheyenne calibre 408 ila Cheytac, de Idaho. Apesar de ser uma arma de desenvolvimento muito recente, tornara-se sua preferida
devido ao alto desempenho. Era um fuzil manual, o que ele apreciava porque o travamento total de um ferrolho fechado concedia-Ilie uma pequenssima estabilidade
a mais no momento da detonao.
Ele inserira um nico projtil, muito longo e fino, depois de polir sua ponta para erradicar a menor vibrao em vo. Ao longo do topo da culatra corria uma mira
telescpica Jim Leatherwood X24.
- Eu tenho ele, capito - sussurrou.
Os binculos no haviam encontrado o fugitivo, mas a mira telescpica sim. Do outro lado do vale, entre as cabanas, com

326

FREDERICKFORSYTH trs paredes de madeira e uma nica porta de vidro, havia uma cabine telefnica.
- Alto, cabelos compridos desgrenhados, barba preta cerrada?
- Positivo.
- O que ele est fazendo?
- Est numa cabine telefnica, senhor.
Izmat Khan tivera pouco contato com seus colegas prisioneiros em Guantnamo, mas um com quem passara muitos meses no mesmo bloco de solitrias fora um jordaniano
que lutara na Bsnia em meados dos anos 1990, antes de retornar para se tornar treinador nos campos da al-Qaeda. Era linha-dura.
Quando a segurana afrouxara durante o perodo de Natal, eles descobriram que podiam sussurrar de uma cela para outra. Se um dia voc sair daqui, dissera-lhe o jordaniano,
tenho um amigo. Estivemos nos campos de treinamento juntos. Ele  seguro. Ele ajudar um Crente Verdadeiro. Mencione meu nome.
Havia um nome. E um nmero de telefone, embora Izmat Khan no soubesse onde seu proprietrio morava. No tinha muita idia sobre as complexidades de um telefonema
a longa distncia, para o qual ele dispunha de moedas suficientes. Ele s no conhecia o cdigo de discagem para fora do Canad. Assim, introduziu uma moeda e pediu
para falar com a telefonista.
- Para que nmero est tentando ligar, senhor? - disse a telefonista canadense invisvel.
Ele disse.
-  um nmero no Reino Unido - disse a telefonista. - O senhor est usando moedas americanas?
 .- Sim. .- : . ; : ,: : :  y ; :

I
I
O AFEGO 327

- Elas so aceitas. Introduza oito moedas e eu completarei a sua ligao. Quando ouvir os bipes, introduza mais moedas caso queira prosseguir a chamada.
- Adquiriu o alvo? - perguntou Linnett.
- Sim, senhor.
- Dispare.
- Ele est no Canad, senhor.  - Dispare, sargento.
Peter Bearpaw respirou lenta e profundamente, segurou o ar nos pulmes e puxou o gatilho. O alcance era de 1.920 metros em ar parado, sem vento. Quase dois quilmetros.
Izmat Khan estava enfiando moedas na ranhura. Ele no estava olhando para cima. O vidro da cabine desintegrou-se em cacos nfimos e o projtil arrancou o occipcio
do restante de sua cabea.
A telefonista foi o mais paciente que conseguiu. O homem na comunidade de lenhadores inserira apenas duas moedas e ento deixara o fone dependurado e aparentemente
retirara-se da cabine. Por fim, ela no teve escolha seno desligar a ligao e cancelar a chamada.
Devido s possveis conseqncias do disparo atravs da fronteira, nenhum relatrio oficial foi feito.
O capito Linnett reportou ao seu oficial-comandante, que falou com Marek Gumienny em Washington. Nada mais foi ouvido.
O corpo foi encontrado no degelo, quando os lenhadores retornaram. O fone dependurado estava desconectado. O legista no pde fazer muita coisa alm de registrar
um veredicto aberto. O falecido usava roupas americanas, o que na fronteira no era estranho. No carregava qualquer documento de identidade; ningum na regio o
reconheceu.

328

FREDERICK FORSYTH
Oficiosamente, a maioria das pessoas do Instituto Mdico Legal presumiu que o homem fora vtima da bala perdida de um caador de gamos; mais uma morte trgica devido
a um disparo descuidado ou ricochete. Foi sepultado como indigente.
Como ningum ao sul da fronteira queria chamar a ateno para o caso, jamais se pensou em perguntar para que nmero o fugitivo pedira para ligar. Simplesmente fazer
a pergunta iria denunciar a fonte do disparo. Assim, no se fez isso.
Na verdade, o nmero que ele queria era o de um pequeno apartamento nas cercanias do campus da Aston University, em Birmingham. Era a casa do Dr. Ali Aziz al-Khattab,
e o telefonema estava sob escuta do MI5 britnico. Tudo que eles estavam esperando era por prova suficiente para justificar uma invaso e priso. Teriam aquela prova
dali a um ms. Mas naquela manh o Afego tentara telefonar para o nico homem a oeste de Suez que conhecia o nome do navio fantasma.

CAPTULO 16

DEPOIS DE DUAS SEMANAS, O ENTUSIASMO PELA CAADA A UM navio fantasma que aparentemente no existia estava comeando a diminuir, e Washington expressou desnimo.
Mais quanto tempo, problemas e tesouro poderiam ser despendidos por causa de um bilhete vago rabiscado num carto e enfiado numa mochila de equipamento de mergulho
numa ilha da qual ningum ouvira falar? Marek Gumienny voara at Londres para conferenciar com Steve quando o especialista do SIS em terrorismo mercante, Sam Seymour,
ligou do escritrio do Registro de Remessa Martima do Lloyds, em Ipswich, e piorou ainda mais a situao. Ele mudara de idia. Hill ordenou-lhe ir at Londres para
se explicar.
-A opo da al-Qaeda usar uma embarcao imensa para bloquear a passagem de uma rea vital para arruinar o comrcio local sempre foi a mais provvel - disse Seymour,
- Mas nunca foi a nica.
- Por que voc acha que foi a opo errada a tomar? - perguntou Marek Gumienny.

330

FREDERICKFORSYTH - Porque, senhor, cada embarcao no mundo grande o bastante para conseguir isso foi verificada. Todas esto seguras. Isso nos deixa as opes dois
e trs, que so praticamente intercambiveis, mas com alvos diferentes. Acho que agora devemos pensar na opo trs: assassinato em massa numa cidade costeira. A
declarao pblica de Bin Laden, de que desviaria seu alvo para a economia, pode ter sido uma fraude. Ou ele pode ter mudado de idia.
- Certo, Sam, convena-me. Steve e eu temos chefes, polticos exigindo resultados ou nossas cabeas. Que tipo de navio no  uma embarcao de bloqueio?
- Na nmero trs a carga  ainda mais importante que a embarcao. No precisa ser to grande quanto  absolutamente mortal. O Lloyd s tem uma diviso de cargas
perigosas... obviamente, isso muda o prmio.
- Navio de munio? - perguntou Hill. - Outra devastao, como a de Halifax?
- Segundo os especialistas, navios militares simplesmente no explodem mais desse jeito. O material moderno precisa de um estmulo imenso para sair do casco. A exploso
de uma fbrica de fogos de artifcio seria maior, mas no mereceria a palavra espetacular , como no 11 de Setembro. O vazamento qumico da cidade de Bhopal foi muito
pior, e aquilo foi dio-xina, um destruidor mortal de vida vegetal.
- Explodir com Semtex um caminho-tanque carregado com dioxina em plena Park Avenue tambm seria terrvel - props Hill.
- Mas esses produtos qumicos so fortemente guardados dentro de sua base de fabricao e armazenagem - objetou Gumienny. - Como eles pegariam a carga sem que ningum
notasse?

O AFEGO 331

- Alm disso, nos foi dito especificamente que um navio seria o portador - disse Seymour. - Qualquer seqestro de uma carga como essa geraria retaliao imediata.
- Exceto em algumas partes do Terceiro Mundo, que so virtualmente sem lei - disse Gumienny.
- Mas essas regies no produzem mais toxinas superletais, senhor.
- Ento, voltamos para um navio? - disse Hill. - A exploso de um superpetroleiro?
- Petrleo cru no explode - comentou Seymour. - Quando o Torrey Canyon teve seu casco rasgado na costa francesa, foi preciso usar bombas de fsforo para fazer com
que o leo pegasse fogo. O vazamento de um petroleiro causaria danos  ecologia, mas no assassinato em massa. Mas um pequeno navio-tanque de gs poderia fazer isso.
Gs lquido, concentrado para transporte.
- Gs natural, forma lquida? - perguntou Gumienny. Ele estava pensando na quantidade de portos americanos que importavam gs para energia industrial, e o nmero
era ator-doante. - Mas, com toda certeza, as docas usadas para esse fim ficam a quilmetros de qualquer concentrao populacional.
-  muito difcil gs natural lquido explodir - discordou Seymour. -  armazenado a 160 graus Celsius negativos em embarcaes de casco duplo. Mesmo abrindo uma
dessas embarcaes, o material teria de vazar para a atmosfera durante horas antes de se tornar combustvel. Mas, segundo os especialistas, existe um tipo de gs
que  realmente assustador: gs liqefeito de petrleo, ou GLP.
Ele  to perigoso que um navio-tanque muito pequeno, se incendiado dez minutos depois de uma ruptura catastrfica,

332

FREDERICKFORSYTH iria liberar o poder de 30 bombas de Hiroshima, a maior exploso no-nuclear que j houve neste planeta.
Fez-se silncio absoluto na sala sobre o Tmisa. Steve Hill se levantou, caminhou at a janela e olhou para o rio que relu-zia ao sol de abril.
- Em termos leigos, o que voc veio dizer aqui, Sam?
-Acho que talvez tenhamos procurado o navio errado no oceano errado. Nossa nica colher de ch  que esse  um mercado pequeno e muito especializado. Mas os Estados
Unidos so o maior importador de GLP. Eu sei que a opinio corrente em Washington  de que estamos correndo atrs do nosso prprio rabo. Os EUA podem checar cada
petroleiro de GLP esperado em suas guas, e no apenas do Extremo Oriente. E det-los at serem abordados. O Lloyds pode me informar sobre cada carga de GLP no mundo,
a partir de qualquer ponto do globo.
Marek Gumienny pegou o vo seguinte para Washington. Tinha conferncias s quais comparecer e trabalho para fazer. Enquanto decolava de Heathrow, o Countess ofRichmondcon-tornava
o cabo Agulhas, frica do Sul, e entrava no Atlntico.
O navio fizera uma boa velocidade, e seu navegador, um dos trs indonsios, estimava que a corrente Agulhas e a corrente Benguela, que flua para o norte, concederiam
ao Countess um dia extra e tempo suficiente para alcanar seu destino.
Mais ao longe, nos mares que cercavam o cabo Agulhas, e para o interior do Atlntico, outros navios saam do oceano ndico seguindo para a Europa ou para a Amrica
do Norte. Alguns eram imensos cargueiros de minrio; outros eram navios de cargas transportando produtos asiticos em quantidade cada vez maior,  medida que as
indstrias terceirizavam a fa
O AFEGO 333

bricao para as oficinas de baixo custo do Oriente. Havia ainda os superpetroleiros, grandes demais at para o canal de Suez, seus computadores seguindo a linha
de cem braas de leste para oeste enquanto seus tripulantes jogavam cartas.
Todos eles eram observados. L em cima, onde a viso no alcanava, os satlites vagavam pelo espao, as cmeras retrans-mitindo para Washington cada palmo de suas
estruturas e os nomes em suas popas. Alm disso, de acordo com a legislao recente, todos portavam transmissores que emitiam seu chamado individual para quem estivesse
na escuta. Cada identificao era verificada, e isso inclua o Countess ofRichmond, garantido pelo Lloyds e pelo Siebart & Abercrombie como um pequeno cargueiro
registrado em Liverpool que estava transportando uma carga legtima numa rota prevista de Surabaia para Baltimore. Para os EUA, no havia motivo para investigar
mais a fundo; o navio estava a milhares de quilmetros da costa americana.
Poucas horas depois do retorno de Marek Gumienny a Washington, foram feitas alteraes nas precaues americanas. No Pacfico, o cordo de checagem e exame foi movido
at uma faixa de 1.600 quilmetros da costa. Um isolamento similar foi estabelecido no Atlntico, de Labrador at Porto Rico, e atravs do mar do Caribe at a pennsula
de Yucat, no Mxico.
Sem alarde ou anncio, a nfase deixou de ser nos petroleiros e cargueiros gigantes (que a essa altura j haviam sido checados) e passou a ser a mirade de petroleiros
menores que singram as guas da Venezuela ao rio Saint Lawrence. Cada EP-3 Orion disponvel foi colocado em patrulha costeira, sobrevoando centenas de quilmetros
quadrados de mar tropical e subtropical em busca de pequenos navios-tanque, especialmente aqueles que estivessem transportando gs.

II

334

FREDERICK FORSYTH
A indstria americana cooperou integralmente, suprindo detalhes sobre cada carga esperada, e onde e quando elas eram aguardadas. Todos os dados eram cruzados com
a referncia visual dos navios no mar. Os navios-tanque de gs tinham permisso para aportar, mas apenas depois de receber a bordo um grupo de marinheiros, fuzileiros
navais ou patrulheiros da Guarda Costeira, que os escoltavam por 320 quilmetros at o porto.
O Dona Maria estava de volta a Port of Spain, onde os dois terroristas que ele abrigava viram o sinal que haviam sido instrudos a esperar. E ento agiram conforme
suas ordens. A Repblica deTrinidad eTobago  um dos principais fornecedores de produtos petroqumicos para os Estados Unidos da Amrica. O Dona Maria estava aportado
no terminal de petrleo, uma ilha artificial afastada da costa, construda para permitir que petroleiros grandes e pequenos colhessem suas cargas sem se aproximar
da cidade. O Dona Maria era um dos petroleiros menores, parte daquela frota de navios que atendem s ilhas cujas instalaes no precisavam ou no podiam acomodar
os gigantes. As embarcaes grandes traziam o leo cru venezuelano, que  refinado em suas diversas fraes na refinaria na costa, e depois conduzido por oleoduto
at a ilha artificial, de onde era carregado para os navios.
Juntamente com dois outros petroleiros pequenos, o Dona Maria estava numa seo especialmente remota do terminal de petrleo. Afinal de contas, sua carga era toda
de GLP, e ningum queria estar por perto durante o carregamento. A tarde estava no fim quando o Dona Maria terminou de ser carregado e o comandante Montalban preparou-se
para zarpar.

I
O AFEGO 335

Ainda restavam duas horas de luz tropical no instante em que o Dona Maria desprendeu seus cabos de ancoragem e se afastou do quebra-mar. A um quilmetro e meio da
costa, ele passou perto de uma lancha inflvel rgida, na qual havia quatro homens sentados com varas de pescar. Era o sinal aguardado.
Os dois indianos saram de seus postos, desceram correndo at seus armrios e retornaram com pistolas. Um deles seguiu at o poo do petroleiro, onde os embornais
ficavam mais prximos da gua. Seria por ali que os piratas abordariam o navio.
O outro indiano foi at o passadio e apontou sua arma direto para a tmpora do capito Montalban.
- Por favor, comandante, no faa nada - disse o indiano com grande cortesia. - No h motivo para reduzir a velocidade. Meus amigos abordaro em poucos minutos.
No tente enviar nenhuma mensagem, seno terei de atirar em voc.
O comandante simplesmente estava estupefato demais para desobedecer. Ele chegou a olhar para o rdio que ficava num canto do passadio, mas o indiano flagrou seu
olhar e fez que no com a cabea. Foi o suficiente para sufocar qualquer resistncia. Dentro de minutos, os quatro terroristas estariam a bordo e qualquer oposio
seria intil.
O ltimo homem a sair do barco inflvel cortou-o com uma faca, para que afundasse. Os outros trs j estavam seguindo  popa, tentando no tropear no emaranhado
de canos, tubos e escotilhas que definem o convs de vante de um petroleiro.
Apareceram no passadio segundos depois dois argelinos e dois marroquinos, aqueles que o Dr. Al-Khattab enviara havia mais de um ms. Eles falavam apenas rabe mouro,
e os dois indianos, ainda corteses, traduziram. Os quatro tripulantes sul-americanos deviam ser convocados ao convs de vante, onde

336

FREDERICK FORSYTH teriam de esperar. Uma nova rota martima seria calculada e seguida.
Uma hora depois do anoitecer, os quatro tripulantes foram assassinados a sangue-frio. Em seguida, os piratas amarraram correntes aos tornozelos dos corpos e os fizeram
ao mar. Se o capito Montalban nutrira ainda algum esprito de resistncia, aquele foi seu fim. As execues foram mecnicas. Em sua terra natal, os dois argelinos
haviam pertencido ao Grupo Islmico Armado e chacinado centenas de fellagha, fazendeiros do interior que tinham sido assassinados apenas como uma mensagem ao governo
em Argel. Homens, mulheres, crianas, enfermos e velhos: eles mataram todos, muitas vezes. Portanto, os quatro tripulantes foram apenas uma formalidade.
Durante toda a noite o Dona Maria seguiu para o norte, mas no mais para Porto Rico, seu destino marcado. A bombordo ele tinha o litoral caribenho, contnuo at
o Mxico. A estibor-do, bem perto, estavam os dois arquiplagos chamados de ilhas Windward e Leeward, cujos mares mornos costumam ser considerados apenas pontos
tursticos, mas fervilham com centenas de pequenos cargueiros e petroleiros que mantm as ilhas abastecidas e vivas para os turistas.
Em meio a esse enxame de cargueiros e ilhas, o Dona Maria iria desaparecer e permanecer desaparecido at que seu atraso fosse registrado em Porto Rico.
Quando o Countess ofRichmondcanoxx a regio de calmarias prxima ao equador, Yusuf Ibrahim emergiu de sua cabine. Estava plido e enfraquecido pelo enjo, mas
os olhos negros cheios de dio eram os mesmos quando ele deu as ordens. A tripulao foi at o depsito que ficava na casa das mquinas e
I

O AFEGO 337

pegou uma lancha. Quando estava completamente pronta, ela foi suspensa pelos dois guindastes acima da popa.
Foram necessrios seis homens, suando e arfando, para erguer o motor externo de 100HP do convs de carga e encaix-lo na traseira da lancha que, em seguida, foi
abaixada para as guas.
Tanques de combustvel foram abaixados e presos com ganchos. Depois de vrios alarmes falsos, o motor deu sinal de vida. O navegador indonsio estava ao leme e conduziu
a lancha num crculo rpido em torno do Countess.
Finalmente os outros seis homens desceram at a lancha, deixando apenas o assassino aleijado ao leme. Era evidente que se tratava de um ensaio geral.
O objetivo do exerccio era conduzir o operador de cmera, Suleiman, at 300 metros do cargueiro, para que ele o fotografasse com seu equipamento inteiramente digital.
Quando ligado atravs de seu laptop com o celular com conexo de satlite Mini-M, suas imagens seriam enviadas para um site no outro lado do mundo, para ento serem
gravadas e retransmitidas.
Mike Martin sabia ao que estava assistindo. Para o terrorismo, a internet e o espao virtual haviam se tornado armas de propaganda extremamente teis. Na viso deles,
 bom quando uma atrocidade  comentada num telejornal, mas  maravilhoso quando ela  vista por milhes de jovens muulmanos em 70 pases.  assim que nascem os
novos recrutas: jovens vendo acontecer e desejando imitar.
No castelo Forbes, Martin assistira a gravaes transmitidas do Iraque, com os homens-bomba sorrindo para a cmera antes de sarem de carro para cometer suicdio
em nome de uma causa. Nessas ocasies, o operador de cmera sobrevivera;

338

FREDERICK FORSYTH mas no caso da lancha em sua trajetria circular em torno do navio, era claro que o alvo tambm deveria estar no campo de viso, e a gravao deveria
prosseguir at a lancha ser destruda juntamente com os sete tripulantes. Ao que tudo indicava, apenas Ibrahim permaneceria ao leme.
Contudo, Martin no sabia quando e onde seria o atentado, ou que horror jazia no interior dos contineres. Ele considerou a idia de ser o primeiro a voltar para
o Countess, deixar o barco inflvel  deriva, matar Ibrahim e tomar o cargueiro. No havia a menor chance de conseguir isso. A lancha era muito mais rpida, e numa
questo de segundos os seis homens estariam abordando o navio.
Quando o exerccio terminou, a veloz embarcao foi trazida de volta para bordo e deixada dependurada nos guindastes. O engenheiro aumentou a fora dos motores e
o Countess seguiu para o norte para contornar a costa do Senegal.
Recuperado do enjo, Yusuf Ibrahim passava mais tempo no passadio, onde os tripulantes reuniam-se para comer. A presena de Ibrahim contribua para intensificar
ainda mais a tenso que vinha pairando no ar.
Cada homem a bordo tomara a deciso de morrer como shahid, mrtir. Mas isso no impedia que a espera e o tdio corroessem seus nervos. Apenas oraes constantes
e leituras obsessivas do Coro Sagrado permitiam-lhes manter a calma e a crena no que estavam fazendo.
Ningum, alm do engenheiro de explosivos e Ibrahim, sabia o que havia debaixo dos contineres de metal que cobriam o convs de vante do Countess ofRichmond, desde
a frente do passadio at quase o pico de vante. E apenas Ibrahim parecia saber o destino do navio e o alvo planejado. Restava aos outros sete acreditar que sua
glria seria eterna.

O AFEGO 339

Depois de algumas horas de convvio constante com o comandante da misso, Martin percebeu que vinha sendo o alvo constante do olhar vazio e insano de Ibrahim. E
Martin no seria humano se no ficasse inquieto com aquilo.
Questes inquietantes comearam a assombr-lo. Teria Ibrahim visto Izmat Khan no Afeganisto? Estaria Ibrahim prestes a lhe fazer algumas perguntas que ele simplesmente
no conseguiria responder? Teria Martin errado algumas palavras durante a recitao incessante das preces? Iria Ibrahim test-lo pedindo para recitar passagens que
ele no estudara?
Na verdade, estava certo em uma parte, errado em outra. O psicopata jordaniano do outro lado da mesa do refeitrio jamais vira Izmat Khan, embora tivesse ouvido
falar sobre o lendrio guerreiro talib. E no houvera um nico erro nas preces de Martin. Ibrahim simplesmente odiava o pashtun por sua reputao em combate, algo
que jamais adquirira. Desse dio nascera um desejo de que o Afego fosse, afinal de contas, um traidor. Porque assim ele poderia ser desmascarado e morto.
Mas manteve seu dio sob controle por um dos motivos mais antigos do mundo. Ele temia o homem das montanhas. Embora portasse uma pistola numa bainha debaixo do manto,
e houvesse jurado morrer, Ibrahim no conseguia deixar de se sentir intimidado pelo homem de Tora Bora. Assim, ele se man teve a fit-lo, aguardando, analisando.
Pela segunda vez, a busca do Ocidente pelo navio fantasma, se  que ele realmente existia, redundara em frustrao absoluta. Steve Hill estava sendo bombardeado
com pedidos de informao, qualquer coisa que pudesse aplacar a frustrao em Downing Street.

340

FREDERICK FORSYTH

O controlador do Oriente Mdio no podia oferecer qualquer resposta s quatro questes que lhe eram despejadas pelo primeiro-ministro britnico e pelo presidente
americano. O navio existe? Se existe, como , onde est, e qual cidade ser o alvo? As conferncias dirias estavam se tornando um inferno na Terra.
O chefe do SIS, que jamais fora chamado de nenhuma outra forma alm de C , mantinha silncio penoso. Depois de Peshawar, todas as autoridades superiores concordaram
que havia um espetculo terrorista em preparao. Mas no mundo de fumaa e espelhos no existe clemncia para aqueles que falham com seus chefes polticos.
Desde que a alfndega descobrira a mensagem rabiscada no carto, Crowbar no dava sinais de vida. Estaria morto ou vivo? Ningum sabia, e alguns estavam deixando
de se importar. J haviam se passado quatro semanas desde o ltimo contato, e a cada novo dia aumentava a tendncia de se referir a Crowbar no tempo passado.
Alguns murmuravam que ele cumprira sua misso, fora capturado e morto, mas conseguira fazer os terroristas cancelarem a operao. Apenas Hill aconselhava cautela
e o prosseguimento da procura pela fonte de uma ameaa ainda desconhecida. Um pouco melanclico, Hill guiou o carro at Ipswich para conversar com Sam Seymour e
os dois especialistas do Registro do Lloyd s que o estavam ajudando a pensar em cada possibilidade, por mais estranha que fosse.
- Voc usou uma frase bem assustadora l em Londres, Sam. Trinta vezes a bomba de Hiroshima. Como diabos um petroleiro pequeno pode ser pior do que todo o projeto
Manhattan?

O AFEGO 341

Sam Seymour estava exausto. Aos 32 anos, podia ver uma carreira promissora na inteligncia britnica culminando com uma posio nos arquivos do Registro Central,
embora estivesse incumbido de um trabalho que a cada dia parecia mais impossvel de realizar.
- Steve, com uma bomba atmica, o dano chega em quatro ondas. O claro  to intenso que pode cauterizar a crnea de qualquer espectador que no esteja usando culos
escuros. Depois vem o calor, to forte que faz tudo em seu rastro se auto-incinerar. A onda de choque derruba prdios a quilmetros, e a radiao gama  de longo
prazo, causando carcinoma e deformaes. Com a exploso do GLP, voc pode esquecer trs dessas ondas - a exploso  s calor.
Mas  um calor to poderoso que far ao escorrer como mel e concreto esfarelar. J ouviu falar da bomba de combusto area?  to poderosa que faz uma bomba de
napalm parecer fraca, embora ambas tenham a mesma fonte: petrleo.
O gs liqefeito de petrleo  mais pesado que o ar. Durante o transporte ele no  mantido a uma temperatura extremamente baixa;  mantido sob presso,  por causa
disso que os navios-tanque de GLP possuem cascos duplos. Se o casco se romper, o gs ir jorrar e se misturar com o ar. Como ele  mais pesado que o ar, ficar rodopiando
em torno do local de onde veio, formando uma imensa bomba de combusto area. Acenda isso, e a carga inteira explodir em chamas, chamas terrveis, subindo rapidamente
at cinco mil graus centgrados. E ento comear a se espalhar. Ela eria seu prprio vento. Ela rolar para longe da fonte, numa onda de fogo, consumindo tudo que
estiver em seu caminho at consumir a si mesma. E ento, como se fosse a chama de uma vela, diminuir at morrer.
- At onde a bola de fogo alcanar? - perguntou Hill.

" 342 FREDERICK FORSYTH

31

- Bem, segundo meus novos amigos cientistas, um pequeno petroleiro de, digamos, 8 mil toneladas, completamente aberto e incendiado, consumiria tudo e extinguiria
toda a
J vida humana num raio de cinco quilmetros. Uma ltima coisa. Eu disse que a exploso cria seu prprio vento. Suga o ar da periferia para o centro, alimenta a si
mesma, de modo que at humanos que se encontrem dentro de um abrigo a cinco qui-, lmetros do epicentro iro morrer de asfixia.
Steve Hill visualizou uma cidade construda em torno de uma regio porturia sendo vitimada por uma exploso daquela magnitude. Nem os subrbios sobreviveriam.
- Esses petroleiros esto sendo verificados?
, - Cada um deles. Grandes, pequenos e minsculos. A equipe de Carga Perigosa daqui  composta de apenas dois sujeitos, mas eles so bons. Inclusive, esto agora
trabalhando no ltimo punhado de navios-tanque de GLP.
Quanto aos cargueiros gerais, eles so to numerosos que tivemos de nos restringir queles com mais de dez mil toneladas. Exceto quando entram na zona proibida americana
ao longo do litoral. Ento os ianques os avistam e investigam.
Quanto ao resto, cada grande porto no mundo foi informado de que a Inteligncia Ocidental acredita que pode haver um navio seqestrado, um navio fantasma em alto-mar.
De posse dessa informao, todos eles podem tomar suas prprias precaues. Mas, francamente, qualquer porto que a al-Qaeda tenha escolhido para um massacre deve
pertencer a um pas ocidental e desenvolvido. E que no seja muulmano, hindu ou budista. Isso reduz nossa lista no-americana de portos possveis a menos de trezentos.
Houve uma batida na porta, que foi aberta. Entrou um homem muito jovem, de faces rosadas, chamado Conrad Phipps.

O AFEGO

343

- Chegamos ao ltimo, Sam. O Wilhelmina Santos, originrio de Caracas, levando GLP para Galveston, confirma que est OK. Os americanos esto se preparando para abordar
o navio.
-  isso? - perguntou Hill. - Todos os navios-tanque do mundo que transportam gs liqefeito de petrleo foram verificados?
- Eles so poucos, Steve - disse Seymour.
- Ainda assim, parece que a idia do GLP era um beco sem sada - disse Hill. Ele se levantou para sair e voltar para Londres.
- H mais uma coisa que me preocupa, Sr. Hill - disse o especialista de cargas.
- Me chame de Steve - disse Hill. Os membros do SIS sempre mantiveram a tradio de se dirigirem uns aos outros, do mais alto ao mais humilde, pelo nome de batismo.
A nica exceo era reservada ao chefe. A informalidade  uma das caractersticas especficas da agncia.
- Bem, h trs meses um navio-tanque de GLP foi perdido com todos os tripulantes.
- Sim?
- Ningum viu o navio afundar. Seu comandante usou o rdio para emitir uma mensagem. Disse que sua casa das mquinas estava em incndio catastrfico e no achava
possvel salvar o navio. E ento... nada. O nome do navio era. Java Star.
- Nenhum destroo? - indagou Seymour.
- Bem, sim. Alguns. Antes de sair do ar, o comandante deu sua posio exata. O primeiro a chegar  cena foi um na-vio-frigorfico vindo do sul. Seu comandante reportou
ter acha

344

FREDERICK FORSYTH do barcos inflveis em chamas, bias e alguns destroos. Nenhum sinal de sobreviventes. No tivemos nenhuma notcia do comandante ou da tripulao.
- Trgico, mas e da? - indagou Hill.
- Foi onde aconteceu, senhor... isto .,. Steve. No mar de Celebes. A 300 quilmetros de um lugar chamado ilha de Labuan.
- Droga! - exclamou Steve Hill, e partiu para Londres.
Enquanto ele estava dirigindo, o Countess ofRichmond cruzou o equador. Estava seguindo para o norte por noroeste, e apenas seu navegador sabia exatamente para onde.
Ele estava seguindo para um ponto a 1.200 quilmetros a oeste de Aores e 3.200 quilmetros a leste da costa americana. Caso se estendesse para oeste, sua trilha
o levaria a Baltimore, no topo da vastamente povoada baa de Chesapeake.
Algumas das pessoas a bordo do Countess iniciaram seus preparativos para entrar no paraso. Isso envolvia raspar cada plo do corpo e escrever seus testamentos de
f. Essas coisas foram feitas diante das lentes da cmera, e os testamentos foram lidos por cada redator.
O Afego tambm fez o mesmo, mas optou por falar em pashto. Devido  poca em que passara no Afeganisto, Yusuf Ibrahim sabia algumas palavras da lngua e se esforou
para entender, mas mesmo se ele tivesse sido fluente no teria encontrado uma palavra errada sequer.
O homem de Tora Bora falou sobre a destruio de sua famlia por um foguete americano e do quanto estava feliz por I,, saber que em breve reveria seus parentes,
e ao mesmo tempo levaria justia ao Grande Sat. Enquanto falava, ele se deu con
O AFEGO 345

ta de que nada daquilo jamais chegaria a qualquer lugar em forma fsica. Tudo seria transmitido por Suleiman atravs de um fluxo de dados, antes que ele e seu equipamento
tambm fossem varridos da face da Terra.
O que ningum sabia era como eles iriam morrer e que justia seria feita aos Estados Unidos. As nicas excees eram o especialista em explosivos e o prprio Ibrahim.
Mas eles no revelaram nada.
Considerando que a tripulao estava sobrevivendo  base de comida enlatada, ningum notou que um faco de carne de 18 centmetros havia sumido da cozinha do navio.
Quando no estava sendo observado, Martin afiava silenciosamente sua lmina com a pedra de amolar na gaveta. Considerou usar a calada da noite para pular a popa
para cortar as cordas do guindaste que seguravam o barco, mas rejeitou a idia.
Estava com quatro homens que dormiam em beliches no castelo de proa. Sempre havia um timoneiro ao leme, que ficava ao lado do ponto de acesso para se descer pela
popa por uma corda. O especialista em rdio vivia em seu pequeno comparti-mento de comunicaes, atrs do passadio. E o engenheiro estava sempre na casa das mquinas,
que ficava abaixo do passadio na popa. Qualquer um desses podia olhar para fora e v-lo.
E o dano seria notado. Um sabotador seria identificado imediatamente. A perda do barco seria um empecilho, mas no o suficiente para abortar a misso. E talvez houvesse
tempo para reparar os danos. Martin desistiu da idia mas manteve a faca, embrulhada num pano e amarrada s suas costas. A cada turno no passadio, ele tentava descobrir
para qual porto estavam indo e o que havia dentro dos contineres que poderia

346 FREDERICK FORSYTH tentar sabotar. No obteve nenhuma resposta, e o Countess manteve o curso para o norte por noroeste.
A caada global foi modificada e estreitada. Todos os gigantes do mar, todos os petroleiros e navios-tanque de gs foram checados e verificados. Os transmissores
de identificao responderam da forma esperada; os cursos corresponderam s suas jornadas previstas; trs mil comandantes de navio comunicaram-se verbalmente com
seus escritrios centrais e agentes, oferecendo dados pessoais que confirmavam suas identidades e o fato de que no estavam sob o domnio de seqestradores.
Os EUA, sua Marinha, fuzileiros navais e a Guarda Costeira, exigidos ao mximo de sua capacidade sem licenas ou folgas, estavam abordando e escoltando cada navio
de carga que ten-cionasse ancorar num dos portos principais. Isto estava causando inconvenincia econmica, mas no grande o bastante para gerar danos reais  maior
economia do planeta.
Depois da sugesto de Ipswich, a origem e a propriedade do Java Star foram checadas minuciosamente. Como era pequena, a companhia proprietria do navio escondia-se
por trs de uma empresa de fachada alojada num banco que se revelou uma placa de metal num paraso fiscal no Extremo Oriente. A refinaria de Bornu que provera aquela
carga era legtima, mas sabia muito pouco a respeito do navio em si. Seus construtores foram rastreados - ele tivera seis proprietrios em sua existncia- e forneceram
plantas. Um navio gmeo foi encontrado e invadido por americanos com fitas mtricas. Com computao grfica, tcnicos produziram uma rplica exata ojava Star.
Os inspetores foram visitar o governo da bandeira de convenincia que o Java Star usava da ltima vez que fora avistado. Mas era uma repblica polinsia e os inspetores
logo ficaram convencidos de que o navio nunca estivera l.

O AFEGO 347

O mundo ocidental precisava de respostas a trs perguntas: o navio estava realmente desaparecido? Se no estava, onde se encontrava ento? E qual era seu novo nome?
Os satlites KH-11 foram instrudos a estreitar sua busca para alguma embarcao que se assemelhasse aojava Star.
Na primeira semana de abril, a operao conjunta na base da fora area de Edzell, na Esccia, estava paralisada. No havia nada que ela pudesse fazer que no estivesse
sendo feito mais oficialmente pelas principais agncias ocidentais de inteligncia.
Michael McDonald retornou aliviado para sua Washington natal. Ele permaneceu com a caada ao navio fantasma, mas a partir de Langley. Parte da misso da CIA era
de interrogar novamente todos os prisioneiros de qualquer um de seus centros de deteno que pudessem, antes de sua captura, ter ouvido alguma coisa a respeito de
um projeto chamado Al-Isra. E eles recorreram a todas as fontes que tinham no mundo sombrio do terrorismo islmico. No descobriram nada. A frase que se referia
 jornada mgica atravs da noite at a grande iluminao parecia ter nascido e morrido com o egpcio financiador do terrorismo que em outubro pulara da sacada de
um prdio em Peshawar.
Lamentavelmente, presumia-se que o coronel Mike Martin estava desaparecido em ao. Ele nitidamente fizera tudo que estivera ao seu alcance, e se ojava Star ou outra
bomba flutuante fosse descoberta em rota para os Estados Unidos, ele seria considerado bem-sucedido. Mas ningum esperava v-lo novamente. Simplesmente fazia tempo
demais desde seu ltimo sinal de vida por meio da mochila de equipamento de um mergulhador em Labuan.

348

FREDERICKFORSYTH
Trs dias antes da reunio do G8, a pacincia do alto escalo finalmente chegou ao fim, particularmente com a busca global baseada na orientao dos britnicos.
Marek Gumienny, em seu escritrio em Langley, telefonou para Steve Hill por uma linha segura e deu as notcias.
- Steve, sinto muito. Sinto muito por voc e ainda mais por seu agente, Mike Martin. Mas a opinio geral aqui  de que ele esteja morto. Alm disso, depois da maior
caada global por navios mercantes de todos os tempos, tambm acham que ele estava errado.
- E a teoria de Sam Seymour? - indagou Hill.
- Mesma coisa. Ns j verificamos cada petroleiro no planeta, em todas as categorias. Falta localizar cerca de 50 petroleiros, e ento estar acabado. Qualquer que
fosse o significado dessa frase Al-Isra, ns jamais iremos descobrir, ou a operao que levava esse nome foi descontinuada. Espere um pouco... Tem algum na outra
linha.
Depois de alguns instantes, ele voltou.
- Tem um navio atrasado. Saiu de Trinidad para Porto Rico. Era para ter chegado ontem. Nunca apareceu. E no responde aos chamados.
- Que tipo de navio? - perguntou Hill.
- Tanque. Trs mil toneladas. Olhe, ele pode ter ido a pique. Mas vamos checar agora.
- O que estava carregando? - perguntou Hill.
- Gs liqefeito de petrleo - foi a resposta.
Foi um satlite Keyhole KH-11 que achou o navio, seis horas depois da queixa de Porto Rico ao escritrio central dos proprietrios da refinaria, baseada em Houston,
ter-se transformado numa situao de alarme.

O AFEGO 349

Varrendo o leste do Caribe com suas cmeras e sensores de escuta checando uma rea de 800 quilmetros de mar e ilhas, o Keyhole ouviu um sinal de transmissor vindo
l de baixo, e seu computador confirmou que ele era emitido pelo navio desaparecido, o Dona Maria.
A informao foi repassada instantaneamente para uma variedade de agncias, motivo pelo qual Marek Gumienny foi interrompido durante seu telefonema para Londres.
Outras instituies no circuito incluam o QG do Socom em Tampa, Flrida, a Marinha americana e a Guarda Costeira. Todos receberam a localizao exata do navio desaparecido.
Por no terem desligado o transmissor de sinal, os seqestradores ou foram muito estpidos ou contaram com a sorte. Na verdade, apenas seguiram ordens. Com o transmissor
emitindo, informavam seu nome e posio. Com o aparelho desligado, tornavam-se imediatamente suspeitos de serem um possvel navio pirata.
O pequeno navio-tanque de GLP ainda estava sendo navegado e conduzido por um aterrorizado comandante Montalban, h quatro dias sem dormir, salvo alguns cochilos
antes de ser acordado a chutes. O navio passara por Porto Rico em meio  escurido, passara a oeste das ilhas Turk e Caico e durante algum tempo perdera-se em meio
 mirade de 700 ilhas que compem as Bahamas.
Quando foi encontrado pelo Keyhole, o Dona Maria rumava para oeste, logo ao sul de Bimini, a ilha mais a oeste do arquiplago.
Em Tampa, seu curso foi analisado e projetado para a frente. Seguia direto para a boca aberta do porto de Miami, uma via aqutica que conduz ao corao da cidade.

350

FREDERICK FORSYTH
Em dez minutos, o pequeno navio-tanque estava atraindo companhia verdadeira. Um P-3 Orion, que decolara da estao aeronaval em Key West, encontrou o Dona Maria,
baixou alguns milhares de ps e comeou a circular, filmando-o de todos os ngulos possveis. Apareceu numa imensa tela de plasma na penumbra da sala de operaes
em Tampa, quase em tamanho real.
- Deus do cu, olha s aquilo - murmurou um operador.
Enquanto o navio estava no mar, algum fora at a popa com um pincel e pintara uma faixa branca sobre a letra i em Maria. Fora uma tentativa de rebatiz-lo de Dona
Marta, mas a mancha branca era to tosca que no enganaria nenhum observador por mais de alguns segundos.
H duas lanchas da Guarda Costeira operando a partir de Charleston, Carolina do Sul, ambas da classe Hamilton e ambas no mar. So o 717 USCGMellon e seu navio gmeo,
o Mor-genthau. Encontrando-se mais prximo, o Mellon manobrou em direo ao fugitivo seqestrado, passando de velocidade de cruzeiro para velocidade de perseguio.
O navegador rapidamente calculou a interceptao para dali a 90 minutos, imediatamente antes do pr-do-sol.
A palavra lancha no faz justia ao Mellon; com seus 150 metros de comprimento e 3.300 toneladas de sobrecarga, alcana o desempenho de um pequeno destrier. Enquanto
varava as ondas de comeo de abril do Atlntico, a tripulao preparava seu armamento... apenas por precauo. O navio-tanque desaparecido j estava classificado
como possivelmente hostil .
O arsenal do Mellon  considervel. O mais leve de seus trs sistemas  a metralhadora Gatling 20mm que expele uma rajada de projteis to impressionante que costuma
ser usada

O AFEGO

351

como arma antimsseis. Teoricamente, mesmo um foguete em rota de coliso seria destroado ao voar em direo quele enxame de projteis. Mas o canho Phalanx no
pode ser usado contra msseis; ele  capaz de destroar praticamente qualquer coisa, mas precisa estar bem prximo ao alvo.
A embarcao tambm carregava dois canhes Bushmaster 25mm, no to rpidos, porm mais poderosos e suficientes para estragar completamente o dia de um pequeno navio-tan-(
iie. E ele tambm abrigava, montado no convs, um canho 0 to Melara 76mm de disparo rpido. Quando o Dona Maria apareceu como um pontinho no horizonte, todos os
trs sistemas estavam preparados. Eram armas que at ento tinham sido usadas apenas para treinamento, e se obrigados a dizer a verdade, cada um de seus operadores
admitiria estar louco para us;-las numa ao real.
Com o Orion acima deles, fornecendo todos os dados em tempo real e repassando as imagens para Tampa, o Mellon contornou a popa do navio-tanque e apareceu  frente
dele, reduzindo a velocidade de cruzeiro a menos de 200 metros do alvo.

1 c ,n to o Mellon usou seu megafone para chamar pelo Dona Maria.
- Navio-tanque no identificado, aqui  o navio Mellon da Guarda Costeira dos Estados Unidos. Parem. Repito, parem. Vamos subir a bordo.
Binculos poderosos puderam captar a figura que estava ao leme do navio; mais duas figuras flanqueavam o homem. No houve resposta. O navio-tanque no reduziu sua
velocidade. A mensagem foi repetida.
Depois da terceira mensagem, o comandante ordenou que um nico projtil fosse disparado no mar  frente da proa do navio-tanque. Quando um jorro de gua se derramou
sobre o

352

FREDERICK FORSYTH pico de vante, encharcando as lonas com as quais algum tentara, em vo, esconder a rede de canos e tubos que traam o propsito de um navio-tanque,
os homens no pico de vante do Dona Maria devem ter entendido a mensagem. Mesmo assim, o navio no parou.
Ento duas pessoas apareceram na porta do castelo de proa, logo atrs do passadio. Um empunhava uma metralhadora M60. Era um gesto intil que acabou selando o destino
do navio-tanque. O homem era claramente de aparncia norte-africana, e estava ntido ao sol poente. Disparou uma rajada curta que passou por cima do Mellon, e ento
levou no peito uma bala de uma das quatro carabinas M-16 empunhadas pelos homens no convs do Mellon.
Foi o fim das negociaes. Enquanto o corpo do argelino caa para trs e algum fechava a porta de ferro pela qual ele sara, o comandante do Mellon pediu permisso
para afundar o navio fugitivo. Mas a permisso foi negada. A mensagem da base foi inequvoca.
- Afaste-se do navio inimigo. Faa distncia agora e faa rpido. Ele  uma bomba flutuante. Reassuma posio a um quilmetro e meio do navio-tanque.
A contragosto, o Mellon deu meia-volta, assumiu pleno vapor e deixou o navio-tanque entregue ao seu destino. Os dois Falcons F-16 j estavam no ar, e a trs minutos
de distncia.
H um esquadro na base da fora area de Pensacola no cabo da Flrida que se mantm em prontido para combate 24 horas ao dia.  usado principalmente contra traficantes
de drogas que tentam penetrar na Flrida e nos estados circun-vizinhos, pelo ar e s vezes pelo mar, transportando (principalmente) cocana.

O AFEGO 353

Eles saram do sol poente para um cu negro e limpo, travaram suas miras no navio-tanque a oeste de Bimini e armaram seus msseis Maverick. Os instrumentos do piloto
mostraram que os msseis inteligentes estavam travados no alvo. A morte do navio-tanque seria muito mecnica, muito precisa, muito desprovida de emoo.
O lder emitiu uma ordem curta e ambos os Mavericks despreenderam-se de seus suportes abaixo dos caas de combate e seguiram em direo a seus alvos. Segundos depois,
duas ogivas envolvendo 135 quilos de ms notcias acertaram o navio-tanque.
Embora a carga do Dona Maria no estivesse misturada com ar para obter potncia mxima, as detonaes dos Mavericks nas profundezas do petrolato foram suficientes.
A um quilmetro e meio de distncia, os tripulantes do Mellon observaram o Dona Maria inflamar como uma tocha. Ficaram muito impressionados. Sentiram a lufada de
calor em seus rostos e o fedor de gasolina concentrada em chamas. Foi rpido. No restou nada para ficar fumegando na superfcie. A popa e a proa do navio-tanque
desceram como duas peas separadas de lixo derretido. O restante de seu combustvel pesado tremeluziu por cinco minutos, e ento o mar o clamou por inteiro.
Exatamente conforme o plano de Ali Amin Al-Khattab.
No espao de uma hora, o presidente dos EUA foi interrompido num banquete oficial com uma mensagem breve ao p do ouvido. Ele fez que sim com a cabea, exigiu um
relatrio verbal completo na Sala Oval na manh seguinte e voltou a tomar sua sopa.

354

FREDERICKFORSYTH s cinco para as oito, o diretor da CIA foi conduzido  Sala Oval, acompanhado por Marek Gumienny, que estivera naquela sala duas vezes antes, e
ainda ficava impressionado com ela. O presidente e os outros cinco ou seis diretores estavam l.
As formalidades foram breves. Marek Gumienny foi instrudo a reportar sobre o progresso e o trmino de um longo exerccio de antiterrorismo conhecido como Crowbar.
Ele foi sucinto, ciente de que o homem sentado debaixo da janela redonda que dava vista para o Rose Garden, com seus 15 centmetros de vidro  prova de balas, odiava
explicaes longas. A regra era sempre 15 minutos, e ento cale a boca . Marek Gumienny resumiu as complexidades do Crowbar a doze.
Quando parou, houve silncio.
- Ento o palpite dos britnicos estava certo? - finalmente disse o vice-presidente.
- Sim, senhor. O agente que eles infiltraram na al-Qaeda, um oficial muito corajoso que eu tive o privilgio de conhecer no ltimo outono, presumivelmente est morto.
Se no estivesse, teria demonstrado sinal de vida a esta altura. Mas ele transmitiu a mensagem. A arma terrorista era realmente um navio.
- Eu no fazia a menor idia de que havia cargas to perigosas sendo transportadas diariamente ao redor do mundo - confessou o secretrio de Estado no silncio que
se seguiu.
- Nem eu - disse o presidente. - Agora, em relao  Conferncia do G8, que conselho vocs me do?
O secretrio de Defesa olhou para o diretor da Segurana Nacional e assentiu com a cabea. Eles claramente j haviam planejado o passo seguinte.
- Senhor presidente, temos todos os motivos para acreditar que a ameaa terrorista a este pas, que nitidamente visava 

O AFEGO

355

cidade de Miami, foi destruda ontem  noite. O perigo acabou. Quanto ao G8, durante toda a conferncia o senhor estar sob a proteo da Marinha, que deu sua palavra
de que nada de mal ir lhe acontecer. Portanto, o nosso conselho  que d prosseguimento ao G8 sem nenhuma preocupao na cabea! - Ora,  exatamente isso o que
vou fazer - disse o presidente dos EUA.

CAPTULO 17

PARA DAVID GUNDLACH, SEU TRABALHO ERA O MELHOR DO MUNdo. Bem, pelo menos o segundo melhor. Ostentar aquela quarta medalha de ouro na manga ou na dragona e ser o
comandante do navio seria ainda melhor. Mas estava muito feliz em ser o imediato.
Numa noite de abril, de p na ala de estibordo do passadi-o imenso, baixou os olhos para ver a multido que fervilhava na doca do novo terminal Dois do Brooklyn,
60 metros abaixo. O Brooklyn no estava acima dele; como se estivesse no topo de um prdio de 23 andares, podia ver a maior parte do bairro.
O per 12 no canal Buttermilk, que estava sendo inaugurado naquela exata manh, no  uma doca pequena, mas aquele navio de passageiros ocupava sua maior parte.
Com 345 metros de comprimento, com at 40 metros de largura de casco e 30 metros de casco abaixo d gua - o que requisitara que o canal fosse inundado ao mximo
para que ele pudesse passar -, a embarcao era, por uma ampla margem, o maior navio de passageiros em operao. Quanto mais o imediato Gundlach,

O AFEGO 357

em sua primeira viagem desde que fora promovido, olhava para o navio, mais magnfico ele parecia.
Abaixo e ao longe, na direo das ruas alm dos prdios do terminal, o imediato conseguia divisar as faixas dos manifestantes frustrados e furiosos. A polcia de
Nova York demonstrara uma competncia incrvel ao estabelecer um cordo de isolamento em torno do terminal inteiro. Os barcos da polcia porturia contornavam o
terminal no nvel do mar para garantir que nenhum manifestante pudesse aproximar-se de barco.
Mesmo se pudessem aproximar-se, isso no lhes adiantaria de nada. O casco de ao do navio de passageiros simplesmente avultava-se muito acima da superfcie da gua,
com as escotilhas inferiores a mais de 15 metros de altura. Portanto, as pessoas que iriam embarcar naquela noite poderiam faz-lo em absoluta privacidade.
No que elas interessassem aos manifestantes. At agora o navio de passageiros estava recebendo a bordo apenas os participantes de nvel inferior: estengrafos,
secretrias, diplomatas j uniores, consultores especiais e todas as formigas humanas sem as quais os grandes e poderosos do mundo no poderiam discutir fome, pobreza,
segurana, barreiras comerciais, defesa e alianas.
Quando a noo de segurana lhe passou pela mente, David Gundlach franziu a testa. Ele e seus colegas oficiais haviam passado o dia escoltando um nmero imenso de
agentes do Servio Secreto americano por cada centmetro do navio. Todos tinham a mesma aparncia; todos mantinham expresses de curiosidade absoluta, todos falavam
com suas mangas, onde havia microfones escondidos, e todos recebiam suas respostas naqueles fones de ouvido sem os quais se

358

FREDERICK FORSYTH sentiam nus. Gundlach finalmente concluiu que eles eram paranicos profissionais... e no haviam encontrado nada errado.
Os antecedentes dos 1.200 tripulantes tinham sido checados, sem que nenhuma evidncia negativa tivesse sido achada contra qualquer um deles. O apartamento grand
dplex, reservado para o presidente dos EUA e para a primeira dama, j estava trancado e guardado pelo Servio Secreto, tendo sido vasculhado centmetro por centmetro.
Foi somente depois de ver o apartamento que o imediato David Gundlach teve uma noo real do casulo que envolvia aquele presidente todo o tempo.
Ele olhou o relgio. Faltavam duas horas para completar o embarque dos trs mil passageiros, antes que fosse a vez de chegarem os oito chefes de estado ou governo.
Como os diplomatas em Londres, o imediato estava admirando a simplicidade da idia de fretar o maior e mais luxuoso navio de passageiros do mundo para sediar a maior
e mais prestigiosa conferncia de todos os tempos; e fazer isso durante uma travessia de cinco dias pelo Atlntico, de Nova York at Southampton.
A inovao surpreendeu todas as foras que todos os anos buscavam levar o caos  Conferncia do G8. Melhor que uma montanha, melhor que uma ilha, com acomodao
para 4.200 almas, o Queen Mary II era. intocvel.
Gundlach ficaria ao lado de seu comandante enquanto as sirenas Typhoon soassem seu d gravssimo para se despedir de Nova York. Ele faria os ajustes necessrios
aos seus quatro motores, e o comandante, usando apenas um pequeno joystick no painel de controle, poria o navio em movimento para o East River e em seguida manobraria
para o Atlntico. Os controles do Queen Mary II eram to delicados, e seus dois moto
O AFEGO 359

res de popa to versteis, que ele no precisava de rebocadores para sair do terminal.
Muito a leste, o Countess ofRichmond estava passando pelas ilhas Canrias, a estibordo. As ilhas de turismo para tantos europeus que buscavam afastar-se da neve
e do gelo de suas terras natais, para encontrar o sol de dezembro ao longo da costa africana, estavam fora de vista. Mas o cume do monte Tiede podia ser visto no
horizonte com binculos.
O navio tinha  frente mais dois dias de viagem at seu encontro com a Histria. O navegador indonsio instrura seu compatriota na casa de mquinas a cortar fora
para reduzir a velocidade, e estava se movendo a um ritmo lento pelas ondas gentis da noite de abril.
O cume do monte Tiede saiu de vista e o timoneiro desviou mais alguns graus para o porto onde, a 2.500 quilmetros, jazia a costa americana. L do espao, ele foi
avistado mais uma vez; e novamente, quando consultados, os computadores leram seu transmissor de sinal, checaram os registros, consideraram sua posio em alto-mar
inofensiva e repetiram seu nvel de segurana: navio mercante legtimo, nenhum perigo .
A primeira comitiva nacional a chegar foi a do primeiro-ministro japons. Conforme o combinado, eles haviam voado diretamente de Tquio para o aeroporto Kennedy.
Permanecendo fora da viso e longe do barulho dos manifestantes, o primeiro-ministro e sua comitiva foram transferidos para as cabines de passageiros de uma pequena
frota de helicpteros que os conduziram direto para fora da baa Jamaica at o Brooklyn.
A zona de pouso encontrava-se dentro do permetro dos grandes sales e galpes que compunham o novo terminal. Do

SI

360

FREDERICKFORSYTH t( ponto de vista dos japoneses, os manifestantes do outro lado das barreiras, gritando silenciosamente suas mensagens, sumiram de vista. Enquanto
o estrondo das hlices abaixava para um zumbido gentil, a delegao foi saudada pelos oficiais do navio ao longo do tnel coberto at a entrada na lateral do casco;
e dali para uma das sutes reais.
Os helicpteros partiram para o Kennedy a fim de recolher os canadenses que haviam acabado de chegar.
David Gundlach permaneceu no passadio, 45 metros de lado a lado com imensas janelas panormicas para o mar. Embora o passadio estivesse a 60 metros acima do mar,
os limpadores na frente de cada janela revelavam que quando a proa do Queen atingia as ondas de 18 metros do Atlntico no meio do inverno, o jorro de gua chegava
quela altura.
Mas segundo a previso do tempo, aquela travessia seria tranqila, com ondas pequenas e ventos leves. O navio de passageiros faria a rota do Grande Crculo, sempre
mais popular entre os hspedes por seu clima e mar mais amenos. O navio seguiria em arco pelo Atlntico em seu ponto mais curto e mais ao sul, logo ao norte de Aores.
Os russos, franceses, alemes e italianos sucederam uns aos outros em seqncia, e a noite caiu quando os britnicos, proprietrios do Queen Mary II, usaram os ltimos
vos de helicptero.
O presidente dos EUA, o anfitrio do jantar inaugural, que se daria um pouco depois das oito da noite, chegou s seis em ponto no helicptero azul-escuro da Casa
Branca. Uma banda da Marinha reunida no cais tocou Hailto the Chief enquanto o presidente entrava no navio, para que as portas de ao o isolassem do mundo exterior.
s seis e meia, as ltimas amarras foram soltas e o Queen, todo enfeitado e aceso como uma cidade flutuante, comeou a se mover para o East River.

I
O AFEGO 361

As pessoas que estavam nas embarcaes menores no rio e nas ruas externas assistiram  sada do navio e acenaram. Muito acima deles, por trs de vidros reforados,
os lderes das oito naes mais ricas do mundo acenaram em resposta. A Esttua da Liberdade, iluminada em toda a sua glria, passou deslizando, as ilhas se afastaram
e o Queen aumentou pouco a pouco sua potncia.
Os dois cruzadores de msseis da Marinha americana que escoltariam o Queen assumiram suas posies a aproximadamente um quilmetro a cada lado do navio, e se anunciaram
ao comandante. A bombordo estava o USS Leyte Gulfe a esti-bordo o USS Monterey. De acordo com o protocolo martimo, o comandante do Queen Mary reconheceu sua presena
e agradeceu. Ento saiu do passadio e foi se trocar para o jantar. David Gundlach tinha o leme e o comando.
No haveria submarino de escolta, porque aquele no era um grupo de cargueiros, e o submarino estaria ausente por dois motivos. Nenhuma nao possua um submarino
que pudesse fugir  capacidade de detectar e afundar de um cruzador de msseis, e o Queen era rpido demais para ser acompanhado por qualquer submarino.
Quando as luzes de Long Island comearam a sumir no horizonte, o imediato Gundlach aumentou a potncia das mquinas. Os quatro motores, com seus 157 mil cavalos
de fora somados, podiam empurrar o Queen at 30 ns, caso necessrio. A velocidade normal do Mary  de 25 ns, e os cruzadores precisariam forar seus motores ao
mximo para acompanh-lo.
No cu surgiu a escolta area: um Hawkeye E-2C da Marinha americana, com sensores de radar que varreriam a superfcie do Atlntico por 800 quilmetros em qualquer
direo em

362

FREDERICK FORSYTH tt c
C c u c torno do comboio. E um Prowler EA-6B capaz de interferir em qualquer sistema de armamento ofensivo que ousasse seguir o comboio e destru-lo com msseis
HARM.
A cobertura area seria reabastecida no ar at ser substituda por avies idnticos vindos da base americana em Aores. Esses continuariam patrulhando at serem
rendidos por avies britnicos. Tudo fora previsto.
O jantar foi um sucesso triunfal. Os estadistas sorriram, as esposas brilharam, a comida foi soberba e taas de cristal foram enchidas com vinhos das melhores safras.
Seguindo o exemplo do presidente americano, os convidados retiraram-se cedo, para se recuperar dos longos vos daquele dia.
Na manh seguinte a Conferncia foi iniciada. O Royal Court Theatre fora transformado para acomodar as oito delegaes, com o pequeno exrcito de lacaios que cada
uma parecia precisar.
A segunda noite foi como a primeira, salvo que o anfitrio foi o primeiro-ministro britnico no Queens Grill, o restaurante com capacidade para 200 pessoas. As de
menor eminncia espalharam-se pelo imenso restaurante Britannia ou pelos diversos pubs e bares que tambm serviam comida. Os mais jovens, livres de seus labores
diplomticos, compareceram depois do jantar ao Queen s Ballroom ou ao clube noturno G32.
Acima deles, a maioria das luzes estava apagada no passadi-o que David Gundlach comandava durante a madrugada. Aberta  frente dele, logo abaixo das janelas de
vante, estava a srie de telas de plasma que descreviam cada sistema no navio.
De todos esses, o principal era o radar do navio, lanando seu olhar por 40 quilmetros em todas as direes. Ele podia i

O AFEGO

363

Ver os bipes emitidos pelos dois cruzadores a cada um de seus lados, e para alm deles, os bipes de outras embarcaes cuidando de seus negcios.
 Queen Mary tambm tinha  sua disposio um sistema de identificao automtica que leria o transmissor de sinal [ de qualquer embarcao a muitos quilmetros,
e um compu- m li i de cruzamento de dados baseado nos registros do Lloyds t n identificaria no apenas o nome do navio, como tambm n.i rota e carga, alm de seu
canal de rdio.
A cada lado do Queen, tambm em passadios escurecidos, m operadores de radar dos dois cruzadores debruavam-se sobre suas telas com as mesmas tarefas. Seu dever
era garantir 11ic nada remotamente ameaador chegasse perto do monstro unenso entre eles. Mesmo para um cargueiro inofensivo e identi-llcadu, o limite de aproximao
era de trs quilmetros. Na igiuida noite, no havia nada a menos de dez quilmetros.
A imagem captada pelo Hawkeye E-2C era inevitavelmen-it1 maior devido  sua altitude. Era como um imenso foco cir- ular movendo-se sobre o Atlntico de oeste a leste.
Mas grande parte do que ele via estava a quilmetros de distncia e nem um pouco prximo ao comboio. O que ele podia fazer era i riar um corredor de 16 quilmetros
 frente dos navios em movimento, e dizer aos cruzadores o que havia adiante. Para propsitos de realismo, ele tambm escolheu um limite pa-i i i-ssa projeo. Era
de 40 quilmetros, ou uma hora de nave(. ..!(,.IO.
Um pouco depois das 11, na terceira noite, o Hawkeye l o .iou um alerta de nvel baixo.
- H um pequeno cargueiro 40 quilmetros  frente, 4 quilmetros ao sul da trajetria pretendida. Parece imvel na igua.

364

FREDERICKFORSYTH te e C c t c
O Countess ofRichmondti.o estava completamente imvel. Os motores estavam ajustados para meia-nau, de modo que suas hlices encontravam-se inertes na gua. Mas
havia uma corrente de quatro ns que dava ao Countess impulso suficiente para manter seu curso para o oeste.
O bote inflvel estava na gua, amarrado a bombordo do navio, com uma escada de cordas e tbuas descendo do costado at o mar. Quatro homens j estavam no bote,
embalados pela corrente ao lado do casco do cargueiro.
Os outros quatro estavam no passadio. Ibrahim se encontrava ao leme, olhando o horizonte, procurando pelo primeiro brilho das luzes em aproximao.
O especialista em rdio indonsio estava ajustando o microfone transmissor para aumentar sua potncia e clareza. Ao seu lado estava o adolescente paquistans nascido
e criado num subrbio da cidade de Leeds, Inglaterra. O quarto era o Afego. Quando o especialista em rdio se deu por satisfeito, dirigiu um meneio de cabea ao
rapaz, que retribuiu o gesto e sentou numa banqueta ao lado do painel do navio. Ficaria ali, esperando pelo chamado.
Ele veio do cruzador varando o mar a um quilmetro e cem metros a estibordo do Queen. David Gundlach ouviu alto e claro, assim como todos que estavam na viglia
noturna. O canal usado era a freqncia comum para navios no Atlntico Norte. A voz tinha sotaque do sul dos Estados Unidos.
- Countess ofRkhmond, Countess ofRichmond, aqui  o cruzador da Marinha dos Estados Unidos, Monterey. Voc me copia?

O AFEGO

365

A voz que retornou estava ligeiramente distorcida pelo equipamento de rdio ultrapassado do velho cargueiro. E a voz ti-ii lia as vogais graves caractersticas de
Lancashire ou talvez Yorkshire.
- Sim, Monterey. Countess aqui.
- Voc parece estar  deriva. Esclarea sua situao.
- Countess of Richmond. Tivemos um superaquecimento... consertando... o mais rpido... podemos.
Houve um silncio breve no passadio do navio de passageiros. Ento...
- Diga novamente, Countess of Richmond, eu repito, diga de novo...
A resposta chegou e o sotaque estava mais carregado que nunca. No passadio do Queen, o imediato tinha o bipe entrando em sua tela de radar ligeiramente a sul e
para a frente, e a 50 minutos de percurso. Outro mostrador dava todos os detalhes do Countess of Richmond, incluindo confirmao de que seu transmissor de sinal
era genuno e preciso. Ele entrou na comunicao de rdio.
- Monterey, este  o Queen Mary II. Deixe-me tentar. David Gundlach nascera e fora criado no condado de
Cheshire, a menos de 80 quilmetros de Liverpool. Ele calculou que a voz do Countess tinha um sotaque de Yorkshire ou Lancashire, que era vizinho de sua nativa Cheshire.
- Countess of Richmond, aqui  o Queen Mary II. Ouvi que vocs tiveram um aquecimento do motor principal e que esto realizando reparos no mar. Confirme.
- Sim, isso mesmo - disse a voz no alto-falante, com seu sotaque quase incompreensvel. - Devemos terminar dentro de uma hora.

366

FREDER1CK FORSYTH t Ji - Countess, d seus detalhes, por favor. Porto de registro, porto de partida, destino, carga.
- Queen Mary, estamos registrados em Liverpool, oito mil toneladas, cargueiro de cargas gerais, vindo de Java com bordados e madeiras orientais, seguindo para Baltimore.
Gundlach correu os olhos pelas informaes na tela, fornecidas pelo escritrio central da Companhia de Remessa McKendrick, Liverpool; agentes Siebart & Abercrombie,
Londres; seguradores Lloyds. Tudo correto.
- Por favor, com quem falo? - perguntou.
- Aqui  o comandante McKendrick. Quem  voc?
- Imediato David Gundlach falando.
O Monterey, acompanhando a conversa com dificuldade, devido aos sotaques carregados de ambas as partes, retornou  comunicao.
- Monterey, Queen. Voc quer alterar o curso? Gundlach consultou as telas. O computador do passadio estava guiando o Queen ao longo da trajetria pr-planejada,
e iria se ajustar a qualquer mudana de mar, vento, corrente ou ondas. Realizar um desvio de trajetria significaria passar para o modo manual ou reiniciar a programao
e ento retornar ao curso original. Ele iria passar pelo cargueiro  deriva em 41 minutos, e estaria trs quilmetros a estibordo dele.
- No  preciso, Monterey. Passaremos por ele dentro de 40 minutos. Mais de trs quilmetros de mar entre ns.
Em formao com o Queen, o Monterey estaria a uma distncia menor que essa, mas ainda haveria amplo espao. L em cima, o Hawkeye e o EA6 perscrutaram o cargueiro
indefeso em busca de qualquer sinal de travamento de mssil, ou qualquer tipo de atividade eletrnica. No havia nenhuma, mas eles manteriam a vigilncia at o Countess
estar bem atrs do

O AFEGO 367

Comboio. Dois outros navios tambm estavam na rea de segurana, mas muito  frente, e esses poderiam ser requisitados 1 se desviar para a esquerda e para a direita.
- Entendido - disse o Monterey.
Tudo aquilo fora ouvido no passadio do Countess. Ibrahim gesticulou com a cabea, mandando que o deixassem sozinho. O engenheiro de rdio e o rapaz desceram a escada
at o bote e todos os seis no inflvel esperaram pelo Afego.
Ainda convencido de que o jordaniano louco iria religar o motor e tentar arremeter-se contra um dos navios em aproximao, Martin sabia que no podia desembarcar
do Countess of Richmond. Sua nica esperana era tom-lo depois de matar a tripulao.
Martin desceu a escada de corda. Na popa do barco, Sulei-man estava preparando seu equipamento de fotografia digital. Havia uma corda amarrada  amurada do Countess,
Um dos indonsios estava de p perto da proa do bote, segurando a corda para que no fosse arrastada pelo fluxo da corrente que passava pela lateral do navio.
Martin manteve a mo esquerda firme na escada, virou-se, estendeu a mo direita para baixo e fez um corte de l,80m no tecido cinza e duro como rocha. A ao foi
to rpida e inesperada que por dois ou trs segundos ningum reagiu, apenas o mar. O escapamento de ar produziu um ronco baixo e, com seis pessoas a bordo, aquele
lado do inflvel imergiu e o barco comeou a fazer gua.
Debruando-se ainda mais, Martin desferiu um golpe de faca contra a corda de reteno. Errou, mas fez um talho no antebrao do indonsio, Os homens reagiram. Mas
o indonsio ferido soltou a corda, e eles foram puxados pelo mar.

368

FREDERICK FORSYTH t( J
Havia mos vingativas estendidas para Martin, mas o bote, j bastante desinflado, dobrou para trs. O peso do grande motor externo puxou a popa para baixo, e mais
gua salgada entrou. Os restos do inflvel afastaram-se da popa do cargueiro e se perderam na negritude da noite atlntica. Em algum lugar contra a corrente, o bote
simplesmente afundou.  luz da popa do navio, Martin viu mos agitando-se na gua, e num instante elas tambm haviam sumido. Ningum  capaz de nadar contra quatro
ns. Martin voltou a subir a escada.
Nesse momento, Ibrahim puxou um dos trs controles que o especialista em explosivos deixara para ele. Enquanto escalava, Martin ouviu uma srie de estalidos agudos
enquanto cargas diminutas explodiam.
Quando o Sr. Wei construra a galeria disfarada como seis contineres ao longo do convs ojava Staro passadio at a proa, ele criara o teto, ou tampa, do espao
vazio abaixo como uma pea de ao nica comprimida por quatro pontos de conteno.
A esses pontos de conteno o especialista em explosivos encaixara cargas moldadas e ligara todas as quatro a fios que captavam sua energia atravs dos motores do
navio. Quando eles explodiram, a placa de metal que tampava a caverna abaixo levantou vrios metros. A potncia das cargas era assimtrica, de modo que um lado da
placa levantou mais alto do que a outra.
Martin estava no topo da escada de corda, faca nos dentes, quando as cargas explodiram. Ele se agachou enquanto a imensa placa de metal deslizava de lado para o
mar. Em seguida guardou a faca e entrou no passadio.
O assassino da al-Qaeda estava de p diante do leme, olhando para a frente atravs do vidro. No horizonte, aproximando-se a uma velocidade de 20 ns, estava a cidade
flutuante, 17 conve
O AFEGO 369

ses e 150 mil toneladas de luzes, ao e pessoas. Imediatamente abaixo do passadio, a galeria estava aberta para as estrelas. Pela primeira vez, Martin compreendeu
seu propsito. No era para conter alguma coisa; era para esconder alguma coisa.
As nuvens descobriram a lua minguante, e o convs de vante inteiro do navio que um dia fora ojava Star reluziu  sua luz. Pela primeira vez, Martin compreendeu que
aquele no era um cargueiro contendo explosivos. Era um navio-tanque. Correndo a partir do passadio havia um emaranhado de canos, tubos, torneiras e rodas de hidrantes
que delatavam seu propsito de vida.
Espacejados igualmente pelo convs em direo ao pico de vante estavam seis discos circulares de metal - as escotilhas de ventilao - acima de cada um dos tanques
de carga abaixo do convs.
- Voc devia ter ficado no barco, Afego - disse Ibrahim.
- No havia espao, irmo. Suleiman quase caiu ao mar. Eu fiquei na escada. Eles todos j se foram. Agora eu morrerei aqui com voc, inshallah.
Ibrahim parecia satisfeito. Olhou para o relgio do navio e puxou a segunda alavanca. Fios corriam do controle at as baterias do navio, de onde tiravam sua energia,
e dali avanavam para a galeria onde o especialista em explosivos, passando pela porta secreta, trabalhara durante seu ms no mar.
Mais seis cargas detonaram. As seis escotilhas explodiram acima dos tanques. O que se seguiu foi invisvel a olho nu.
Caso fosse possvel ver, seis colunas verticais levantaram-se dos domos como vulces  medida que a carga comeou a ventilar. A nuvem de vapor ascendente alcanou
uma altura de 30 metros, perdeu seu mpeto e a gravidade assumiu. A nuvem invisvel, misturada furiosamente com o ar noturno, caiu de

370

FREDERKK FORSYTH
I!
u l t e c i c volta ao mar e comeou a se expandir a partir da fonte, em todas as direes.
Martin havia perdido e sabia disso. Estava atrasado demais e sabia disso tambm, o suficiente para compreender que esti-vera viajando numa bomba flutuante desde
as Filipinas e que aquilo que estava jorrando das seis escotilhas abertas era morte invisvel que no podia mais ser controlada.
Sempre presumira que o Countess ofRichmond, agora novamente ojava Star, iria navegar at algum porto interno e detonar o que estivesse carregando abaixo de seus
conveses.
Presumira que o navio iria arremeter-se contra alguma coisa valiosa enquanto explodia. Durante 30 dias ele esperara em vo por uma chance de matar sete homens e
assumir o comando. A chance no havia aparecido.
Agora, tarde demais, ele compreendia que ojava Star no ia entregar uma bomba; ele era a bomba. E com sua carga ventilando depressa, no precisava mover-se um centmetro.
O navio de passageiros em aproximao precisava apenas passar a trs quilmetros para ser consumido.
Martin ouvira a comunicao no passadio entre o rapaz paquistans e o oficial do Queen Mary II. Ficou sabendo tarde demais que ojava Star no iria acionar seus
motores. Os cruzadores de escolta jamais permitiriam isso, mas ojava Star no precisava de seus motores.
Havia um terceiro controle perto da mo direita de Ibra-him, um boto para ser apertado. Os olhos de Martin seguiram os fios at uma pistola sinalizadora, montada
imediatamente  frente das janelas do passadio. Um disparo, uma nica fasca...
Atravs das janelas, a cidade de luzes estava acima do horizonte. Oitenta quilmetros, 30 minutos de percurso, tem
O AFEGO 371

pu mais que necessrio para uma excelente mistura de com-bustvel-ar.
Os olhos de Martin correram at o alto-falante de rdio no painel. Uma ltima chance de gritar um aviso. Sua mo direita deslizou at a bainha debaixo do manto no
qual estava a faca, Amarrada  coxa.
O jordaniano flagrou o olhar e o movimento. No teria lob revivido ao Afeganisto, a uma priso jordaniana e  implacvel caada dos americanos caso no tivesse
desenvolvido os instintos de um animal selvagem.
Alguma coisa lhe disse que, a despeito da linguagem fraternal, o Afego no era seu amigo. dio puro encheu a atmosfera carregada do pequeno passadio como um grito
silencioso.
A mo de Martin deslizou para dentro de seu manto at a laa. Mas Ibrahim foi mais rpido. A arma estivera escondida debaixo do mapa na mesa de cartografia. Estava
apontando direto para o peito de Martin. A distncia que os separava era de trs metros e meio. Trs a mais do que seria adequado para Martin.
Um soldado  preparado para estimar possibilidades e faz-lo depressa. Martin passara boa parte de sua vida fazendo isso. No passadio do Countess ofRichmond, envolvido
por sua prpria nuvem de morte, havia apenas duas: ir at o homem, ir at o boto. Para nenhuma das duas possibilidades haveria sobrevivncia.
Algumas palavras vieram  sua mente, palavras de um tempo longnquo, num poema de estudante: Para cada homem sobre a Terra, a morte chegar um dia... E ele se lembrou
de Ahmad Shah Massoud, o Leo de Panjshir, falando diante da fogueira.

372

FREDERICK FORSYTH lll tc
I to
C
Cf u d g
II 
Todos estamos sentenciados a morrer, ingls. Mas apenas um guerreiro abenoado por Al tem permisso para escolher como! O coronel Mike Martin fizera sua escolha...
Ibrahim percebeu o que ia acontecer. Conhecia o brilho nos olhos de um homem prestes a morrer. O assassino gritou e disparou. O homem arremetendo-se para a frente
recebeu a bala no peito e comeou a morrer. Mas acima da dor e do choque sempre h a perseverana. Apenas o bastante para mais um segundo de vida.
E no fim desse segundo, tanto os dois homens quanto o navio foram consumidos numa eternidade rosada.
David Gundlach testemunhou apalermado. Vinte e quatro quilmetros  frente, onde o maior navio de passageiros do mundo estaria em 35 minutos, um gigantesco vulco
de chamas irrompeu do mar. Dos outros trs homens em viglia vieram gritos de o que foi isso?
- Monterey para Queen Mary II. Desvie para bombordo, repito, desvie para bombordo. Estamos investigando.
A sua direita, Gundlach viu o cruzador americano passar a velocidade de ataque e mover-se em direo s chamas. Enquanto observava, as chamas comearam a estremecer
e morrer na gua. Estava claro que o Countess ofRichmond sofrer alguma espcie de acidente terrvel. Seu trabalho era permanecer afastado; se houvesse homens na
gua, o Monterey iria encontr-los. Mas ainda era aconselhvel chamar o comandante. Quando o mestre do navio chegou ao passadio, seu imediato explicou o que vira.
Estavam agora a 28 quilmetros do ponto estimado e afastando-se depressa.
A bombordo, o USS Leyte G permanecia com eles. O Monterey estava seguindo direto para a bola de fogo quilme
O AFEGO

373

i ros  frente. O comandante concordou que cabia ao Monterey procurar sobreviventes, embora considerasse altamente impro-v.vcl que houvesse algum.
Enquanto os dois homens observavam da segurana de seu p.issadio, as chamas comearam a tremeluzir e morrer. As iiItims manchas incandescentes no mar deveriam
ser os resduos do combustvel do navio desintegrado. Toda a carga hiper-vohtil sumiu antes que o Monterey chegasse ao local.
O comandante do navio de passageiros ordenou aos computadores que reassumissem o curso para Southampton.

SI ti te
C
Cl u d
I n c d n  i

EPLOGO
IIOUVE UM INQURITO. ClARO. DEMOROU QUASE DQIS ANOS. Coisas assim jamais so feitas em algumas horas, exceto na televiso.
Uma equipe acompanhou a trajetria do verdadeiro Java Star, desde a limpeza de sua quilha at o momento em que ele .arpara de Brunei carregado com GLP, com destino
a Fremantle, Austrlia Ocidental.
Foi confirmado por testemunhas independentes e sem razes para mentir que o comandante Herrmann estava ao comando. Depois disso o navio fora visto por dois outros
comandantes de navio contornando a ponta da ilha de Bornu. Precisamente devido  natureza de sua carga, ambos os mestres de navio notaram que o Java Star estava
bem afastado deles e registraram seu nome em seus dirios de bordo.
A nica gravao da ltima mensagem de socorro do comandante Herrmann foi tocada para um psiquiatra noruegus, que confirmou que a voz era de um conterrneo falando
ingls fluente, mas que parecia sob coao.
O comandante do navio de frutas que anotara a posio do Java Star e desviara para o local foi localizado e interrogado. Ele

376

FREDERICK FORSYTH repetiu o que ouvira e vira. Mas especialistas em incndio nutico calcularam que se o incndio na casa de mquinas do Java Star fora catastrfico
a ponto de impossibilitar o comandante Herrmann de salvar o navio, o fogo teria em algum momento inflamado a carga. Nesse caso no teria botes salva-vidas de tecido
flutuando na gua no ponto em que o navio afundou.
Soldados filipinos realizaram um ataque, apoiado por helicpteros de combate americanos,  pennsula Zamboanga, ostensivamente a bases de Abu Sayyaf. Capturaram
dois batedores de selva que ocasionalmente trabalhavam para terroristas, mas que no estavam dispostos a enfrentar um peloto de fuzilamento por causa deles.
Os batedores contaram ter visto um navio-tanque mdio numa enseada, sendo reformado por homens com maaricos de oxiacetileno.
A equipe de investigao do Java Star entregou o relatrio em um ano. O documento declarava que o Java Star no afundara devido a um incndio, mas que fora seqestrado
intacto. Alm disso, pessoas haviam tido muito trabalho para persuadir o mundo martimo de que o Java Star no mais existia, quando de fato ele existia. Embora j
tivesse sido presumido que a tripulao inteira estava morta, isso ainda precisava ser confirmado.
Devido ao carter confidencial do caso, todos os membros do inqurito estavam trabalhando nos aspectos variados sem saber por qu. Eles haviam acreditado quando
lhes fora dito que se tratava de uma investigao de seguro.
Outra equipe acompanhou a sorte do verdadeiro Countess of Richmond. Eles saram do gabinete de Alex Siebart em Crutched Friars, na City de Londres, at Liverpool,
e conversaram com parentes e tripulantes. Todos confirmaram que tudo

O AFEGO

377

CNtivera em ordem quando o Countess descarregara seus Jaguares em Cingapura. O comandante McKendrick encontrara-se tom um amigo de Liverpool na doca e eles tomaram
umas cervejas antes de partir. E ele telefonara para casa.
Testemunhas independentes confirmaram que ojava Star ttinda estava sob as ordens de seu fiel comandante quando carregou madeiras valiosas em Kinabalu.
Mas uma visita a Surabaia, Java, revelou que o Java Star jamais parar l para pegar a segunda parte de seu carregamento de sedas asiticas. Contudo, o escritrio
em Londres da Siebart & Abercrombie recebera confirmao dos remetentes de que o carregamento fora realizado. Portanto, isso fora forjado.
Um retrato-falado do Sr. Lampong foi feito. A polcia indonsia reconheceu-o como um suspeito de ser financiador do Jemaat Islamiya. Uma busca foi empreendida, mas
o terrorista desaparecera na mar humana do sudeste da sia.
A equipe concluiu que o Countess ofRichmond fora abordado e seqestrado no mar de Celebes. Com todos seus documentos, cdigos de identificao de rdio e transmissor
de sinal roubados, o navio foi afundado com seus tripulantes. Os parentes das vtimas foram notificados.
As informaes conclusivas foram obtidas com o Dr. Ali Aziz al-Khattab. As escutas nos telefones do Dr. Al-Khattab revelaram que ele estava marcando uma viagem para
o Oriente Mdio. Depois de uma conferncia na Casa do Tmisa, sede do MI5, ficou decidido que era hora de prend-lo. A polcia de Bir-mingham e o Departamento Especial
arrombaram a porta do acadmico kuaitiano quando os vigilantes confirmaram que ele estava no banho. Foi retirado de casa vestido num roupo de banho. r

378

FREDERICK FORSYTH
Mas AMChattab era inteligente. Uma revista total de seu apartamento, carro e escritrio, celular e laptop no revelou um nico detalhe incriminador.
Ele permaneceu calmo e sorridente, e seu advogado protestou, embora, segundo a lei, a polcia britnica tivesse o direito de manter preso por 28 dias um suspeito
sem uma acusao formal. Mas o sorriso de Al-Khattab sumiu quando, ao sair da priso de Sua Majestade em Belmarsh, foi preso novamente, desta vez com uma ordem de
extradio do governo dos Emirados rabes Unidos.
Sob esta legislao, no havia limite de tempo. Al-Khattab seguiu direto de volta para sua cela. Dessa vez seu advogado apresentou um apelo vigoroso contra a extradio.
Sendo um kuaitiano, ele nem era cidado dos Emirados rabes Unidos, mas essa no era a questo.
O Centro de Antiterrorismo em Dubai conseguira apropriar-se de um mao de fotografias. Elas mostravam Al-Khattab conversando com um mensageiro da al-Qaeda reconhecido,
um capito de dhow que j estava sob vigilncia. Outras mostravam-no chegando e saindo de uma manso nas cercanias de Ras-a-Khaim, um notrio esconderijo terrorista.
O juiz de Londres ficou impressionado e concedeu a extradio.
Al-Khattab apelou... e perdeu novamente. Confrontado com o charme duvidoso da priso de Sua Majestade em Belmarsh ou um interrogatrio vigoroso por parte das Foras
Especiais dos Emirados rabes Unidos em sua base secreta no Golfo, ele pediu para permanecer como hspede da rainha Elizabeth.
Isso representava um problema. Os britnicos explicaram que no tinham motivo para mant-lo preso, quanto mais para conden-lo. Ele estava a caminho do aeroporto
de Heathrow quando fechou um acordo e comeou a falar.

O AFEGO 379

Os convidados da CIA, presentes nas sesses de interrogatrio, declararam que depois que ele comeou a falar foi como le uma represa tivesse estourado. Entregou
mais de uma centena de agentes da al-Qaeda, desconhecidos pela inteligncia inglo-americana, alm de 24 contas bancrias.
Quando os interrogadores mencionaram o projeto da al-Qaeda de nome Al-Isra, o kuaitiano ficou mudo de estupefa-Ro. No tinha a menor idia de que algum soubesse
a respeito. Ento recomeou a falar.
Ele confirmou tudo que Londres e Washington j sabiam ou suspeitavam, e ento acrescentou mais. Podia identificar todos os oito homens a bordo do Countess ofRichmond
em sua viagem final, exceto os trs indonsios.
Conhecia as origens e os pais do adolescente de origem paquistanesa que, nascido e criado no condado ingls de Yorkshire, poderia falar no lugar do comandante McKendrick
no rdio do navio e enganar o imediato David Gundlach.
E admitiu que o Dofa Maria e os homens a bordo tinham realizado um sacrifcio deliberado, embora no tivessem noo de seu propsito. Eles haviam sido uma mera
distrao para que os americanos no hesitassem em embarcar o presidente americano num navio de passageiros.
Gentilmente, os interrogadores conduziram o assunto at um afego que eles sabiam que Al-Khattab interrogara na manso nos Emirados rabes Unidos. Na verdade, no
sabiam, apenas suspeitavam. Mas Al-Khattab nem hesitou.
Confirmou a chegada do misterioso comandante talib em Ras-al-Khaim depois de uma fuga ousada e sanguinolenta da custdia nos arrabaldes de Cabul. Ele alegou que
esses detalhes tinham sido checados cuidadosamente pelos simpatizantes da al-Qaeda em Cabul e autenticados.

380

FREDERICK FORSYTH
Admitiu que tinha sido instrudo pelo prprio Ayman ai Zawahiri a ir at o Golfo e interrogar o fugitivo por quanto tempo fosse necessrio. E revelou que fora ningum
menos que o xeque que verificara a identidade do Afego tendo como base uma conversa realizada anos antes num hospital numa caverna em Tora Bora.
Foi o xeque quem concedeu ao Afego o privilgio de juntar-se ao Al-Isra, e ele, Al-Khattab, despachara o homem para a Malsia junto com os outros.
Os inquisidores anglo-americanos desfrutaram da doce satisfao de arruinar o que restava da vida de Al-Khattab con-tando-lhe quem era realmente o Afego.
Como detalhe final, um especialista em caligrafia confirmou que a letra do coronel desaparecido e a da pessoa que escrevera a mensagem enfiada na bolsa de equipamento
de mergulho na ilha de Labuan eram a mesma.
O Comit Crowbar finalmente concordou que Mike Martin havia abordado o Countess ofRichmond, ainda disfarado de terrorista, em algum lugar depois de Labuan, e que
no havia nenhuma evidncia de que ele conseguira escapar a tempo.
As teorias quanto ao motivo pelo qual o Countess explodira prematuramente foram deixadas abertas no arquivo.
 de praxe no Reino Unido aguardar sete anos at que uma pessoa desaparecida sem deixar vestgios seja considerada legalmente morta e que um atestado de bito seja
emitido.
Mas quando o interrogatrio do Dr. Al-Khattab chegou  sua concluso, o legista da cidade de Westminster, Londres, foi convidado a um jantar muito discreto numa
sala particular do Brooks Club, na St. James Street. Havia apenas mais trs pes
O AFEGO 381

  presentes, e elas explicaram muitas coisas ao legista depois i rcin deixados a ss pelos garons.
Na semana seguinte o legista emitiu um atestado de bito I  .1 um acadmico da Escola de Estudos Orientais e Africa-ii -, um certo Dr. Terry Martin, a respeito
de seu falecido ir-i ii .1-1, o coronel Mike Martin do Regimento de Pra-quedismo, pie desaparecera sem deixar vestgios 18 meses antes.
No quartel-general do regimento do SAS, nas cercanias da ci- liulc de Hereford, existe uma estrutura de aparncia estranha onhecida simplesmente como Torre do Relgio.
No passado, i torre fora desmantelada pedao por pedao quando o regimento mudara-se de sua antiga base para a nova instalao. I )rpois fora reconstruda.

1 revisivelmente, a torre possua um relgio em seu topo, iii i. os pontos de interesse so as quatro faces da torre nas quais c i h) inscritos os nomes de todos
os agentes do SAS mortos ein combate.
Logo depois da emisso do atestado de bito, uma missa memorial foi realizada ao sop da Torre do Relgio. Havia uma dzia de homens uniformizados e dez em trajes
civis, alm de suas mulheres. Uma delas era a diretora-geral do MI5, o Servio de Segurana, e a outra era a ex-esposa do falecido.
Fora necessrio um pouco de persuaso para que fosse concedido o status de desaparecido em ao , mas a presso viera de muito alto, e quando posto a par de todos
os fatos conhecidos, o diretor das Foras Especiais e o oficial comandante do Regimento haviam concordado que o status era justo. O coronel M ike Martin decerto
no era o primeiro, nem seria o ltimo, liomem do SAS a desaparecer num lugar distante e jamais ser recuperado.

382

FREDERICK FORSYTH
O sol se punha a oeste nas montanhas Negras de Gales, marcando o fim de um dia nublado de fevereiro, quando a cerimnia breve foi realizada. No fim, o capelo proferiu
as palavras habituais do evangelho de So Joo.
No existe amor maior do que dar a vida pelos seus amigos. Apenas as pessoas reunidas em torno da Torre do Relgio sabiam que Mike Martin, coronel do Regimento de
Pra-quedismo e do SAS, aposentado, dera a vida por quatro mil completos estranhos, nenhum dos quais jamais saberia que ele havia existido.

Este livro foi composto na tipologia AGaramond, em corpo 12 15,6, e impresso em papel off-set 90g m2, no Sistema Cameron da Diviso Grfica da Distribuidora Record.


Seja um Leitor Preferencial Record e receba informaes sobre nossos lanamentos.
Escreva para
RP Record
Caixa Postal 23.052

Rio de Janeiro, RJ - CEP 20922-970

dando seu nome e endereo e tenha acesso a nossas ofertas especiais.
Vlido somente no Brasil.
Ou visite a nossa home page: http: www.record.com.br
I
